Coluna do Novo Jornal – 091 – O Maconheiro Militante 2 – 26.05.2012

O Maconheiro Militante 2

Como vocês devem ter notado, pulei uma coluna. Publiquei anteriormente a de número 89 e agora pulei para a 91. Não foi por acaso. É que a de número 90 estava muito ruim. Por isso, resolvi poupá-los do suplício de ler um texto tão sofrível.

Já este “O Maconheiro Militante 2”, segundo episódio de uma feliz trilogia de crônicas, pode agradar a muitos de vocês.

Divirtam-se!

 

camisaprezanova

Naquele dia, o maconheiro militante típico acordou cedo, por volta do meio dia, tomou banho com seu sabonete de ervas verdes e o xampu de cannabis. Em seguida calçou o tênis de cânhamo, a bermuda de surfista e a camiseta do Capitão Presença. Fumou um baseado pra abrir o apetite e comeu 2 sanduíches de ovo frito com salsicha. Depois comeu mais 2. Aí, comeu mais 4. Por fim, resolveu tirar um cochilo ante de sair de casa.

Era uma sexta-feira especial para o movimento natalense para a libertação dos pintas. Finalmente os militantes do THC na cidade teriam voz e vez. Havia chegado o momento há muito esperado de levantar-se ante a tirania conservadora de ultradireita que vilipendiava os direitos dos amantes da fumaça que leva a paz. A partir daquele dia, eles poderiam reagir contra aquela nefasta manobra de forças ocultas poderosíssimas, dominadas por interesses escusos e idealizada pelo capital financeiro internacional, a indústria armamentista, os capos e traficantes, a rede Globo, os juízes e promotores, o presidente (aliás, todos os presidentes), os petroleiros, o Edir Macêdo e o Papa.

Os principais argumentos já estavam muito bem articulados. A erva da paz curava doenças (insônia, glaucoma, ansiedade, câncer, AIDS, dor de cabeça, timidez e falta de apetite.), movimentava a economia (tabacarias, lojas de colchão, lanchonetes, skates e pranchas de surf), proliferava a paz ao sufocar pressões sociais prestes a explodir e desenvolvia nos jovens o interesse por diversas áreas do conhecimento, desde a jardinagem (para o cultivo caseiro) até a culinária (ao se estudar maneiras mais eficazes e rápidas de saciar a fome), passando pela literatura (os fumantes costumam comprar livros baratos com papel fininho que possa substituir a seda.) e pela religiosidade (é muito comum ver os usuários acendendo velas com claros sinais de sagrada devoção). É claro que existiam alguns efeitos colaterais como a promoção de shows de reggae nos lugares onde a popularidade da erva já atingiu as massas. Mas deixa esse assunto pra oposição que o papel dos organizadores do movimento era promover unicamente os benefícios.

Seria o início de algo maior. Era preciso dar continuidade àquela luta e desfraldar a bandeira da descriminalização (mas sem dar muita bandeira, claro). Os idealizadores do evento teriam que se empenhar ao máximo, a causa deveria ser permanente, sem relaxar um só minuto. Quer dizer, uma meia horinha de morgação depois de fumar tá liberado. Mas apenas isso.

O nome do protesto organizado seria o mesmo utilizado em todas as cidades do Brasil em que havia sido realizado até então: “Marcha da Maconha”. O cenário seria o sempre democrático campus da UFRN e os líderes do movimento reivindicatório esperavam reunir algumas centenas de adeptos e simpatizantes da causa verde.

O perfil para ser um autêntico recruta engajado na revolução natural que tomava conta do planeta, do país e, finalmente, de Natal, era constituído de um incondicional comprometimento com os ideais cannábicos e um amor sincero pela plantinha relaxante. A folhinha de 5 pontas tinha que ser o seu pavilhão nacional, estar no escudo do seu time de coração, ser a logo de sua banda preferida, a representação sagrada de sua fé (in Jah we smoke). O maconheiro homem comum não deveria ir à passeata se quisesse manter em sigilo sua identidade secreta de cidadão acima de qualquer suspeita. Para protestar com vigor e comovente paixão, os participantes não poderiam ter vergonha de ser malhados.

Os insurgentes que integrassem esta relevante parada cívica, divisora de águas na história de lutas e conquistas dos direitos civis da cidade deveriam ser iniciados na arte de apontar o THC como solução de todos os males, como tábua de salvação para uma sociedade careta e corrompida. Deveriam evocar os grandes vultos históricos que já deram um tapinha, de Bill Clinton a Che Guevara, de Maurício de Nassau a, sei lá, Ronaldo Fenômeno. Também poderiam alegar o apego às raízes do nosso Estado na produção e consumo de camarão como justificativa plausível e tentativa de convencimento dos mais tradicionais. A história da maconha também não deveria ser desprezada enquanto retórica, uma vez que sua matéria prima esteve presente em momentos significativos da história, servindo para confeccionar pergaminhos, tintas para pinturas de guerra tribais e princípio ativo que proporcionou a evolução da escultura em durepoxi. Enfim, era um desafio para profissionais, usuários cultos e estudiosos da erva. Um dos líderes declarou enfático: “Qualquer um pode ter os olhos vermelhos e os dedos amarelos, mas só alguns poucos tem um coração puro, os pulmões verdes e o cérebro em intensa atividade sináptica. Por isso, nada de amadores.”

Por isso, foi elaborado um processo seletivo, mediante uma entrevista presencial numa rodinha de fumo. Quem viajasse com mais fluência e continuasse argumentando bem (ou falando qualquer coisa que fizesse algum sentido) depois de alguns charas estava aprovado. Quem embaçasse a conversa e tivesse passado superbonder nos dedos, estava eliminado. Afinal, a causa era essencialmente coletiva e não haveria lugar para usuários fominhas que não passavam a bola para os companheiros. Esses acabavam queimados pelos demais. E não no bom sentido.

Ainda assim, com um rigoroso critério de seleção, na hora e local marcados, 500 pessoas prestigiaram a 1ª Marcha da Maconha de Natal. Todas munidas de argumentos fortes, cartazes impactantes e uma desculpa pra faltar aula. A imprensa deu ampla cobertura, a sociedade discutiu durante toda a semana seguinte e os mais conservadores fizeram firme oposição ao movimento subversivo. Inclusive, preocupados com a possibilidade de o evento dispersar-se como fumaça no ar, os organizadores prepararam uma carta aberta com as 10 principais reivindicações do público carburante, que estavam associadas à descriminalização da maconha e beneficiavam enormemente todos os setores da sociedade local. O problema é que ninguém encontrou a carta, pois como havia sido escrita num papel fininho, a turma acabou usando pra enrolar um chara. E como ninguém conseguiu lembrar o conteúdo depois de terem “dado um 2”, deixaram pra lá. Só depois, quando puxaram muito pela memória, alguém lembrou que liberar a maconha estava no meio.

– E as outras 9, braw?

– Pô, as outras eu não lembro.

– Sóóóó.

– Podcrê.

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