Archive for julho \11\UTC 2013

Coluna do Novo Jornal – 097 – Um adeus – 07.07.2012

julho 11, 2013

Um adeus

caico_festa_santana_07_1024

Não sei quem é o autor da frase: “Não tenho medo da morte, terei sim, saudade da vida.” Seja lá quem for o feliz responsável por havê-la proferido, não consigo imaginar forma melhor para definir o sentimento que a minha mãe tinha com relação a essa passagem, por vezes venturosa, outras torturante, que chamamos de existência. Mainha não tinha medo de quase nada. O destino sempre lhe infligiu sofrimentos monumentais. Ela acusava o golpe, mas logo se recompunha, imbuída de uma força descomunal e seguia adiante sem perder a alegria de viver. Nem mesmo a possibilidade de morrer lhe causava receio, pois já havia enfrentado em sua vida cargas bem mais pesadas, como a partida precoce de dois filhos.

Minha mãe era uma seridoense forte, de personalidade talhada nos serrotes de Caicó. Era expansiva, falava muito, falava alto, falava sempre. Uma dessas pessoas totalmente abertas ao monólogo para quem a indiferença não fazia parte do repertório. Tomava partido em tudo. Reagia com intensidade e muita emoção a todas as intempéries e dádivas que lhes surgissem no caminho. Era solidária e abnegada na mesma medida em que se deixava levar pela mágoa momentânea de algum parente ou amiga próxima, fazendo verdadeiras tempestades em minúsculos copos d’água. Algumas vezes, ela descontava em mim alguma raiva que tivera. Lembro de uma vez que, oprimida pelo meu silêncio diante de algum desabafo que me fazia, interpelou-me: “Vai ficar aí calado? Você nunca fala nada?” Respondi: “Não é que eu nunca fale nada, Mainha. É que eu não gosto de interromper.” Minha gaiatice a desarmava. Aliás, o humor era um dos seus pontos fracos, pois ela própria era muito bem humorada.

Apoiou-me em tudo que fiz na vida. Criou-me com liberdade e orientou-me a ser a melhor pessoa que eu puder, moldando minha personalidade segundo valores morais tradicionais, mas deixando-se também influenciar por minha personalidade amena e liberal. Sem dúvida, o homem que vim a ser é produto do empenho de uma mulher que lutou e protegeu seu filho como pôde.

Quando conheceu Nina, principalmente depois que casamos, adotou-a como se fosse uma filha. Neste ano de 2012, realizou um velho sonho e mudou-se para a praia de Pirangi. Sempre adorou o mar. Íamos visitá-la todos os fins de semana para conferir de perto sua felicidade e aproveitar o melhor de dois mundos: hospedagem sertaneja de frente pro Atlântico. Em nossas idas ao litoral próximo, fazíamos planos. O mais recente era construir duas casas vizinhas para que ela pudesse envelhecer perto da gente. Não deu. Infelizmente, quis o destino que sua trajetória fosse interrompida no último fim de semana.

É angustiante perceber que, em nossas vidas, temos controle sobre muitas coisas, mas não sobre a morte. Minha mãe nos deixou inesperadamente, sem qualquer aviso ou chance de defesa. Sentiu-se mal para nunca mais sentir-se bem. Sofreu o golpe implacável da navalha da morte que, de uma só vez, tirou-lhe a vida e uma considerável porção de alegria de nosso mundo. De minha parte, sempre cultivei a expectativa que minha mãe teria um fim mais tranquilo, após toda uma vida de sofrimentos extremos. Nunca imaginei vê-la chorando de dor por mais de 24 horas enquanto vários médicos se revezavam nos cuidados e na tentativa de descobrir um diagnóstico.

Mainha deu entrada no hospital na sexta. Sentia fortes dores abdominais e estava com o lado esquerdo do corpo paralisado. Com o passar das horas, recuperou todos os movimentos e um quadro neurológico foi descartado. Após exames, constataram inflamação na vesícula e marcaram uma cirurgia de remoção para o sábado. “Coisa simples. No domingo, ela estará em casa”.  Enquanto aguardava a hora, seria tratada com antibióticos que combateriam a infecção.

Na madrugada, porém, sua situação só piorou. Ela pedia algo que aliviasse sua dor e eu dizia: “O médico já colocou analgésico no soro, mãe. Deve estar fazendo efeito daqui a pouquinho.” Esgotadas as instâncias, pedia que eu segurasse sua mão. Assim eu fazia enquanto as lágrimas corriam soltas. Uma provação que não desejo pra ninguém. Atordoada pelo sofrimento, já não articulava frases nem concatenava as ideias, mas percebeu que eu não poderia ajudá-la. Apelou então para uma instância superior. Repetiu por horas a fio: “Me ajuda, Pai! Tira essa dor de mim!”

Como eu xinguei Deus nesse dia! Como tive raiva e me arrependi de cada momento devotado a qualquer tipo de fé. Revoltei-me com aquela situação toda e por vê-la prostrada, humilhada, suplicando por alívio, por uma ajuda que não vinha. Ao meio-dia de sábado, já na UTI, enquanto minha mulher e eu segurávamos suas mãos, teve uma convulsão e o médico veio às pressas induzir o coma do qual ela não tornaria a despertar.

Essa semana foi difícil. Velório, missa, enterro. A necessidade de ir a sua casa, recolher documentos e, em meio à busca, encontrar ainda intactos cartões de Dia das Mães que um certo eu escrevi ainda criança. Também me deparei com todos os meus livros publicados, dedicados a ela e guardados junto a recortes de jornais em que eu aparecia. Reportagens de Sérgio Vilar e Marcílio Amorim sobre meus lançamentos e fotos pessoais, várias fotos, minhas, dela, dos meus irmãos falecidos.

A gente nunca fica inteiro após atravessar dias como estes. Tentei fugir do assunto e redigir algo mais espirituoso, mas não estaria sendo honesto comigo nem com vocês que me leem. Tenho torcido para que Deus exista e que tenha, de alguma forma, atendido seu pedido de ajuda. Se a única maneira de fazê-la sentir-se melhor era levando-a de nós, espero que ela esteja bem agora. Perdi Mainha, mas acho que ganhei um anjo da guarda. Lurdete Dias, minha mãe, era um porto seguro para minha família. Sua partida nos deixa desolados e esse texto desajeitado traz em si a tentativa de um adeus.

 

Coluna do Novo Jornal – 095 – Fale agora ou cale-se para sempre – 23.06.2012

julho 9, 2013

Esta crônica, eu havia escrito originalmente para a Revista do Versailles. Porém, percebi nela um ótimo potencial para que pudesse ser ampliada. E assim surgiu esta nova versão publicada no Novo Jornal. Divirtam-se!

***

Fale agora ou cale-se para sempre – Versão Novo Jornal

2963579453_4c97f51b53

Outro dia, durante uma cerimônia de casamento, ao chegar o crucial momento em que o celebrante determina aos presentes que “falem agora ou calem-se para sempre”, procurei me concentrar ao máximo, e de imediato, direcionei os ouvidos para o público, arregalei bem os para que pudesse captar o menor sinal de reação da plateia. Nada. Nem prestando toda a atenção do mundo pude notar o menor indício de contrariedade em seus rostos. Fiquei aguardando que acontecesse como nas novelas das 21h ou nos filmes americanos. Alguém poderia (ou deveria) gritar lá do fundo da igreja, dedo apontado para um dos anfitriões e, aos prantos, desaguar em nós toda a verdade oculta embaixo do véu de pureza ou da sóbria elegância.

Qualquer coisa serviria. “Esse homem está casando com ela, mas ele me ama!”; “Essa mulher não ama esse homem!”; “Essa mulher é um homem!”; “Esse homem é uma mulher!”; “Essa mulher curte homem e mulher!”; “Esse homem votou em Micarla, que não é homem, mas é mãe e é mulher!” Fosse lá o que se dissesse, funcionaria muito bem. O simples uivo indignado de um amor traído, o rumor de um coração partido, o burburinho dos convidados, criando a trilha de fundo perfeita para um acontecimento épico: a inesperada interrupção da mais importante das festas ocidentais que é o casamento cristão. Sempre que vou a uma união na igreja, espero com a avidez de menino buchudo que aguarda o Papai Noel pelo ser humano redentor que, recolhendo no chão os últimos cacos de dignidade, ergue-se em meio a uma assembleia homogênea, desafia o destino e, imbuído de coragem e completa falta de noção, recusa-se a calar para todo sempre, dizendo um sonoro e iconoclasta: “EU… tenho algo a dizer para impedir este matrimônio!”

Só que não, né? Por mais que eu buscasse nos mais diversos semblantes, estava claro que ali ninguém teria nada a dizer contra aquele acontecimento, nada de desabonador que pusesse em xeque a reputação do noivo, nenhum segredo de alcova da noiva que nos provocasse a mais absoluta estupefação. Zero de emoção. Suspenso o suspense. O evento seguiu normalmente sem maiores turbulências.

É impressionante como as pessoas não se atêm ao fato de que aquele é o momento mais importante de uma celebração religiosa de casamento. Não é o “sim”, nem tampouco a entrada da noiva na igreja. Nada disso. A hora do “fale agora ou cale-se para sempre” é o mais forte em significâncias e possibilidades que o casamento pode nos proporcionar. É a única hora em que algo de diferente pode invadir nossas vidas repletas de prolongadas monotonias cotidianas e chatices corriqueiras. Uma atitude desafiadora ao limite como esta seria capaz de arrancar-nos de nossas zonas de conforto, sacolejar nossas cabeças e mostrar que ainda existem os bravos, os rebeldes, os destemidos. Seria uma descarga elétrica na multidão inerte, um golpe inesperado, um convite à improvisação no roteiro mais manjado de todos, uma fuga de emergência do protocolo.

Acredito que as pessoas enxergam certos aspectos de um casamento de maneira a supervalorizá-los. É tudo muito previsível, um script irretocável que raramente sai dos eixos. O momento do “sim”, por exemplo, tão tocante a ponto de fazer jorrar lágrimas nos mais sensíveis. Pelo amor de Deus, gente! Vocês têm dúvida de que os dois chegaram até ali para dizer algo que não seja um “sim”? Ou alguém já ouviu um diálogo do tipo: “Você aceita Fulana de Tal como sua legítima esposa?” “Ah, seu Padre. Tem certeza que eu preciso responder agora? Não dá pra tomar uma Kaiser antes?” Não. Isso não acontece na vida Real. O suspense no casamento se resume a alguma música que um dos dois tenha escolhido para homenagear o outro e constranger o público. A verdade é que, num casamento, o máximo de inesperado que sói ocorrer na hora em a noiva joga o buquê e várias mulheres se postam para tentar pegá-lo. Ali sim, é um momento de verdadeira tensão, sobretudo para os homens que costumam torcer para que suas namoradas NÃO peguem as flores. No meu casamento, rolou até um duplo salto mortal de uma das convidadas que alcançou o ramalhete e caiu no chão logo em seguida. Saiu com ferimentos leves, mas muito feliz pelo êxito alcançado.

Porém, nada disso se compara ao que seria uma revolucionária resposta ao momento do “fale agora ou cale-se para sempre”. O inconformismo de alguém contra os desígnios da vida e remando no sentido contrário de um universo em expansão que, aparentemente, não o incluiu em seus planos. Anseio pelo dia em que aquela longa espera de poucos segundos será quebrada pelo berro desesperado de um homem ou mulher que ama… ou odeia. Alguém que recusa-se a aceitar o que lhe ordenam, que não se adapta bem a certas regras, que questiona sempre e que, acima de tudo, prefere falar agora a calar-se para sempre.

Coluna do Novo Jornal – 093 – O louco de palestra – 09.06.2012

julho 4, 2013

O louco de palestra

louco2

Ele nunca falha. Basta você anunciar uma palestra ou bate-papo aberto ao público, seja o local uma livraria, uma sala de aula ou um amplo auditório, não importando a natureza dos assuntos tratados, podendo ser literatura, ciência, política ou qualquer academicismo rebuscado. Em meio ao respeitável público, estará ele, o ator principal da noite, agente de uma eventual tertúlia, inquiridor do palestrante: o Louco de Palestra!

O evento pode ser para tratar de aspectos geológicos complexos, como a composição calcária do solo da região do Seridó, comandado pelo maios especialista no assunto da UFRN. Não interessa. O Louco de Palestra pedirá o microfone e, após uma extensa exposição acerca dos seus conhecimentos (!) sobre o tema, fará uma pergunta tão longa que já conterá a resposta em si própria, confrontando tudo o que o professor convidado terá dito até então, baseando seus argumentos desafiadores em pesquisas feitas no Wikipedia poucos minutos antes daquele evento.

A plateia incrédula olhará intrigada para o improvável personagem, estupefatos com o seu atrevimento e mais ainda pela sua completa falta de noção. O desconforto geral e constrangimento coletivo serão irradiados pelo ambiente, provocando um forte e acentuado incômodo nos mais sensíveis, acanhados e nos que sofrem de vergonha alheia. Rostos ruborizados, sorrisos amarelos, cenhos franzidos, queixos caídos, risos nervosos: nenhuma reação espontânea do público em sua volta será capaz de contê-lo em seu irrefreável ímpeto. Sua retórica esquizofrênica é uma arma poderosíssima, daquelas que tiram totalmente o público de sua zona de conforto e abate a tiros o palestrante, derrubando-o sem direito a apelação do seu pedestal.

Mais impactado que os espectadores, aliás, só mesmo o pobre do palestrante. Sempre que abrem para perguntas, paira no ar um suspense hitchcockiano, os olhos do convidado percorrem o público à procura do voluntário que se prontificará a fazer a pergunta inaugural da conversa que sucederá a fala do especialista. É um tempo curto segundo os frios números dos relógios, porém, uma eternidade para o homem ou mulher que aguarda pela arguição pública, tenso, suando frio, rogando aos céus para que o destino lhe seja brando e não ponha um lunático curioso em seu caminho. Quando, por fim, alguém mais desinibido que os demais aponta o indicador para o alto, o palestrante tenta avaliar o perigo, analisando as feições do indivíduo como se fosse perito em fisionomias, buscando em sua expressão, talvez no olhar, qualquer traço de desequilíbrio ou insanidade que possam provocar uma situação perigosa para sua reputação ou constrangedora diante do público presente.

É muito comum que o Louco, antes de formular a pergunta, apresente-se a todos, na tentativa de fazer-se conhecer, aproveitando o microfone para viver seus breves momentos de fama, os quais tenta espichar o máximo possível: “Olá, meu nome é Fulano de Tal, sou um astrônomo das artes autodidata (os loucos de palestra são sempre autodidatas em alguma coisa), estudioso de Matemática Aquática, Direito Nuclear, Química dos Sólidos, com especialização em Letras Apagadas e pós-graduação em Línguas Futuras, minha atuação na área que o senhor expôs fez de mim um dos 3 maiores especialistas mundiais no assunto. Venho de uma família humilde (nesse ponto, ele conta toda a sua vida com riqueza de detalhes) e passei a me interessar pelo assunto ainda na faculdade (aqui ele faz um relato de toda a sua experiência acadêmica), o que me leva a perguntar o seguinte: (na hora de fazer um questionamento, ele formula uma pergunta bastante extensa, cheia de observações embutidas e em cujo enunciado já aparece a resposta), dito isto, o que o senhor tem a dizer a respeito destas minhas conclusões científicas?” Com a palavra, o palestrante que, não raro, bebe um copo d’água antes de responder, como que ganhando tempo ou evitando um acesso de tosse, ante tão desafiadora questão.

Há os Loucos de Palestra que perdem completamente o senso da realidade. Recordo-me de dois em especial. Certa vez, numa palestra do escritor Mario Prata, um senhor se levantou e perguntou: “O que você pode fazer pela Cidade da Esperança?” Pego de surpresa, como se fora surpreendido por um triceratóps de terno e gravata oferecendo-lhe um café, o escritor pediu que o interlocutor fosse mais claro em sua pergunta: “Fale-me um pouco mais sobre a “Vila Esperança”. É um bairro de Natal? O que podemos fazer por ela?” Após uma explanação que abrangia desde a ausência do poder público, passando pela insegurança e carências básicas, até um discurso contra a demagogia política e corrupção dos governos, o homem desabafou e mostrou-se desesperado. O veterano cronista, experiente e certamente profundo conhecedor do tipo, consolou o homem, disse que através da educação e da leitura se pode reverter um quadro tão desfavorável em longo prazo e que esperava ver a “Vila Esperança” em melhor situação num futuro próximo.

Outra ocasião em que testemunhei a sanha de uma louca de palestra foi no lançamento do livro de poesia da psiquiatra Cínthya Verri, “Constantina”. Num breve bate-papo antes do início da sessão de autógrafos, a autora expunha os motivos que a inspiraram a escrever a obra, narrando episódios da infância e explicando aos demais como imagens tristes que povoam suas lembranças a ajudaram a construir os versos que acabaram por compor o livro. Foi então que uma senhora, com um botton da Marcha da Maconha, questionou toda a teoria da autora e revelou a todos que ela estava completamente equivocada. A poeta ainda tentou se justificar, apelando ao seu conhecimento psicanalítico, demonstrando que as crianças levam traumas consigo que as acompanham até a vida adulta, mas não foi suficiente. Para cada argumento, uma rebatida enfática; para cada resposta, uma implacável contrarresposta. Até que alguém na plateia pediu a palavra e desviou o foco da discussão. Alívio geral e irrestrito.

Eles nunca falham. Os Loucos de Palestra são verdadeiros buracos negros, sugando para si, todas as atenções, atraindo os olhares, magnéticos e arrasadores. Cuidado. Você ainda vai precisar enfrentar um.

Coluna do Novo Jornal – 092 – A Secretaria da Gambiarra – 02.06.2012

julho 2, 2013

A Secretaria da Gambiarra

gambiarra_043

Na Secretaria da Gambiarra tudo é na base do improviso. A palavra de ordem é disposição e o maior elogio possível é “proativo”. A prefeita não esconde sua satisfação com o desempenho da pasta criada em sua gestão. Hoje, não é excessivo dizer que tal setor do executivo municipal é o que melhor funciona, propagando à população o estilo de governar da alcaidessa. Há muitas versões sobre como surgiu tal secretaria e de quem teria sido a ideia de implementá-la, porém a maior parte delas é inventada na hora e, por isso, carecem de veracidade. Sabia-se apenas que o responsável pelo setor era um gato, para sustentar a credibilidade do cargo à força de um mau trocadilho. Investiguei sua origem e constatei que tudo começou numa pequena salinha na SEMSUR, conhecido como o “Setor da Gambiarra”. Era lá que autorizavam as ligações extras de energia para iluminar ruas no período junino.

A presteza com que os poucos membros da pequena sala resolviam os problemas logo ganhou fama entre os funcionários das outras secretarias. A necessidade de contornar situações desfavoráveis na hora, sem grandes recursos, com rapidez e criatividade fez com que os trabalhadores comissionados do setor ficassem conhecidos como os novos MacGyvers. Quando soube que uma pequena parte da parte de sua equipe estava ganhando elogios em detrimento de todos os demais que só recebiam ingratidão e críticas vorazes da população, a chefe decidiu dar mais espaço aos jovens funcionários. Desalojou alguma secretaria inoperante à qual não teve grandes dificuldades em encontrar e instalou a recém-criada SEGAM. Era seu desejo que a gestão tivesse uma marca positiva, que ela agregasse valores positivos a sua imagem logo após deixar o mandato. Quem sabe ela não conseguia virar um mote, um slogan, cair na boca do povo, como já fizeram outros políticos? Era preciso capitalizar as coisas que dão certo, não é isso? Então? Quem sabe depois do “Senador das águas” e tantos outros que se autoproclamaram isso ou aquilo, ela não conseguia se firmar como “A PREFEITA DA GAMBIARRA”? Aquele seria ano de eleição e, enfim, era uma oportunidade.

A SEGAM provocou o fim da Secretaria de Planejamento (SEPLAN) que não tinha vingado, uma vez que os titulares desta precisavam pensar antes de fazer e, como se sabe, associar possibilidades, articular ideias, desenvolver raciocínios e planos a serem desenvolvidos num longo ou médio prazo eram demais para os pobres descerebrados escalados para a função. Uma secretaria em que não fosse preciso pensar para fazer, mas sim executar o primeiro ato que viesse à cabeça, estava mais de acordo com o estilo adotado pela prefeita desde a posse. Explica-se o fenômeno pelo fato de que o esforço demandado para pensar era tanto que os funcionários acabavam não fazendo nada.

Em pouco tempo, a SEGAM estava mostrando serviço de forma tão efetiva que praticamente todas as ações da prefeitura que eram noticiadas eram fruto do novo braço do executivo municipal. Foram eles que organizaram o show da banda “Sentando no trono”, negociaram o cachê do Padre Sábio de Melo e avalizaram os contratos com empresas terceirizadas. A Secretaria também ficou de podar a árvore de Câmara Cascudo e, num ímpeto de voluntarismo exagerado, acabou por arrancá-la. A Prefeita não ligou para a repercussão negativa. Era repercussão e isso bastava. Além disso, elogiou o fato de a equipe ter “atitude”.

É a SEGAM que gerencia o recolhimento do lixo, comanda o trânsito, cria perfis falsos nas redes sociais para defender a líder do executivo e revisa gramaticalmente os blogues de jornalistas aliadas. É ela também que fiscaliza o ritmo das obras de mobilidade para a Copa do Mundo, coordena o trânsito e programa os pagamentos de fornecedores e trabalhadores terceirizados. Enfim, ela que faz e acontece. Só uma secretaria tem aparecido com maior destaque que a SEGAM: a Secretaria Extraordinária da Piada Pronta. Mas isso já é outra história.