Coluna do Novo Jornal – 093 – O louco de palestra – 09.06.2012

O louco de palestra

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Ele nunca falha. Basta você anunciar uma palestra ou bate-papo aberto ao público, seja o local uma livraria, uma sala de aula ou um amplo auditório, não importando a natureza dos assuntos tratados, podendo ser literatura, ciência, política ou qualquer academicismo rebuscado. Em meio ao respeitável público, estará ele, o ator principal da noite, agente de uma eventual tertúlia, inquiridor do palestrante: o Louco de Palestra!

O evento pode ser para tratar de aspectos geológicos complexos, como a composição calcária do solo da região do Seridó, comandado pelo maios especialista no assunto da UFRN. Não interessa. O Louco de Palestra pedirá o microfone e, após uma extensa exposição acerca dos seus conhecimentos (!) sobre o tema, fará uma pergunta tão longa que já conterá a resposta em si própria, confrontando tudo o que o professor convidado terá dito até então, baseando seus argumentos desafiadores em pesquisas feitas no Wikipedia poucos minutos antes daquele evento.

A plateia incrédula olhará intrigada para o improvável personagem, estupefatos com o seu atrevimento e mais ainda pela sua completa falta de noção. O desconforto geral e constrangimento coletivo serão irradiados pelo ambiente, provocando um forte e acentuado incômodo nos mais sensíveis, acanhados e nos que sofrem de vergonha alheia. Rostos ruborizados, sorrisos amarelos, cenhos franzidos, queixos caídos, risos nervosos: nenhuma reação espontânea do público em sua volta será capaz de contê-lo em seu irrefreável ímpeto. Sua retórica esquizofrênica é uma arma poderosíssima, daquelas que tiram totalmente o público de sua zona de conforto e abate a tiros o palestrante, derrubando-o sem direito a apelação do seu pedestal.

Mais impactado que os espectadores, aliás, só mesmo o pobre do palestrante. Sempre que abrem para perguntas, paira no ar um suspense hitchcockiano, os olhos do convidado percorrem o público à procura do voluntário que se prontificará a fazer a pergunta inaugural da conversa que sucederá a fala do especialista. É um tempo curto segundo os frios números dos relógios, porém, uma eternidade para o homem ou mulher que aguarda pela arguição pública, tenso, suando frio, rogando aos céus para que o destino lhe seja brando e não ponha um lunático curioso em seu caminho. Quando, por fim, alguém mais desinibido que os demais aponta o indicador para o alto, o palestrante tenta avaliar o perigo, analisando as feições do indivíduo como se fosse perito em fisionomias, buscando em sua expressão, talvez no olhar, qualquer traço de desequilíbrio ou insanidade que possam provocar uma situação perigosa para sua reputação ou constrangedora diante do público presente.

É muito comum que o Louco, antes de formular a pergunta, apresente-se a todos, na tentativa de fazer-se conhecer, aproveitando o microfone para viver seus breves momentos de fama, os quais tenta espichar o máximo possível: “Olá, meu nome é Fulano de Tal, sou um astrônomo das artes autodidata (os loucos de palestra são sempre autodidatas em alguma coisa), estudioso de Matemática Aquática, Direito Nuclear, Química dos Sólidos, com especialização em Letras Apagadas e pós-graduação em Línguas Futuras, minha atuação na área que o senhor expôs fez de mim um dos 3 maiores especialistas mundiais no assunto. Venho de uma família humilde (nesse ponto, ele conta toda a sua vida com riqueza de detalhes) e passei a me interessar pelo assunto ainda na faculdade (aqui ele faz um relato de toda a sua experiência acadêmica), o que me leva a perguntar o seguinte: (na hora de fazer um questionamento, ele formula uma pergunta bastante extensa, cheia de observações embutidas e em cujo enunciado já aparece a resposta), dito isto, o que o senhor tem a dizer a respeito destas minhas conclusões científicas?” Com a palavra, o palestrante que, não raro, bebe um copo d’água antes de responder, como que ganhando tempo ou evitando um acesso de tosse, ante tão desafiadora questão.

Há os Loucos de Palestra que perdem completamente o senso da realidade. Recordo-me de dois em especial. Certa vez, numa palestra do escritor Mario Prata, um senhor se levantou e perguntou: “O que você pode fazer pela Cidade da Esperança?” Pego de surpresa, como se fora surpreendido por um triceratóps de terno e gravata oferecendo-lhe um café, o escritor pediu que o interlocutor fosse mais claro em sua pergunta: “Fale-me um pouco mais sobre a “Vila Esperança”. É um bairro de Natal? O que podemos fazer por ela?” Após uma explanação que abrangia desde a ausência do poder público, passando pela insegurança e carências básicas, até um discurso contra a demagogia política e corrupção dos governos, o homem desabafou e mostrou-se desesperado. O veterano cronista, experiente e certamente profundo conhecedor do tipo, consolou o homem, disse que através da educação e da leitura se pode reverter um quadro tão desfavorável em longo prazo e que esperava ver a “Vila Esperança” em melhor situação num futuro próximo.

Outra ocasião em que testemunhei a sanha de uma louca de palestra foi no lançamento do livro de poesia da psiquiatra Cínthya Verri, “Constantina”. Num breve bate-papo antes do início da sessão de autógrafos, a autora expunha os motivos que a inspiraram a escrever a obra, narrando episódios da infância e explicando aos demais como imagens tristes que povoam suas lembranças a ajudaram a construir os versos que acabaram por compor o livro. Foi então que uma senhora, com um botton da Marcha da Maconha, questionou toda a teoria da autora e revelou a todos que ela estava completamente equivocada. A poeta ainda tentou se justificar, apelando ao seu conhecimento psicanalítico, demonstrando que as crianças levam traumas consigo que as acompanham até a vida adulta, mas não foi suficiente. Para cada argumento, uma rebatida enfática; para cada resposta, uma implacável contrarresposta. Até que alguém na plateia pediu a palavra e desviou o foco da discussão. Alívio geral e irrestrito.

Eles nunca falham. Os Loucos de Palestra são verdadeiros buracos negros, sugando para si, todas as atenções, atraindo os olhares, magnéticos e arrasadores. Cuidado. Você ainda vai precisar enfrentar um.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 093 – O louco de palestra – 09.06.2012”

  1. Leopoldina Batista Says:

    Depois de ler as postagens ligadas aos médicos, fiquei realmente preocupada com estes tempos doidos em que vivemos. E ai…. leio este e me acabei de rir. Acho que ainda temos esperança!!!. Você me parece um cara corajoso e digno.

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