Coluna do Novo Jornal – 095 – Fale agora ou cale-se para sempre – 23.06.2012

Esta crônica, eu havia escrito originalmente para a Revista do Versailles. Porém, percebi nela um ótimo potencial para que pudesse ser ampliada. E assim surgiu esta nova versão publicada no Novo Jornal. Divirtam-se!

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Fale agora ou cale-se para sempre – Versão Novo Jornal

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Outro dia, durante uma cerimônia de casamento, ao chegar o crucial momento em que o celebrante determina aos presentes que “falem agora ou calem-se para sempre”, procurei me concentrar ao máximo, e de imediato, direcionei os ouvidos para o público, arregalei bem os para que pudesse captar o menor sinal de reação da plateia. Nada. Nem prestando toda a atenção do mundo pude notar o menor indício de contrariedade em seus rostos. Fiquei aguardando que acontecesse como nas novelas das 21h ou nos filmes americanos. Alguém poderia (ou deveria) gritar lá do fundo da igreja, dedo apontado para um dos anfitriões e, aos prantos, desaguar em nós toda a verdade oculta embaixo do véu de pureza ou da sóbria elegância.

Qualquer coisa serviria. “Esse homem está casando com ela, mas ele me ama!”; “Essa mulher não ama esse homem!”; “Essa mulher é um homem!”; “Esse homem é uma mulher!”; “Essa mulher curte homem e mulher!”; “Esse homem votou em Micarla, que não é homem, mas é mãe e é mulher!” Fosse lá o que se dissesse, funcionaria muito bem. O simples uivo indignado de um amor traído, o rumor de um coração partido, o burburinho dos convidados, criando a trilha de fundo perfeita para um acontecimento épico: a inesperada interrupção da mais importante das festas ocidentais que é o casamento cristão. Sempre que vou a uma união na igreja, espero com a avidez de menino buchudo que aguarda o Papai Noel pelo ser humano redentor que, recolhendo no chão os últimos cacos de dignidade, ergue-se em meio a uma assembleia homogênea, desafia o destino e, imbuído de coragem e completa falta de noção, recusa-se a calar para todo sempre, dizendo um sonoro e iconoclasta: “EU… tenho algo a dizer para impedir este matrimônio!”

Só que não, né? Por mais que eu buscasse nos mais diversos semblantes, estava claro que ali ninguém teria nada a dizer contra aquele acontecimento, nada de desabonador que pusesse em xeque a reputação do noivo, nenhum segredo de alcova da noiva que nos provocasse a mais absoluta estupefação. Zero de emoção. Suspenso o suspense. O evento seguiu normalmente sem maiores turbulências.

É impressionante como as pessoas não se atêm ao fato de que aquele é o momento mais importante de uma celebração religiosa de casamento. Não é o “sim”, nem tampouco a entrada da noiva na igreja. Nada disso. A hora do “fale agora ou cale-se para sempre” é o mais forte em significâncias e possibilidades que o casamento pode nos proporcionar. É a única hora em que algo de diferente pode invadir nossas vidas repletas de prolongadas monotonias cotidianas e chatices corriqueiras. Uma atitude desafiadora ao limite como esta seria capaz de arrancar-nos de nossas zonas de conforto, sacolejar nossas cabeças e mostrar que ainda existem os bravos, os rebeldes, os destemidos. Seria uma descarga elétrica na multidão inerte, um golpe inesperado, um convite à improvisação no roteiro mais manjado de todos, uma fuga de emergência do protocolo.

Acredito que as pessoas enxergam certos aspectos de um casamento de maneira a supervalorizá-los. É tudo muito previsível, um script irretocável que raramente sai dos eixos. O momento do “sim”, por exemplo, tão tocante a ponto de fazer jorrar lágrimas nos mais sensíveis. Pelo amor de Deus, gente! Vocês têm dúvida de que os dois chegaram até ali para dizer algo que não seja um “sim”? Ou alguém já ouviu um diálogo do tipo: “Você aceita Fulana de Tal como sua legítima esposa?” “Ah, seu Padre. Tem certeza que eu preciso responder agora? Não dá pra tomar uma Kaiser antes?” Não. Isso não acontece na vida Real. O suspense no casamento se resume a alguma música que um dos dois tenha escolhido para homenagear o outro e constranger o público. A verdade é que, num casamento, o máximo de inesperado que sói ocorrer na hora em a noiva joga o buquê e várias mulheres se postam para tentar pegá-lo. Ali sim, é um momento de verdadeira tensão, sobretudo para os homens que costumam torcer para que suas namoradas NÃO peguem as flores. No meu casamento, rolou até um duplo salto mortal de uma das convidadas que alcançou o ramalhete e caiu no chão logo em seguida. Saiu com ferimentos leves, mas muito feliz pelo êxito alcançado.

Porém, nada disso se compara ao que seria uma revolucionária resposta ao momento do “fale agora ou cale-se para sempre”. O inconformismo de alguém contra os desígnios da vida e remando no sentido contrário de um universo em expansão que, aparentemente, não o incluiu em seus planos. Anseio pelo dia em que aquela longa espera de poucos segundos será quebrada pelo berro desesperado de um homem ou mulher que ama… ou odeia. Alguém que recusa-se a aceitar o que lhe ordenam, que não se adapta bem a certas regras, que questiona sempre e que, acima de tudo, prefere falar agora a calar-se para sempre.

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