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Coluna do Novo Jornal – 103– 25.08.2012 – Como destruímos Ponta Negra

fevereiro 28, 2014

Seguindo a sequência da coluna anterior, percorro a Via Costeira, indo da Ribeira a Ponta Negra. Em pauta, a mesma velha mania de destruir a própria casa que nós, debaixo de nossa absoluta falta de civilidade, teimamos em fazer. Para ilustrar o texto, porém, escolhi uma imagem de beleza para simbolizar tudo o que ela representa para nós (e para mim que escolhi a praia para morar com minha família).

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Como destruímos Ponta Negra

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Semana passada, escrevi sobre o abandono do bairro da Ribeira e a iniciativa destinada ao sucesso do Circuito Ribeira. Hoje, resolvi pegar a Via Costeira e passear pelo bairro onde moro e do qual, teimosamente, não pretendo sair.

A história recente de Ponta Negra quase não tem mocinhos. E nem mocinhas, é bom que se diga. Somos todos meio cúmplices dos tortuosos caminhos que a praia percorreu nos últimos anos. O jogo de empurra, a atitude de “João-sem-braço” e nossa habilidade em botar a culpa nos outros atua serelepe neste caso.

A deterioração veio disfarçada de prosperidade, como sói ocorrer. Tudo começou com o boom turístico e investimentos estrangeiros do final dos anos 1990 e início dos 00, a especulação imobiliária alimentada pela sanha inconsequente dos empresários do setor produziu uma cidade inflacionada, na qual os próprios nativos se viam privados de adquirir imóveis, sentindo-se muitas vezes estrangeiros em sua própria terra. Os vendedores de apartamentos não se importavam com os resultados de suas ações. Desde que o dinheiro seguisse entrando em seus bolsos, não havia porque pensar na comunidade que os rodeava, evidenciando uma sincera indiferença com a cidade e a mais completa falta de civilidade.

Foram vendidos imóveis para estrangeiros sem qualquer preocupação a respeito dos desvios de conduta dos compradores. Não houve sequer aquela natural preocupação parental de indagar aos desconhecidos: “quais as suas intenções com a nossa cidade?” Desta forma, chegaram toda a sorte de pervertidos e golpistas, como se já não os tivéssemos em bom número. Logo, Natal passou a ser a capital brasileira do Turismo Sexual e o bairro de Ponta Negra o principal ponto de encontro dessa turma vidrada no velho e bom sexo pecuniário. Nada contra a prostituição e seus adeptos, tenho até amigos que são, mas me causa extrema repulsa a prática da pedofilia. O que dizer então dos repetidos casos, ocorridos bem debaixo dos nossos narizes, de marmanjos vindos do outro lado do Atlântico para se espojarem em libidinosas férias com nossas meninas de 12 anos em situação de vulnerabilidade social. Em bom português: o que teve de gringo se jogando na safadeza com menores pobres de Natal não está no gibi!

Os empresários do setor podem tentar argumentar que não é bem assim, que este não é o papel deles, que são as autoridades que deveriam tomar providências para coibir tais práticas e mimimi ad infinitum. Pois bem, se a arte de tirar o corpo fora fosse elevada ao patamar de esporte olímpico, levaríamos o ouro em qualquer competição. A verdade é que estão todos pouco se importando para qualquer aspecto de seus negócios que não sejam os números acompanhados de uma boa quantia de zeros à direita, não havendo limites morais para atingir suas metas. O caso da Operação Impacto não poderia ser mais ilustrativo.

É claro que houve reação por parte da “sociedade civil organizada” ou algo que o valha. Os natalenses não curtiram ver seu principal cartão postal convertido em zona de prostituição franca. Fizeram o que lhes inspirava a índole dócil e acovardada. Fugiram para bem longe. Espalharam-se rumo a recantos cada vez mais afastados ao sul e ao norte da pornografia tropical e feliz da praia urbana. A Natal de “pernas abertas para receber bem”, repleta de meninas morenas e pobres acompanhadas de branquelos europeus de baixa classe não agradava os locais. Formou-se uma diminuta ilha de “civilidade” na frente do Hotel Manary, onde alguns conterrâneos VIPs se refugiaram e só. Tirando os natalenses residentes no bairro, os demais viraram as costas.

Um belo dia um dono de restaurante da outrora valorizada beira-mar resolveu levantar a voz ante a ausência do poder público em combater o turismo sexual. Foi aos jornais e denunciou com alarde e legítima indignação: “Há turismo sexual em Ponta Negra e as autoridades fingem que não ocorre nada!” O então prefeito ouviu o chamado e tomou uma providência: mandou toda a sorte de fiscais com o intuito de fechar o estabelecimento do sujeito que se atreveu a dizer a verdade. Ninguém ousou falar depois dele, pois o alcaide mostrou como se faz. Punição exemplar.

Tudo corria bem para alguns, até que, um belo dia, aconteceu o que muitos temiam. Acabou o dinheiro no além-mar. O estrago já estava feito, deixando-nos um belíssimo cenário pós-apocalíptico de terra arrasada como legado. Dessa vez, sem o velho argumento da entrada de divisas que o justificasse. A praia da zona sul, do morro bonitão e da faixa de areia mais barulhenta do Brasil ainda não voltou a ser procurada pelos antigos amantes e frequentadores. Os empresários também não querem mais saber dela porque sugaram tudo o que podiam do idílico lugar. Já as autoridades competentes (SIC), pelo que consta a situação do calçadão, decidiu que o melhor seria fazer o mesmo que aconteceu com o Machadão. “Derruba a praia. Depois a gente constrói outra com muito mais vaga de estacionamento.” Acho que deve ser essa a lógica. Aliás, olhando ao redor, deve ser esse o plano para toda a cidade. 

Coluna do Novo Jornal – 102– 18.08.2012 – Cansada de guerra

fevereiro 27, 2014

Em 18 de agosto de 2012, resolvi escrever e publicar no Novo Jornal uma nano-série de apenas duas colunas sobre os maus tratos sofridos por dois dos meus bairros preferidos. Eram breves retratos localizados de como nossa cidade andava pessimamente administrada por nossa então  gestora e seus incompetentes aspones. Comecei pela Ribeira, pois nesta mesma data ocorreria o evento Circuito Ribeira. Enfim, o texto tem mais de um ano, mas ainda vale a reflexão, uma vez que, mesmo a sombria era verde tendo passado, recuperar o bairro nunca foi prioridade também do atual gestor que já esteve no poder por 6 anos anteriormente. O texto ainda trata um tanto da moral baixa dos natalenses naqueles tempos, sem perspectiva, esperança nenhuma e pura resignação, sentimentos que explorei na ficção no ainda inédito conto que fechará a trilogia dos zumbis do livro “Uns Contos de Natal”.

Boa leitura!

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Cansada de guerra

circuito

É triste ver o ânimo dos meus conterrâneos nestes dias sombrios que vivemos. A autoestima natalense anda submersa na lama da desesperança, soterrada pelo lixo da incompetência, aprisionada no mais profundo buraco de desfaçatez e loucura. Nunca se viu nossa gente tão prostrada diante daqueles que, de tanto tentarem, conseguiram nos humilhar plenamente, reduzindo-nos a uma massa disforme, não-reativa, que aceita passivamente tudo o que nos impõem. Somos um agrupamento heterogêneo e inerte que, ao ser exposto às mais dolorosas e inclementes situações de submissão, decide resignar-se ante a completa falta de perspectiva. Fomos amordaçados e sofremos a extrema violência da incessante privação. Inferiorizados, abandonados, esquecidos, derrotados.

Mas sabem qual o mais incrível? Nossos algozes, sedutores e astutos que foram, nos venceram pelo charme, pelo carisma, prometendo um futuro de realizações nunca antes almejadas. Teríamos oportunidades, acesso aos maiores sonhos pueris, que fariam de nós seres humanos mais completos, numa espécie de compensação divina antecipada, após uma trajetória de terríveis agruras. Seria nossa época de bonança que, passada a tempestade, anunciaria a chegada de novos tempos, repletos de irrefreável alegria e satisfação. Eles nos venderam o sonho, mas nos entregaram uma tenebrosa realidade em seu lugar, e ainda cobram com juros, previstos nas letrinhas miúdas do contrato, pagos com a alma, os bens e, acima de tudo, a cidade. Aquela que um dia foi nossa e prometeram que seria “da gente”, agora é de usufruto exclusivo deles. O jeito foi baixar a cabeça, reconhecer a derrota e deixar que chafurdem no brejo onde jaz a capital que costumávamos chamar de nossa.

Analisando o comportamento da população, pode-se perceber a reação típica de quem foi vítima de uma ardilosa traição. Foram pegos de surpresa por alguém em quem depositavam confiança e suas últimas esperanças. Covardia sem tamanho, humanidade zero. O semblante sério, a expressão sofrida e o olhar perdido denunciam o fim da linha para essa gente. E não é difícil de entender o porquê. Basta olhar o cenário em que estão inseridos. Dois de nossos mais aprazíveis bairros se metamorfosearam em locações pós-apocalípticas de filme americano: Ribeira e Ponta Negra. Deixemos nosso cartão postal prioritário para a próxima semana. Hoje, falaremos do bairro histórico e boêmio às margens do Potengi.

A Ribeira roqueira de minha adolescência, da alternativa digna à monocultura reinante, das baladas no Bimbos, Casarão, Blackout e diversos outros, deu lugar a um depósito de entulhos abandonado pelo poder público, uma zona proibida aonde as autoridades não chegam, a lei não alcança. Já faz muito tempo que isso ocorre, é bom que se diga. Nas duas gestões municipais que antecederam a atual, o abandono já existia. O bairro nunca foi dotado de infraestrutura básica para se tornar um polo de atração de público. Os poucos empresários que insistiram na ideia, como Paulo Ubarana e companhia, sempre tiveram que lidar com falta d’água, quedas de energia e ausência de policiamento, só pra citar alguns dos problemas cotidianos encarados com determinação por eles. Os prefeitos, dos anos 1990 pra cá, não perceberam o potencial do bairro em se tornar um local valorizado e atraente, desprezando (e até sufocando) as diversas iniciativas, nunca havendo proposto nenhum projeto de incentivo ou revitalização.

Porém, o contínuo descaso agravou-se com a implacável ação do tempo. O bairro atingiu o mais baixo nível na escala de degradação. O lugar que resistia graças à atuação de poucos abnegados dá mostras de estar prestes a entregar os pontos. No último dia 28 de julho, quando da realização do show da banda carioca Jason no Centro Cultural Dosol, a escuridão, sujeira e fedentina davam bem a dimensão da realidade atual. A situação chegou a tal ponto que, até mesmo os flanelinhas habituais foram afugentados de lá, dando vez a outros mais agressivos e, digamos assim, convincentes.

Semana passada, um alento. O Circuito Ribeira voltou a ocorrer, graças à luta de pessoas como Ânderson Foca, Henrique Fontes e de uma numerosa trupe de amigos e parceiros, encadeando uma corrente de colaborações para não deixar que a área sucumba à ruína imposta pelo poder público.

O Circuito Ribeira é uma celebração feita por quem mantém de pé as esperanças de que um dia o local terá seu valor, por fim, reconhecido. É um movimento articulado pelos que trabalham o ano inteiro contra a destruição completa de um dos mais importantes bairros de nossa cidade. O evento, iniciado em 2011, havia deixado de acontecer por falta de apoio. Retornou em grande estilo. Milhares de pessoas desceram a ladeira de Marpas para confraternizar, ouvir música, encontrar-se, curtir a festa e apoiar a iniciativa dos jovens empreendedores.

Espero que o Circuito Ribeira represente um foco crescente de resistência, marco inicial de uma reação que tomará Natal de assalto, transformando o bairro ribeirinho numa poderosa trincheira, símbolo dos que teimam em não se submeter aos desígnios e caprichos dos indiferentes e cruéis comandantes executivos. Será um movimento político (não partidário) que cobrará ação e retificação dos que têm instrumentos para tal. Os de minha geração, que cresceram ouvindo rock nas ruas do bairro, não se entregarão sem luta. Não deixaremos que sapateiem serelepes nos destroços do local que um dia foi refúgio, válvula de escape de uma cidade que se fez província e da província que se fez metrópole. Estamos prontos para comprar a briga e adianto: sairemos vencedores dessa disputa. Chega de desânimo e de baixar a cabeça pra vocês. Até porque o bairro não suporta mais. A velha Ribeira anda cansada de guerra. 

Coluna do Novo Jornal – 101– 11.08.2012 – Três tempos – Parte 3 – Texto silencioso

fevereiro 24, 2014

Este texto foi baseado numa de minhas músicas preferidas, “Enjoy the silence” do Depeche Mode. Aqui, interpretada pelo Keane.

Enjoy!

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Texto silencioso

Eu queria prestar uma homenagem a todos aqueles que sabem dar valor ao silêncio, que percebem quando calar é melhor que falar, que enxergam a expressividade dos olhares, a grandeza dos gestos, que não caem na fácil armadilha verborrágica, que conseguem a proeza de bastar-se por instantes que seja.

Hoje quero direcionar a luz para essas abnegadas almas, humildes em sua renúncia por atenção alheia, generosas em nos permitir contemplar o mundo sem maiores ruídos, sem a obrigação de ouvir o que não queremos, o que não pedimos, o que não precisamos.

Um texto dedicado aos tímidos, aos intimistas, aos introspectivos. Aos seres evoluídos que não se deixam trair pelo vazio das palavras soltas, desconexas. Homens e mulheres que só se manifestam quando têm algo de edificante a ser dito, algo que acrescente ao mundo e aos outros.

Quero chamar a atenção e apontar os poucos privilegiados na multidão de falastrões que nossa sociedade narcísea e carente produziu. Vou dar meus parabéns a todos os não adeptos do auto-elogio deliberado, à crítica cáustica e gratuita. Expressarei meu muito obrigado aos que nunca me perguntaram quais são as novas ou comentaram como está o clima. Nós, os silenciosos, não gostamos de meteorologistas de elevador e nem de saber se fulana está mais gorda. Acredite: isso não vai mudar nada.

Eu quero produzir uma ode ao inaudível, à harmonia presente na ausência de sons, aos últimos pacifistas, aqueles que realmente deixam os outros em paz.

É que palavras erradas, verbalizadas em momento impróprio podem ferir, quebrar o precioso silêncio de nosso pequeno mundo de paz. Palavras são imperfeitas e desnecessárias frente a sentimentos tão intensos.

Este texto é para todos aqueles que sorriem em silêncio. 

Coluna do Novo Jornal – 101– 11.08.2012 – Três tempos – Parte 2 – Texto rápido

fevereiro 24, 2014

Numa certa manhã, dopado de cafeína, cometi esta segunda parte da trilogia de textos.

Que aproveitem!

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Texto rápido

Eu queria escrever um texto rápido, acelerado, frenético, num ritmo de hoje em dia, de qualquer dia, de dia-a-dia, cheio de correria. Um texto que tivesse stress e prazos a cumprir e um chefe bem chato, exigente, malcriado e insuportável, pressionando para que ficasse pronto, para que ficasse ótimo, para que você ficasse até mais tarde.

Eu queria escrever um texto pra ontem, logo, que avançasse ligeiro, como dos segundos o ponteiro, que inspirasse grande expectativa, que não admitisse uma segunda tentativa, que tivesse muito em jogo, que fosse de grande responsabilidade e lido em alta velocidade, como o avançar da idade, ao som de carros acelerados e ensadecidos buzinaços.

Eu queria escrever um texto com pressa, no sufoco, que a partir do momento em que começa já tivesse urgência de chegar ao final, como a fuga desesperada de um animal, correndo pra longe, escapando, sobrevivendo. Cada letra cairía veloz sobre linhas impacientes, pois o prazo apertado, atroz, chegaria brevemente.

Eu queria escrever um texto sem pensar, pá-pum!, dopado de cafeína, ideal para ler na esquina, em meio ao caos da cidade, indo de um lugar a outro, sem muita facilidade, no intervalo do almoço, na pausa do café, no meio de uma aula, para ler no caminho, na esteira da academia, no calçadão, correndo pela via.

Eu queria escrever um texto e fazer dele, símbolo de nossa intensa atividade, dos tempos atuais, e dessa tão falada modernidade. Um texto que fosse breve, que tivesse curta duração, como tudo o que é efêmero, prazeroso e vão. Que ele penetrasse em sua mente, preciso, implacável, num momento de distração e, antes que você pudesse concluir se gostou, se deparasse com o fato de que o texto acabou. 

Coluna do Novo Jornal – 101– 11.08.2012 – Três tempos – Parte 1 – Texto lento

fevereiro 24, 2014

Na coluna do Novo Jornal de número 100, publiquei uma retrospectiva de todas as colunas anteriores, nada mais que um mini-catálogo de títulos autorreferencial e bastante pessoal. Enfim, achei meio bobo republicar aqui. Por isso, decidi pular para a coluna 101, na qual publiquei 3 textos curtos chamados “Texto lento”, “Texto rápido” e “Texto silencioso”. Publicarei todos hoje. Eis o texto lento. Boa leitura!

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Texto lento

Eu queria escrever uma crônica lenta, cadenciada, suave, sem pressa, gritaria, histeria e dia-a-dia. Uma crônica marcada, compassada, como uma valsa, um pra lá, dois pra cá, um pra lá, dois pra cá. Não seria triste, nem melancólica, apenas teria um ritmo diferente do que tenho visto por aí. Seria feliz, mas de uma alegria contida, autêntica, bela. Algo bucólico, com cheiro de chuva, de grama molhada, suja de areia, queimada de sol, impregnada de sal.

Eu queria escrever um texto gostoso como um abraço demorado, agradável como um fim de tarde entre amigos, necessário como um poema, revigorante como uma sesta. Um texto que provocasse bem-estar com o efeito multiplicador de um sorriso, a espontaneidade de um elogio sincero e desinteressado, o impacto de uma surpresa boa.

Eu queria escrever algo que fosse um elogio ao ócio, um tratado do descanso, um manifesto do direito sagrado da preguiça dominical ou do sono fora de hora. Um documento sobre o pôr-do-sol no Potengi ou o nascer da lua em Ponta Negra, que transmitisse em poucas linhas o silêncio reconfortante, a leveza de um carinho, a sensação de liberdade que só uma rede na sombra pode dar.

Uma crônica para ser lida em câmera lenta. Que despertasse reações serenas, mas duradouras. Queria ordenar palavras de tal maneira, com tal maestria que elas ganhassem o sabor daquele beijo que você tanto batalhou, muito ansiou e finalmente conquistou.

Eu queria escrever um texto bonito. Um lava-jato da alma como uma boa ação, um gol no finalzinho, um telefonema inesperado no meio da noite. Eu queria escrever uma crônica que pudesse dar sua modestíssima contribuição para que, por uma minúscula fração de tempo, um instante que seja, provoque a ligeira sensação de tornar o seu dia um pouquinho melhor.

Eu queria.

Juro que queria.

Mas como não consegui, acho bom você se contentar com esse mesmo.

10 anos de JOVENS ESCRIBAS – Parte 00 – Não existem escritores jovens!

fevereiro 20, 2014

10 anos

Parece que foi semana passada. E, na verdade, foi. Semana passada, a Editora Jovens Escribas completou 10 anos de atuação. Hoje, são mais de 50 títulos lançados, muitas amizades adquiridas e algumas boas histórias pra contar. Pra começar, iniciemos do princípio.

Em fins dos anos 90, eu fazia duas faculdades de Comunicação Social. Pela manhã, fazia Jornalismo na UFRN e, à noite, Publicidade na UnP. Ainda encontrava tempo para estagiar à tarde e, nas horas vagas, para ver filmes, jogos e ler alguns livros legais. Naquele tempo, incentivado pela leitura de crônicas de Luís Fernando Veríssimo, decidi tentar escrever textos curtos e criativos, leves e bem humorados, sobre qualquer assunto, o mundo em geral e o cotidiano em particular. Passei a colaborar com o zine, AZ Revista que revelou grandes nomes da comunicação como Caio Vitoriano, George Rodrigo, Paulo Celestino e Cristiano Medeiros.

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Já na década seguinte, em 2001, fui passar uma temporada no Rio de Janeiro, para fazer um curso de especialização em redação publicitária. Nos primeiros tempos de Rio, eu frequentava a ESPM à noite e tinha o dia inteiro livre, pois só vim estagiar seriamente quando faltavam uns 4 meses para voltar a Natal. Dediquei-me então à leitura e à escrita de crônicas como exercício criativo.

Neste contexto, escrevi uma crônica chamada “Galado” que versava sobre este tão pitoresco termo do coloquialismo natalense. Envie o texto por e-mail para alguns amigos e, para minha surpresa, fez um estrondoso sucesso. Logo, o e-mail foi reenviado incontáveis vezes e minha autoria se perdeu pelo caminho. Senti, então, a necessidade de “registrar” meus escritos de alguma maneira. A princípio, procurei os jornais locais, mas ninguém queria publicar os textos de um estudante. Ainda mais um que tinha um palavrão por título. Tomei então uma decisão importante, que mudaria minha vida anos mais tarde: publicaria um livro com minhas crônicas.

Entre 2001 e 2003, reuni e selecionei cerca de 50 textos. Submeti-lhes à leitura sempre cuidadosa e sincera de Nei Leandro de Castro, que pediu para ler antes de aceitar (ou não) escrever a orelha. No fim do ano, o arquivo com o livro já estava sendo trabalhado pelo diretor de arte Modrack Freire. Neste meio tempo, porém, uma questão me veio à mente. Quando, em conversas informais, as pessoas sabiam que eu estava preparando um livro de minha autoria, costumavam dizer: “Que legal! Não existem escritores jovens, né?”

Os 4 SP

Comecei a pesquisar e percebi que as pessoas tinham razão. Os jovens estavam publicando em blogs, sites, fanzines e outras mídias populares na época, mas não livros. Procurei outros caras da minha idade (tinha uns 23 anos) que tivessem escritos em volume suficiente para se tornarem também livros. Dessa forma, com a ajuda da lei municipal de incentivo à cultura e de alguma empresa que pagasse bom volume de ISS, lançaríamos uma série de livros sob a égide de uma mesma marca, um selo editorial que legitimasse nossa coleção de publicações. 

O nome criado, JOVENS ESCRIBAS, remetia à junção do novo ao antigo, remetendo à infante energia cheia de vida e disposição dos jovens empreendedores da jornada e também à verve tradicionalista que não se satisfazia com as novas mídias, com os canais proporcionados pelo advento da Internet, mas que queriam sim ver suas criações impressas em papel, num formato padrão encapado, colado e costurado. O logotipo elaborado por Modrack Freire alude ao nascimento de novos escritos, pois traz um pingo de tinta como uma gota de esperma com o nome do selo editorial em seu interior.

O recrutamento dos companheiros de jornada não seria fácil. Era importante que nossa coleção de 4 livros tivesse gêneros distintos. Eu escrevia crônicas, então precisávamos de um contista, um poeta e, se possível, um romancista. O contista foi mais fácil, pois eu conhecia Thiago de Góes desde o colegial e sabia que ele andava escrevendo contos populares, influenciado pela leitura de autores brasileiros como Rubem Fonseca. Quando entrei em contato, ele me falou sobre um projeto que estava trabalhando que era a confecção de contos baseados em canções bregas. Gostei da ideia.

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O poeta e o romancista surgiram por indicação. Um amigo publicitário, Renato Quaresma me disse certa vez que um colega chamado Daniel Minchoni andava declamando poesias de sua autoria pelos calçadões de Ponta Negra. Procurei Mincha para falar do selo e perguntar se ele tinha interesse em publicar.

Por fim, Modrack me apresentou a Patrício Jr., um grande amigo seu que tinha acabado de escrever um romance que se chamaria “Lítio”.

Nos encontramos Daniel, Patrício e eu (Thiago mora em Fortaleza e quase nunca estava em nossas reuniões) e topamos construir o projeto juntos. No início, achávamos que publicaríamos aqueles livros de estreia e pararíamos por aí. Ou que até continuaríamos, mas com os livros seguintes lançados por outras editoras, grandes, do sudeste. Não tínhamos ideia de como este universo editorial do eixo Rio-SãoPaulo era fechado a poucos. Nem percebíamos que tínhamos acabado de conceber uma ideia muito mais forte e duradoura do que um simples e passageiro selo editorial. O simples fato de termos decidido fazer algo coletivo, juntando vários autores em torno de um objetivo em comum daria à Jovens Escribas uma força extra que se tornou o segredo de boa parte do nosso sucesso.

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Por essas falhas de avaliação iniciais, pode-se perceber o quanto éramos, de fato, jovens e ingênuos. Com isso, é possível compreender inclusive o nome de batismo do então selo editorial, que não levava em consideração que envelheceríamos rápido, que um dia publicaríamos autores já bem entrados nos enta e que nossa marca duraria bem mais do que uma embrionária coleção de 4 livros.

NO PRÓXIMO TEXTO: VERÃO VERANEIO  

Coluna do Novo Jornal – 099 – 21.07.2012 – O assessor segura bolsa

fevereiro 19, 2014

A gestão Micarla de Sousa foi um período pra lá de fértil para os cronistas da cidade. Tantos e tamanhos eram os absurdos cometidos dia após dia que nunca faltou assunto para os articulistas locais. Everton Dantas, Rafael Duarte, Patrício Jr. e Pablo Capistrano produziram textos muito bons sobre a “Era Micarla” que tiveram em Ivan Cabral o seu chargista oficial.

“O assessor segura bolsa” foi mais um texto inspirado nestes dias sombrios que tanto afligiram Natal e seus habitantes.

Riam. Para não chorarem!

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O assessor segura bolsa

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Muito me entristece ver o que alguns colegas da imprensa costumam escrever sobre o assessor segura-bolsa. É de uma vileza, um sarcasmo desmedido que, ao mesmo tempo, me chocam e fazem refletir. Por que essa sanha cruel, essa vontade de expor e humilhar um ser humano tão bom, amável e generoso para com seus pares? Um rapaz lutador e que, por vezes é mal interpretado, pois seu excesso de voluntarismo, que nada mais é além de fruto de sua paixão pelos ideais românticos que abraçou e essa mania de viver intensamente, é constantemente confundido com truculência ou agressividade. Outro dia, vejam vocês, ele foi acusado de agredir uma mulher, só porque ela é casada com um desafeto de sua assessorada. Tive acessos de raiva quando li a notícia. Não pela atitude do jovem que, certamente, foi uma reação compreensivel de um ser humano sob pressão, provocada pelas circunstâncias extremas que vivia naquele dado momento. Minha indignação era direcionada aos repórteres que, munidos de uma boa dose de má vontade e do espírito de perseguição que os reveste e contamina, escreviam toda sorte de absurdos contra o inocente personagem, vítima de uma conspiração sem precedentes na história desta cidade habitada por invejosos.

Os maiores algozes de gente boa como o pobre assessor são os vis e impiedosos jornalistas deste veículo para o qual colaboro. Só posso dizer que gente da laia de Carlos Magno, Viktor Vidal, Rafael Duarte, Everton Dantas e seus comparsas, além de outros como os desprezíveis Alex de Souza e Dinarte Assunção, já sujaram essas páginas mais do que a tinta das rotativas. Como podem essas pessoas denegrirem a imagem de seus conterrâneos com tantas insinuações e as mais venais afirmações? Não sei vocês, mas eu fico pra morrer de tanta contrariedade.

Certamente, meus companheiros de veículo sofrem do mal da ignorância em relação ao assessor segura-bolsa, um dos mais fieis escudeiros da terra de Cascudo ao lado de um certo assessor-xeleléu que terá que ficar pra outra coluna. Pois farei um favor a estas criaturas do breu para que, nessa escala a caminho do Inferno que eles chamam de vida, possam inteirar-se a tempo sobre a trajetória de muito esforço e conquistas do injustiçado segurador de bolsas. Muita coisa aconteceu nessa escalada de glórias antes de atingir o Zênite. Nosso herói teve que carregar muita bolsa vagabunda antes de chegar às Guccis e Louis Vittons originais que ostenta hoje a tiracolo. Prestem bem atenção, coleguinhas, pois só vou escrever uma vez.

Conheci o assessor segura-bolsa ainda na fase embrionária de sua carreira, quando ele segurava com avidez de aprendiz e ambição de jovem as pastas de trabalho de chefes de redação ou diretoras de repartições. A maneira como ele se entregava à função, agarrava-se aos porta-moedas com a dedicação de quem carrega consigo o futuro da empresa (ou o seu futuro na empresa) sempre me comoveu a ponto de tornar-me secretamente seu admirador.  Sempre de semblante sério, passava aos demais a falsa sensação de que era antipático. Logo que foi promovido a carregador de artigos de couro legítimo, nacionais, mas de boas marcas, além de ganhar o cargo de “consultor” o que lhe conferia o direito de soprar os mais apaixonados elogios nos ouvidos da chefia. Quando alcançou este patamar na carreira passou a levar fama de arrogante, mais uma vez de forma descabida, só porque seu profissionalismo irrefreável o levava a tomar decisões firmes que desagradavam sobremaneira os subalternos, essa gente regida pelo signo da indisciplina com ascendente na indolência e a lua na preguiça desavergonhada. 

Ainda que avançando a passos largos para uma carreira promissora e cada vez mais próspera, o assessor tinha que se virar. Nas horas vagas, tocava um trompete aqui, cantava “Sweet Child of mine” em falsete acolá e perseguia o sucesso como um dos grandes intérpretes que esta cidade já viu surgir, superado apenas pelo grande Marlos Apyus na habilidade vocal e carisma natural sobre o palco.

Porém, seus dias de tenor pop frustrado pareciam estar acabando. O astuto profissional da bajulação ganhou notoriedade e foi alçado à condição de “assessor especial” de uma famosa empresária e jornalista, filha de pai político, que muito se identificava com os maneirismos do rapaz e com o seu talento em puxar o saco de seus assessorados, dizendo sempre o que queriam ouvir, além de defender a honra e os interesses deles ante os demais como um verdadeiro pitbull, enfrentando qualquer pessoa, encarando todos os obstáculos. Logo, graças a seu espírito guerreiro e muita força de vontade, desenvolveu a aptidão de utilizar as bolsas que manejava tão bem como armas letais. Em suas mãos, uma Tommy Hilfiger virava um verdadeiro nunchaku ninja, perigosas para quem atravessasse os tortuosos caminhos de sua patroa. Dizem que a sorte da mulher do vereador foi que ele não segurava nenhuma bolsa no momento da discussão.

Felizmente, após anos de abnegada entrega, a sorte grande lhe sorriu. Sua chefinha foi escolhida para um importante cargo político e levou consigo seu melhor funcionário que tanto a alegrou nos anos anteriores. Hoje, ele está lá: evitando que ela seja fotografada comendo bolo, partindo pra cima de mulheres, crianças e quem mais for louco de dizer um tantinho assim de ruim a respeito de sua contratante. Não admite nem mesmo que olhem torto pra ela. Costuma ameaçar as pessoas dizendo: “Cuidado! Se você olhar, você vai ver só!” Ele nasceu pra isso. Impressionante!

A verdade é que o assessor segura-bolsa subiu na vida. É mais um exemplo de brasileiro que viu, veio e venceu, e ainda sambou na cara de quem não acreditava nele. Arrasou! Dizem até que está sendo sondado para fazer propaganda da Nextel. Tornou-se poderoso, absoluto, vitaminado, lindo e, claro, invejado. Como por esses desqualificados do Novo Jornal que se aproveitam da visibilidade que alguém que brilha e acontece como ele é capaz de conferir aos seus inexplicáveis petardos. Felizmente, há pessoas de bom senso (  >>> EU <<<  ) escrevendo por aqui. Por isso, gostaria de dar um recado do bem ao nobre assessor: segura a onda, amigão. Mas sem largar a bolsa.

 

Visita ao IFRN – São Gonçalo do Amarante

fevereiro 18, 2014
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Ótimo papo com os alunos do IFRN de São Gonçalo.

Fui convidado pelo professor Milson dos Santos para uma visita ao IFRN de São Gonçalo do Amarante. O professor havia trabalhado o gênero crônica em sala de aula. Entre grandes autores como Paulo Mendes Campos e Luís Fernando Veríssimo, acabei sendo um dos autores trabalhados. Aceitei na hora e no último dia 12 de fevereiro, estive no instituto conversando com os estudantes.

Crônicas minhas foram trabalhadas em sala de aula.

O professor trabalhou crônicas minhas com a turma

A experiência foi encantadora. O trabalho do professor Milson e seus alunos são um exemplo de como um bom professor, estimulado e dedicado pode transformar a vida de jovens através do incentivo à leitura. Além de lerem os autores e relatarem suas impressões, os estudantes foram exigidos a produzirem crônicas que seguissem os estilos dos autores trabalhados em sala de aula. O grupo que ficou com minhas crônicas desenvolveu diversos textos a respeito do cotidiano do campus onde estudam. O resultado é impressionante e, no meu caso, emocionante. Aqueles jovens conseguiram reproduzir textos que em muito se parecem com minhas crônicas.

A turma também produziu textos simulando o meu estilo de escrever crônicas.

A turma também produziu textos simulando o meu estilo de escrever crônicas.

A cada leitura em voz alta dos textos, a sala explodia em gargalhada. A qualidade do que foi escrito é de cair o queixo. Espero que tenha sido tão divertido para eles escreverem quanto foi para todos que leram. Se isso tiver ocorrido, acredito que tenham sido despertadas algumas vocações literárias, ou de novos autores ou, pelo menos, bons leitores. Estão de parabéns os estudantes e o professor Milson. Pedi permissão a todos e publicarei aqui os textos do grupo que mimetizou meus escritos para que vocês possam ter uma boa ideia do que a boa educação é capaz de fazer.

 

O grupo que produziu textos inspirados nos meus.

O grupo que produziu textos inspirados nos meus.

Professor Milson dos Santos, que me deixou muito feliz e honrado com o trabalho realizado com os estudantes.

Professor Milson dos Santos, que me deixou muito feliz e honrado com o trabalho realizado.

Turma do 2º ano do Ensino Médio do IFRN de São Gonçalo. Valeu mesmo!

Turma do 2º ano do Ensino Médio do IFRN de São Gonçalo. Valeu mesmo!

Obrigado a todos o IFRN – São Gonçalo pela excelente recepção e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho de vocês.

 

Coluna do Novo Jornal – 098 – 14.07.2012 – O Raqueiro

fevereiro 17, 2014

O Raqueiro é uma crônica da série “personagens natalenses”. A figura do agroboy conterrâneo, que fala de forma engraçada, trocando o “v” pelo “r”, de comportamento expansivo, machista e materialista, dotado de enorme autoconfiança, agressividade e dado ao exibicionismo, causou grande repercussão em função da identificação imediata deste personagem no cotidiano dos leitores que conheceram a crônica por meio da coluna do Novo.

Quem já conhece, espero que gostem da releitura. Aos que nunca leram este texto, divirtam-se!

***

O Raqueiro

Raqueiros 

Ele tem um notável problema de dicção. Como um Cebolinha mal programado troca o “V” pelo “R” sem a menor cerimônia. Isso não o atormenta. Diz ser coisa do sotaque interiorano, pois cresceu no campo, em meio a criações de gado e safras das mais diversas. E foi precisamente no saudável ambiente interiorano, de pessoas humildes e trabalhadoras, mas também rudes e pouco intruídas, onde cresceu e apreendeu valores que permeiam sua vida inteira. Porém, acabou por se identificar muito mais com a rudeza e ignorância do que com a humildade e o trabalho que enobrece o homem e lhe atribui caráter.

É que o Raqueiro autêntico, que gosta de raquejada, de Carraleiros do Forró e de se mostrar pro porro, nunca precisou dar um prego numa barra de sabão. O pai já trabalhou por ele. É fazendeiro rico, criador de gado, produtor de muitas toneladas de grãos, dono de terras e dos mais modernos equipamentos de otimização da produção, desde ordenhadores computadorizados a tratores de último tipo.

Com tanto dinheiro sobrando e já havendo outro trabalhado por ele, só resta ao Raqueiro curtir uma vida boa, andar pelos interiores do RN, tal qual um Ojuara sem nenhum caráter, na sua suntuosa picape de novo rico e gastar a polpuda mesada que nunca falta. É verdade que ele também costuma vir ao litoral e à nossa capital (que, aliás, é uma cidade do interior à beira-mar) e se sente em casa por aqui. Ainda mais no período do veraneio, quando pode ir de Pirangi a Muriu, ver concertos dos mais variados repertórios (os Aviões, os Solteirões, os Raparigueiros, os Plays, Rictor & Léo) e atolar seu 4×4 em areias, recebendo socorro de veranistas desavisados e bem-intencionados. Tenho a impressão que atolar seu veículo é um momento de glória, pois dá a ele a oportunidade de exibir sua condição de vida confortável para toda uma turba de pessoas que se amontoam como moscas em redor do seu possante.

Nas vaquejadas, chega a um bar e paga cinquentinha ao sanfoneiro para não parar de tocar um instante, mais cinquentinha ao garçom pra não arredar do seu lado e pede todo tipo de bebida pra não faltar nada nem pra ele nem pro seu séquito de bajuladores e marias-botinas que mantém o seu ego inflado com elogios incessantes, além de darem ouvidos a suas incríveis peripécias e violentas pelejas em que dera cabo de 3 ou 4 no braço e puxara uma arma para outros tantos.

O Raqueiro, por ter tido sempre tudo nas mãos, acabou por não se habituar a ser contrariado, tendo, portanto, desenvolvido no âmago do seu ser uma natureza deveras violenta. Traduzindo para uma linguagem que até ele entenda: é um valentão sem cérebro doido por uma briga. Vive provocando intriga e contando seus causos cheios de exageros e inverdades em que enfrentou não-sei-quantos e atirou em não-sei-quem. O Raqueiro anda armado e em bando. É capaz de partir para cima de um pobre rapaz solitário e espancá-lo com a ajuda de 5 comparsas e depois sair bradando por aí que estava quieto, na dele, e foi atacado em sua honra.

Aliás, honra para ele, é algo exclusivamente masculino. O Raqueiro é representante de toda uma cultura coronelista e machista nordestina. Coisa muito nossa. Logo, por uma questão de conservação da moral e dos bons costumes, todo Raqueiro que se preze deve tratar as mulheres como lixo. Sobretudo as namoradas. Muitas vezes chama as mulheres de vacas. E pra combinar com a saborosa ruminante, ainda orna sua cabeça com belos pares de chifres. Sai escondido, trai todas as semanas e dá em cima até das amigas da namorada. Tudo isso além de gritar, humilhar, diminuir e destratar sua “querida” sempre que possível. Dirige-se a ela sem qualquer cortesia e é incapaz do menor gesto de carinho (beijar em público é feio!). E assim segue sua vida e arranjando garotas subservientes que se submetem aos seus caprichos de menino mimado e ignorante de olho nas posses, no sobrenome da família e nos hectares da fazenda.

Cortesia e gentileza são atributos desconhecidos do Raqueiro, assim como são muitas as fontes de sua completa jumentice. Por favor e Obrigado, por exemplo, nunca fizeram parte do seu vocabulário de pouco mais de 100 palavras.

É fácil reconhecer um Raqueiro. Fala alto como se a cidade inteira precisasse saber quanto custou o carralo de raça que adquiriu na última Festa do Boi. Conta vantagens sem parar de coisas que fez, surras que deu e mulheres que comeu. Sai ciscando por aí e cantando pneu com sua caminhonete cabine dupla importada. Chama os amigos alternadamente de “major” ou “meu patrão”, uma vez que desconhece quaisquer outras formas de se referir às pessoas.

Se você encontrar um tipo assim por aí (e acredite: você vai encontrar), corra como se estivesse fugindo da doença da vaca louca ou de uma manada de zebus enfurecidos. Porque se ele lhe pegar pra prosear, major, num rai ser muito bom não, visse? 

A volta

fevereiro 17, 2014

A volta

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“A vida é feita de escolhas.” Quem me conhece sabe que este é um dos meus lugares comuns preferidos, ao qual sempre retorno e repito constantemente para expressar, de maneira simples e direta, os muitos dilemas que sempre surgem em nossos caminhos, como um eterno jardim borgiano de veredas que se bifurcam permanentemente.

Pois bem, nos últimos 2 anos, a vida me propôs alguns desafios bem desconcertantes. Intensifiquei as atividades da editora Jovens Escribas, lançando um número bem maior de publicações do que estava habituado. Comecei a prestar serviços para o SESC-RN na área de literatura, contribuindo com um projeto revolucionário realizado por eles chamado AÇÃO LEITURA. Foi aí que, no último dia de junho de 2012, minha mãe morreu, desencadeando toda uma série de sentimentos e obrigações inesperadas. Já em 2013, a agência de propaganda que mantinha com Arnaldo Araújo havia 5 anos, o Comitê Criativo fundiu-se com a Bora Comunicação numa negociação boa para todos que resultou numa das maiores agências da cidade. Resolvemos, então, criar uma empresa de interação. Nascia assim a Social, empresa que está sendo tocada por Andrei Gurgel. Lancei ainda 2 livros novos. Também foi em 2013 que construí uma casa para morar e que Nina e eu tivemos nossa primeira filha, Isabela.

Bem, com tantas coisas acontecendo freneticamente em minha vida, não deve ser surpreendente que eu tenha escolhido deixar de lado o blog. Aliás, precisei abandonar também as crônicas e, consequentemente, a coluna do Novo Jornal.

Entretanto, com muito trabalho, as coisas foram se acertando. A fusão das agências foi bem sucedida, as metas da Bora para 2013 foram alcançadas e 2014 promete ser o melhor ano da história da agência. A Social engrenou e deverá crescer exponencialmente nos próximos 12 meses. A AÇÃO LEITURA deverá entrar definitivamente para o calendário cultural de Natal. Meus livros foram lançados e estão distribuídos. As publicações da Jovens Escribas se manterão num ritmo acelerado pelo 4º ano consecutivo. A casa ficou pronta, a bebê está linda e saudável, Nina feliz, tudo em cima, agora que meu mundo está por fim organizado, faltavam ainda duas coisas: voltar a escrever crônicas e … atualizar este blog.

Agora, não falta mais. Estou voltando à escrita regular de textos literários e, a partir de hoje, voltarei mais uma vez a atualizar este espaço. Falarei de literatura, divulgarei lançamentos e eventos culturais, seguirei republicando cronologicamente todas as colunas do Novo Jornal, iniciarei uma série de postagens contando os 10 anos da Jovens Escribas a partir de cada livro publicado e outra contando “A verdadeira história dos Jovens Escribas”. Falarei das atividades literárias e das novidades sobre os livros em processo de elaboração. Também falarei de assuntos pessoais e, como não poderia deixar de ser, publicarei aqui minhas crônicas inéditas, uma vez que não estou mais ligado a nenhum jornal ou portal.

É isso, amigos. Sejam todos muito bem-vindos de volta. Desculpem a prolongada ausência. Temos agora, um encontro marcado aqui nesta página pessoal. Apareçam sempre.

Obrigado.

Carlos Fialho