Coluna do Novo Jornal – 101– 11.08.2012 – Três tempos – Parte 1 – Texto lento

Na coluna do Novo Jornal de número 100, publiquei uma retrospectiva de todas as colunas anteriores, nada mais que um mini-catálogo de títulos autorreferencial e bastante pessoal. Enfim, achei meio bobo republicar aqui. Por isso, decidi pular para a coluna 101, na qual publiquei 3 textos curtos chamados “Texto lento”, “Texto rápido” e “Texto silencioso”. Publicarei todos hoje. Eis o texto lento. Boa leitura!

***

Texto lento

Eu queria escrever uma crônica lenta, cadenciada, suave, sem pressa, gritaria, histeria e dia-a-dia. Uma crônica marcada, compassada, como uma valsa, um pra lá, dois pra cá, um pra lá, dois pra cá. Não seria triste, nem melancólica, apenas teria um ritmo diferente do que tenho visto por aí. Seria feliz, mas de uma alegria contida, autêntica, bela. Algo bucólico, com cheiro de chuva, de grama molhada, suja de areia, queimada de sol, impregnada de sal.

Eu queria escrever um texto gostoso como um abraço demorado, agradável como um fim de tarde entre amigos, necessário como um poema, revigorante como uma sesta. Um texto que provocasse bem-estar com o efeito multiplicador de um sorriso, a espontaneidade de um elogio sincero e desinteressado, o impacto de uma surpresa boa.

Eu queria escrever algo que fosse um elogio ao ócio, um tratado do descanso, um manifesto do direito sagrado da preguiça dominical ou do sono fora de hora. Um documento sobre o pôr-do-sol no Potengi ou o nascer da lua em Ponta Negra, que transmitisse em poucas linhas o silêncio reconfortante, a leveza de um carinho, a sensação de liberdade que só uma rede na sombra pode dar.

Uma crônica para ser lida em câmera lenta. Que despertasse reações serenas, mas duradouras. Queria ordenar palavras de tal maneira, com tal maestria que elas ganhassem o sabor daquele beijo que você tanto batalhou, muito ansiou e finalmente conquistou.

Eu queria escrever um texto bonito. Um lava-jato da alma como uma boa ação, um gol no finalzinho, um telefonema inesperado no meio da noite. Eu queria escrever uma crônica que pudesse dar sua modestíssima contribuição para que, por uma minúscula fração de tempo, um instante que seja, provoque a ligeira sensação de tornar o seu dia um pouquinho melhor.

Eu queria.

Juro que queria.

Mas como não consegui, acho bom você se contentar com esse mesmo.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 101– 11.08.2012 – Três tempos – Parte 1 – Texto lento”

  1. Bia Madruga Says:

    pra mim tá bom. eu sorri lendo, é a conta.🙂

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