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Lançamento da JOVENS ESCRIBAS no Rio de Janeiro – 25.03.2014

março 24, 2014

Lanç RJ - Fialho

Amanhã (terça – 25 de março de 2014), a Editora Jovens Escribas vai lançar os livros de 3 autores no Rio de Janeiro. São Eles, Leonardo Panço, Nei Leandro de Castro e Carlos Fialho. O evento faz parte da nossa turnê pelo sudeste em comemoração aos 10 anos de atividades empreendidas por nossa editora e pelo coletivo de autores que arregimentamos em torno dela.

Após um bem sucedido evento em BH no sábado, agora é a vez dos leitores cariocas receberem nossa visita.

Serão levados ao Rio, os livros “Esporro” e “Caras dessa idade já não leem manuais” de Leonardo Panço; “As Dunas Vermelhas”, “Pássaro sem sono”, “O Dia das Moscas” e “50 anos de poesia” de Nei Leandro de Castro; “As maiores mentiras do verão” e “Não basta ser Playboy. Tem que ser DJ!” de Carlos Fialho.

Quem estiver no Rio nesta terça, dá uma passada lá no bar e restaurante DESACATO, no Leblon. Vários escritores e amigos da editora residentes na cidade estarão lá pra prestigiar.

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E quem quiser aproveitar, poderá adquirir os vários livros lançados e vendidos na noite por preços promocionais.

Lanç RJ - Panco Lanç RJ - Nei

 

Lançamento da JOVENS ESCRIBAS em Belo Horizonte – 22.03.2014

março 21, 2014

Atenção, BH! Neste sábado, haverá lançamento duplo da EDITORA JOVENS ESCRIBAS na cidade. Sérgio Fantini e Carlos Fialho estarão juntos lançando, respectivamente, “A ponto de explodir” e “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!”. O público leitor poderá ainda, encontrar todos os livros já publicados pela editora de Fantini, Fialho e de Ana Elisa Ribeiro, autora convidada a conduzir um papo e que também já lançou pela JE.

Apareçam, se forem de BH, ou divulguem para amigos de lá caso conheçam pessoas que gostem de literatura e residam na capital mineira.

O lançamento faz parte da primeira etapa da #JovensEscribasWorldTour que levará autores da editora para lançamentos em diversos estados brasileiros. Ainda neste mês de março, além de BH, eles estarão  no Rio e em São Paulo.

Lanç BH - Fialho Lanç BH - Fantini

Cartaz Promocional - BH - Reduzido

Coluna do Novo Jornal – 108– 29.09.2012 – Jonas Camarão

março 20, 2014

Em 2012, li um romance muito legal: “Cidade dos Reis” (FJA-2012) de Carlão de Souza. Gostei tanto que escrevi a respeito e publiquei em minha coluna no Novo Jornal.

Boa leitura! E, se puderem, leiam também o livro que é bom à beça.

***

Jonas Camarão

Carlão de Souza. Foto: Elisa Elsie

Carlão de Souza. Foto: Elisa Elsie

Por que somos do jeito que somos? Qual a razão de nos comportarmos desta ou daquela forma? Qual a explicação para reagirmos assim ou assado diante das mais variadas situações cotidianas que a vida nos prepara? Quando um de nós vai a um psicólogo em busca de respostas, as perguntas sobre nosso passado são pequenas pistas que o analista dispõe sobre a mesa do inconsciente para desvendar o grande mistério que vem a ser a nossa vida. O que ocorreu conosco durante o nosso crescimento, e mesmo em tempos recentes, pode explicar muito sobre nós. Os traumas, as escolhas, as experiências, influências mil que compõem a complexa personagem de cada um, protagonistas que somos de nossas infinitas narrativas em primeira pessoa.

Lendo o mais recente romance de Carlos de Souza, “Cidade dos Reis” (FJA-2012), concluí que este raciocínio poder ser aplicado também a uma cidade. Tudo porque Carlão resolveu nos contar a sua versão da história de Natal nos últimos 100 anos. Começando pelo 1º dia do século passado e concluindo a história na derradeira folha do calendário de 2000, a vida de Natal e mesmo do RN é revelada aos felizes leitores desta obra altamente recomendável a todos que tenham o mínimo de curiosidade a respeito do que aconteceu nesta metrópole com alma de província ou quer encontrar respostas de como viemos a ser como somos.

Jonas Camarão nasceu em 1º de janeiro de 1901. Era descendente direto do herói duvidoso Felipe Camarão, homem de caráter questionável a ilustrar os livros de história do nosso Estado. Jonas viveu exatamente um século e, como nunca saiu do RN, a não ser para umas tantas e rápidas idas a Recife a fim de fechar negócios, acompanhou de perto todos os acontecimentos políticos, sociais, econômicos e as transformações ocorridas em Natal e arredores. Viu as mudanças de governos, a evolução nos hábitos e costumes, a chegada do automóvel, as alterações urbanas da cidade (incluindo o plano Palumbo), a vinda (e depois partida) dos americanos entre tantos outros acontecimentos relevantes.

O protagonista, em que pese a origem humilde, devido ao grande esforço dos pais, estudou no Atheneu, acabando por se tornar um comerciante de sucesso. Ou, como ele próprio dizia: “Comerciante não. Negociante!” Tornou-se um típico cidadão da capital potiguar. Pacato, de índole dócil e conservador. Tanto que lhe causava profunda contrariedade a maneira como os empresários locais faziam questão de derrubar edificações clássicas para construir caixas horrendas em seus lugares, não importando a relevância do que se destruía. Sobre isso, o narrador declara: “Uma cidade se diminui quando elimina seu passado. Natal está sempre sujeita a sucumbir a qualquer ilusão de modernidade. Os poderosos, verdadeiros donos desta cidade, estão sempre dispostos a destruir qualquer bela construção para erguer algo novo no lugar. É uma cidade sem memória.”

Jonas também nunca se conformou com determinados traços flagrantes de miudeza da alma que faziam o povo potiguar se comportar de forma a voltar-se uns contra os outros. Indignava-se sobretudo com a maledicência do povo e a mania de maltratar os conterrâneos, principalmente os que ganham algum destaque, diminuindo seus méritos e desvalorizando seu trabalho, comportamento típico de gente invejosa, cujas janelas permanecem sempre abertas para a vida alheia. Em dado trecho, referindo-se a grandes artistas que não obtiveram o reconhecimento devido por essas plagas, o texto diz: “Aqui ninguém suporta o sucesso alheio. Esta é a cidade da inveja e do olho gordo. Se o vizinho comprar algum objeto de desejo, se alguém adquirir algo grandioso, se alguém se destacar, passa a ser motivo de ódio dos demais. O ditado diz que ninguém é profeta em sua terra. Isto, em Natal, ganha proporções desérticas… É uma cidade amordaçada. Seus filhos mais ilustres são como profetas que pregam no deserto para gafanhotos indiferentes.”

O próprio personagem principal se viu como vítima de fofocas: “Jonas percebia o olhar jocoso por trás das palavras falsamente respeitosas que lhe dirigiam. Fingia não dar atenção, mas por dentro estava nascendo um rancor tão refinado que poucos iriam perceber o quanto iria odiar as pessoas da sua cidade nos anos vindouros.”

Apesar de ter vividos os dissabores e decepções comuns à grande maioria de nós, Jonas prosperou como comerciante, desfrutando de uma vida plena e confortável. Tinha a sorte dos predestinados. Tudo lhe favorecia nos momentos em que mais precisava. Mesmo quando sofria um forte revés, logo o destino lhe presenteava com um golpe de sorte. Graças a isso, não passou grandes apertos com dinheiro. Os maiores sobressaltos vividos por ele se relacionavam ao contexto histórico vivido, fosse a 2ª Guerra Mundial ou a estúpida Ditadura Militar. Tanto que o narrador opta por eliminar a figura de um vilão central, antagonista do “herói”. Um dos personagens que apresentou potencial para ser esta encarnação do mal, que temperaria a trama e criaria conflito suficiente para dar uma maior complexidade à ficção, não se desenvolve para se converter neste malfeitor clássico. Esse expediente (de condicionar as ações do personagem a fatores externos) permitiu ao narrador dar maior enfoque à história de Natal sem maiores distrações.

Mesmo sendo um homem à moda antiga, como a grande maioria da população de Natal, o negociante, diferentemente de nossa elite empresarial e política, formada basicamente por ignorantes endinheirados, amava a literatura e devotava enorme admiração por Câmara Cascudo. Esta é outra tacada certeira do autor. Por meio dessa preferência do protagonista, o autor nos conduz pelas vidas e obras de Auta de Souza, Henrique Castriciano, Zila Mamede e Cascudo, entre outros, citando os livros lançados com o passar dos anos. Os lançamentos de Cascudo, por exemplo, são introduzidos na história com muita naturalidade, entremeando a narrativa marcada por sucessões de governos e a passagem do tempo para Jonas. Com isso, os leitores têm a oportunidade de compartilhar do conhecimento de Carlão acerca de nossos grandes autores.

Tal apreço de Jonas Camarão pela vida intelectual contrasta com muitos dos seus colegas empresários locais, tão indiferentes a todos os assuntos que não se relacionem a dinheiro. Sobre isso, o narrador se questiona: “Como seria a vida de alguém assim, cuja única diversão é ganhar dinheiro? Que tipo de vazio poderia ser preenchido apenas com o ato mecânico de faturar mais? Que almas abrigam espíritos tão embrutecidos?” Em certo momento, também relata um comportamento frequente entre a elite natalense: “Enquanto se é rico, todas as atenções lhe são prestadas. Quando se é pobre, todos viram as costas. Você vale o que possui.” A conclusão a que chega é que, em face à forma desumana com que os empregadores tratam seus funcionários, “Aqui, a revolução industrial chegou com atraso”.

O livro de Carlos de Souza é indispensável a todos aqueles que pretendem aprender sobre Natal, o Rio Grande do Norte e, por extensão, sobre si próprios. Recomendo. 

Marvel Comics: a história de quem fez história contando histórias

março 19, 2014

Marvel

Adquira já o seu nas melhores casas do ramo.

Li mês passado o livro “Marvel Comics – A História Secreta” do jornalista americano Sean Howe. Um livraço que conta em detalhes toda a trajetória da editora de quadrinhos mais popular do mundo desde a sua fundação até o estrondoso sucesso do Marvel Studios. Em muitos momentos, fã devoto que sou, senti-me como um religioso ao descobrir as (muitas) faltas daqueles que comandam os destinos de sua fé.

A Marvel foi desde sempre o lar de algumas das mentes mais brilhantes e produtivas de suas gerações, porém também viveu muitas controvérsias, foi palco de disputas agressivas e deu lugar a atitudes bastante questionáveis (para dizer o mínimo). Tantos foram os problemas enfrentados que é supreendente que tenha chegado tão longe e transformado suas histórias complexas e entrelaçadas (o chamado “Universo Marvel”) em um fenômeno de popularidade de escala mundial. Por outro lado, tantas (e acreditem: foram muitas) trapalhadas explicam o porquê de a empresa ter chegado tão tardiamente aos cinemas de maneira satisfatória.

O livro conta como empresários inescrupulosos que não davam a mínima para  quadrinhos, os personagens, a coerência criativa das histórias e, sobretudo, para os seus criadores contratados, comandaram a empresa durante décadas sucessivas, quase arruinando para sempre esta indústria cultural que ganhou dos fãs a carinhosa alcunha de “Casa das Ideias”. Também houve inúmeros editores egocêntricos, diretores arrogantes, artistas instáveis e brigas, muitas brigas. Nem o cânone Stan Lee escapa de graves acusações feitas por alguns dos seus principais parceiros (Jack Kirby e Steve Ditko), que criaram junto com ele heróis icônicos do imaginário pop atual.

Em meio a todos esses conflitos, nomes que fizeram (e fazem) a história das HQs pipocam na narrativa, contribuindo com toda a riqueza que fez da Marvel o que ela é hoje no inconsciente coletivo do mundo do entretenimento: John Byrne, Frank Miller, Chris Claremond, Jack (King) Kirby, Steve Ditko e, claro, Stan Lee.

Recomendo fortemente a leitura. Vale cada página, cada nota de rodapé. Destaque ainda para a tradução impecável do jornalista Érico Assis.

10 anos de JOVENS ESCRIBAS – Parte 01 – Verão Veraneio – O livro da estação.

março 18, 2014

1 Capa Verão Veraneio FECHADA

Verão Veraneio – O livro da estação.

Enquanto as conversas com os outros 3 autores caminhavam para o surgimento do selo Jovens Escribas, eu continuei escrevendo crônicas de humor para compor o meu primeiro livro. Já havia decidido qual nome dar à iminente publicação: “Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada”.

Fui reunindo textos e fazendo, empiricamente, o trabalho de auto-edição que, mal sabia eu, marcaria bastante minha vida dali pra frente. Quando Modrack Freire, diretor de arte que já havia concluído o logotipo do selo, se ofereceu para fazer o livro, começamos a imaginar como poderia ser a capa. Logo criamos uma imagem em nossa tempestade cerebral: a foto de um baldinho de criança à beira mar sendo utilizado para gelar cerveja, unindo a inocência presente na leveza das crônicas com a irreverência do humor também bastante característico nos textos. Na quarta capa, haveria outra foto: uma trave de “mirim” deixada de lado com o chão impecável em torno dela. Como se os jogadores não tivessem algo melhor para fazer naquele dia (beber, paquerar, curtir) do que jogar futebol. O fotógrafo convidado a fazer os cliques foi Giovanni Sérgio, mago das lentes, ídolo de longa data.

O fotógrafo Giovanni Sérgio - lindo e competente.

O fotógrafo Giovanni Sérgio – lindo e competente.

Com a direção de arte, diagramação e fotos garantidas, precisava batalhar agora um nome relevante que topasse assinar as orelhas da obra. Tinha que ser alguém reconhecido na literatura, de forma que o livro chegasse às pessoas com algum respaldo importante. Meu pai, em conversa com François Silvestre, chegou à conclusão que eu poderia procurar Nei Leandro de Castro, uma vez que eram muito amigos desde os tempos em que a Ditadura Militar os perseguira e prendera algumas décadas antes. Procuramos Nei que, num primeiro contato por e-mail, disse-me com sinceridade que só escreveria se gostasse do que lesse. Fiquei muito animado com a possibilidade e lhe entreguei o material impresso e encadernado em mãos, numa de suas vindas a Natal, naquele ano de 2003.

Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro

Menos de uma semana depois, Nei Leandro me escreveu. Sua mensagem veio repleta de elogios e terminava com sua concordância em escrever a orelha. Em mais alguns dias, o texto estava em minha caixa de entrada de e-mail. Em alguns trechos mais lisonjeiros, Nei dizia o seguinte:

Carlos Fialho me surpreende. Primeiro, por sua precocidade. Segundo, porque as suas crônicas são bem escritas, docemente sacanas, inteligentes, e nos dá a certeza de um escritor, que não há de ficar nos limites da crônica.

Os textos deste livro têm a idade e a linguagem  de um garotão bem resolvido com ele mesmo. Os temas  – gírias regionais, porres, rock, vídeo-game, paqueras, Natal, cinema, carnatais, carnavais, etc. – são tratados com graça e ironia, leveza e fino senso de humor.

Carlos Fialho, cronista, precoce, publicitário, devorador de livros, autor das crônicas deliciosas deste Verão veraneio, vai chegar lá. Esse garoto vai longe.

Além de Nei, procurei um autor adequado para o prefácio. Não precisava ser famoso, mas que tivesse um estilo mordaz e bom humor, de forma a combinar com o conteúdo do livro. Escolhi meu ex-colega de faculdade, George Wilde, que fez um texto preciso, de acordo com o que eu pretendia. Destaco uma pequena parte:

Ao ler o livro, descobri que dentro de Fialho existe algo grandioso: a sua percepção em relação ao nosso dia-a-dia. Afinal, poucas pessoas conseguem sair do círculo da rotina para perceber o verdadeiro circo em que vivemos.”

George Wilde - o homem do prefácio

George Wilde – o homem do prefácio

A campanha publicitária foi elaborada com alguns títulos bem humorados, bem ao estilo do livro.

anuncio verissimo

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

 

A assessoria de imprensa contou com indicações de colegas do curso de Jornalismo da UFRN. Minha primeira entrevista foi concedida a Marcílio Amorim (Jornal de Hoje) e a segunda a Hayssa Pachêco do Diário de Natal.

2004 - VV - JH1

Mas a maior responsável pela divulgação do meu primeiro lançamento não era a imprensa nem a publicidade. Quem promoveu o evento a ponto de transformá-lo em sucesso foi minha mãe, Lurdete. Quando percebeu que era sério mesmo “essa história de livro”, arregaçou as mangas e telefonou pra cada parente, cada amiga, cada conhecido, reforçando bastante a frequência de presentes na noite de Verão Veraneio. O local escolhido foi a AS Livros do Praia Shopping, uma livraria acolhedora que tinha como gerente Cícero, um cara que dava bastante espaço a autores locais. O saldo da noite foi um estrondoso sucesso (163 livros vendidos) num ambiente preenchido de amigos, parentes e colegas de trabalho. Só a partir do segundo livro, essa frequência seria reforçada por leitores.

Quanta gente veio ver!

Quanta gente veio ver!

A noite foi tão agradável que Patrício Jr., que escrevia um blog, publicou uma postagem falando de como fora legal o evento (a qual reproduzo no fim desta publicação). Foi um belo cartão de visitas, indicativo do que estaria por vir num futuro não tão distante e também das possibilidades de crescimento e expansão que o então selo editorial acabaria por aproveitar com o passar dos anos.

“Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada” trazia 5 capítulos. No primeiro, “Galado e outras palavras”, havia temáticas mais gerais. Entre elas, alguns textos merecem destaque como “Galado” que me notabilizou em muitos rincões da Internet e “A Loja de Inconveniência” que até hoje se mantém como um dos meus preferidos. No segundo capítulo, “Cruvinel – o bom de bola”, apresento um personagem que me acompanhou com o passar dos anos e que, mês que vem, ganhará livro próprio. No terceiro, “Mano Celo”, nascia o protagonista do meu livro mais vendido até hoje e que, ano que vem, ganhará mais uma publicação caprichada com todas as suas histórias reescritas. Em seguida, vinha “Vi e gostei” com crônicas sobre cinema. Para fechar, o capítulo mais legal do livro: “Aconteceu no verão” com as histórias pertinentes ao tal “Verão Veraneio” que dá título ao livro.

E assim foi dado o pontapé inicial para a, hoje decana, editora JOVENS ESCRIBAS. Continuem acompanhando aqui nossa história. Detalhe: o livro esgotou sua primeira tiragem em apenas 4 meses. 

NO PRÓXIMO TEXTO: LÍTIO – PATRÍCIO À FLOR DA PELE

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BÔNUS: POST DE PATRÍCIO NO SEU BLOG PESSOAL – O PLOG

06/02/2004 

há vida inteligente
no mercado publicitário

Quem trabalha com publicidade sabe: de tempos em tempos, tem uma “festa do mercado”. Tais eventos, sempre patrocinados por veículos, fornecedores, clientes ou ambos, têm por maior finalidade embebedar todo mundo, calar a boca de quem está perscrutando que o ano foi ruim e, por residual, reunir profissionais para um bate-papo informal. Pois é, parece um paraíso, mas tais “festas do mercado” haviam se tornado um verdadeiro transtorno. Passo o dia todo numa sala falando/fazendo/refazendo/desfazendo/tentando fazer publicidade. A última coisa de que preciso é estender esta missão ao meu happy-hour. Como prova de que nem tudo está perdido, houve esta semana o lançamento do livro de Fialho, “Verão Veraneio”, que não pretendia ser uma “festa de mercado”, mas acabou sendo por reunir exatamente as mesmas carinhas de sempre. O que me surpreendeu foram os temas das conversas. Ninguém, por exemplo, me perguntou “Como é que está la’?”. Ok, tudo bem, uma pessoas me perguntou isto, mas o assunto morreu quando eu respondi “Lá onde?”. Uma pessoa a noite inteira. Nada mal. Em outras “festas de mercado”, a famigerada pergunta “Como é que está lá?” é dita antes mesmo do “Tudo bem, broder?”. Já é, praticamente, sinônimo de oi. No lançamento de “Verão Veraneio”, porém, tudo foi diferente. Fialho conseguiu a façanha de reunir as mesmas pessoas de sempre fazendo, no entanto, com que todas soassem inéditas. Não sei se foi o fato de estarmos todos na AS Livros, rodeados de Dickens e Saramago e Proust e Pessoa e Machado e Camus. Birita? Claro que teve. Buffet? Sim, impecável. Bêbados chatos? Uh, nossa, e como! Mas estava tudo agradabilíssimo, tudo soando como um lançamento deve soar. Os temas conversados iam de autores consagrados a bandas de rock obscuras, sempre com tiradas inteligentes, observações pertinentes, risos na medida certa. Um éden para amantes do bom e velho papo construtivo como eu. Nunca gostei tanto das “pessoas do mercado”. O livro, graças aos céus, vendeu bem. Fialho, coitado, deve estar cheio de bolhas nos dedos de tantas dedicatórias escritas. E eu, exemplar autografado na mão, cheio de riso a caminho do estacionamento, concluí que a melhor das “festas do mercado” que eu já fui na minha vida foi o lançamento do livro do meu bróder. Mesmo que não tenha sido uma “festa de mercado”.

 

Coluna do Novo Jornal – 107– 22.09.2012 – A incrível mulher que asfaltou vidas

março 17, 2014

Micarla era fantástica de tão patética. Comparo suas ações e palavras às de um bobo da corte com péssimo gosto ou, talvez, com vocação para o humor negro. Ela era tão atrapalhada que, por vezes, eu me perguntava se não estava fazendo aquilo de propósito, para chamar a atenção através do grotesco, atrair olhares por meio do ridículo, provocar risos nervosos e incrédulos de uma população que, abismada, via que a gestão da cidade estava nas mãos de alguém completamente alheia à realidade que a cercava. Uma de suas declarações mais emblemáticas, já no fim do mandato, originou a crônica que publico abaixo.

Boa leitura, apesar das péssimas lembranças.

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A incrível mulher que asfaltou vidas

Na eleição, Micarla teve apoios poderosos.

Na eleição, Micarla teve apoios poderosos.

Mas depois de pouco tempo, ela já não passava uma boa imagem pra ninguém.

Mas depois de pouco tempo, ela já não passava uma boa imagem pra ninguém.

A verdade é que vivemos numa terra que pouco ou nada valoriza os grandes feitos de notáveis conterrâneos, havemos de reconhecer isto. O caso da nossa magnânima ex-prefeita em exercício, Micarla de Sousa, que na semana passada auto-recebeu de si mesma uma nota 10 pela administração que ora encerra sem nunca ter iniciado de verdade. Nossa chefe do executivo municipal tem devotado todo o seu amor, dedicação e apreço pela cidade que abraçou e resolveu governar (para noooossa alegria?). O problema é que, em troca, ela só tem merecido o nosso fel, a zombaria deliberada de um povo desalmado que a enganou, dando-lhe 60% dos votos e a sensação de que era amada, para depois virar-lhe as costas sem a menor cerimônia, convertendo-lhe em vítima preferencial do achincalhe geral e irrestrito.

Não sou afeito a corroborar com um absurdo como estes. Como pode alguém ser alvo de tantas injustiças em sequência a ponto de ter recebido a humilhação pública dos atuais candidatos ao seu cargo. Conta-se por aí que, entre um cântico religioso e outro, ela tem entoado aos prantos: “Ninguém me ama / Ninguém me quer / Ninguém me chama / De meu amor”. Fico triste que as coisas tenham chegado a esse ponto e gostaria de aproveitar este espaço para promover a defesa pública de uma mãe e mulher que tem sofrido ataques sistemáticos de gente da laia de Everton Dantas, Rafael Duarte e Franklin Jorge. Tsc, tsc, tsc.

O mais recente objeto de piadas reproduzidas nas folhas, mesas de bar e espaços virtuais foi a declaração de voto ao seu ex-aliado e, atualmente, maior adversário, Carlos Eduardo Alves, primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para prefeito. O anúncio foi feito no Jornal de Hoje, na rádio 98 e depois confirmado por uma belíssima epístola, uma “carta aberta” endereçada ao candidato. Arrisco dizer que foi a mais significativa missiva da política nacional desde a carta-suicídio de Getúlio Vargas. Muitos, como de praxe, riram do seu conteúdo. Eu, não. Em verdade, confesso aqui que muito me comoveu o texto cheio de sentimento sincero, repleto de amor, tolerância e perdão. Coisa linda de Deus.

A verdade é que a cidade já não suporta mais tanto rancor. Toda essa negatividade que paira no ar, há pelo menos 6 anos, desde que os dois começaram a brigar irradia uma energia ruim que em muito contribui para que a cidade não evolua. Isso precisa parar. Pode perguntar lá na igreja dela. Essas coisas causam encosto, gente. É preciso que estes dois conterrâneos ilustres, que têm trocado farpas, provocações e, nos momentos de maior serenidade, insultos e xingamentos, esfriem a cabeça e cessem toda essa atitude agressiva para com outrem. Dito isto, acho mais do que louvável que nossa líder legítima (nunca é demais lembrar que ela foi escolhida pelo voto) tenha tomado a iniciativa.

No entanto, mais uma vez, a ela foram apontados os mesmos dedos acusadores de outras ocasiões. Quão cruéis ainda seremos capazes de ser com tão distinto ser humano? Não se sabe. Vejam que maldade! Alguns analistas (Salvai-nos, São Alex Nascimento) tiveram a ousadia de declarar que a revelação do voto da mulher foi orquestrada pela cúpula da campanha de Hermano Morais, que seria o verdadeiro candidato dela, para tentar transferir para Carlos Eduardo sua estratosférica rejeição de nada invejáveis 95%.

Não acredito nessas teorias da conspiração. Acho todas meio patéticas, frutos podres de um desespero vil. Será que ninguém percebe que a presidente estadual do PV resolveu passar uma borracha no passado de tanta descortesia mútua? Afinal, raiva demais envenena corações, tornando-se um fardo e nos fazendo perder a razão. A verdade é que foi imbuída das melhores intenções que Micarla declarou publicamente que votaria no candidato do PDT no atual pleito majoritário. Mesmo que alguns teimem em não enxergar tamanha obviedade.

Houve um articulista mais desumano que chegou mesmo a afirmar que, depois de ter abandonado a administração, a prefeita decidiu largar outras coisas, a começar pelo amor-próprio. Muitos foram os que acusaram o ridículo e inusitado da situação a que se expôs a pobre mulher. Alguns salientaram o fato de ela ter usado o próprio filho e até mesmo Deus como álibis para a suposta mentira. Na minha opinião, quem sustenta esse tipo de verdade é tão radical quanto os manifestantes que queimaram ônibus e ameaçam abertamente atentar contra o bigode de Augusto Maranhão do SETURN. Se querem continuar com essas opiniões extremas, por que não vão expressá-las lá na nossa Praça Tahrir, logo ali no cruzamento do Midway com a Bernardo Vieira?

Daqui a pouco vão inventar todo tipo de inverdades sobre Micarla, como se as pilhérias que já criaram não fossem o bastante para massacrar com uma pessoa tão sensível. É capaz de dizerem que essa história de conversão religiosa é um embuste, que as entrevistas concedidas por elas são cheias de uma interpretação melodramática cafona, ao estilo daqueles folhetins mexicanos que a emissora da sua família retransmite. Também dirão que ela abusa do gerundismo só porque de vez em quando ela diz coisas como: “eu vou estar votando em Carlos Eduardo; eu não vou estar apoiando Hermano.” Ora, qual o problema? Só porque é jornalista (sic) não pode cometer um deslizezinho a toa?  

Vejam pelo lado bom. É, isso mesmo. Lado bom. Porque as pessoas são assim. só veem o que tem de ruim. As virtudes, ninguém vê. Pois saibam que poderia ser pior. ela poderia, digamos, usar calça saruel em solenidades, botar um piercing no umbigo, andar de pochete pendurada na cintura e sandálias crocs nos pés. Ou, quem sabe?, ela poderia pintar o cabelo de uma cor exótica e desfilar no carnatal, dançando até o chão.

Além do quê, a maior obra dela ninguém repercute. Micarla vai entrar pra história como a prefeita que não calçou as ruas da cidade porque fez uma opção mais importante: “asfaltar vidas”. Percebam que imagem forte e poética. “A mulher que asfaltou vidas.” Na boa, depois de ter dito isso, ela não precisa fazer mais nada até o fim do mandato. Foi uma frase com jeitão de missão cumprida. Porque, se ela quis detonar a cidade, pelo menos nisto, ela foi competente.  

Coluna do Novo Jornal – 106– 15.09.2012 – Nostalgia, aqui me tens em protesto

março 11, 2014

Nostalgia, aqui me tens em protesto.

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Muito antes da atual geração de jovens engajados pegar em cartolinas e sair bradando pelas ruas em prol da coletividade usuária de coletivos, houve grandes ícones da contracultura natalense abraçando causas tão justas quanto as atuais, verdadeiros heróis da contestação local que protagonizaram ótimas histórias de coragem e destemor ao impor-se diante do sistema, de poderosas corporações e dos mais escusos interesses. Homens e mulheres que tinham muito pouco além de um ideal, perfis libertários e disposição para ir à luta. Naquele tempo, não havia tantos moços e moças dispostos a desfraldarem uma bandeira pelas ruas. Os que se arriscavam precisavam conviver com a sempre implacável solidão, esta cruel inibidora de revoluções.

Contarei aqui três breves episódios verídicos de uma época em que os protestos estavam restritos aos mais românticos e incorrigíveis agentes sociais. Poucos e bons que ousavam transmitir ao mundo suas mensagens de amor, compaixão, generosidade e seu clamor por liberdade. Gente desprendida e abnegada que nadava contra a inclemente correnteza de frieza e impiedosa falta de compreensão a que chamamos cotidianamente de civilização.

***

O primeiro deles ocorreu em um circo que se instalara em Natal, na área onde outrora havia o Machadão e hoje é o canteiro de obras da Arena das Dunas. Aquela região da cidade, no lado exterior do estádio, sempre serviu de picadeiro para diversas modalidades do entretenimento como parques, rodeios e até mesmo um carnaval fora de época que ocorria na cidade.

O circo, além dos tradicionais números que encantam o respeitável público, como as estripulias dos palhaços, os trapezistas, malabaristas e outras atrações, também oferecia números com animais treinados. Um belo dia, alguns garotos, militantes dos direitos dos animais, foram ao local para manifestar insatisfação contra a presença dos bichos e a forma como eram mantidos em cativeiro e levados pelo país em condições tão diferentes de seus locais de origem. Os meninos estavam lá, expondo suas razões para que não houvesse mais animais selvagens sendo explorados daquela maneira, ante o visível incômodo dos funcionários da companhia que tentavam enxotá-los de lá. Chamaram, inclusive, a polícia para retirar na marra os rapazes.

Quando o policial chegou, passava por acaso pelo local, um legítimo defensor das liberdades civis, um lendário militante de notável conhecimento político que chamaremos simplesmente de “José”. Por ser mais experiente e bem articulado que a molecada, mesmo sem ter nada a ver com a organização daquele tímido movimento, tomou a frente das negociações com o PM e chamou para si o papel de porta voz dos garotos. Discursou que aquela manifestação não era contrária aos empregos de ninguém e, mesmo que fosse, nada poderia ser feito contra uma ação pacífica como aquela, uma vez que o próprio circo estava instalado em local público. O Zé foi tão eloquente em sua retórica que o policial não podia fazer outra coisa que não acolher seus argumentos. Comunicou aos empregados circenses que não poderia prender o grupo ou sequer mandá-los embora, a não ser que eles agredissem alguém ou atentassem contra a propriedade alheia.

Inconformado com a situação, um tratador de elefantes mais exaltado apontou o dedo para os que protestavam e acusou: “Seus maconheiros vagabundos!”, ao que o agora líder, José, respondeu na lata: “Ei! Vagabundo não!”

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Outro importante guerreiro pouco reconhecido em nossa cidade é um pequeno grande homem de nome Daniel. Este indivíduo multitalentoso sustenta uma firmeza de caráter que só encontra paralelo na clareza de raciocínio exibida por ele. Hoje, profissional bem sucedido na capital, em seu tempo de garotão participou de muitas articulações contrárias ao status quo reinante que massacra os mais humildes em favor de uns poucos privilegiados. Tocava em concertos de rock na defesa de causas que lhes parecessem justas. Fazia parte de uma banda chamada “Doutor Fossa” que tinha entre suas músicas o hit “Luiz Almir”. Lembro que o refrão dizia algo como “Pegue essa ambulância e soque no…” Esqueci como continuava, mas sei que era uma bela canção, verdadeira, advinda do fundo daquele coração inconformado.

Certa vez, Daniel protestava em frente ao McDonalds contra o Capitalismo, seus excessos e todas as injustiças cometidas em nome da mais valia. Esteve lá, acompanhado de alguns companheiros de luta, entre eles o bravo, já citado anteriormente, José. Após algumas horas de manifestação, palavras de ordem entoadas em coro, flagrantes demonstrações de repúdio às desigualdades oriundas do mais desumano dos sistemas econômicos, os dois amigos foram tomados por uma natural e inevitável sensação: a boa e velha fome. Por uma questão prática, resolveram não ir longe para não se afastarem por muito tempo do movimento. Preferiram entrar na lanchonete dos arcos amarelos, pedir duas promoções grandes, matar quem estava lhes matando e voltar para o protesto com ânimo renovado a base das mais saborosas iguarias do império. Depois disso, arrotar “abaixo o capitalismo” ficou bem mais fácil, até porque as duas Cocas que eles tomaram foram de 500 ml.

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Por fim, uma história de duas décadas atrás da qual participaram o combativo escritor Pablo Capistrano, recentemente uma pedra no sapato da Presidenta Dilma na questão das greves das Instituições Federais, e o filho de um brilhante jornalista, que também é repórter e que vou chamar, hipoteticamente, de Alex. Na ocasião, provavelmente 1995, eles não estavam participando exatamente de um protesto, mas de certa forma, de um movimento de resistência, pois decidiram pegar um trem até Ceará-Mirim para assistir uma das primeiras edições do, hoje clássico, Tributo a Raul. Isso, numa cidade-estado completamente dominada pela monocultura opressiva do forró-pagode-axé.

Ao desembarcarem no aprazível município do evento, vestidos de pouco usuais camisas de flanela xadrezes (eram os tempos áureos do Movimento Grunge), foram interpelados por um dos organizadores do evento: “Vocês são de Vanguarda?”. Ao que o lépido Alex respondeu de chofre: “Não, não. A gente é de Natal mesmo.”

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E assim estes 3 revolucionários, contemporâneos meus, entraram para a história de Natal. Podem perguntar por aí. É tudo a mais absoluta verdade.

Coluna do Novo Jornal – 105– 08.09.2012 – Mano Celo – Ele protesta

março 7, 2014

No dia 1º de setembro de 2012, publiquei no Novo Jornal, uma coluna chamada “Eu protesto” na qual exaltava a parcela da juventude que havia saído às ruas em Natal para protestar contra a gestão de Micarla de Sousa. A razão do elogio foi pela negação do fato de que nossos estudantes e jovens eram completamente alheios a tudo, analfabetos políticos e comodistas incorrigíveis. Isso já não se sustentava como verdade, pelo menos não no que dizia respeito aos que saíram às ruas para protestar.

Como considero aquele texto “Eu protesto” um tanto datado, pulo para a próxima coluna, a de número 105, na qual eu conto sobre o desempenho do Mano Celo no movimento e quais teriam sido suas consequências.

Divirtam-se!

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Mano Celo: ele protesta.

Ilustração de Rafael Coutinho

Ilustração de Rafael Coutinho

Nos protestos contrários à majoração das passagens de ônibus, senti falta de um personagem comum nesse tipo de manifestação em Natal, um tipo tão peculiar quanto improvável a participar de tais eventos com toda a sua vitalidade, sempre sensível a injustiças diversas e disposto a lutar contra o padecimento coletivo de comunidades mais vulneráveis às impiedosas espoliações impostas por nossos políticos e classes dominantes. Este jovem, a que me refiro (batizado Marcelo, mas conhecido pela alcunha de Mano Celo) saiu de cena no fim do ano passado e desempenhou importante papel em várias lutas recentes, sendo protagonista, inclusive do movimento #ForaMicarla que redundou com a renúncia da prefeita de Natal no segundo semestre de 2011. Pelo menos, foi alguns imaginaram. Aos que desconhecem o ocorrido, contarei com prazer como se deu tão pitoresco e deleitoso episódio.

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Natal, 2011 D.C.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton é um rapaz de classe alta, mas que tenta estreitar suas ações com os mais necessitados, pregando justiça social numa cidade tão marcada pela desigualdade como esta capital dos Magos comissionados. Todas as suas tentativas de espalhar a mensagem de igualdade entre classes foram, desafortunadamente, frustradas pelos mais elementares equívocos, pela dificuldade da plateia em compreender as letras do seu rap politizado e pela interpretação errônea do público que sempre confundiu sua arte com escracho e humor.

As duas tentativas mais recentes de participar dos protestos organizados na cidade, a marcha da maconha de 2010 e o #CombustívelMaisBaratoJá de 2011, caíram no ridículo e no descrédito. O Mano Celo, como era conhecido artisticamente, sofria com isso. Ele achava que tinha uma missão, um papel muito importante a desempenhar na mudança social em curso na cidade. Sentia-se o porta-voz da retirada do poder das mãos das elites e sua entrega ao legítimo dono da cidade, o povo.

Sua frustração era grandiosa e a vontade de ser levado a sério parecia vislumbrar mais uma oportunidade. A insatisfação da população de Natal com a prefeita Micarla de Sousa gerou mais um movimento de protesto: o #ForaMicarla! Mano Celo, desta vez, não esperou ser convidado. Procurou os organizadores disposto a contribuir com os trabalhos organizados pelos líderes. Sabedores que eles eram da trajetória recente do rapaz, fizeram uma exigência. Ele poderia participar, mas estava proibido de rimar qualquer palavra que fosse ou mesmo de se aproximar de um microfone. Injuriado, puto da vida, extremamente contrariado, o Mano topou colaborar mesmo assim. Tudo em nome de uma boa causa.

Nosso herói participou da grande movimentação no cruzamento da Bernardo Vieira com a Salgado Filho. Agiu discretamente. Ficou quietinho o tempo todo, no máximo engrossando o coro e entoando palavras de ordem puxadas por outros manifestantes e que, para o bem geral dos presentes, não eram de sua autoria. Na passeata organizada na semana seguinte para a Avenida Roberto Freire, foi ainda mais radical, entrando mudo e saindo calado. Resistiu bravamente. Aí veio a ocupação da Câmara dos Vereadores. Era preciso arregimentar voluntários que aceitassem acampar no pátio. Como o Mano Celo é um rapaz bravo e destemido, entrou de cabeça no movimento. Comprou uma barraca toda invocada na Centauro. A barraca tinha ar-condicionado, sala, dois quartos, varanda ampla e um pequeno gerador de energia.

Logo, as assembleias do movimento passaram a ser realizadas dentro da barraca do Mano. Até vereadores simpatizantes da causa dos jovens foram conferir a suntuosa estrutura da barraca. Os jornais, os blogues, as redes sociais só falavam da mansão armada no pátio da câmara dos vereadores. Não demorou para começarem as especulações a respeito da origem do dinheiro que financiou aquela estrutura. Uns disseram que se tratava de financiamento de políticos oposicionistas e o movimento passou a ser seriamente questionado, especialmente por uma conhecida blogueira tuiteira picareta cujo blogue contava com patrocínio da Prefeitura e um certo jornalista decano das colunas impressas e porta-voz dos reaças de província. A descoberta da origem abastada e tradicional do Mano também forneceu toda a munição necessária para que a “imprensa oficial” chafurdasse na lama das falsas acusações.

Com a repercussão negativa, a agressividade com que o #ForaMicarla vinha sendo tratado pelos meios de comunicação, fazia-se necessário que a barraca do Mano fosse retirada do local. Os organizadores marcaram então uma entrevista coletiva para anunciar a retirada da barraca da discórdia e explicar que ela havia sido comprada com a mesada do Marcelo Dutton. Na coletiva, o Mano tomou a palavra e começou:

Eu sou Mano Celo,

o dono da barraca.

Um jovem muito sério,

sempre do lado da massa.

 

Comprei esse acessório

Com a grana do meu pai

Por um preço muito jóia

É mole ou quer mais?

 

Não sejamos caretas

De crer nessas mentiras

De blogueiras picaretas

Que adoram intrigas.

As centenas de pessoas presentes no pátio da Câmara explodiram em vibração incontida. As rimas, ainda que péssimas, do Mano Celo tiveram seu momento de redenção, havendo se revelado muitíssimo importantes para que o movimento #ForaMicarla ganhasse força e importância até que a prefeita, pobrezinha, fosse defenestrada do cargo. Muitos atribuem sua queda às declamações públicas do Mano Celo que começaram naquele episódio da barraca e se seguiram semanalmente pelos meses seguintes.

Alguns especularam que o Mano seria candidato a vereador no atual pleito. Propostas não faltaram, mas ele negou. Disse para quem quisesse ouvir que sua missão já fora cumprida.

Mano Celo, ele protesta.