Coluna do Novo Jornal – 105– 08.09.2012 – Mano Celo – Ele protesta

No dia 1º de setembro de 2012, publiquei no Novo Jornal, uma coluna chamada “Eu protesto” na qual exaltava a parcela da juventude que havia saído às ruas em Natal para protestar contra a gestão de Micarla de Sousa. A razão do elogio foi pela negação do fato de que nossos estudantes e jovens eram completamente alheios a tudo, analfabetos políticos e comodistas incorrigíveis. Isso já não se sustentava como verdade, pelo menos não no que dizia respeito aos que saíram às ruas para protestar.

Como considero aquele texto “Eu protesto” um tanto datado, pulo para a próxima coluna, a de número 105, na qual eu conto sobre o desempenho do Mano Celo no movimento e quais teriam sido suas consequências.

Divirtam-se!

***

Mano Celo: ele protesta.

Ilustração de Rafael Coutinho

Ilustração de Rafael Coutinho

Nos protestos contrários à majoração das passagens de ônibus, senti falta de um personagem comum nesse tipo de manifestação em Natal, um tipo tão peculiar quanto improvável a participar de tais eventos com toda a sua vitalidade, sempre sensível a injustiças diversas e disposto a lutar contra o padecimento coletivo de comunidades mais vulneráveis às impiedosas espoliações impostas por nossos políticos e classes dominantes. Este jovem, a que me refiro (batizado Marcelo, mas conhecido pela alcunha de Mano Celo) saiu de cena no fim do ano passado e desempenhou importante papel em várias lutas recentes, sendo protagonista, inclusive do movimento #ForaMicarla que redundou com a renúncia da prefeita de Natal no segundo semestre de 2011. Pelo menos, foi alguns imaginaram. Aos que desconhecem o ocorrido, contarei com prazer como se deu tão pitoresco e deleitoso episódio.

***

Natal, 2011 D.C.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton é um rapaz de classe alta, mas que tenta estreitar suas ações com os mais necessitados, pregando justiça social numa cidade tão marcada pela desigualdade como esta capital dos Magos comissionados. Todas as suas tentativas de espalhar a mensagem de igualdade entre classes foram, desafortunadamente, frustradas pelos mais elementares equívocos, pela dificuldade da plateia em compreender as letras do seu rap politizado e pela interpretação errônea do público que sempre confundiu sua arte com escracho e humor.

As duas tentativas mais recentes de participar dos protestos organizados na cidade, a marcha da maconha de 2010 e o #CombustívelMaisBaratoJá de 2011, caíram no ridículo e no descrédito. O Mano Celo, como era conhecido artisticamente, sofria com isso. Ele achava que tinha uma missão, um papel muito importante a desempenhar na mudança social em curso na cidade. Sentia-se o porta-voz da retirada do poder das mãos das elites e sua entrega ao legítimo dono da cidade, o povo.

Sua frustração era grandiosa e a vontade de ser levado a sério parecia vislumbrar mais uma oportunidade. A insatisfação da população de Natal com a prefeita Micarla de Sousa gerou mais um movimento de protesto: o #ForaMicarla! Mano Celo, desta vez, não esperou ser convidado. Procurou os organizadores disposto a contribuir com os trabalhos organizados pelos líderes. Sabedores que eles eram da trajetória recente do rapaz, fizeram uma exigência. Ele poderia participar, mas estava proibido de rimar qualquer palavra que fosse ou mesmo de se aproximar de um microfone. Injuriado, puto da vida, extremamente contrariado, o Mano topou colaborar mesmo assim. Tudo em nome de uma boa causa.

Nosso herói participou da grande movimentação no cruzamento da Bernardo Vieira com a Salgado Filho. Agiu discretamente. Ficou quietinho o tempo todo, no máximo engrossando o coro e entoando palavras de ordem puxadas por outros manifestantes e que, para o bem geral dos presentes, não eram de sua autoria. Na passeata organizada na semana seguinte para a Avenida Roberto Freire, foi ainda mais radical, entrando mudo e saindo calado. Resistiu bravamente. Aí veio a ocupação da Câmara dos Vereadores. Era preciso arregimentar voluntários que aceitassem acampar no pátio. Como o Mano Celo é um rapaz bravo e destemido, entrou de cabeça no movimento. Comprou uma barraca toda invocada na Centauro. A barraca tinha ar-condicionado, sala, dois quartos, varanda ampla e um pequeno gerador de energia.

Logo, as assembleias do movimento passaram a ser realizadas dentro da barraca do Mano. Até vereadores simpatizantes da causa dos jovens foram conferir a suntuosa estrutura da barraca. Os jornais, os blogues, as redes sociais só falavam da mansão armada no pátio da câmara dos vereadores. Não demorou para começarem as especulações a respeito da origem do dinheiro que financiou aquela estrutura. Uns disseram que se tratava de financiamento de políticos oposicionistas e o movimento passou a ser seriamente questionado, especialmente por uma conhecida blogueira tuiteira picareta cujo blogue contava com patrocínio da Prefeitura e um certo jornalista decano das colunas impressas e porta-voz dos reaças de província. A descoberta da origem abastada e tradicional do Mano também forneceu toda a munição necessária para que a “imprensa oficial” chafurdasse na lama das falsas acusações.

Com a repercussão negativa, a agressividade com que o #ForaMicarla vinha sendo tratado pelos meios de comunicação, fazia-se necessário que a barraca do Mano fosse retirada do local. Os organizadores marcaram então uma entrevista coletiva para anunciar a retirada da barraca da discórdia e explicar que ela havia sido comprada com a mesada do Marcelo Dutton. Na coletiva, o Mano tomou a palavra e começou:

Eu sou Mano Celo,

o dono da barraca.

Um jovem muito sério,

sempre do lado da massa.

 

Comprei esse acessório

Com a grana do meu pai

Por um preço muito jóia

É mole ou quer mais?

 

Não sejamos caretas

De crer nessas mentiras

De blogueiras picaretas

Que adoram intrigas.

As centenas de pessoas presentes no pátio da Câmara explodiram em vibração incontida. As rimas, ainda que péssimas, do Mano Celo tiveram seu momento de redenção, havendo se revelado muitíssimo importantes para que o movimento #ForaMicarla ganhasse força e importância até que a prefeita, pobrezinha, fosse defenestrada do cargo. Muitos atribuem sua queda às declamações públicas do Mano Celo que começaram naquele episódio da barraca e se seguiram semanalmente pelos meses seguintes.

Alguns especularam que o Mano seria candidato a vereador no atual pleito. Propostas não faltaram, mas ele negou. Disse para quem quisesse ouvir que sua missão já fora cumprida.

Mano Celo, ele protesta.

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