O Robocop de José Padilha

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Quando fui convidado para a coletânea “Como se não houvesse amanhã: 20 contos baseados na obra da Legião Urbana”, escolhi transformar em ficção, a música “Faroeste Caboclo”, canção que já trazia em si uma narrativa pronta, uma história contada por Renato Russo (e cantada incessantemente por uma geração saudosa), dando ao cantor ares de grande trovador. A surpresa de Henrique Rodrigues, organizador da antologia para a editora Record foi flagrante. Afirmou-me com admiração que eu era um autor corajoso, por mexer num “cânone estabelecido”, que seria mais fácil optar por alguma canção mais enigmática, com margem para interpretações diversas ou mais poética, repleta de figuras de linguagem e significantes que poderiam sugerir vários significados diferentes. O também autor presente na coletânea, Marcelo Moutinho foi da mesma opinião, afirmando que, de todos os convidados, eu estava assumindo os maiores riscos.

É verdade, mas como diria um outro ícone dos anos 80: “todos os meus movimentos foram friamente calculados”.

Escolhi correr os perigos de me expor em demasia aos fãs da banda porque, como toda aposta de alto risco, se desse certo, os ganhos seriam proporcionais ao desafio. E como eu tinha muito pouco a perder (eu era um dos autores menos conhecidos do livro), acredito que a estratégia tenha sido bem traçada. Até porque, semanas depois de lançado, quando a Época fez uma vasta reportagem com o nosso livro e outro semelhante, mas com textos baseados em canções do Chico Buarque, a reportagem escolheu destacar o meu conto. E isso foi bem bacana.

Fiz este preâmbulo imenso (desculpem por isso. Deve ser a abstinência de escrever) para poder embasar alguns comentários a respeito do novo Robocop, dirigido pelo brasileiro José Padilha. Ao diretor, foi dada a oportunidade de realizar um filme de grandes proporções, feito por um estúdio gigante norte-americano, e chances assim não devem ser recusadas. É o tipo da oferta à qual, primeiro dizemos “sim” e só depois pensamos nas implicações que a aceitação possa gerar. O fato de José Padilha ter tido a coragem de recriar um personagem tão icônico do cinema de ficção científica, com lugar cativo na memória afetiva de uma grande parte do público, ganha algum paralelo ao que disse logo acima sobre “correr riscos”, mexer em “cânones estabelecidos” e tal e coisa.

A primeira decisão que ele parece ter tomado, após dar início ao projeto foi a de fazer um filme novo, diferente do original, voltado para problemas distintos do que era mostrado na produção de 1987. A premissa de um policial estropiado que é colocado dentro de uma estrutura robótica para combater o crime se mantém, mas tirando isso, pouco se mantém se comparado com o filme de Paul Verhoeven.

Se os fãs compreenderem isso, poderão curtir um bom filme de ação, correto, acrescido de sub-tramas a respeito de corrupção policial, mercantilismo exacerbado e manipulação da informação pela mídia. A forma como os fatos são distorcidos pelo apresentador vivido por Samuel L. Jackson remetem muito fortemente aos recentes anos W. Bush e sua obsessiva “Guerra contra o Terror”. O Robocop de Padilha é um bom filme, o melhor possível dentro das premissas que tinha que seguir e das inúmeras regras impostas por um “filme de produtor”. De certa forma, foi como se ele tivesse feito o seu “Tropa de Elite”, mas com o Capitão Nascimento vestido de Power Ranger preto. Que venham mais filmes dele, tanto lá como cá. 

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