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Coluna do Novo Jornal – 115 – 17.11.2012 – Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

julho 25, 2014

Em 2010, criei os personagens Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”. A ideia era fazer uma sátira ao universo do Direito e a uma certa tendência ao tecnicismo que leva muitos advogados e juristas a desenvolverem a arte de “falar, falar e não dizer nada”. Na época em que publiquei esta crônica, houve até quem se ofendesse, um senhor que me seguia no Twitter, de nome Carlos Lineu, quis rodar a baiana, promovendo um mini-escândalo em 140 caracteres, mas sua meia dúzia de seguidores não lhe deu ouvidos.

Até porque, o escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” veio pra ficar, construindo uma história bem sucedida de êxitos jurídicos (quer dizer, nem tanto, mas pelo menos eles disfarçam para manter a boa reputação).

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Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

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Caiu como uma bomba no meio jurídico a notícia de que Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”, os mais destacados e brilhantes advogados da cidade formariam uma chapa a fim de pleitear a presidência da OAB. Mesmo com outros dois grupos na disputa, já formados há tempos, com suas candidaturas consolidadas e estratégias em progresso, eles resolveram arriscar, afinal de contas, a presidência da entidade confere a seu ocupante um status de autoridade na sociedade civil, alguém a ser consultado, ouvido e muito respeitado pelos cidadãos. Faz bem à imagem projetada junto ao público externo e também à imprensa, massageia o ego, atrai atenções e olhares, pode gerar novos negócios e muitas oportunidades. Ah, e tem também o fato de fazer bem aos demais, lutar pelos direitos e prezar pelo cumprimento das leis e tal e coisa. Aliás, pelo que andam dizendo, foi mais por essa parte de praticar boas ações e beneficiar a sociedade que os bem sucedidos homens da lei decidiram abraçar mais essa causa. Nada a ver com todo esse lance de poder e vaidade.

A inscrição da candidatura foi feita com êxito. Chapa 3. O embate seria travado contra as de número 1 e 2 e o desafio seria convencer a maioria dos que contavam com registros na entidade a optar por eles. A tarefa não parecia tão árdua se levarmos em conta que os sócios são verdadeiramente admirados pelos inúmeros jovens advogados recém formados. É prudente dizer que o enorme contingente de egressos dos cursos de Direito da cidade, algo equivalente à metade da população universitária natalense, votaria em peso nos doutores Giovanni e Adriano. Afinal, existe praticamente uma faculdade de Direito por esquina, pelo menos nos principais bairros ou nos cruzamentos mais movimentados. Cada uma delas com centenas de alunos encantados pelo charme e capacidade destes autênticos ídolos profissionais.

No entanto, os prolixos e abnegados candidatos não contariam com esta consagradora adesão eleitoral, já que pouquíssimos daqueles formandos conseguiam a aprovação no exame da ordem, que concede o direito a votar nas eleições da entidade. A saída, portanto, seria persuadir os advogados mais experientes a optar por eles e não por nenhuma das chapas cujas campanhas já se encontravam a todo vapor em articulações de bastidores e conversas reservadas nos muitos escritórios e antessalas, nas comarcas, nos corredores dos tribunais e, é claro: nas varas.

Mais uma vez, nossos destemidos protagonistas tinham diante de si um árduo desafio e contavam com sua mais mordaz habilidade para superá-lo: a retórica. Gastariam saliva para reverter situação tão desfavorável, mas estavam prontos e dispostos para enfrentar a difícil caminhada rumo à consagradora vitória final. Na entrevista em que anunciou ser candidato, o Dr. Pinto, com o Dr. Rêgo à sua retaguarda, declarou: “A fim de que não imperem as iniquidades e que não se perpetuem as nulidades vis e abjetas, não me resta outra opção que não seja negar-me a permanecer em estado de negação, inércia e comodismo extremos, enquanto a necessidade premente de minha classe clama por ação e iniciativa da parte daqueles em cuja confiança deve ser depositada, não obstante os imensuráveis muros que se erguem pelo caminho, convertendo-se em quase intransponíveis obstáculos contra os que lutam sem cessar pela justiça e exercício pleno da cidadania junto à coletividade e à comunidade advocatícia, provocando, no entanto, nada mais que o irrefreável ânimo dos que lutam por um ideal, conservam evoluído espírito público e aceitam de bom grado travar o justo combate, ontem, hoje e sempre. Data vênia!”

O jornalista Carlos Viktor Duarte Assunção escolheu como título para a matéria: “Datíssima Vênia!” No texto da matéria, cheio de picardia e a malemolência do jornalismo moleque brasileiro, escreveu que o postulante a presidente “não disse nada, mas falou bonito.” Muitos advogados que leram as páginas do jornal riram do pobre periodista que não contava com suficiente envergadura intelectual para alcançar o elevado vocabulário do reputado jurista nem conhecimento que bastasse para compreender em toda sua amplitude a levemente complexa e bem articulada linguagem utilizada pelo colega Giovanni. O que os homens e mulheres das leis evitavam comentar entre si, por pura vergonha, era que eles próprios não haviam entendido nada das palavras do candidato, mas ficava feio admitir. Alguns se sentiam, inclusive, inclinados a votarem na Chapa 3 com medo de, caso não o fizessem, as pessoas pensassem que eles não haviam compreendido a declaração, mesmo o voto sendo secreto.

Para dar conta da campanha, uma boa assessoria de imprensa e reconhecida agência de propaganda foram contratadas. Não havia jornal sem anúncio da Chapa 3, nem colunista sem notas (com duplo sentido, faz favor) a registrar ou blogueiro sem postagem positiva e elogiosa. A cidade também foi amplamente ornada com adesivos que ocupavam os vidros traseiros de ônibus e carros. As redes sociais, como Twitter e Facebook, também entraram no clima de campanha, com os usuários (muitos alunos das faculdades onde eles lecionavam e estagiários do escritório) divulgando os enormes dotes de Pinto e a impenetrável firmeza de Rêgo.

A estratégia de discurso seguia duas linhas distintas e complementares: além de alardear aos eleitores suas muitas e evidentes qualidades, que lhes conferiam (ou deveriam) inegáveis vantagens, uma tática que se fez usual foi o ataque aos adversários diretos, no caso, os componentes das outras chapas. Valia tudo. Se alguém descobrisse que o candidato a diretor de recreação de uma das outras chapas nunca havia logrado êxito em promover festas e que, numa malfadada despedida de solteiro que organizara para um amigo de infância, a coisa mais gostosa que os convidados comeram foi uma pizza de calabresa do Habib’s, já pipocavam as denúncias “anônimas” por e-mail e as postagens maliciosas nas redes virtuais e blogue$ amigo$. O raciocínio era de que uma pequena sujeira na imagem dos adversários funcionariam como uma mão de cera extra em suas já brilhantes e irretocáveis reputações.

O clima anda quente entre os profissionais da área. A data do pleito se aproxima e este é aguardado com grande ansiedade por toda a classe. É verdade que eles imaginam que tal expectativa contagia toda a cidade, mas sabe-se que, entre as pessoas comuns, que não cursaram Direito nem vivem o dia a dia da mais chata e insípida das carreiras, os advogados valem tanto quanto qualquer outro cidadão. Com ou sem repercussão, no entanto, a eleição se aproxima e, segundo os mais confiáveis institutos de pesquisa da capital, a Chapa 3 desponta como uma das favoritas (no mínimo, fica em terceiro). É esperar para ver. Comenta-se que eles negociam acordos de bastidores para retirar a candidatura na véspera da votação em favor de uma das outras duas concorrentes. Mas “tudo dentro da mais estrita legalidade e total lisura, imbuídos de genuíno espírito cívico, democrático e republicano.”, disse o candidato a vice, Adriano Sérgio Rêgo. Para depois concluir: “Data máxima vênia!”

Coluna do Novo Jornal – 114 – 10.11.2012 – Foca, Ana e o Festival Dosol

julho 23, 2014

Esta é uma “crônica exaltação”, uma espécie de elogio em forma de texto que sempre faço a pessoas que realizam trabalhos edificantes e valiosos, ilhas de empreendedorismo cultural e humano em meio a todo um oceano de mediocridade que insiste em nos rodear e pilhar quaisquer indícios civilizatórios com um tsunami de chorume e burrice endêmica.

Ana e Foca não são assim.

ainda bem.

***

Foca, Ana e o Festival Dosol

Ana e Foca

Foca e Ana na frente do Centro Cultural Dosol – foto Tribuna do Norte.

Hoje é um dia muito importante no meu calendário pessoal, cultural e de lazer. Terá início em Natal mais uma edição do Festival Dosol, celebração musical que vai além do mero entretenimento vazio de outros eventos anuais que recebem vultosos investimentos públicos sem oferecer à cidade seque ruma mísera fração do que o Dosol nos devolve em contrapartida a sua realização. Em dois dias de apresentações, dezenas de bandas, muitas delas locais, passarão pelos 2 palcos da Rua Chile.

Vários dos rapazes e moças munidos de guitarras, baquetas ou simplesmente de suas vozes foram doutrinados e tiveram suas bandas “incubadas” a partir da estrutura e estratégia montada pelo casal à frente do Dosol, Ana Morena Tavares e Ânderson Foca. A combinação selo musical, estúdio para ensaio e gravação, Centro Cultural para apresentações e um longevo e respeitado festival anual, promovendo intercâmbio com bandas de outros lugares, além da oportunidade de tocarem para uma plateia ampla, faz com que surjam novos grupos, gente tocando e compondo música autoral, dando vazão a todo um potencial criativo represado e que encontra no Dosol uma maneira de extravasar seus dotes artísticos de uma forma mais construtiva do que simplesmente pegando uma latinha e batendo uma na outra: tchá, tchá!

 

ATENÇÃO: INTERROMPEMOS ESTA COLUNA PARA UMA BREVE REFLEXÃO!

Aqui cabe uma reflexão que não me canso de propor. O trabalho colaborativo do Dosol tem beneficiado a cultura local ao promover a formação de público para a música autoral, dar a oportunidade de artistas amadurecerem e desenvolverem suas habilidades. Tudo isso numa região da cidade que permite não infernizar a vida de nenhum dos seus habitantes. Em resumo: os benefícios gerados são divididos entre muitos. Em contraponto, o que foi que o Carnatal gerou além do enriquecimento de alguns empresários como Paulinho Freire e os donos da Destaque? Alguém conhece uma banda local surgida a partir do evento festivo puxado por trios elétricos? E nem me venham com a história de que ele gera trabalho e renda, pois as migalhas que acabam caindo nas mãos do povo são pouco menos que uma mísera esmola diante dos milhões em dinheiro público embolsados pelas empresas promotoras. Isso num evento que cobra centenas de reais por cada dia de folia, altamente rentável e, certamente, autossustentável. Na boa, o maior legado dos 4 dias de folia é o cheiro de mijo que impregna nossos narizes na segunda pós-evento.

AGORA VOLTAMOS A NOSSA COLUNA NORMAL.

 

O grande mérito do festival ribeirinho é não sucumbir à armadilha fácil que captura 9 entre 10 natalenses, o lugar-comum do “se dar bem sozinho”, do “farinha pouca meu pirão primeiro” e do egoísmo de ocasião (qualquer ocasião) que impera na cidade. O voluntarismo da trupe roqueira não é exclusiva deles. Podemos perceber também em iniciativas admiráveis como a Casa da Ribeira, o Clowns de Shakespeare e diversas outras. É esse perfil generoso e colaborativo que está por trás do crescimento do evento e da expansão para Mossoró, Caicó e São Paulo de Piratininga. Obviamente, tudo é fruto de muito trabalho e de uma persistência quase obsessiva que percorreu os anos. Posso afirmar com conhecimento de causa, uma vez que fui testemunha ocular da história de Foca desde que ele era apenas um esforçado pegador de ondas vindo do Pará.

Conheci Ânderson através de dois amigos em comum, Caio Vitoriano e Leonardo Medeiros, em um dezembro qualquer dos anos 1990. Naquela estranha e derradeira década do milênio passado, ele era um dos caras que proporcionaram com que se pudesse sair por aí para ouvir algo além do ritmo preferido dos natalenses, o forró-pagode-axé. Eram anos estranhos e algumas válvulas de escape pop respondiam por “Banda Officina” e “Inácio Toca Trumpete” (de Karol Polsadski), além dos ótimos “Mad Dogs” dos ídolos supremos de várias gerações: Paulo Sarkis e Fernando Suassuna.

Quem também fazia parte da “Officina” era Ana Morena. Em meio a uma cidade monocultora por convicção, o casal e seus colegas de banda conseguiam viver de Pop-Rock com bons vencimentos a cada mês. Isso mostrava um lado empreendedor bastante apurado e uma firmeza de propósitos de quem realmente queria atingir seus objetivos. Em que pese eu acompanhar os shows como amigo dos vocalistas, o que me converteu em fã de ambos foi o trabalho árduo à frente do Dosol, iniciado anos depois. Foi ali que eles me convenceram da importância do que faziam, ganhando pontos e estrelas no boletim hipotético no qual emitimos notas mentais e julgamos todas as pessoas que conhecemos em nosso inconsciente.

Com a abnegação, sacrifícios e conquistas obtidas, Ana e Foca evoluíram na classificação de amigos para essas pessoas que a gente tem orgulho em conhecer. Subiram o elevador no meu conceito em virtude de um trabalho notável, colocando Natal entre as cidades onde acontecem coisas boas, que recebem bons concertos de cultura alternativa, por onde passam bandas legais que gostaríamos de ver ao vivo.

Todo mundo deve ter alguém com história semelhante. Um cara que se conhece há tempos e que prospera, vence, se destaca, faz e acontece, nos deixando felizes, como se também fizéssemos parte, de alguma forma, das façanhas empreendidas. Em mim, gera uma sensação boa, pois gosto de verdade de acompanhar o êxito dos amigos. Como fiquei em 2007, quando o festival perdeu o patrocínio devido às jogadas do Governo do Estado e da Fundação José Augusto e mesmo assim ele realizou o festival com mais de 50 bandas, muitas tocando de graça, na brodagem, pra ajudar diante da situação difícil. Vários grupos hospedados em casas de amigos.

E agora chegamos a 2012. Mais uma edição do Festival Dosol tem início. É hora de celebrar o fato de um trabalho persistente, bem feito, prospere e faça tão bem à cidade e sua cena cultural. Todas as iniciativas do Dosol representam uma vitória contra o marasmo, a mesmice, a mediocridade e a estagnação. O sucesso da dupla organizadora e de suas invenções é também uma prova que boas coisas nascem, crescem e prosperam nesta acéfala e ensolarada capital potiguar.

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Coluna do Novo Jornal – 113 – 03.11.2012 – O chato

julho 21, 2014

No dia 03 de novembro, publiquei uma releitura de um texto antigo, no qual eu traçava um perfil de um chato fictício, mas bastante plausível, pois todos nós temos os nossos demônios em versões de amigos que cruzam nossos caminhos e são, convenhamos, chatos pra caralho. Alguns podem ter notado a omissão da coluna de número 112, publicada em 27 de outubro de 2012, mas como o tema era política, preferi não republicar para evitar que ratos e moscas sectários venham ao blog deixar seus fétidos e estúpidos comentários. Pois estes sim, são chatos de verdade!

Agora, divirtam-se com o chato.

***

 

O chato

pentelho

Você conhece o chato. Na verdade, você é íntimo dele. Ele lhe acompanhou em todos os momentos de sua vida, desde a mais tenra infância até a decrepitude que vem com a idade. Foi ele que deu aquela ideia idiota de se inscrever na quadrilha do jardim 2 mesmo sem que vocês soubessem dançar. Aí você foi, passou aquela vergonha na frente de todo o colégio, dos seus familiares, das meninas do jardim da infância (mesmo que naquela época você não ligasse pra elas) e depois ainda tentou minimizar o caso dizendo “Veja bem…” O chato sempre começa suas explicações com um “Veja bem”. E como demoram as explicações do chato.

Aliás, se você deixar o chato começar a falar, é melhor sair correndo imediatamente. Quando ele começa, não para. Nunca. Além de tratar de assuntos totalmente irrelevantes para qualquer ser humano com cérebro maior que o de um calango, eles costumam ser muito abertos ao monólogo. Se eles começam a falar da nova temporada da série mais bestalhona da TV ou do último vídeo game que acabou de sair, despeça-se do seu bom-humor por aquela noite. E mesmo que você tente dar sinais de que não é muito adepto daquele assunto ou está pouco à vontade com aquele papo, ele vai continuar exibindo todo o seu conhecimento sobre a musicografia da Madona. E nem adianta olhar no relógio a cada 5 segundos. O chato não entende indiretas.

Inconveniente ao extremo, ele chega sempre na hora errada. Sabe naqueles domingos em que você quer ficar em casa sem encontrar viv’alma? Aqueles feriados em que só pretende descansar e se preparar para o próximo encontro com os demais seres humanos? Pois é. Precisamente neste dia, ele aparece para fazer uma visita surpresa e, pior, cheio de novidades pra contar! Quando você está com sua namorada ou amigos ou mãe, e ele surge do nada, como um ninja em meio à fumaça, num restaurante, ou barzinho, ou supermercado, diz coisas constrangedoras a seu respeito, revela um apelido oculto, estraga o seu dia como só o chato sabe e é capaz de fazer.

A inconveniência do chato está ligada à ausência de desconfiômetro de que ele sofre. O chato não se liga, não se toca, não toma semancol. Ele fala de assuntos desagradáveis sobre os quais você não quer ouvir, como a eliminação do seu time, ou lembra o quanto você está gorda. Aliás, ele não só cita esses assuntos, como insiste no tema. Discorre longamente sobre sua calvície ou de como você precisa de uma plástica no nariz urgentemente.

O chato discorda de você em todos os assuntos. Ele tem opiniões fortes sobre tudo e, claro, são todas estúpidas, absurdas, inconcebíveis. Mas não adianta tentar discutir com ele. É inútil. O chato de verdade não lhe deixa completar seus raciocínios, exibir seus argumentos. Aliás, é impossível sequer conversar com ele. O chato adora interromper.

Ele sempre tenta se passar por sério, brinca de ser importante, insiste em ser adulto, mesmo que só tenha 11 anos de idade. É aquele que lhe encontra nos lugares e, sempre que há testemunhas, lhe diz: “Cara, precisamos conversar!” Se um dia você o pressionar e tentar saber dele o que tanto ele tem pra conversar com você, não vai descobrir nada. Ou então ele vai passar a destilar uma teoria tão difusa e tangente, desprovida tanto de sentido como de pertinência que você se arrependerá de ter perguntado por 8 gerações.

Quando um chato DDD (que vem de outro Estado ou cidade) se hospeda em sua casa, tenha a certeza de que vai viver os piores dias da sua vida. Dia desses recebi um destes e posso assegurar-lhes que vivi as 36 horas, 12 minutos e 23 segundos, mais longas de toda a história da humanidade. É que o meu amigo chato tinha o poder de transformar instantes em intermináveis sucessões de constrangimentos.

Pra começar, ele usava o banheiro 4 vezes por dia para fazer na privada aquela outra necessidade fisiológica que não é o xixi. E deixava o banheiro completamente empestado a cada nova utilização de uma forma que o Potengi ia parecer perfume francês. Outra peculiaridade dele era sua idolatria por Hilda Hist. Até aí, tudo bem, o problema era fazer questão de dividir sua devoção com o mundo, declamando de cor textos inteiros, por mais longos que fossem. Mas o pior era que essa não era uma exclusividade de Hilda Hist não. Esquetes da TV Pirata, aulas do programa Vestibulando sobre índices pluviométricos, músicas do Rolling Stones. Tudo, ele sabia de memória e citava sempre que podia. E não adiantava dizer um trecho só não. Tinha que ser tudo!

E mesmo com tanto conhecimento profundo a respeito de tudo isso, o chato é incapaz de executar as tarefas mais simples como ligar o computador da sua casa ou abrir a mala do carro. E é para ajudá-lo com tais ações que ele decide lhe acordar às 6 da manhã de um domingo, sem fazer a menor ideia de que está incomodando.

O chato não come verdura, mas só lhe avisa depois que você, cheio de boa vontade e ótimas intenções, serviu o seu prato. Ele olha contrariado para aqueles pedaços de tomate, cebola e pimentão, com um suplicante olhar de vítima e diz condescendente: “Não tem nada não. Pode deixar que eu tiro as verduras”, fazendo você se sentir culpado como se fosse mais terrível que Hitler, Paulo Queixada e Micarla juntos! Então ele retira as verduras e mastiga ruidosamente de boca aberta. Durante a refeição ele faz questão de conversar sobre os seus problemas de furúnculos, a cirurgia de redução de estômago de sua namorada e um conto do Rubem Fonseca chamado “compromancia”.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o chato não é um cara antipático. Ele é animado e alegre. Até demais. Ri alto e de qualquer besteira. E ri das próprias piadas também, muito, mesmo que elas não tenham a menor graça e nem façam nenhum sentido. E é exatamente assim que elas sempre são. A simpatia do chato é irritante. Faz você querer esganá-lo ou beber veneno, o que estiver mais ao alcance para o momento.

No entanto, você não pode matar o chato. Na verdade, você não consegue sequer ser grosseiro com ele. É que você é refém dele. O chato é, apesar de tudo, o cara mais prestativo do mundo e você deve, no mínimo, um grande favor a ele. Foi o chato que passou 2 dias na fila, tomando chuva, sereno e sol na moleira para comprar os 2 últimos ingressos do show da sua banda preferida. E é nesse episódio de um passado remoto que você pensa antes de partir a cabeça dele com um machado. É no ingresso, no sacrifício, no favor que você pensa sempre que vai empurrá-lo de uma sacada alta ou mandá-lo calar a boca. É aquele favor que ninguém mais no mundo quis fazer por você que lhe mantém irremediavelmente ligado ao chato e que o faz ter certeza de que ele vai lhe acompanhar até o ocaso da vida. É difícil admitir, mas essa é a verdade. Por mais chato que isso seja pra você.

Coluna do Novo Jornal – 111– 20.10.2012– É comigo?

julho 17, 2014

Vamos pular a coluna de número 110, pois ela tem um viés político que iria certamente atrair olhares contaminados pelo chorume partidário que já ronda nossas TLs neste ano eleitoral. Passemos então à coluna de número 111, publicada em 20 de outubro de 2012.  Na crônica “É comigo?”, brinco com a dificuldade que os homens têm em entender indiretas. Gosto dela. Ficou leve e divertida.

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É comigo?

Nesta foto, podemos observar uma expressão típica da incapacidade masculina de compreender uma indireta.

Nesta foto, podemos observar a típica expressão de um homem incapaz de compreender uma indireta.

Com a popularização da Internet e o advento das redes sociais, diversos dos nossos hábitos migraram das relações face a face para o ambiente virtual disseminado em lares e escritórios por detrás de telas de cristal líquido e mediante teclados físicos ou projetados em superfícies sensíveis. Porém, apesar de os novos instrumentos funcionarem como catalisadores de relações, acelerando sobremaneira o ritmo com que espalhamos as informações, o comportamento não mudou tanto assim. Nossos jovens e adultos conectados ainda paqueram, conversam, trocam ideias, fazem piadas, ofendem-se, chateiam-se, pedem perdão, fazem as pazes e têm as mesmíssimas sensações dos últimos 10 mil anos, quando deixamos as cavernas e decidimos que não haveria mais fronteiras entre nós e o tão vasto mundo a nossa espera. Das pinturas rupestres para o iPad 3 foi um salto e a verdade é que, tirando o tamanho da tela, pouca coisa mudou.

Um bom exemplo disso é o ancestral costume de dizermos indiretas uns para os outros. Sempre que um grupo de seres humanos se reúne em um ritual, qualquer que seja, de animados churrascos a malogradas reuniões, ela surge do nada, provocando uma reviravolta no ambiente, mandando o clima de aparente normalidade para o espaço e sacudindo o ânimo dos presentes com a força de um furacão de nome exótico. É verdade que muitas são positivas, como elogios enviesados ou cantadas dissimuladas que se utilizam de discrição para conferir maior charme à abordagem amorosa.

Entretanto, as grandes indiretas que abalam estruturas, que roubam nosso chão, que derrubam queixos e reputações, não tem jeito, são agressivas, cáusticas, críticas, venenosas, ferinas e impactantes. São elas que mudam a história da humanidade, destroem relações, acirram disputas entre concorrentes, transformam simples adversários em inimigos mortais, criam frases de efeito capazes de entrar nos anais do imaginário popular ou habitar nosso inconsciente coletivo. Geralmente, elas são melhor proferidas por gente com talento para a atuação. Uma boa indireta que se preze, para alcançar o efeito desejado, deve ser dita ou escrita com os olhos semicerrados, um leve sorriso malicioso no canto dos lábios e uma das sobrancelhas levemente arqueada. Todo cuidado é pouco, pois há os que dosam mal o tom e, em vez de soltar uma boa indireta, acabam por acertar um direto no queixo retórico no receptor desprevenido.

O fenômeno que podemos perceber nos sítios de relacionamento internéticos é que, devido ao voluntarismo de tais endereços eletrônicos e a espontaneidade estimulada pelo espírito do compartilhar, curtir, expressar-se e revelar ao mundo uma persona autêntica e descolada, a prática geral e irrestrita das indiretas virtuais pululam na rede mundial de computadores, tablets, smartphones e afins. Hoje em dia, basta acessar um Facebook e Twitter da vida para ler coisas como: “há empresas que cumprem o que prometem, enquanto outras demoram a entregar a compra, não é mesmo, Ponto Frio?” Quando leio algo assim, posso até imaginar a pessoa do outro lado dando uma rabissaca (é assim que se escreve rabissaca?).

Alguns utilizam os sites para dar recados sinuosos para desafetos, colegas de trabalho, familiares e amigos com quem estejam brigados. São as clássicas frases que contém a expressão “certas pessoas…” Podem prestar atenção. É batata! Tão lugar-comum quanto entrevistas de Carnatal, aqueles cujas perguntas sempre começam com “E aí?”, enquanto as respostas principiam em “Com certeza!” É mais ou menos assim: “Tem certas pessoas que ficam enrolando o dia todo no trabalho enquanto poderiam render mais para a empresa.” Ou ainda: “Eu ajudo a organizar a festa de Natal da família, ao contrário de certas pessoas…”.

As indiretas amorosas também estão em alta nesses loucos tempos de autoafirmação. Reparem que basta um casal se separar para ambos os lados iniciarem a postagem indiscriminada de fotos felizes, tentando transmitir ao mundo como eles estão bem, quando, na verdade, tudo não passa de um expediente barato para mostrar ao ex que está melhor sem ele.

Outro dia vi um conhecido soltar os cachorros contra um inimigo oculto. Ele dizia, colérico, sem revelar o destinatário da missiva bombástica: “Parabéns, seu sabichão! Você que sabe de tudo mais que todo mundo! Desculpe não dominar tão profundamente todo o conhecimento do mundo como você que é dono da verdade e senhor da razão!” Imediatamente, pus-me a pensar que as indiretas em redes sociais atingem todas as pessoas do mundo menos o verdadeiro alvo do petardo. Se considerarmos que metade dos usuários da rede são do sexo masculino, a situação é ainda pior, uma vez que está provado cientificamente que os homens não dispõem de um gene que identifica indiretas. Homem, simplesmente não entende recados cifrados. Nunca! Não adianta! Sem chance!

Eu próprio sofro bastante ao tentar interpretar as mensagens indiretas que aparecem em minhas linhas do tempo, protagonizando verdadeiros contorcionismos faciais para ver se consigo interpretar o que leio. Minha vontade é perguntar para todos os emissores de alfinetadas: “É comigo?” Diante da impossibilidade de descobrir, relaxo e tento me convencer que o remetente está se referindo a outra pessoa. Tenho, inclusive, pensado seriamente em responder todas as indiretas com as quais me deparar daqui por diante de uma maneira mais explícita. Não vou nem perguntar se é comigo. Mando logo pra PQP e pergunto: “Que porra é essa?! Quer brigar?!”

Coluna do Novo Jornal – 109 – 06.10.2012– O assessor xeleléu

julho 17, 2014

Continuando a sequência de republicações de colunas do Novo Jornal, esta é a de número 109. Tratou de um personagem que atuava nos bastidores da gestão municipal, um sujeito oculto, em elipse na gestão, que teve sua importância, seu valor, deu sua contribuição e quase sai de cena sem ter seus méritos devidamente reconhecidos. Ainda bem que pude reparar este erro e no dia 6 de outubro de 2012, prestei-lhe esta singela e sincera homenagem.

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O assessor Xeleléu

Charge de Ivan Cabral só pra ilustrar a postagem.

Charge de Ivan Cabral só pra ilustrar a postagem.

Com o fim de mais um mandato para prefeito e a despedida precoce (ou abandono puro e simples) daqueles que nunca atenderam ao chamado do povo em gerir a cidade, é chegado o momento de renovar a esperança em mais um pleito, oportunidade que bate à nossa porta a cada 4 anos. Porém, percebo que um personagem em especial corria o risco de ver o seu trabalho interrompido sem receber uma homenagem sequer. Refiro-me a alguém que, desde o período eleitoral de 2008, já atuava decisivamente para o “sucesso” das ações verdes. A coluna de hoje serve para reparar essa injustiça cometida por uma omissão imperdoável da imprensa. Aliás, só posso atribuir tal indiferença à inveja que os jornalistas devem sentir deste profissional abnegado e bem sucedido, que alcançou a enorme projeção tão sonhada por tantos deles.

Há quem afirme, do alto de sua arrogância repleta de preconceitos, que muitos dos acontecimentos de Natal em tempos recentes vão entrar para os anais de nossa história como episódios de uma tragicomédia que não serviria nem para passar no folhetim das 6. Comporiam um enredo mais tosco que aquela novela que misturava androides e dinossauros no interior do Brasil. Tais declarações, certamente fazem alusão a alguns assuntos que tratei aqui como “A secretaria da gambiarra”, ou mesmo a personagens cotidianos como a “Incrível mulher que asfaltou vidas” e o “Assessor segura-bolsa”. Porém, faltava ainda falarmos de um protagonista desprezado, um ser oculto em toda essa algazarra, que vive de sussurros e cochichos em meio à histeria e barulheira dos assistentes mais histriônicos e ridículos vereadores da base de apoio, que tenta manter a discrição e simular alguma dignidade ante a balbúrdia geral que se tornou a administração pública municipal em Natal.

Este personagem de si mesmo, até porque opta por um expediente típico dos humildes: o anonimato (os maldosos dizem tratar-se de covardia), demonstra especial predileção pelo jogo de bastidores, os negócios que não vêm a público, mas que acabam caindo no conhecimento de um e de outro e, com algum esforço e curiosidade, vindo falar aos ouvidos deste colunista verborrágico que clama pela vossa companhia todos os sábados.

Sua trajetória de êxitos começou quando ele criou uma página política que se pautava pelo humor (na falta de uma definição melhor). Segundo um leitor do veículo, “o blogueiro fazia uso de piadas infames, de péssimo gosto e completamente desprovidas de graça, tentando ridicularizar figuras da política estadual”. O internauta, cuja identidade será preservada, avaliou que o titular do endereço eletrônico pecava pela falta de habilidade cômica e também pela redundância, uma vez que os políticos que ele tentava expor ao ridículo já cumpriam esse papel sozinhos. O curioso do sítio era que os aliados de Micarla de Sousa, além dela própria, costumavam ser poupados das pilhérias do aloprado blogueiro desconhecido. O endereço eletrônico que se perdeu no tempo era conhecido como Blogue do Xeleléu e, nas eleições de 2008, foi a principal fonte de informação de muitos eleitores da classe mediana e da elite natalense.

Descobri que o “Xeleléu News” foi retirado do ar depois de ter sido denunciado e investigado pela Polícia Federal. Vejam vocês, mesmo os personagens inanimados têm medo, uma vez que a punição cairia sobre os criadores e não sobre a criatura. Procurei saber algo sobre o blogueiro misterioso para, quem sabe, desvendar sua verdadeira identidade. Consegui diversos relatos de gente que jura de pés juntos saber quem se escondia por trás da URL do Xeleléu. Como não possuo provas de que elas estejam corretas, descrevo algumas atitudes do suspeito para, quem sabe, vocês poderem saber de quem se trata e prestarem homenagens vocês também.

Um jornalista me disse que Xeleléu é um dos assessores mais fieis da atual prefeita, havendo resistido à constante evasão de secretários e assessores, contrariando a tese de que os ratos fogem do navio diante das primeiras dificuldades. Alguns afundam com a embarcação desde que tenham assegurado uma boa reserva de queijo. Um ex-fornecedor da Prefeitura me disse que chegou a trocar correspondências eletrônicas com ele. “Escreve tudo em caixa alta e com muitos erros de português. Não sei onde ele comprou aquele diploma de jornalismo. Só não é pior que a fixação que a própria prefeita tem pelo gerundismo!”, disse-me o rapaz, bastante exaltado.

Outro que me fez relatos sobre o blogueiro, um publicitário conhecido meu, afirmou que, nas reuniões, ele gosta de botar os pés sobre a mesa e que proibia o uso da palavra “problema” no material publicitário da prefeitura. “Não existe problema pra gente, só solução!” Pedi para este comunicólogo dar uma definição sucinta do assessor. Respondeu que o sujeito parece um “cafajeste de novela”. Também ouvi de um profissional de rádio que trabalhou para o assessor que ele não gosta de ser cobrado. “Uma vez, pedi para me pagarem um serviço que eu havia executado havia mais de 2 anos e ele mandou não me pagar pelo atrevimento de eu ter ido cobrar.”

Uma fonte ilustre a que tive acesso, contou-me que uma das maiores frustrações do Xeleléu foi quando uma política famosa recusou-se a cumprimentá-lo por ter sido informado que ele era o autor da página polêmica. Esta mesma pessoa disse também que ele é um dos poucos natalenses que acredita no sucesso da Copa do Mundo por aqui. Até porque, ele tem ótimo$ motivo$ para acreditar. Também soube que, entre várias manias estranhas, estão a confiança cega em juízes de futebol baianos (Eu, hein? Cada louco com sua mania.) e a compra de bens como imóveis e automóveis com valores muito superiores ao seu ordenado.

Amanhã, no dia 7 de outubro, será selado o fim de uma era. O Assessor Xeleléu deixará de existir. Seguirá seu caminho, atuando no mercado privado ou prestando vantajosas “consultorias”. Talvez aceite, inclusive, começar tudo de novo, criando uma página anônima com o fim de esculhambar conterrâneos e, mais uma vez, ascender na carreira da forma como melhor sabe fazer: rastejando.

Aqui, fica meu registro de sua partida e minha sincera homenagem.