Coluna do Novo Jornal – 111– 20.10.2012– É comigo?

Vamos pular a coluna de número 110, pois ela tem um viés político que iria certamente atrair olhares contaminados pelo chorume partidário que já ronda nossas TLs neste ano eleitoral. Passemos então à coluna de número 111, publicada em 20 de outubro de 2012.  Na crônica “É comigo?”, brinco com a dificuldade que os homens têm em entender indiretas. Gosto dela. Ficou leve e divertida.

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É comigo?

Nesta foto, podemos observar uma expressão típica da incapacidade masculina de compreender uma indireta.

Nesta foto, podemos observar a típica expressão de um homem incapaz de compreender uma indireta.

Com a popularização da Internet e o advento das redes sociais, diversos dos nossos hábitos migraram das relações face a face para o ambiente virtual disseminado em lares e escritórios por detrás de telas de cristal líquido e mediante teclados físicos ou projetados em superfícies sensíveis. Porém, apesar de os novos instrumentos funcionarem como catalisadores de relações, acelerando sobremaneira o ritmo com que espalhamos as informações, o comportamento não mudou tanto assim. Nossos jovens e adultos conectados ainda paqueram, conversam, trocam ideias, fazem piadas, ofendem-se, chateiam-se, pedem perdão, fazem as pazes e têm as mesmíssimas sensações dos últimos 10 mil anos, quando deixamos as cavernas e decidimos que não haveria mais fronteiras entre nós e o tão vasto mundo a nossa espera. Das pinturas rupestres para o iPad 3 foi um salto e a verdade é que, tirando o tamanho da tela, pouca coisa mudou.

Um bom exemplo disso é o ancestral costume de dizermos indiretas uns para os outros. Sempre que um grupo de seres humanos se reúne em um ritual, qualquer que seja, de animados churrascos a malogradas reuniões, ela surge do nada, provocando uma reviravolta no ambiente, mandando o clima de aparente normalidade para o espaço e sacudindo o ânimo dos presentes com a força de um furacão de nome exótico. É verdade que muitas são positivas, como elogios enviesados ou cantadas dissimuladas que se utilizam de discrição para conferir maior charme à abordagem amorosa.

Entretanto, as grandes indiretas que abalam estruturas, que roubam nosso chão, que derrubam queixos e reputações, não tem jeito, são agressivas, cáusticas, críticas, venenosas, ferinas e impactantes. São elas que mudam a história da humanidade, destroem relações, acirram disputas entre concorrentes, transformam simples adversários em inimigos mortais, criam frases de efeito capazes de entrar nos anais do imaginário popular ou habitar nosso inconsciente coletivo. Geralmente, elas são melhor proferidas por gente com talento para a atuação. Uma boa indireta que se preze, para alcançar o efeito desejado, deve ser dita ou escrita com os olhos semicerrados, um leve sorriso malicioso no canto dos lábios e uma das sobrancelhas levemente arqueada. Todo cuidado é pouco, pois há os que dosam mal o tom e, em vez de soltar uma boa indireta, acabam por acertar um direto no queixo retórico no receptor desprevenido.

O fenômeno que podemos perceber nos sítios de relacionamento internéticos é que, devido ao voluntarismo de tais endereços eletrônicos e a espontaneidade estimulada pelo espírito do compartilhar, curtir, expressar-se e revelar ao mundo uma persona autêntica e descolada, a prática geral e irrestrita das indiretas virtuais pululam na rede mundial de computadores, tablets, smartphones e afins. Hoje em dia, basta acessar um Facebook e Twitter da vida para ler coisas como: “há empresas que cumprem o que prometem, enquanto outras demoram a entregar a compra, não é mesmo, Ponto Frio?” Quando leio algo assim, posso até imaginar a pessoa do outro lado dando uma rabissaca (é assim que se escreve rabissaca?).

Alguns utilizam os sites para dar recados sinuosos para desafetos, colegas de trabalho, familiares e amigos com quem estejam brigados. São as clássicas frases que contém a expressão “certas pessoas…” Podem prestar atenção. É batata! Tão lugar-comum quanto entrevistas de Carnatal, aqueles cujas perguntas sempre começam com “E aí?”, enquanto as respostas principiam em “Com certeza!” É mais ou menos assim: “Tem certas pessoas que ficam enrolando o dia todo no trabalho enquanto poderiam render mais para a empresa.” Ou ainda: “Eu ajudo a organizar a festa de Natal da família, ao contrário de certas pessoas…”.

As indiretas amorosas também estão em alta nesses loucos tempos de autoafirmação. Reparem que basta um casal se separar para ambos os lados iniciarem a postagem indiscriminada de fotos felizes, tentando transmitir ao mundo como eles estão bem, quando, na verdade, tudo não passa de um expediente barato para mostrar ao ex que está melhor sem ele.

Outro dia vi um conhecido soltar os cachorros contra um inimigo oculto. Ele dizia, colérico, sem revelar o destinatário da missiva bombástica: “Parabéns, seu sabichão! Você que sabe de tudo mais que todo mundo! Desculpe não dominar tão profundamente todo o conhecimento do mundo como você que é dono da verdade e senhor da razão!” Imediatamente, pus-me a pensar que as indiretas em redes sociais atingem todas as pessoas do mundo menos o verdadeiro alvo do petardo. Se considerarmos que metade dos usuários da rede são do sexo masculino, a situação é ainda pior, uma vez que está provado cientificamente que os homens não dispõem de um gene que identifica indiretas. Homem, simplesmente não entende recados cifrados. Nunca! Não adianta! Sem chance!

Eu próprio sofro bastante ao tentar interpretar as mensagens indiretas que aparecem em minhas linhas do tempo, protagonizando verdadeiros contorcionismos faciais para ver se consigo interpretar o que leio. Minha vontade é perguntar para todos os emissores de alfinetadas: “É comigo?” Diante da impossibilidade de descobrir, relaxo e tento me convencer que o remetente está se referindo a outra pessoa. Tenho, inclusive, pensado seriamente em responder todas as indiretas com as quais me deparar daqui por diante de uma maneira mais explícita. Não vou nem perguntar se é comigo. Mando logo pra PQP e pergunto: “Que porra é essa?! Quer brigar?!”

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