Coluna do Novo Jornal – 114 – 10.11.2012 – Foca, Ana e o Festival Dosol

Esta é uma “crônica exaltação”, uma espécie de elogio em forma de texto que sempre faço a pessoas que realizam trabalhos edificantes e valiosos, ilhas de empreendedorismo cultural e humano em meio a todo um oceano de mediocridade que insiste em nos rodear e pilhar quaisquer indícios civilizatórios com um tsunami de chorume e burrice endêmica.

Ana e Foca não são assim.

ainda bem.

***

Foca, Ana e o Festival Dosol

Ana e Foca

Foca e Ana na frente do Centro Cultural Dosol – foto Tribuna do Norte.

Hoje é um dia muito importante no meu calendário pessoal, cultural e de lazer. Terá início em Natal mais uma edição do Festival Dosol, celebração musical que vai além do mero entretenimento vazio de outros eventos anuais que recebem vultosos investimentos públicos sem oferecer à cidade seque ruma mísera fração do que o Dosol nos devolve em contrapartida a sua realização. Em dois dias de apresentações, dezenas de bandas, muitas delas locais, passarão pelos 2 palcos da Rua Chile.

Vários dos rapazes e moças munidos de guitarras, baquetas ou simplesmente de suas vozes foram doutrinados e tiveram suas bandas “incubadas” a partir da estrutura e estratégia montada pelo casal à frente do Dosol, Ana Morena Tavares e Ânderson Foca. A combinação selo musical, estúdio para ensaio e gravação, Centro Cultural para apresentações e um longevo e respeitado festival anual, promovendo intercâmbio com bandas de outros lugares, além da oportunidade de tocarem para uma plateia ampla, faz com que surjam novos grupos, gente tocando e compondo música autoral, dando vazão a todo um potencial criativo represado e que encontra no Dosol uma maneira de extravasar seus dotes artísticos de uma forma mais construtiva do que simplesmente pegando uma latinha e batendo uma na outra: tchá, tchá!

 

ATENÇÃO: INTERROMPEMOS ESTA COLUNA PARA UMA BREVE REFLEXÃO!

Aqui cabe uma reflexão que não me canso de propor. O trabalho colaborativo do Dosol tem beneficiado a cultura local ao promover a formação de público para a música autoral, dar a oportunidade de artistas amadurecerem e desenvolverem suas habilidades. Tudo isso numa região da cidade que permite não infernizar a vida de nenhum dos seus habitantes. Em resumo: os benefícios gerados são divididos entre muitos. Em contraponto, o que foi que o Carnatal gerou além do enriquecimento de alguns empresários como Paulinho Freire e os donos da Destaque? Alguém conhece uma banda local surgida a partir do evento festivo puxado por trios elétricos? E nem me venham com a história de que ele gera trabalho e renda, pois as migalhas que acabam caindo nas mãos do povo são pouco menos que uma mísera esmola diante dos milhões em dinheiro público embolsados pelas empresas promotoras. Isso num evento que cobra centenas de reais por cada dia de folia, altamente rentável e, certamente, autossustentável. Na boa, o maior legado dos 4 dias de folia é o cheiro de mijo que impregna nossos narizes na segunda pós-evento.

AGORA VOLTAMOS A NOSSA COLUNA NORMAL.

 

O grande mérito do festival ribeirinho é não sucumbir à armadilha fácil que captura 9 entre 10 natalenses, o lugar-comum do “se dar bem sozinho”, do “farinha pouca meu pirão primeiro” e do egoísmo de ocasião (qualquer ocasião) que impera na cidade. O voluntarismo da trupe roqueira não é exclusiva deles. Podemos perceber também em iniciativas admiráveis como a Casa da Ribeira, o Clowns de Shakespeare e diversas outras. É esse perfil generoso e colaborativo que está por trás do crescimento do evento e da expansão para Mossoró, Caicó e São Paulo de Piratininga. Obviamente, tudo é fruto de muito trabalho e de uma persistência quase obsessiva que percorreu os anos. Posso afirmar com conhecimento de causa, uma vez que fui testemunha ocular da história de Foca desde que ele era apenas um esforçado pegador de ondas vindo do Pará.

Conheci Ânderson através de dois amigos em comum, Caio Vitoriano e Leonardo Medeiros, em um dezembro qualquer dos anos 1990. Naquela estranha e derradeira década do milênio passado, ele era um dos caras que proporcionaram com que se pudesse sair por aí para ouvir algo além do ritmo preferido dos natalenses, o forró-pagode-axé. Eram anos estranhos e algumas válvulas de escape pop respondiam por “Banda Officina” e “Inácio Toca Trumpete” (de Karol Polsadski), além dos ótimos “Mad Dogs” dos ídolos supremos de várias gerações: Paulo Sarkis e Fernando Suassuna.

Quem também fazia parte da “Officina” era Ana Morena. Em meio a uma cidade monocultora por convicção, o casal e seus colegas de banda conseguiam viver de Pop-Rock com bons vencimentos a cada mês. Isso mostrava um lado empreendedor bastante apurado e uma firmeza de propósitos de quem realmente queria atingir seus objetivos. Em que pese eu acompanhar os shows como amigo dos vocalistas, o que me converteu em fã de ambos foi o trabalho árduo à frente do Dosol, iniciado anos depois. Foi ali que eles me convenceram da importância do que faziam, ganhando pontos e estrelas no boletim hipotético no qual emitimos notas mentais e julgamos todas as pessoas que conhecemos em nosso inconsciente.

Com a abnegação, sacrifícios e conquistas obtidas, Ana e Foca evoluíram na classificação de amigos para essas pessoas que a gente tem orgulho em conhecer. Subiram o elevador no meu conceito em virtude de um trabalho notável, colocando Natal entre as cidades onde acontecem coisas boas, que recebem bons concertos de cultura alternativa, por onde passam bandas legais que gostaríamos de ver ao vivo.

Todo mundo deve ter alguém com história semelhante. Um cara que se conhece há tempos e que prospera, vence, se destaca, faz e acontece, nos deixando felizes, como se também fizéssemos parte, de alguma forma, das façanhas empreendidas. Em mim, gera uma sensação boa, pois gosto de verdade de acompanhar o êxito dos amigos. Como fiquei em 2007, quando o festival perdeu o patrocínio devido às jogadas do Governo do Estado e da Fundação José Augusto e mesmo assim ele realizou o festival com mais de 50 bandas, muitas tocando de graça, na brodagem, pra ajudar diante da situação difícil. Vários grupos hospedados em casas de amigos.

E agora chegamos a 2012. Mais uma edição do Festival Dosol tem início. É hora de celebrar o fato de um trabalho persistente, bem feito, prospere e faça tão bem à cidade e sua cena cultural. Todas as iniciativas do Dosol representam uma vitória contra o marasmo, a mesmice, a mediocridade e a estagnação. O sucesso da dupla organizadora e de suas invenções é também uma prova que boas coisas nascem, crescem e prosperam nesta acéfala e ensolarada capital potiguar.

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