Coluna do Novo Jornal – 115 – 17.11.2012 – Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

Em 2010, criei os personagens Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”. A ideia era fazer uma sátira ao universo do Direito e a uma certa tendência ao tecnicismo que leva muitos advogados e juristas a desenvolverem a arte de “falar, falar e não dizer nada”. Na época em que publiquei esta crônica, houve até quem se ofendesse, um senhor que me seguia no Twitter, de nome Carlos Lineu, quis rodar a baiana, promovendo um mini-escândalo em 140 caracteres, mas sua meia dúzia de seguidores não lhe deu ouvidos.

Até porque, o escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” veio pra ficar, construindo uma história bem sucedida de êxitos jurídicos (quer dizer, nem tanto, mas pelo menos eles disfarçam para manter a boa reputação).

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Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

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Caiu como uma bomba no meio jurídico a notícia de que Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”, os mais destacados e brilhantes advogados da cidade formariam uma chapa a fim de pleitear a presidência da OAB. Mesmo com outros dois grupos na disputa, já formados há tempos, com suas candidaturas consolidadas e estratégias em progresso, eles resolveram arriscar, afinal de contas, a presidência da entidade confere a seu ocupante um status de autoridade na sociedade civil, alguém a ser consultado, ouvido e muito respeitado pelos cidadãos. Faz bem à imagem projetada junto ao público externo e também à imprensa, massageia o ego, atrai atenções e olhares, pode gerar novos negócios e muitas oportunidades. Ah, e tem também o fato de fazer bem aos demais, lutar pelos direitos e prezar pelo cumprimento das leis e tal e coisa. Aliás, pelo que andam dizendo, foi mais por essa parte de praticar boas ações e beneficiar a sociedade que os bem sucedidos homens da lei decidiram abraçar mais essa causa. Nada a ver com todo esse lance de poder e vaidade.

A inscrição da candidatura foi feita com êxito. Chapa 3. O embate seria travado contra as de número 1 e 2 e o desafio seria convencer a maioria dos que contavam com registros na entidade a optar por eles. A tarefa não parecia tão árdua se levarmos em conta que os sócios são verdadeiramente admirados pelos inúmeros jovens advogados recém formados. É prudente dizer que o enorme contingente de egressos dos cursos de Direito da cidade, algo equivalente à metade da população universitária natalense, votaria em peso nos doutores Giovanni e Adriano. Afinal, existe praticamente uma faculdade de Direito por esquina, pelo menos nos principais bairros ou nos cruzamentos mais movimentados. Cada uma delas com centenas de alunos encantados pelo charme e capacidade destes autênticos ídolos profissionais.

No entanto, os prolixos e abnegados candidatos não contariam com esta consagradora adesão eleitoral, já que pouquíssimos daqueles formandos conseguiam a aprovação no exame da ordem, que concede o direito a votar nas eleições da entidade. A saída, portanto, seria persuadir os advogados mais experientes a optar por eles e não por nenhuma das chapas cujas campanhas já se encontravam a todo vapor em articulações de bastidores e conversas reservadas nos muitos escritórios e antessalas, nas comarcas, nos corredores dos tribunais e, é claro: nas varas.

Mais uma vez, nossos destemidos protagonistas tinham diante de si um árduo desafio e contavam com sua mais mordaz habilidade para superá-lo: a retórica. Gastariam saliva para reverter situação tão desfavorável, mas estavam prontos e dispostos para enfrentar a difícil caminhada rumo à consagradora vitória final. Na entrevista em que anunciou ser candidato, o Dr. Pinto, com o Dr. Rêgo à sua retaguarda, declarou: “A fim de que não imperem as iniquidades e que não se perpetuem as nulidades vis e abjetas, não me resta outra opção que não seja negar-me a permanecer em estado de negação, inércia e comodismo extremos, enquanto a necessidade premente de minha classe clama por ação e iniciativa da parte daqueles em cuja confiança deve ser depositada, não obstante os imensuráveis muros que se erguem pelo caminho, convertendo-se em quase intransponíveis obstáculos contra os que lutam sem cessar pela justiça e exercício pleno da cidadania junto à coletividade e à comunidade advocatícia, provocando, no entanto, nada mais que o irrefreável ânimo dos que lutam por um ideal, conservam evoluído espírito público e aceitam de bom grado travar o justo combate, ontem, hoje e sempre. Data vênia!”

O jornalista Carlos Viktor Duarte Assunção escolheu como título para a matéria: “Datíssima Vênia!” No texto da matéria, cheio de picardia e a malemolência do jornalismo moleque brasileiro, escreveu que o postulante a presidente “não disse nada, mas falou bonito.” Muitos advogados que leram as páginas do jornal riram do pobre periodista que não contava com suficiente envergadura intelectual para alcançar o elevado vocabulário do reputado jurista nem conhecimento que bastasse para compreender em toda sua amplitude a levemente complexa e bem articulada linguagem utilizada pelo colega Giovanni. O que os homens e mulheres das leis evitavam comentar entre si, por pura vergonha, era que eles próprios não haviam entendido nada das palavras do candidato, mas ficava feio admitir. Alguns se sentiam, inclusive, inclinados a votarem na Chapa 3 com medo de, caso não o fizessem, as pessoas pensassem que eles não haviam compreendido a declaração, mesmo o voto sendo secreto.

Para dar conta da campanha, uma boa assessoria de imprensa e reconhecida agência de propaganda foram contratadas. Não havia jornal sem anúncio da Chapa 3, nem colunista sem notas (com duplo sentido, faz favor) a registrar ou blogueiro sem postagem positiva e elogiosa. A cidade também foi amplamente ornada com adesivos que ocupavam os vidros traseiros de ônibus e carros. As redes sociais, como Twitter e Facebook, também entraram no clima de campanha, com os usuários (muitos alunos das faculdades onde eles lecionavam e estagiários do escritório) divulgando os enormes dotes de Pinto e a impenetrável firmeza de Rêgo.

A estratégia de discurso seguia duas linhas distintas e complementares: além de alardear aos eleitores suas muitas e evidentes qualidades, que lhes conferiam (ou deveriam) inegáveis vantagens, uma tática que se fez usual foi o ataque aos adversários diretos, no caso, os componentes das outras chapas. Valia tudo. Se alguém descobrisse que o candidato a diretor de recreação de uma das outras chapas nunca havia logrado êxito em promover festas e que, numa malfadada despedida de solteiro que organizara para um amigo de infância, a coisa mais gostosa que os convidados comeram foi uma pizza de calabresa do Habib’s, já pipocavam as denúncias “anônimas” por e-mail e as postagens maliciosas nas redes virtuais e blogue$ amigo$. O raciocínio era de que uma pequena sujeira na imagem dos adversários funcionariam como uma mão de cera extra em suas já brilhantes e irretocáveis reputações.

O clima anda quente entre os profissionais da área. A data do pleito se aproxima e este é aguardado com grande ansiedade por toda a classe. É verdade que eles imaginam que tal expectativa contagia toda a cidade, mas sabe-se que, entre as pessoas comuns, que não cursaram Direito nem vivem o dia a dia da mais chata e insípida das carreiras, os advogados valem tanto quanto qualquer outro cidadão. Com ou sem repercussão, no entanto, a eleição se aproxima e, segundo os mais confiáveis institutos de pesquisa da capital, a Chapa 3 desponta como uma das favoritas (no mínimo, fica em terceiro). É esperar para ver. Comenta-se que eles negociam acordos de bastidores para retirar a candidatura na véspera da votação em favor de uma das outras duas concorrentes. Mas “tudo dentro da mais estrita legalidade e total lisura, imbuídos de genuíno espírito cívico, democrático e republicano.”, disse o candidato a vice, Adriano Sérgio Rêgo. Para depois concluir: “Data máxima vênia!”

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