Archive for the ‘Cantos das Cidades’ Category

Coluna da Digi # 91 – Top 5 Literatura 2009

janeiro 26, 2011

No dia 30 de dezembro de 2009, publiquei a segunda parte da retrospectiva daquele ano, desta vez enfocando os livros. Li umas cousas muy buenas na temporada que passei na Espanha. Belas dicas.

Boa leitura e boas leituras.

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Top 5 2009 – Literatura  

Laranja Mecânica, há mais de 4 décadas fundindo cérebros mundo afora.

Diferentemente da lista dos filmes, a de livros não terá uma ordem de preferência. Citarei os top 5 com breves comentários, mas sem dizer qual deles é o melhor na minha opinião, mesmo porque, eu não saberia fazê-lo.

O homem do Castelo Alto – Philip K Dick

No final de 2008, li na coluna Bazar de Alex de Souza no portal Nominuto, uma breve sinopse deste romance de Philip K Dick a respeito de um desfecho diferente na Segunda Guerra Mundial. As nações do Eixo haveriam vencido a guerra e o mundo, em 1960, se encontrava loteado entre Alemanha, Japão e Itália. Trata-se de uma rara história de K Dick que nunca recebeu uma adaptação para o cinema e, segundo informou Alex em sua coluna, inaugurou o gênero de “História Alternativa”, hoje muito difundido na ficção científica e que alcançou seu auge com “The Watchmen” de Alan Moore.  Publicado com capricho pela editora paulista Aleph, para mim é simplesmente inexplicável que ainda não tenha ido parar na telona.

Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski

Esse livro eu estava me devendo a mim mesmo. Minha namorada me emprestou e dediquei umas boas semanas em sua leitura. Era só ter uma folguinha do trabalho ou momento de solidão que abria o Dostô pra descobrir o que o Raskolnikof iria aprontar em seguida. Já escrevi aqui em outras oportunidades que “Os Irmãos Karamazov” é o melhor livro que eu já li. Isto posto, fica justificada a obrigatoriedade de ler também o “Crime e Castigo”. Muito bom! Que adorável canalha que é o protagonista assassino de velhinhas.

Laranja Mecânica – Anthony Burgges  

Escrevi uma crônica inteira sobre o livro, ainda inédita, mas que deverá ser publicada aqui mesmo na Digi. Fiquei muito impactado pela história e encantado pelo autor, Anthony Burgges. A maneira como ele escreveu sua história passada num futuro próximo sombrio, em que as ruas, durante a noite, viram território livre para adolescentes violentos e niilistas saquearem, agredirem, estuprarem e consumirem drogas, é quase hipnótica. O jogo de palavaras que ele utiliza também é sensacional. Burgges criou uma língua própria de seus adolescentes, o Nasdat, e no fim do livro, de tão habituados com os termos ditos pelos jovens, nós próprios já nos encontramos quase fluentes no idioma. É considerado ao lado de “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) e “1984” (George Orwell) como uma espécie de santíssima trindade da ficção. Justíssimo.

A Fortaleza dos Vencidos – Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro em estado puro. Um livro cheio de sátira, uma ótima narrativa, ambientado num período de grande relevância histórica para o nosso país. Um dos melhores lançamentos do ano em terras potiguares. Ótima leitura para as férias de verão.

O cobrador – Rubem Fonseca

Entra na lista porque foi graças a ele que voltei a ler o Zé Rubem depois de uns anos de pausa, felizmente interrompida por este que é um dos mais emblemáticos livro de contos de sua carreira.

A zona do desconforto – Jonathan Frazen

Este livro é uma biografia do autor norte-americano premiado com o romance “As Correções”. Uma história contada francamente em que divide com os leitores sua história de vida sem se preocupar em fazer demasiados floreios e ainda contextualiza os acontecimentos de sua vida com a história dos Estados Unidos e com as figuras da cultura pop que povoavam sua vida como o Snoopy e as bandas de Rock. Este livro entrou na lista por razões pessoais e também porque eu sempre fui meio capenga em matemática, a ponto de, como vocês podem averiguar, fazer uma lista de 5 com a presença de 6. Normal. As razões pessoais se dão porque estou tentando escrever uma história longa aqui do exílio onde me encontro e o livro do Frazen me ajudou a elucidar algumas dúvidas narrativas que tento esclarecer para que meu trabalho resulte em uma boa história.

Menção Honrosa

Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine – José Manuel Serrano Cueto

Gostei muito de ter lido este livro-reportagem sobre a história e os detalhes dos filmes de zumbis. O resultado da leitura se deu através de 4 crônicas publicadas recentemente aqui mesmo na Digi. Quem tiver curiosidade de ler, basta clicar em colunas anteriores deste autor.

Feliz 2010!

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Coluna da Digi # 32 – Admirável Cidade Nova

abril 7, 2010

Hoje, publiquei na Diginet a tão esperada coluna de número 100 (http://colunas.digi.com.br/carlos/coluna-100-da-digi/). Mas a contagem continua até que eu tenha republicado todas aqui no blogue. Nesta postagem, voltamos no tempo a 5 de maio de 2008. Naquela data, publiquei “Admirável Cidade Nova”, uma alegoria que comparava a realidade de Natal à retratada pelo inglês Aldous Huxley no seu livro “Admirável Mundo Novo”. Espero que gostem.

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Admirável Cidade Nova

“Pensar enlouquece!” é o que devem pensar alguns (na verdade, muitos) conterrâneos. Por isso, é bom se adaptar e seguir o fluxo, fazendo sempre o que determina o sistema, a sociedade, a moda, os outros. É essa gente bronzeada e lobotomizada sem mostrar nenhum valor, ingereindo o Soma da mesmice, dia após dia. Por que experimentar o novo? Por que procurar saber? Favor, dirija-se ao outro guichê!

Essa premissa torna a cidade estranhamente assemelhada a certos clássicos literários que retratam um futuro sombrio e ameaçador, dando ares de terra arrasada, de completa devastação e revelando frouxos princípios morais.

O lugar agora se divide em diversas zonas: a Zona Norte, onde se concentra grande parte das castas inferiores; a Zona Sul, onde residem as castas superiores, favorecidas pelo sistema; os subúrbios emergentes como Nova Parnamirim e Cidade Verde; e as curiosas Zonas Aristocráticas com indesejáveis bolsões de pobreza incrustrados, como Areia Preta e Mãe Luíza.

A população de 800 mil seres humanos é formada por castas de características diferentes, manipuladas pela lógica do Capitalismo Tropical. Nos gabinetes e altos escritórios empresariais são definidos os pouco dotados de recursos, destinados aos rigores do trabalho braçal, ao sub-emprego, à pobreza. A eles não é dado acesso à boa educação, assistência social, saúde. Geralmente são pardos, alguns negros, quase sempre fora dos padrões de beleza estabelecidos. A aparência é importante, imprescindível, determinante até. Forma é conteúdo.

Os gabinetes e altos escritórios empresariais também decidem os que crescem para comandar. Ricos, bonitos, de pele clara, bem apessoados e asseados, exibindo sorrisos brancos e brilhantes. As castas inferiores não têm qualquer poder de decisão, mas são levadas a acreditar que escolhem os comandantes. Não passam de massa de manobra.

Não há espaço para a surpresa, para o imprevisto. O diferente não é tolerado. Fugir dos padrões, quebrar paradigmas, romper com o pré-estabelecido constitui crime gravíssimo, inafiançável, passível de punições severas, olhares reprovadores, isolamento forçado.

Estamos no ano 60 depois de Bel. O pensamento é proibido e a mediocridade amplamente estimulada e praticada. O intelecto, a erudição, a alta cultura são sufocados com refrões barulhentos e repetitivos com extrema virulência e incrível eficiência. Aprender coisas novas, acostumar-se com letras desconhecidas, melodias estranhas, livros, filmes minimamente inteligentes, palavras polissilábicas demais podem causar estafa, exigindo tamanho empenho das sinapses neuronais que acabam por provocar aneurisma devido ao pouco uso. Que fiquemos com as músicas cheias de vogais e as familiares canções oitentistas que já conhecemos há quase 30 anos.

A lei do menor esforço mental impera na cidade. A disciplina e a perfeita ordem com que os cidadãos cumprem seus desígnios tornam sua realidade admirável. Somos todos treinados para viver assim, condicionados à satisfação, à felicidade, conduzidos a amar o que somos obrigados a fazer. A cidade agora se chama Nova Utopia e o futuro sombrio, tão temido no passado, encontrou lugar no presente.

“O segredo da felicidade e da virtude é amarmos aquilo que somos obrigados a fazer.”, Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo.

Cantos das Cidades 10 – Aquela Mulher (PB)

novembro 25, 2009

João Pessoa

João Pessoa é a capital mais próxima de Natal, não só na geografia, mas também na maneira de ser das pessoas e em suas características gerais. Por isso queria escrever um conto especial para a cidade. Quando decidia se o melhor seria homenagear Zé Ramalho ou a banda “Pau de dá em doido” (in memorian), me deparei com um problema bom de resolver: O “Raimundos”, um grupo de Rock moleque que marcou minha adolescência estava prestes a ficar de fora da coletânea e isso não poderia acontecer.

Esse fato imperdoável ocorreria porque os contos passados em Brasília, cidade de origem da banda, já haviam sido escritos baseados em canções do “Bois de Gerião”, “Legião Urbana” e “Móveis Coloniais de Acaju”. Brasília e Natal serão as únicas cidades do livro que serão homenageadas com 3 contos cada, mas isso eu explico outro dia.

Bem, voltando a JP, eu decidi escolher uma música dos “Raimundos”, aproveitando-me de sua ascendência paraibana e situar em João Pessoa. A eleita foi “Cintura Fina”, canção, digamos assim, romântica do primeiro trabalho da banda (na época se chamava CD) e que narra a história de uma cara que se apaixona por uma mulher muito feia, mas que é uma especialista na arte do amor (boa de cama pra c******). Os versos “Aquela mulher/ que tem a cintura fina/ quero me casar com ela” estarão sempre na memória de qualquer roqueiro brazuca que tenha vivido bem os anos 90.

Raimundos, feios de cara, bons sujeitos no fundo.

O conto fala de Rodolfo (Ooooh!) um paraibano de nascimento que é jornalista em Brasília e vai passar o período junino na terra natal. Lá, ele conhece Genoveva e o resto do conto (epistolar internético) só vocês lendo.

Já posto um trechinho aqui pra sentirem o clima:

“…Como pode num mesmo mundo existir a Aline Morais e a Genoveva? Ah, esqueci de dizer, o nome dela é Genoveva. Mas disse que eu posso chamá-la simplesmente de Gê. Ainda bem!

Marcamos de nos encontrar no Jacaré uma hora antes do pôr do sol e, quando ela chegou, percebi que não poderia ter escolhido melhor o horário, pois logo iria escurecer e ela não ficava nada bem à luz do dia. Decidi que, naquela noite subiria de patamar: nada de cerveja, tinha que beber alguma cachaça artesanal de Areia.

Felizmente ela tentou disfarçar sua feiúra por meio de artifícios aplicados com a desenvoltura que só anos e anos de escassa formosura e uma longa experiência como catrevagem profissional poderiam conferir-lhe. Seu vestido, por exemplo, estava mais para uma aberração da baixa costura, de tal forma chamativo que só se levei o primeiro susto ante o vislumbre de seu rosto uns bons 5 minutos depois de sua chegada. Seu rosto, aliás, estava coberto por uns bons 10 centímetros de pesada maquiagem, uma massa de blush que muito me fez lembrar os palhaços do Circo Garcia. Ah, mas pra compensar, ela tinha um belo sorriso do ponto de vista odontológico residual. Quero dizer: os 4 dentes que heroicamente resistem em sua boca parecem estar em perfeita ordem e livres de caríes ou demais enfermidades bucais…”

Pôr do sol em JP, foto do blogueiro Fred Matos

 

Quem me ajudou a dar ao conto uma autenticidade paraibana foi meu amigo de longa data natalense honorário, pois morou aqui muitos anos, Jeder Morais, que hoje trabalha como assessor de imprensa num escitório que eu não sei o nome. Vou ficar devendo uma foto do meu amigo, mas acho que pro bem de vocês, queridos leitores. É que o Jeder é mais feio que a doidinha do conto.

“Aquela Mulher” é o 9º conto concluído para o livro “Cantos das Cidades”. Minha peregrinação continua, dessa vez rumo a Maceió e, em seguida, Fortaleza. Vem mais histórias divertidas por aí.

Cantos das Cidades 9 – Falta de sol (PE)

novembro 17, 2009

Vista de Olinda

Pernambuco é um dos Estados brasileiros mais férteis no que toca a criatividade. Ainda mais que eu já viajei muitas vezes a turismo ou a trabalho, tendo conhecido lugares e pessoas. Ali, fiz amigos que sempre proporcionam reencontros festivos em almoços lamentavelmente curtos ou noites ébrias e efusivamente longas. Porém, mesmo com tantos conhecidos na capital pernambucana ou recifenses residentes em Natal, tive extrema dificuldade em encontrar alguém disposto a me ajudar a escrever uma história que se passasse naquelas terras. Tentei com os companheiros Rafoso, depois com a redatora publicitária Juliana Lisboa, em seguida com o diretor de criação Cristiano de Souza e, por fim, com o analista de sistemas Gil Limpeza. Todos se dispuseram, num primeiro momento a ajudar-me, para depois ignorarem solenemente meus apelos.

Até que decidi quebrar uma regra que havia me auto-imposto na elaboração dos contos deste livro. Resolvi apelar para um amigo escritor, algo que eu, a princípio preferia não fazer, dando a oportunidade de que outras pessoas participassem da brincadeira. Foi aí que entrou em campo o romancista, publicitário e jornalista Paulo Costa, ou Costner para alguns amigos do tempo em que ele viveu em Natal. Mandei para ele os dois contos que havia escrito, passados em Pernambuco. O primeiro se baseia na música “Falta de Sol” do Eddie e se passa em Olinda. É  a história de Flor, uma mulher que decide se alimentar de luz. O segundo, se passa em Recife, mas não vou falar dele agora. Esta postagem serve para que eu dê a ótima notícia de que Paulo teve palavra e foi rápido na contribuição que fez nos contos, incluiu partes essenciais para as narrativas e melhorou (e muito) as histórias.

 

Paulo Costa, embaixador de Pernambuco no "Cantos das Cidades", co-autor de dois contos do livro.

Afirmo, feliz da vida, que “Falta de Sol” será um dos melhores contos do “Cantos das Cidades”.

 Confiram agora um aperitivo rápido:

 “…Flor queria encarar seu novo momento com seriedade, com profundidade. Passaria a habitar um plano acima dos demais, em paz consigo mesmo, com a vida e com os outros seres humanos que são, tipo assim, criaturas lindas de Deus, sabe?

 Já que ia mesmo se alimentar de luz, Flor deveria tomar cuidado para não exagerar na dose. O verão chegou com força em Olinda naquele ano e Flor não podia sair por aí a toda hora, subindo e descendo ladeira sob o risco de terminar a estação bastante rechonchudinha, vermelha como camarão de praia, aqueles cozidos na água e sal, que passam o fim de semana tomando sol no plástico dos ambulantes. Era preciso seguir uma dieta balanceada de complexos UVA e vitaminas UVB, além de raios de fim de tarde, que são bem menos gordurosos do que as lipídicas radiações a que nos submetemos entre as 10 da manhã e as 14 horas. Se quiser tomar um milk shake de colesterol solar, sugiro que saia da sombra ao meio dia. Seria um almoço nada nutritivo pra você. O mundo poderia ser mais feliz sem fome, com todo mundo irradiando luz, alimentando-se de sol…”

 Obrigado, Paulo, autor do livro “Balada para uma serpente” e responsável pelos seguintes endereços virtuais:

www.blogpaulocosta.blogspot.com
(Meu portfolio: vídeos, projetos de televisão, documentários, campanhas políticas e publicidade)

www.myspace.com/paulocosta62
(Criações para rádio)

www.comunicausos.blogspot.com
(Ideias e novidades da comunicação)

www.baladaserpente.blogspot.com
(Versão virtual do meu livro publicado pela Bagaço, em 2001. Policial noir ambientado na cena mangue)

E obrigado ao Eddie por ter composto essa música que gosto tanto.

Cantos das Cidades 8 – Boa Noite, Cinderela. (RN)

outubro 30, 2009
ETM - Gustavo Lamarine

Gustavo Lamartine, o artista, o homem, o parceiro na idealização do conto.

Eu estava bebendo uma noite perdida com o músico maloqueiro e high society Gustavo Lamartine quando o assunto partiu para, sabe-se lá porque, o golpe “Boa noite, Cinderela” que mulheres gatas e desconhecidas costumam aplicar em homens desavisados. Segundos os relatos dos e-mails mais sensacionalistas, elas botam alguma substância entorpecente na bebida do cara, arrastam para um lugar específico e extraem alguns órgãos internos. A pobre vítima acorda horas depois numa banheira de gelo e um bilhete de alerta escrito pela golpista.

Gustavo perguntou:”e se uma dessas mulheres roubasse o coração do cara? Ele teria que sair atrás dela, né?” De golpe, numa arrojada associação de ideias provocada, certamente, pela lubrificação etílica em curso, cantei um trecho da canção “A conta” do Mad Dogs: “Perambulei de bar em bar e procurei sem encontrar a vagabunda que roubou meu coração.” Pronto. Eu já tinha cenário e uma ideia para o próximo conto que escreveria para o livro Cantos das Cidades.

E resultou que o “Boa noite, Cinderela!” é um dos melhores contos que escrevi até agora. Natal merece mesmo contar com uma das mais divertidas narrativas da reunião de histórias.

Confiram um trecho:

“… Nos jornais, ofertas de córneas que custavam os olhos da cara, rins que até que não estavam caros, uma casa de frente pro mar com muitos metros de área e Shirley, universitária, recém chegada do sul, loira, 1,75m, namoradinha, anal-e-oral-inclusos-no-pacote. Quando já estava para fechar o jornal, um susto! Mas era só um apartamento de dois quartos mais dependência em Três Corações. Pensei em ir até lá, para negociar pessoalmente com o prefeito se a cidade não poderia ceder-me um dos corações. Talvez o governante ficasse comovido com minha história trágica. Talvez. Fiquei de fazer isso mais tarde. Por hora ia só anotar o telefone da Shirley mesmo.

Espalhei cartazes pelas cidades, como nesses que ficam pregados em lugares públicos e pet-shops, sempre em busca de um poodle chamado Rambo. O meu dizia “Procura-se órgão muscular oco interessado em compromisso duradouro de cerca de uma vida humana. É necessário residir em meu peito, sob o osso esterno, ligeiramente deslocado para a esquerda. Precisa ter tamanho aproximado de um punho fechado e pesar cerca de 400 gramas. Contatos no…” Bem, não houve resposta ao meu apelo, mas soube de fonte segura que Rambo foi encontrado são e salvo acompanhado de vira-latas no centro da cidade e passa bem. Se eu tivesse coração, ficaria feliz pelo pequeno peludo.

As pessoas ficavam perguntando como o meu organismo fazia para bombear o sangue sem coração. O caso é que a corrente sanguínea se reuniu e decidiu que iria continuar indo para onde bem entendesse, pois de tanto ir sem parar, acabar aprendendo o caminho e que se ficasse parado ia ser chato todos aqueles glóbulos brancos e vermelhos e plaquetas ali parados, sem fazer nada, se dedicando ao ócio, ou quem sabem à marginalidade, o que seria terrível, e era melhor continuar fazendo o que estavam fazendo até que se realizasse outra assembléia posteriormente ou que chegasse um coração novo para colocar ordem no corpo. E assim foi, e assim é, e assim vai sendo…”

Sarkis e Nalva

Paulo Sarkis (na foto, conversando com Nalva) - baixista do Mad Dogs e ídolo deste blogueiro autor.

Com um co-autor como Gustavo Lamartine e inspiração na letra dos Mad Dogs fica fácil escrever uma boa história. Essa é a verdade.

Cantos das Cidades 7 – O Genius do Rock (RJ)

outubro 28, 2009

Fialho no Arpoador

No Arpoador

O Rio de Janeiro é uma cidade especial para mim. Vivi um ano por lá, fazendo pós-graduação, ano no qual pude estreitar laços com minha família por parte de pai que há muito partiu para o sudeste e vi de perto o Pet meter aquela bola no ângulo esquerdo, garantindo mais um tri para o Mengão. Aliás, o Flamengo é outro elo de ligação inquebrantável que me associa eternamente à nossa ex-capital federal. Os amigos que fiz no Rio são pra valer, de verdade, parceiros (como eles costumam dizer por lá) e é por eles que sempre retorno a cidade, para matar saudades e reforçar laços.

 

Outra peculiaridade da cidade é que é a terra natal do Jason, uma das bandas de rock que mais gosto há muito anos. Por isso, nunca tive dúvidas no momento de escolher os intérpretes da música que inspiraria um dos contos do livro “Cantos das Cidades”. O Jason foi o eleito, com a frase “Eu queria ter um ferrorama que não andasse em círculos”, citada em meio à faixa “Rosebud” do disco “Sou quase fã de mim mesmo”.

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Divulgação do último CD do Jason.

 

A partir dessa frase, escrevi uma história sobre um roqueiro dos anos 80, época de bastante efervescência no cenário carioca que, aliás, foi essencial para o desenvolvimento e popularização do ritmo musical em terras tupiniquins. O protagonista da história acaba montando uma banda que faz muito sucesso e o instrumento que ele toca é um brinquedo/jogo Genius (lembram dele?).

 

Para me ajudar a escrever a história, contei com a valiosíssima contribuição do amigo jornalista Adílson Pereira. Aliás, em homenagem a ele, batizei o herói da narrativa com seu nome.

 

Um trechinho da história maluca:

 

 

“…Não saber manejar nenhum instrumento musical não poderia ser empecilho para que Adílson adotasse a causa do rock’n’roll. Certa noite, assistindo ao filme “Contatos imediatos de terceiro grau” na casa de um tio que acabara de adquirir um videocassete de último tipo da National, recebeu uma iluminação cósmica, universal, interplanetária. Inspirado nas seqüências musicais cheias de luzes dos discos voadores mostrados na tela compreendeu que sua missão neste planeta era maior do que poderia imaginar. Era portador de uma mensagem musical muito mais sublime e profunda do que se pode imaginar. Adílson seria um pioneiro, um visionário, um desbravador: o primeiro roqueiro brasileiro a tocar Genius numa banda. Isso mesmo. Operaria a divertida maquininha de botões musicais, coloridos e luminosos, parecida com as espaçonaves do filme.

 

Ensaiava todos os dias e se tornou o maior craque nas seqüências desafiadoras da moderna geringonça. Mas ainda faltava uma banda que fosse tão ousada quanto ele, que aceitasse numa boa sua idéia inovadora, que incorporasse um gênio em sua formação. Aliás, um gênio e um Genius.

 

Arrumou um estágio na rádio Fluminense, a maldita, que tocava as fitas demo dos recém surgidos grupos roqueiros e procurou se entrosar no meio

Fialho e Adílson na Pérola

Esse de camiseta banca é o Adílson. Na foto, estamos tomando um chope no Adega Pérola em Botafogo.

 

O Adílson tem um blogue bem legal sobre música, uma vez que é um ótimo jornalista musical. Porém, perdi o endereço em meio a essa vida corrida e publicarei aqui mais na frente.

Cantos das Cidades 6 – Comentaristas Improváveis (MG)

outubro 24, 2009

Precisava escrever uma das histórias do “Cantos das Cidades que se passasse em Belo Horizonte. Escolhi então uma banda que gosto desde muito tempo e um tema sobre o qual estou bastante habituado: futebol. A frase “Que emocionante é uma partida de futebol!” retirada da música “Uma partida de futebol” do Skank (escrita pelo Nando Reis, vale o registro.) foi a eleita com justiça.

Criei um mote para o conto, os comentaristas, usei BH como cenário e Minas como referência. Daí só precisava de uma contribuição local para dar mais autenticidade. Para minha felicidade, o escritor Sérgio Fantini topou a parceria e finalizamos o texto a 4 mãos. Ficou divertido, acho. Já mostrei para alguns amigos (leitores e boleiros) e eles gostaram.

Um trechinho para degustação:

“…Imaginem, por exemplo, como seria a atuação do comentarista de gramado.

– Boa noite, povo de Minas. Seja bem-vindo ao estádio Governador Magalhães Pinto, o nosso Mineirão. Para saber das condições do campo, vamos ouvir o nosso comentarista de gramado.

– Boa noite. O gramado até que está razoável com um comprimento de regulares 10 centímetros a partir da raiz. Por se tratar de verão, quando predomina o tempo quente, a espécie escolhida é a gramus desérticus, que apresenta uma maior resistência às condições climáticas da estação. Uma peculiaridade do campo é um morrinho artilheiro encontrado na área à esquerda da cabine. Foi contando com a ajuda deste morrinho que Dada Maravilha voou feito beija-flor para liquidar o campeonato de 71.

– Essas condições favorecem alguma das equipes?

– O Democrata acaba levando vantagem, pois historicamente costuma jogar com chuteiras de trava baixa, mais adequadas às condições do solo, principalmente para os atacantes mais pesados, que muito se adaptam à espécie gramus desérticus.

Outra categoria de comunicador que também faria bastante sucesso seria o comentarista de guloseimas. Neste caso em particular, sua presença só funcionaria no rádio, pois o público interessado em seus comentários é o que freqüenta estádios.

– … e vamos aproveitar que o jogo está parado para ouvir o nosso comentarista de guloseimas, direto das arquibancadas do Independência!…

E uma dica da hora. Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho do Sérgio Fantini, leia o livro “A Ponto de explodir”.

05 a ponto de explodir

Vocês podem adquirir um exemplar com o próprio autor no e-mail sergiofantini@gmail.com.

Cantos das Cidades 5 – Abraços SA (SP)

outubro 19, 2009

Que história eu poderia escrever sobre São Paulo? Que música escolher? Que compositor de tantos que a capital paulista nos presenteou teria a honra de inspirar um conto no meu livro? Parada dura. Mas que logo seria resolvida, pois tal é a pluralidade de canções, artistas, histórias e possibilidades que Sampa nos apresenta que só poderia mesmo surgir uma boa história. Um dia, conversando com meu mentor literário, Márcio Nazianzeno, sobre aquele movimento dos abraços grátis, ele se saiu com uma das suas: “e se as pessoas cobrassem 1 real por esses abraços? Acho que dava pra ganhar uma grana.” Fiquei com aquela ideia na cabeça e resolvi escrever um conto a partir dela. Na mesma semana, vi uma letra de música de Nando Reis, o paulistano e são paulino que dizia: “Um beijo ou um simples abraço que é pra você lembrar de mim.”

Pronto. Resolvida a questão.

Eu escreveria um conto a partir daquela frase da canção e fortemente baseada na ideia de Márcio. Assim nasceu “Abraços SA”, uma das histórias mais divertidas do livro até agora das que já estão concluídas. Para dar maior autenticidade à narrativa, como já tenho feito com todos os escritos anteriores deste livro, pedi ajuda a um amigo paulista, o advogado e excelente leitor Gustavo Svenson. Também contribuiu sua esposa, a jornalista potiguar Gudmila Régis, que já vive em São Paulo há quase uma década, tendo se convertido também em especialista em assuntos bandeirantes.

Nando Reis vai representar São Paulo no "Cantos das Cidades"

Nando Reis vai representar São Paulo no "Cantos das Cidades"

Divido com vocês agora um trecho do conto:

“… Letícia super se identificou. Acabara de ser tocada pelo movimento e se tornara a mais nova adepta da campanha, disposta a plugar os paulistanos nessa corrente mundial. Abraçaria, sorriria, faria gestos de carinhos. Mas grátis não, não dá né, meu? Fez um belo cartaz e se postou na esquina da Augusta com a Paulista, bem na entrada do Conjunto Nacional, disputando a atenção dos transeuntes com os voluntários do Greenpeace.

“Abraços: R$ 1,00”. Ficou passada com a receptividade da galera. As pessoas estavam realmente carentes, diante do rolo compressor que era a vida na megalópole. O ritmo frenético da cidade, trânsito, poluição, trabalho, trabalho e trabalho. Homens engravatados com suas pastas entupidas de documentos paravam para receber um abraço sincero. Fashionistas mega produzidos desaceleravam o passo para viver a experiência. – Dizem que é bafão em Paris! Disse um deles. …”

O parceiro na autoria da história, Gustavo Svenson. Contamos ainda com sua esposa e Drag Queen, Gudmila Régis Svenson.

O parceiro na autoria da história, Gustavo Svenson. Contamos ainda com sua esposa e Drag Queen, Gudmila Régis Svenson.

O conto acabou se tornando uma homenagem a uma das principais características de São Paulo na condição de coração financeiro do Brasil: o empreendedorismo da cidade e seus habitantes, a capacidade de trabalho que transforma ideias em bons negócios, fazendo surgir dinheiro a partir de atitude e ousadia típicas da pauliceia.

Cantos das Cidades 4 – Teorias e Conspirações (BA)

agosto 3, 2009

Certa vez, durante a Copa do Mundo de 2002, eu explicava ao poeta Lucílio Barbosa, a teoria da pirâmide, que apontava o Brasil como o suposto campeão daquele certame. Tratava-se de uma lorota mística que afirmava peremptoriamente que havia uma lógica simétrica na sequência de seleções que venceriam a competição. Sem dar nenhum crédito ao que eu expunha e que, aliás, nem eu mesmo acreditava, apenas reproduzia o que havia lido na internet, Lucílio decretou: “Não acredito em teorias de conspirações. Para mim, são todas produtos de pessoas com muita imaginação e ainda mais tempo livre.”

 

O poeta Lucílio Barbosa

O poeta Lucílio Barbosa

Aquela frase de Lucílio martelou na minha cabeça por um tempo. Até que em 2004 surgiu a ideia de escrever o livro de contos “Cantos das Cidades”. Naquele ano escrevi os dois primeiros textos do volume que deverá ficar pronto até o fim do ano: “Pelejas” que se passa em Porto Alegre e é epigrafado pela frase “Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada.” dos Engenheiros, e escrevi também o conto “Teorias e Conspirações” inspirado nessa conversa que travei com o mestre Lucílio e epigrafada no verso “Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho, sou capaz.” de Raul Seixas. Como Raul é soteropolitano, a história é ambientada em Salvador e contou com a colaboração de alguns baianos amigos e ilustres: Murilo Souza e Rafaela Lopes, além de receber a revisão do professor Iésu Andrade.

 

Murilo Souza e Rafaela Lopes

Murilo Souza e Rafaela Lopes

Fiquem agora com um trecho do conto:

“…O pastor possuído pelo demônio que roubava os fiéis no majestoso templo da Universal em frente ao Iguatemi; o garoto que caiu num poço quando soltava pipa e sobreviveu 13 dias sem água nem comida; a mulher que se fez passar por homem e disputou o campeonato estadual de futebol pelo Camaçari e a incrível invasão de algas venenosas que tornariam o mar de Porto Seguro impróprio para banho, mas que na última hora, foram desviadas por correntes marítimas vindas do sul.

Todos os dias Murilo chegava em casa feliz e realizado. O Correio vivia um sucesso editorial jamais visto e ele sabia que era o principal responsável por isso. No ônibus, nas ruas, nas esquinas, nos bares, nas salas de estar, as pessoas comentavam sobre as últimas notícias do Correio. Ele era um sucesso! Imaginava o que todos esses leitores fariam se soubessem que as principais manchetes do jornal saíam não de fatos ocorridos, mas da imaginação de Murilo. Ele escrevia o que as pessoas tinham vontade de ler, que elas queriam que fosse verdade.

Murilo não lia jornais. Achava que todos mentiam…”

O nome do protagonista da história é Murilo em homenagem ao meu amigo de Salvador que colaborou com termos locais e nomes de lugares que poderiam encaixar melhor a trama na capital baiana. Inventei umas coisinhas no meio do conto como uma coluna de biologia marinha escrita pelo rapaz, para fazer uma discreta alusão a Lucílio Barbosa, poeta formado em biologia Marinha e que deu início a todo esse texto. Enfim, detalhes de uma historinha simples e uma das primeiras a serem escritas para este livro que escrevo e divido todos os passos aqui com vocês.

Cantos das Cidades 3 – O Lobisomem que mora ao lado (DF)

julho 29, 2009

Jovens, volto hoje a falar do livro de contos que estou escrevendo. Chama-se “Cantos da Cidade” (pelo menos provisoriamente) e relatar o passo-a-passo de sua escrtita foi um dos motivos de eu ter entrado finalmente na blogosfera. Andei ocupado até o talo nos últimos tempos com a divulgação e lançamentos do “Mano Celo”, além de ajudar os amigos Patrício Jr. e Nei Leandro de Castro a divugarem seus próprios lançamentos. Isso sem falar nos preparativos que precisei fazer para passar uma temporada de estudos fora do RN. UFA! Em todo caso, vou falar aqui sobre os contos que estou escrevendo para o livro e para lerem um pouco mais a respeito, sugiro que procurem pelas duas atualizações anteriores, clicando na categoria ou na etiqueta “Cantos das Cidades” bem ali do lado ——->

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Com vocês, um pouco sobre o conto “O Lobisomem que mora ao lado”:

A banda brasiliense Bois de Gerião, na canção “Meu vizinho”, canta o seguinte trecho “Prazer em conhecê-lo, caro amigo. Moro ao seu lado. Divido paredes contigo.” Como o Bois é uma das bandas que mais curto atualmente, decidi incluí-lo no livro Cantos das Cidades. Dessa forma, eu já tinha um ponto de partida para escrever um conto ambientado em Brasília.

 

Este autor em visita à terra de Nícolas Behr (2007)

Este autor em visita à terra de Nícolas Behr (2007)

Mas o que dizer nesse conto? Que história esse vizinho brasiliense poderia inspirar? A resposta estava num outro trecho da música em que a letra diz “Pois saiba que por trás de todo médico existe um monstro. Eu sei fingir muito bem e por isso não demonstro.” Era isso. Para criar um conto legal eu poderia falar de um vizinho que fosse um tanto estranho, monstruoso. E para fazer isso bastou olhar ao redor e lembrar que existe um cara muito estranho que mora perto de mim.

 

O nome dele é Fêfo e ele é… Bem, ele é um lobisomem. (sobe BG de suspense).

 Agora fiquem com um trecho do conto “O lobisomem que mora ao lado”.

 “… Nessas noites, ele se transforma em lobisomem e fica lá, sendo um lobisomem, fazendo exatamente aquilo que nós, que não somos lobisomens, não fazemos.

Ter um vizinho lobisomem não é tão estranho quanto parece e até que não incomoda muito. Estranho mesmo seria ter um vizinho trompetista da marinha que ficasse lá soprando o instrumento dia após dia para nossa eterna agonia. Ainda mais se esse vizinho fosse fã incondicional de “Casablanca” e insistisse em repetir incessantemente “As time goes by” e mais ainda se a outra música que ele soubesse tocar fosse a da 7ª cavalaria e todas as manhãs você fosse despertado em meio a um susto danado com a sensação de um iminente ataque de índios americanos. Nessas horas, garanto, você preferiria ter alguém uivando na casa ao lado. …”

Cantos das Cidades 2 – Pelejas (RS)

janeiro 13, 2009

 

O primeiro conto de “Cantos das Cidades” a ficar pronto se passa em Porto Alegre (RS) e se baseia na seguinte frase: “Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada.” Como vocês devem ter notado, trata-se de um trecho da canção “Toda forma de poder” dos Engenheiros do Havaí. O co-autor do conto foi o gaúcho Glauco Gobbato, torcedor do Internacional, produtor de bandas, gerente de bar e agora escritor.
Abaixo segue um pouco do conto, batizado de “Pelejas” para degustação.

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– Do meu lado? Essa é boa! Daqui a pouco tu vais dizer que a culpa é minha pelas barbaridades que ele está aprontando!
– A culpa é tua sim! Tua e de todos os que apóiam uma postura retrógrada, voltada contra os interesses da coletividade. São essas coisas que atrasam esse país.
– Quer dizer que tu achas mesmo que governante pra ser bom, tem que ser de esquerda?
– Claro. A esquerda, meu caro primo, é que é capaz de promover um governo voltado para o povo. A direita só produz tiranos e elitistas. Nós temos Fidel, vocês Pinochet!
– Fidel mantém seu governo à base de torturas e assassinatos políticos, seu mongolão!

"A gente vai aparecer no livro do Fialho e depois volta a construir prédio lá no Havai."

"A gente vai aparecer no livro do Fialho e depois volta a construir prédio lá no Havaí."

Cantos das Cidades – O início

dezembro 16, 2008

Quando a gente lança um livro, fica muito, muito feliz mesmo. Aliás, não é nem o lançamento em si, quando a gente divide com os amigos e leitores, o resultado do trabalho, que nos deixa mais exultantes. O momento em que o danado chega da gráfica e cai em nossas mãos, pronto, impresso, bonito, com suas cores e laminações, orelhas e reservas de verniz, miolo e prefácio, forma e conteúdo, dizendo para nós: “Ó eu aqui, ó. Cheguei!”, nos deixa mais feliz.

 

E a razão de tanta felicidade talvez se deva ao tempo de gestação, o esforço empreendido antes do livro ficar pronto, toda a trajetória desde a idéia original até a concretização, quando o danado finalmente sai no papel.

 

O livro que estou escrevendo agora, por exemplo, surgiu em minha mente em 2004. na época, fui influenciado por dois outros livros e autores: “Imaginário Cotidiano” de Moacyr Scliar e “Contos Bregas” de Thiago de Góes. Tive a idéia de escrever um livro de contos em que eu pudesse pinçar uma frase de uma canção e, a partir dali, desenvolver um conto divertido.

 

A princípio era uma mistura das idéias de Moacyr e Thiago, uma vez que o primeiro desenvolveu os contos de seu livro a partir de manchetes de jornal e o segundo utilizou as músicas como epígrafes e fontes de inspiração.

 

No entanto, eu queria ir mais além. Para ser diferente e minimamente original, eu precisava fazer algo mais do que isso. Então decidi que eu escolheria canções de bandas ou intérpretes originários de todos os estados do Brasil e o conto que cada um deles inspirasse seria passado em sua cidade de origem. Começou a ganhar corpo assim o livro “Cantos das Cidades”.

 

Para que o resultado pudesse ser o mais fiel possível à realidade das cidades, verossímil, real, pedi a ajuda de amigos nativos de cada uma das cidades-cenários do livro. O processo é o seguinte: escrevo um primeiro tratamento do conto, depois submeto a alguém natural da cidade para que ele possa fazer alterações, correções, sugestões e acréscimos. Feitas as adaptações, esse colaborador se torna co-autor do conto. Com isso, teremos um livro com 27 autores.

 

Nenhum dos co-autores pode ser escritor, para que eu não pegue carona no carisma ou no nome de ninguém, mas tem que saber escrever ou exercer alguma atividade ligada às letras ou ter a leitura como hobby.

 

Nesse meio tempo, de 2004 anos pra cá, acabei me envolvendo com outros projetos de livros que caminharam mais depressa e pude terminar antes. Dessa forma, em 2006, lancei “É Tudo Mentira!” e nos próximos meses vou lançar “Mano Celo – O Rapper natalense”.

 

Porém, com esses dois projetos anteriores concluídos, o “Cantos das Cidades” ganhou um novo ânimo e agora acelera o passo. Dos 40 contos finais (não, não errei o número de estados. É que algumas cidades mais importantes, como Natal, por exemplo, terão direito a mais de uma história no livro) já concluí 16 e outros 4 estão sendo alterados e enriquecidos por colaboradores, devendo ser entregues no início de maio.

 

Aqui neste blog, terei o maior prazer em relatar o passo-a-passo da produção do livro para os curiosos, para servir de registro pessoal e também de estímulo, dando um gás extra para que o livro fique pronto em breve.

 

E vâmu pra frente!