Archive for the ‘Coluna da Digi’ Category

Coluna da Digi # 107 – Despedida

março 3, 2011

No dia 05 de setembro de 2010, resolvi encerrar minha coluna da Digi. Para registrar esse momento, escrevi uma atualização de despedida bem mimosinha. É verdade que não consegui largar imediatamente e acabei atualizando mais 4 vezes até a derradeira que publiquei em 20 de dezembro último. Foram duas razões que me levaram a terminar minha coluna no portal da Diginet. A primeira foi a minha entrada como colunista semanal no Novo Jornal, convite que me deixou muito feliz. A segunda foi a projeção que este espaço aqui, meu blogue pessoal, começou a alcançar, motivando-me a atualizá-lo com mais ênfase e trazendo para cá algum eventual texto inédito que não se encaixe na coluna do Novo.

Segue minhas notas de despedida da Digi. Simplezinhas, mas bonitinha. Valeu!

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Despedida

Muitas vezes, quando se escreve, a parte mais difícil é o ponto final. Especialmente se você gosta do que está escrevendo, publicando ou postando. Quando o seu labor de escriba alcança resultados que correspondam às mais altas expectativas, o mais duro é concluir o trabalho com um trecho final que esteja à altura do restante. Ou ainda se é tomado pela empolgação da escrita e o texto se torna tão divertido para o autor que ele não consegue parar, antevendo com clareza a reação positiva dos futuros leitores. Essa relutância em grafar o ponto definitivo de um texto é como uma espécie de adiamento de uma inevitável despedida. Damos adeus a algo que criamos com esmero e que agora já pode existir por conta própria, sem nossa intervenção, nossa influência.

Despedidas podem ser difíceis e, aqui mesmo, neste espaço virtual que a Digi me cede há 3 anos e que venho tentando ocupar com relativa regularidade, passei por diversas situações como a descrita no parágrafo acima. Muitas das crônicas que publiquei aqui foram difíceis de concluir de tão prazerosas. E o melhor foi que muitas delas não terminaram com o ponto final, pois continuaram pulsando e repercutindo acaloradamente nos comentários que vem logo abaixo.

E depois, muitas vezes os mesmos textos publicados aqui ganhavam repercussão e ressonância nas caixas de e-mail de muita gente, via repasses gerais. Quando saía na rua, amigos vinham comentar a “coluna desta semana”, faziam críticas, elogios, davam risada. Enfim, muitas vezes, nem os pontos finais foram capazes de acabar algumas crônicas. “O Homem que não falava carnatalês”, “A patricinha cultural”, “A fábula das duas cantoras”, “Big Bróder Natown” e “Não basta ser Playboy. Tem que ser DJ” são alguns exemplos de colunas que se espalharam para muito além do portal da Diginet.

Mas agora é chegado o momento de uma despedida que vai ser mais difícil do que concluir muitos dos textos que escrevi e publiquei aqui. Tenho que marcar nesta página da web, um ponto final na coluna “Sei Lá. Mil Coisas.” Fui convidado a escrever no Novo Jornal e sinto que não tenho disponibilidade para escrever duas crônicas todas as semanas. Assim sendo, mudo das segundas da Digi para os sábados do Novo Jornal, como titular do espaço “Jornal de Carlos Fialho”.

Quero agradecer a todos que leram algumas das mais de 100 crônicas que publiquei aqui e peço humildemente que continuem acompanhando as mais novas, todos os sábados no Novo Jornal.

Agradeço também algumas pessoas que me deram suporte aqui na Digi: Humberto Diógenes, Luís Caitif, Luana Ferreira, Jordana Mamede e Atalija Lima.

Obrigado mesmo, gente. Despeço-me agora.

E ponto final.

Coluna da Digi # 111 – Não basta ser bichinha. Tem que ser Society!

março 2, 2011

Escrevi esse texto no início de 2010. Não o considero como um dos meus melhores, por isso mesmo ele ficou muito tempo guardado esperando por uma publicação. Até que no dia 20 de dezembro do ano passado, após um período prolongado sem atualização, resolvi publicá-lo por falta de material inédito, uma vez que todos os meus textos novos têm ido para o Novo Jornal e publicações como Lado [R] ou Revista do Versailles. Mas aí, mudei o título para associar a crônica a um texto antigo meu que havia feito muio sucesso no passado e, ops!, temos mais um líder de acessos.

Jovens e jovens, divirtam-se com “Não basta ser bichinha. Tem que ser Society!”

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Não basta ser bichinha. Tem que ser Society!

Menina, você tá se achando assim meio por fora, demodê, um tanto out do style que anda virando a cabeça da society? Pois bem, queridinha, sorte sua que euzinha, Glácia Vivane, a Vivi, chiquérrima, maravilhosa, primeira e única, vou lhe dar umas dicas essenciais pra você se ajeitar, viu, minha bichinha? Qualquer coisa, passa lá na minha loja, na Afonso Pena, que só tem peças exclusivas da minha grife e de alguns dos melhores estilistas brasileiros, tá bom? Mas, olhe só, só vá lá se tiver dinheiro, senão vai ter que deixar um rim se quiser levar um vestido. Ai, ai, ai. Como dá trabalho, doutrinar a plebe.

Vamos lá, vou dar umas dicas de comportamento aqui hoje. Porque antes de saber se vestir, você precisa saber se portar nos lugares. Não adianta vestir uma capivara com roupinha de balé, chuchu. Ela vai continuar sendo uma capivara. Então, preste atenção que a Vivizinha aqui só vai falar uma vez pra não cansar minha beleza, tá?

Primeiro de tudo, saiba sempre que a roupa faz o homem e, sobretudo, a mulher, que é importante estar sempre vestida com a melhor marca e da maneira mais elegante. Mesmo que você seja uma jararaca da pior espécie, dessas bem peçonhentas e que a última boa ação se deu na época em que o Forte dos Reis Magos era só um projeto longínquo, se você se notabilizar sempre pela fina estampa, queridinha, as pessoas não lhe julgarão mal. Uma boa roupa redime qualquer falha de caráter. Principalmente se você for a um lugar novo, porque na nossa cidade, a máxima “a primeira impressão é a que fica” é a maior das verdades. Ninguém tem tempo nem tutano pra ficar revendo conceitos, pensando melhor e mudando de opinião. Por isso, se você for vista como uma brega sem solução, conforme-se, dear. Ou então se mate, o que achar mais cômodo.

E tem o cabelo também, jovem. Se quiser causar uma boa impressão, é melhor cuidar dele. Nada de sair toda pichete por aí, viu? Para que as pessoas não saiam falando mal de você até a terceira geração, desenvolva uma verdadeira obsessão pelo cabelo. Nem cogite sair na rua sem uma escova, uma chapinha ou umas duas horas de secador. Alise essa juba, Rei Leão, senão vai ser pior pra você. Depois não diga que a Vivi não lhe avisou.

Agora vou falar das coisas do coração. Arrume um namorado que frequente bons lugares, restaurantes chiques, que se vista bem e receba convites para os eventos mais exclusivos. Não se importe se ele lhe trata mal. O importante é estar com ele. Melhor do que com um rapaz que lhe trate bem, mas não transmita o mesmo status, não tenha a mesma classe ao se vestir e vá a lugares como a Ribeira, bares com churrasquinhos no espeto ou (ui!) rodas de samba nas Quintas. Outra coisa: evite negros, mulher. Pele escura, a não ser por um bronzeadinho no verão, é sinônimo de pobreza. E pobreza é uma coisa que a gente deve ficar longe. Pelo amor de Deus. É mais contagiososa que gripe, se transmite pelo ar. Portanto, não goste de pobres, não goste de negros. Pode inclusive assumir isso publicamente que na sociedade natalense é normal. Todo mundo vai aceitar numa boa e, inclusive concordar.

Quando estiver socializando com a turma de amigos selecionados que você deve formar, em alguma praia distante do litoral norte, tente demonstrar uma imagem desprendida e levemente rebelde. Uma bebidinha destilada, uma lança perfume, uma cocazinha, mas maconha nunca, que isso é droga de pobre. É o Derby dos entorpecentes ilegais. Afe!

Nas rodinhas de conversa, você pode até ousar um pouquinho de vez em quando, dizendo que se sente levemente contrariada com as suas amigas, que elas se importam em demasiado com a vida dos outros, especialmente os problemas e que só ligam pra aparência. Porém, contudo, entretanto e todavia, nem pense em ser diferente! Incomodar-se com a vida dos outros é o que há e viver de aparência, seguir a moda, ser glamourosa, linda e modern é essencial. O importante, sua linda, é seguir as regras da cartilha. Afinal, é como eu sempre digo: “Imagem é tudo!”

Coluna da Digi # 110 – O aniversário do Sr. Bira

março 1, 2011

Em 2010, esqueci o aniversário do Senhor Bira. O jeito foi escrever uma crônica pra me desculpar. Em 28 de outubro passado, publiquei na Coluna da Digi. 

O Senhor Bira gostou.

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O aniversário do Senhor Bira

Quando éramos pré-adolescentes o que havia de mais moderno eram as festas americanas. Levávamos comida e refrigerante e tentávamos vencer a timidez de meninos buchudos e beradeiros com as meninas mais bonitas da escola (aliás, vocês já notaram como as meninas mais bonitas da escola são maltratadas pelo tempo? Viram cada baranga!).

Depois, na juventude e vida adulta, os churrascos, festas e reuniões de amigos ganharam um novo componente entorpecente, uma vez que passaram a ser regadas com álcool. Mas uma coisa não mudava. No dia 25 de outubro, o motivo do encontro era o mesmo: celebrar o aniversário do Senhor Bira.

Teve até uma época em que ele fazia muitos churrascos e para ter argumentos fortes o bastante para convencer todos os amigos a comparecerem, dizia sempre que era seu aniversário.

 – Mas, Seu Bira, estamos em abril. Seu aniversário é só lá pro fim do ano.

– E daí? A Destaque não organiza um carnaval em dezembro e todo mundo acha o máximo?

E foi assim que o Sr. Bira passou a ser o único natalense com 4 datas de aniversário por ano. Mas eu, ortodoxo que sou, só dava parabéns no dia 25/10.

Eu era implacável. Sempre fui bom nisso. Um Dirty Harry da lembrança. Todo dia 25 de outubro, era um dos primeiros a contactá-lo para transmitir meus votos de felicidade. Era minha obrigação, certamente. Afinal, o Sr. Bira é um dos meus melhores e mais antigos amigos. Estudamos na mesma escola, veraneamos na mesma praia, cutíamos rock num mesmo ambiente hostil e adepto da monocultura natalense, jogávamos futebol e basquete, demos força um para o outro em momentos difíceis (mortes de entes queridos, mulheres que nos deixaram) e também estivemos presentes nas melhores horas (aprovação no vestibular, sucessos na carreira profissional, casamento – o dele, que fique claro.). Até hoje temos os mesmos amigos, a mesma turma. Por tudo isso, eu não poderia esquecer seu natalício nunca nesta vida.

Sendo assim, a pergunta é uma só: por que diabos eu esqueci de, no dia 25/10 passado transmitir-lhe meus parabéns? Será a idade? Um lapso? Tive uma dia atípico?

Bem, a verdade é que eu até lembrei. Passei o dia inteiro repetindo como um mantra: “Tenho que ligar pro Seu Bira. Tenho que ligar pro Seu Bira…”, mas acabei deixando pra mais tarde e… vocês já sabem. Acontece com quase todo mundo. Findei esquecendo.

Então, Sr. Bira, este finzinho vai pra você. Foi mal ter esquecido de dar os parabéns no seu dia. Ato falho (ou seria ato Fialho?) que tento corrigir por meio deste texto.

Feliz aniversário.

…atrasado.

Coluna da Digi # 109 – À mesa com Marçal

fevereiro 28, 2011

Os leitores mais atentos já devem ter percebido que, nesta republicação cronológica das colunas da Diginet, tenho alternado algumas, pulado outras, enfim, bagunçando um pouco o coreto ao meu bel prazer. Por exemplo, a última que publiquei foi “O Roteirista de Stallone Cobra ( a número 106)” e agora já passo para a número 109 (“À mesa com Marçal”). Bem, o que ocorreru foi que a de número 107 foi a minha coluna de despedida, que publiquei em 05 de setembro de 2010, mas depois acabei escrevendo mais algumas até o final do ano passado. Por isso, só republicarei a coluna 107 por último, para ficar mais adequado. Já a de número 108, “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, eu já postei aqui junto das outras crônicas sobre o tema. Basta clicar aqui para ler (https://blogdofialho.wordpress.com/2011/01/24/coluna-da-digi-108-zumbis-6-%e2%80%93-bem-vindos-a-zumbilandia/). Por essas razões, republico hoje a coluna de número 109, “À mesa com Marçal”.

Boa leitura!

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À mesa com Marçal

Marçal Aquino, Antonio Prata, Carlos Fialho e Daniel Galera.

 

Você percebe que alguém é acima da média quando percebe que ele é o ídolo dos seus próprios ídolos. Foi dessa forma que conheci a obra de Jorge Luís Borges. Sou fã dos textos do gaúcho Luís Fernando Veríssimo, do carioca Arthur Dapieve e do paulista Antonio Prata. Prata faz diversas referências a Borges em seus divertidíssimos contos; Dapieve considera o autor como o melhor escritor do Século XX; Veríssimo vai além e define Borges como o melhor escritor da história. E olhe que falamos de três autores brasileiros apaixonados por futebol, o que deve pesar um pouco em se tratando de um autor argentino elogiado tão efusivamente por eles. De tanto ler seus elogios, resolvi àquela época, conferir a obra do hermano e descobrir que ele tem todos os méritos em ser ídolo dos ídolos. Tanta imaginação a serviço da literatura fez de Borges um escritor universal, estudado, cultuado, admirado e, claro, lido no mundo inteiro. E foi justamente graças a esse movimento típico e “uma coisa puxa a outra” que me inscrevi orgulhoso no fã-clube do Borges. Mas isso já faz mais de 10 anos. Naquele tempo eu era jovem e nem pensava ainda seriamente em ser escriba.

Em tempos mais recentes, mais precisamente no mês de outubro de 2006, estive em São Paulo, junto com outros 3 colegas escritores potiguares para lançarmos nossos livros e o selo Jovens Escribas. Naquela noite fria na capital paulista, percebi que Marçal Aquino é o cara. Nossos convidados começavam a chegar ao local do lançamento, a Mercearia São Pedro.  Vários deles, escritores residentes em Sampa, lidos e admirados por alguns de nós. O primeiro foi André Laurentino, autor de “A Paixão de Amâncio Amaro”, um romance considerado como um dos melhores publicados no Brasil em 2005. Autor revelação da Festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro. Entre os presentes também estavam Daniel Galera e o já citado Antonio Prata. Mas foi Laurentino que apontou com indisfarçável admiração: “O Marçal chegou.” Eu, sem ligar o nome ao escriba, perguntei: “Quem?” “Marçal Aquino. Você não conhece? Olha ele ali. Você precisa conhecer!”

Daniel Galera, autor bem-sucedido da geração 00, adaptado para o cinema, teatro e o escambau, o homem por trás da histórica editora Livros do Mal, passou boa parte da noite conversando e absorvendo o que o grande Marçal tinha a dizer. Antonio Prata também fez o mesmo.

A noite foi passando e, em dado momento, tive eu também o privilégio de sentar à mesa com o Marçal. Numa roda de bate-papo bem aquilatada, todos só tinham olhos e ouvidos para ele e suas histórias. Eu aproveitei o momento o quanto pude. Deliciei-me com alguns ótimos “causos” da vida real vividos por ele.

“Um amigo meu transou com uma hermafrodita!”, declarou. “Tava lá, metendo nela, nele, sei lá, quando a hermafrodita começou a ter uma ereção. Não riam ainda que a história não acabou. Não é que a hermafrodita ficou excitada e gozou no meu amigo?! Olha, eu não sei vocês, mas eu não gosto de ter algo entre mim e a parceira não. Prefiro o tradicional mesmo.”, decretou.

“Um dia eu cheguei pra um amigo e disse: pô, tô a fim de dar umas porradas. Aí ele disse que tinha um clube sadomasoquista que ele freqüentava em que várias mulheres iam lá pra apanhar voluntariamente. Eu fui. Cheguei lá, peguei um chicotinho e comecei a espancar uma mulher que gemia a cada porrada. Lá pras tantas, ela disse: ‘Isso é o melhor que você consegue fazer? Pode bater com força, meu!’ Aí, eu desci a porrada e ela gozou de tanto apanhar. É estranha a sensação. Nunca mais quis bater em ninguém depois disso.”

Lá pras tantas, uma mulher muito bêbada, estilo mala-sem-alça, sentou à mesa conosco e anunciou dramática: “Uma cartomante disse que eu vou morrer.” O sábio Marçal de bate e pronto: “Eu digo a mesma coisa. Essa é a única certeza, minha filha. Não precisa ser cartomante pra saber disso.” “Mas você não está entendendo. Ela disse que eu só tenho 15 anos de vida.” “Ela disse isso? Imagina! Você não chega a isso tudo não!” A mulher saiu horrorizada da mesa. Antes de ir embora perguntou como era o nome daquele homem de afirmações tão terríveis: “Marcelino. Meu nome é Marcelino Freire.”

Marçal tem muitas outras histórias pra contar. E as melhores a gente não acha em mesas de bar, mas em DVDs ou livros. Leia o romance “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” e garanto que você vai ter que ir atrás de todo o restante. Agora, uma coisa é certa: tomar uma cerveja com ele, mesmo que por um breve (apesar de memorável) tempo, ajuda a entender de onde tira personagens tão elaborados. Em muitos casos, são os personagens que buscam o escritor.

Coluna da Digi # 106 – O roteirista de Stallone Cobra

fevereiro 17, 2011

A exemplo de outros textos publicados aqui (“A Copa de 90” e “Saúde é o que interessa.”), este  é mais um conto que escrevi para a coletânea organizada por Thiago de Góes “80 contos sobre os anos 80”. Gosto dele. Acho bem divertido. Espero que vocês gostem também.

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O roteirista de Stallone Cobra

Sempre gostei das frases de efeito. As verdades absolutas, incontestáveis, que impactam como uma sipuada no meio da testa. Aquelas que deixam qualquer interlocutor sem chão, pensativo, sem prumo nem ação. E o melhor das verdades inegáveis é que nem precisam ser verdades. Basta serem pronunciadas com cerimônia, a trilha sonora adequada no fundo, no tempo certo e conforme a ocasião. Se você constrói o cenário ideal, uma boa frase de efeito se torna a mais irresistível verdade já proferida.

No meu caso, sempre foi assim. Por exemplo, eu nem me lembro direito quando vim dar com os costados nos Estados Unidos, mas recordo qual foi a primeira frase que disse assim que cheguei: “Deixarei marcas indeléveis nesta gloriosa nação libertária!” Infelizmente, como eu ainda não falava inglês e as pessoas que estavam no saguão não entendiam português, essa frase não entrou pra história. Faltou timming.

É que as coisas funcionam mais ou menos assim: tem que ter o momento certo pra dizer a frase, mas também não pode ser qualquer frase. Imaginem se o Dom Pedro I tivesse dito algo como “É, acho que já deu. Bem que o Brasil poderia, assim, ficar, tipo, independente de Portugal, saca?”? Certamente a gente estaria até hoje dançando o vira, ouvindo fado e contando piadas sobre nós mesmos. Ele tinha que dizer algo imponente e marcante como “Independência ou morte!”, montado em um cavalo magnífico, rodeado de fiéis e patrióticos guerreiros, com uma trilha épica de fundo composta pelo John Williams e muito gelo seco pra dar um clima. E, olha que se fosse eu que tivesse escrito a cena, ainda faria mais dramática. Ele diaria algo como “Eles podem até levar nossas vidas, mas nunca poderão levar nossa LIBERDADE!” Como não fui, acabei sugerindo essa fala pro Mel Gibson e ele aproveitou no “Coração Valente” anos depois.

E o Neil Amstrong? E se ele tivesse dito, ao pisar na Lua, algo como “Uhuuuuuu!!! Cheguei primeiro! Pega porra!” Poderia ter sido a primeira e última viagem tripulada ao satélite. O resto da humanidade nunca mais se interessaria por outros planetas ou estrelas ou satélites e os astronautas e cosmonautas de todo o mundo perderiam irremediavelmente seu charme. A corrida espacial não teria vencedores, só frustração e uma terrível sensação de tempo e dinheiro perdidos. Mas não, o roteirista da viagem à lua foi o Kubrick e ele não daria bobeira. Era perfeccionista e sensível. Sabia dizer a coisa certa no momento adequado.

Eu também tive a sorte de ser agraciado com esse dom. Sei o que colocar na boca dos atores e a carga dramática exigida a cada nova cena. Por isso venci aqui nessa terra do entretenimento. Escrever filmes de sucesso em Hollywood requer talento, claro. Mas não é só isso. Os roteiros de grande alcance popular com resultados expressivos nas bilheterias exigem um quê de genialidade, o auxílio de luxo de profissionais como eu: assistente de roteiro, que se ocupa em imaginar as tiradas geniais, os ditos que ecoarão nas mentes mundo afora e ficarão na memória dos espectadores. Ser roteirista respeitado nos Estados Unidos é trabalho para mentes criativas. Agora ser um assistente de roteiro digno de registro é para cabeças divinamente iluminadas e inovadoras, ousadas e brilhantes. Enfim, gente como eu.

Ou vocês acham que frases como “Que a Força esteja com você.”, de “Star Wars” ou  “Tire suas patas imundas de mim, seu macaco maldito” do “Planeta dos Macacos” foram idealizadas pelos próprios roteiristas? Não, foram cunhadas por Assistentes de roteiro históricos. O mesmo pode ser dito sobre “My name is Bond, James Bond.” E “Eu vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.” De “O Poderoso Chefão”. Gente mais importante que os próprios que assinam os roteiros.

No meu começo no showbusiness, trabalhei como o cara que segura o cabo, com o devido respeito. Daí, em 1980 quando o George Lucas estava numa dúvida danada sobre um nó que ele queria desatar numa história, eu criei coragem e falei pra ele: “Look, mister Lucas, lá no Brasil, sempre que acontecem essas coisas nas novelas, os caras dão um jeito de alguém ser filho de alguém. Can you understand? Tipo um casal que descobre que são pai e filha… aí sai dizendo “Look, minha filha, I’m your father.” Ele abuticou os olhos pra cima de mim e disse “That’s it! LUKE, I AM YOUR FATHER!” E acabaram-se meus dias de rapaz do cabo.

Logo depois, minha fama de ajeitador de histórias se espalhou por Hollywood e o Silvester Stallone me pediu pra que eu desse uma força com seu novo filme sobre um soldado rebelde no Vietnã: Rambo. Sugeri um pequeno diálogo em que um vilão pergunta: “Quem é você?” e o Stallone respondia “Seu pior pesadelo!” Minha contribuição acrescentou uma carga dramática de tal magnitude à produção que o filme fez sucesso no mundo todo e o Stallone me pediu que escrevesse um roteiro inteirinho pra ele em vez de apenas colaborações esparsas.

Só que eu não poderia atender o convite do Sly imediatamente por já ter topado trabalhar com o Spielberg e ajudá-lo com o seu projeto da vez, além de outros que havia assumido antes. Em 82, o diretor de “Tubarão” ficou bastante satisfeito com meu toque de Midas. Bastou uma única frase minha para fazer o seu “ET” voar até a lideranças das bilheterias mundiais: “ET telefone casa!” Depois, o Arnold, meu amigo, pediu uma dica para encerrar o seu “Exterminador do Futuro”. Sem pestanejar, declarei: “Eu voltarei!” E por causa disso, os caras já vão bem no sexto filme da franquia.

Depois mais dois clássicos para adolescentes: “Quem vão chamar? Caça-fantasmas!” e “Slott quer chocolate.” dos Goonies, mais uma parceria minha com o Steve. Como o Stallone não me deixava em paz, fui escrever o filme novo dele, meu único trabalho como roteirista propriamente dito. Bem, digo aos senhores, sem medo de errar: foi minha obra prima. “Stallone Cobra” de 1986 é o melhor filme da história do cinema! Cheio de sentenças memoráveis e a antológica “Você é a doença e eu sou a cura!”. Com mnha reputação cada vez mais nas alturas, até o Stephen King recorreu a mim para adornar uma de suas histórias. Era sobre amizade. Pensei um pouco e falei pra ele que “Amigos entram e saem de nossas vidas como garçons num restaurante”. Ele escreveu o filme “Conta Comigo” que até virou cult.

O ano de 86 ainda me proporcionou mais uma pérola. Estávamos bebendo, eu e dois colegas, em um bar de Los Angeles quando eu disse que era muito bom estar ali com eles, pois “a vida é muito curta pra desperdiçar.” Eles começaram a gritar eufóricos e afirmaram que tiveram uma ideia para um roteiro me colocariam como co-autor. Foi assim que participei de “Curtindo a vida adoidado”.

Minha última façanha na década de ouro foi uma contribuição que dei a um certo cara chamado Tom. Eu sugeri duas frases “Oh, Capitão, meu Capitão!” e “Carpe Diem.” E, a partir delas, ele fez um filme bem legal e elogiado chamado “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Nos anos que se seguiram, me aposentei. Uma vez, um indiano ligou pra mim querendo que eu o ajudasse numa história. Me fiz de doido, e disse algo bem sem sentido como “Eu vejo gente morta!” O safado fez um ótimo filme a partir dessa frase. Depois veio me pedir mais dicas e eu me recusei a dizer algo. Parece que desde então, nunca mais fez nada que prestasse.

No início dos anos 2000, promovi uma festa pra comemorar 20 anos de carreira. Convidei uns amigos do meio, entre eles o Fernando, que estava pra filmar um livro do qual ele gostava muito. Ele quis conversar sobre o projeto. Disse que o Bráulio Montovani, um garoto muito talentoso estava à frente e me contou alguns detalhes da história. Eu até gostei, mas o nome do vilão não estava certo. Aí, ele me perguntou: “O que foi? Você não gosta do Dadinho?” Ao que eu respondi: “Pô, Fernando! Dadinho é o caralho!” Acabei que não vi o filme ainda, mas fiquei sabendo que a frase teve um efeito legal na plateia. É como eu sempre digo ao ver um roteiro com defeito: “Você é a doença e eu sou a cura!”

Coluna da Digi # 105 – Copa de 2014. E o principal?

fevereiro 14, 2011

 

Esta foi mais uma crônica da sequência de textos sobre a Copa de 2014. Aborda a eterna fixação pelo secundário dos natalenses, deixando de lado itens muito mais essenciais para o nosso desenvolvimento. Espero que sirva de reflexão para todos.

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Copa de 2014 – E o principal?

A Copa do Mundo é nossa. Ou deles, sei lá. Do Ricardo Texeira, dos governos federal e estadual, da prefeitura, da Globo, dos patrocinadores e suas isenções fiscais absurdas e imorais. Mas, a despeito de toda essa turma que monopoliza o filé e retém para si os principais dividendos, manejando enormes quantias de dinheiro, alguma mínima parte do montante acaba por beneficiar os moradores locais. Benefícios que vem através de investimentos em infraestrutura, transporte público, turismo e formação profissional para receber turistas. Sem falar nas divisas que ingressam na cidade durante o evento, aquecendo a economia informal.

Essas são algumas vantagens de sediar o evento. E muita gente tem opinado sobre tais aspectos, seja cobrando providências, apontando soluções ou promovendo palestras e debates. Todos os dias vemos autoridades nos jornais explanando sobre o tema. São governantes, candidatos, dirigentes de entidades diversas e representantes das mais variadas categorias. Ninguém quer ficar de fora do foco de todas as atenções. Até o termo “político copa do mundo” foi reinventado, ganhando uma conotação positiva.

No entanto, nenhuma dessas autoridades ou os jornalistas que abordam o assunto diariamente na imprensa tocaram num ponto importantíssimo do processo. Ninguém parece ter enxergado que a realização da Copa no Brasil, tendo Natal como sub-sede, pode significar uma oportunidade única para promover uma ampla, profunda e permanente transformação social. É claro que isso não me surpreende, já que uma das nossas maiores características é a falta de visão periférica dos detentores da informação (empresários, jornalistas, intelectuais, políticos e universitários). Parecemos (os natalenses) incapazes de elaborar raciocínios minimamente complexos, envolvendo planejamento, ações de longo prazo e benefícios mais abrangentes, ocupados demais que estamos com interesses individuais e imediatos.

A alternativa que ninguém viu até o momento é a chance de deixar um legado verdadeiro para a população local. Que tal um projeto de transformação social por meio da prática esportiva de alto nível associada à educação de excelência?

Poderíamos aproveitar a força do evento para criar algo positivo e sem precedentes na nossa história. O impacto psicológico no imaginário coletivo levaria as pessoas a abraçarem causas nobres com maior facilidade. Inclusive, uma que só gere frutos após alguns anos, desde que se deixe claro que mudará nossa cidade para melhor.

Um trabalho como este resultaria em um legado realmente duradouro para a nossa cidade. E ainda nos salvaria do ridículo de construir um estádio moderno e caríssimo sem ter atletas preparados para atuar lá. Pois como disse o neurocientista Miguel Nicolelis recentemente, não podemos ficar eternamente dependendo do turismo. “Turismo é migalha”, declarou. Pesquisa, ciência e educação são riquezas muito mais duráveis e valiosas.

Mas nós não percebemos a importância do esporte e da educação para a transformação das pessoas humildes. É que o natalense é antes de tudo um míope. Um míope social. Somos insensíveis aos problemas dos outros e de um desleixo tão torpe que organizamos um evento de grande porte há 20 anos (o Carnatal) e ele nunca serviu para mudar a vida das pessoas pobres da cidade. E olhe que elas se envolvem de corpo e alma com o evento devido a seu apelo popular. No fim, e como sempre, os ganhos reais ficam nas mãos de meia dúzia de empresários e políticos.

Por isso, mesmo acreditando que a infraestrutura é essencial, a segurança e o transporte são necessários, defendo que o principal valor dessa cidade será mais uma vez negligenciado por nós. O mais importante não é a Arena das Dunas, as obras do Centro Administrativo ou as milhares de vagas de estacionamento. O principal é o povo. São as pessoas. Quando a Copa passar, elas continuarão aqui. Mesmo que nós sigamos fingindo que não existem nos canteiros e sinais.

Faço o alerta neste espaço, mas não chego a me iludir de que alguma coisa vá mudar. Até porque o raciocínio dessa gente é simples: “se a opinião pública se contenta com migalhas, imaginem o povão”. Principalmente o povão.

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Quem quiser ler as crônica anteriores sobre o tema, pode clicar nos seguintes atalhos:

A roubalheira vai começar.

A conta é nossa.

Minhas razões

Bombas de efeito imoral.

Coluna da Digi # 104 – A Marcha da Maconha

fevereiro 10, 2011

Durante a SBPC 2010, realizada em Natal, na UFRN, um intrépido grupo de jovens resolveram defender a legalização do consumo recreativo da maconha, causa que apoio com toda a convicção e entusiasmo, apesar de não ser usuário nem de gostar nem um pouco de fumaça, seja lá qual for a origem. É que também sou defensor ferrenho da máxima de Voltaire, o maior defensor da liberdade de expressão: “Sou contra tudo o que você disse, mas derramarei até a última gota do meu sangue para que você tenha o direito de dizê-lo.”

E foi nessa pegada que escrevi a polêmica coluna “A Marcha da Maconha” em 02 de agosto de 2010. Boa leitura, jovens. 

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A Marcha da Maconha

A versão carioca da marcha, uma das pioneiras do Brasil.

Os jovens que marcharam na UFRN na última sexta-feira (30.07.2010) em defesa da liberação da maconha talvez nem saibam, mas foram protagonistas de um episódio histórico para Natal. Até bem pouco tempo, um ato semelhante a este seria impensável por aqui. Nessa capital com alma interiorana, temos o velho hábito de observar a vida alheia a partir das calçadas e janelas simbólicas da vida, verdadeiros tribunais sem direito a recursos ou instâncias posteriores, de onde tecemos juízo de valor sobre tudo e todos.

Um ambiente hostil como este resulta numa sociedade preocupada em excesso com opiniões alheias, seguindo hábitos e atitudes padronizadas pela maioria, pelos ditames de modas e frivolidades coletivas. É preciso manter certas aparências para ser aceito. Quem deseja transitar incólume pela zona de conforto da aprovação consensual não pode quebrar regras estabelecidas. Dos interesses culturais ao modo de vestir, tudo precisa seguir a cartilha.

O problema é que a cartilha em vigor faz de nós verdadeiros agentes da caretice. Homens e mulheres conservadores, assustadiços e frontalmente avessos a mudanças. Ela condena opiniões originais e ovelhas desgarradas, fazendo de Natal a cidade mais preconceituosa, machista, repressora e (o horror! O horror!) careta do Brasil. Nossa elite falida e, por extensão, nossa classe média odeia negros, pobres, mulheres com personalidade, gays e maconheiros. A mesma cidade que cultua a contravenção chique do lança-perfume, condena à fogueira os que se atrevem a experimentar a erva maldita.

Tudo isso, somado à boa e velha passividade do Natalense, cria uma situação de letargia e imobilidade difícil de reverter. No entanto, a sociedade, assim como você, o design automotivo e o vírus da gripe, pode evoluir. E esta evolução, que deixaria até Darwin surpreso, chegou até nós.

Algumas vozes tímidas e eventuais ergueram-se em meio a tirania do mesmo e manifestaram publicamente seu gosto musical “alternativo”, sua opção sexual distinta ou qualquer outra forma de subversão, levando à loucura os bastiões da elite natalense.

Porém, a primeira marcha da maconha vai mais longe ao reivindicar a liberação de uma substância proibida pela Constituição Brasileira. Um evento que eu julgava impossível de acontecer na terra dos magos reacionários. O próprio fato de as autoridades policiais terem ensaiado uma repressão e depois permitido, por pressão da opinião pública, é emblemático.

Demonstra que já admitimos opiniões diferentes. A marcha da maconha recupera em boa medida minha fé numa Natal melhor no futuro, com mais gente defendendo idéias e menos janelas para a vida alheia, com mais diversidade cultural e menos trios elétricos, com mais Casas do Bem e menos individualismos. Porque pra frente é que se anda. Ou se marcha.

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Post Scriptum: um detalhe legal é que Pablo Capistrano também escreveu uma crônica em resposta a esta (“A longa marcha da maconha”), fazendo uma retrospectiva histórica da erva e dos sinuosos caminhos de sua proibição nos países ocidentais, além dos verdadeiros interesses ocultos por falsos moralismos. O texto pode ser lido aqui.

Coluna da Digi # 103 – Papa essa, Brasil!

fevereiro 8, 2011

Ah, a Copa de 90! Que celebraçãpo do futebol arte, não foi mesmo? Este texto foi concebido a partir da ideia do autor Thiago de Góes (“Contos Bregas”, “Lobas, Deusas e Ninfetas”) de escrever contos sobre os anos 80. Brinquei com o fato de que o ano de 1990 faz parte da década de 80, apesar de as pessoas em geral não considerarem isso. Foi então que resolvi escrever um texto cheio de ironia a respeito da pior Copa do Mundo de todos os tempos.

Abraços.

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Papa essa, Brasil!

Eu acho que agora vai! Depois de 20 anos chegou a hora de a gente papar essa Copa do mundo. E olhe que eu tenho uma intuição muito boa, boa mesmo. O Collor, por exemplo, começou mal, com essas medidas impopulares, mas pra fazer as coisas darem certo no Brasil, com esses tantos problemas, tem que ser radical mesmo. Um remédio, pra ser bom, tem que ser amargo. Senão remédio seria pizza, né não? Meu pai é que quase teve um treco quando tomaram a poupança dele, mas depois se recuperou, ou quase, e tirando os remédios pra pressão alta e depressão, está levando uma vida próxima do normal.

Mas, fanado de coisas boas, a seleção vai ganhar a Copa sim. Eu tenho fé nisso. Veja a Copa América do ano passado. Demos um baile, jogando bonito, vencendo os rivais. Inclusive a Argentina que vinha com toda aquela banca de campeã mundial. Dançaram bonito no Maracanã. O Lazaroni é aquela coisa, né? Estrategista, com boas peças na mão. Na defesa tem o Taffarel, o Jorginho, o Branco, Mozzer. Na frente tem o Careca, o Muller e ainda Bebeto, Romário e Renato no banco. Só não gosto muito do Dunga, sabe? Não acho que esse aí vá a lugar nenhum. Mas, enfim, se a gente for campeão, ele também vai estar na foto do tetra. Aliás, voltando ao Lazaroni, vocês viram como ele está bem como ator naquela propaganda da Fiat? Hehehe. Muito engraçado.

E vamos que vamos, ao ritmo da Lambada, conquistar a Itália. Por falar nisso, minha irmã virou professora de Lambada. Aquela ali está feita. Vai se dar muito bem na vida, pois não dou 5 anos para o ritmo paraense desbancar o samba como símbolo da música brasileira no mundo. Com certeza, não nenhuma moda. É uma profunda mudança de costumes e valores culturais. A Lambada veio pra ficar. Pode confiar.

E podem confiar em meus palpites futebolísticos também. A Holanda é a campeã europeia. Por isso acho que vai bem longe. Certamente vai fazer a final contra o Brasil. Não acredito nas outras seleções. Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental e Argentina não vão chegar longe dessa vez. E olhe que os donos da casa têm pinta de favoritos. Argentina e Alemanha também porque foram finalistas no México, mas nenhum deles vai ficar de pé se cruzar com Brasil ou Holanda.

Sabe qual é uma equipe que pode surpreender? O Uruguai. Em 86 Francescoli já deu um show e acredito que agora eles também vão arrebentar. É capaz de pintar numa semifinal. Outro time sul-americano que pode ser uma zebra é a Colômbia. Aquelas saídas do Higuita para driblar fora da área irritam os adversários a ponto de deixá-los sem ação. Ele ainda vai aprontar uma das suas nessa Copa. Alguns acham que é irresponsabilidade, mas eu e minha intuição sabemos que não vai acontecer nada de errado com os colombianos por causa daquilo. É capaz que, em uma dessas jogadas, ele dê início a uma jogada de gol na Colômbia.

O que ainda é triste é o fato de as equipes asiáticas e principalmente as africanas serem enormes sacos de pancada, meros coadjuvantes para que europeus e sul-americanos exibam seu talento. Já na abertura a gente vai ver. A Argentina vai dar uma surra em Camarões e vão se achar os favoritos absolutos. Ouvi dizer que Camarões tem um centroavante de 38 anos de idade. O nome dele é Roger Milla. Minha Nossa Senhora! O que é que esse senhor vai fazer numa Copa do Mundo? Tá na cara que vieram passar vergonha.

E aposto no artilheiro também. Vai ser o Van Basten. Seguro que vai. Ou talvez o Lineker ou algum brasileiro. Da Itália é que não vai ser. Aquele futebol feio, amarrado, sem criatividade. O pessoal tá dizendo que o Brasil está querendo jogar à italiana, mas… que nada! O Brasil vai testar esse esquema de 3 zagueiros, mas logo vai mostrar sua categoria, malemolência, futebol moleque e, esquemas italianos à parte, vamos vencer uma linda final contra a Holanda.

Enfim, quem quiser pode anotar o que eu estou dizendo. Sou muito bom em previsões e tudo o que eu disse vai acontecer. O Brasil vai ganhar a Copa de 90 depois de 20 anos, o Collor vai ser um grande presidente, a Lambada vai ser o ritmo essencialmente brasileiro, tomando o lugar do Samba e muitas outras coisas que a minha intuição está me dizendo. Podem confiar. Eu sou infalível!

Coluna da Digi # 102 – O relógio que vovô usou.

fevereiro 3, 2011

Mais uma crônica da safra madrilenha que publiquei tardiamente na coluna da Digi, precisamente no dia 26 de abril de 2010. Mas deu certo. O pessoal gostou. Pois, como dizem por aí: tudo tem seu tempo.

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O relógio que vovô usou.

Em 1999 eu precisava de um relógio. Na época, eu estava fazendo intercâmbio em outro país e, além do deslocamento espacial em alguns (na verdade muitos) milhares de quilômetros ao norte, carecia de um acessório que, acoplado satisfatoriamente ao meu pulso esquerdo, pudesse me devolver a orientação temporal perdida desde que meu relógio anterior havia se quebrado. Ainda mais que eu me encontrava com 5 horas de diferença de fuso horário (confuso horário?), o que é um fator a mais de complicação. Nessas situações, um objeto que nos ajude a nos situar no tempo é de enorme utilidade, adquirindo um valor que transcende a própria estética inerente ao adorno em que se converteu o relógio em detrimento de sua natureza inegavelmente prática.

Busquei um centro de compras onde pudesse encontrar um dos bons, que não fosse um mero mostrador de horas. Afinal de contas, sou brasileiro, compatriota do Alberto Santos Dummont, ninguém menos que o inventor dessa porra, tá sabendo? E em tão privilegiada situação, eu merecia respeito e a condição de ostentar o que de melhor houvesse na categoria de indicadores de horário portátil. O relógio que eu compraria deveria preencher uma série de requisitos prévios, ser avaliado segundo rigorosos parâmetros, estar de acordo com os mais exigentes critérios, respeitando altos padrões de excelência.

Seguindo este raciocínio, o eleito deveria ter qualidade comprovada e precisava demonstrá-la , trabalhando dia e noite sem intervalos, consumir pouco das poluentes baterias, não atrasar, ser resistente e durável, tranquilizando-me quanto ao seu uso continuado e longevidade. Um relógio que se preze deve ajudar com soluções e não ser motivo de mais problemas. Por essas razões, uma boa marca, reconhecida e recomendada por especialistas, deveria ser minha opção. Também se fazia imperativo que fosse agradável aos olhos, porém discreto, uma vez que eu estaria seguidamente consultando-o, não poderia correr o risco de me cansar dele. Além disso, não seria nada conveniente que ele acabasse chamando a atenção das pessoas em demasia. Os outros só deveriam notá-lo quando precisassem saber as horas. Porque o tempo é o real motivo pelo qual usamos relógios. O tempo é o astro e o relógio é um relativo controle (ou ao menos informação) sobre o nosso tempo. Portanto, se um relógio aparece mais que o necessário, fazendo-nos esquecer, por alguns momentos que seja, seu propósito, superando o tempo em atenção dispensada, configura-se uma abjeta inversão de valores que deve ser prioritariamente corrigida. Em resumo: deve ser bonito, mas sem “causar”.

Um relógio não deve perder seu foco porque detém consigo muita responsabilidade. Apesar de sermos nós que os levamos no pulso, ele leva em si nossa reputação e imagem. Há muito em jogo naquele pequeno objeto além da simples satisfação da curiosidade sobre em que instante do movimento de rotação da Terra nos encontramos. O que está permanente em xeque ali é a nossa pontualidade. Essa é a irrevogável e duríssima realidade.

No centro de compras encontrei várias alternativas e logo me agradou uma delas, um belo, discreto e de boa procedência (da marca Guess) relógio com tons equilibrados entre o azul, dourado e prateado. Encaixou-se bem no meu pulso, inspirou-me confiança e levei.

É motivo de grande felicidade quando as coisas dão certo em nossas vidas, quando tomamos decisões que, posteriormente, se mostram acertadas, quando temos nossas expectativas plenamente correspondidas. Pois bem, o relógio se revelou uma excelente escolha. Eu não poderia ter acertado mais. Era um disciplinado operário, consciente do seu dever, cumpridor de todas as suas obrigações com diligência e eficácia. Em 10 anos que estivemos juntos nunca quebrou, mesmo depois de tantas pancadas, e devo haver trocado suas baterias umas duas vezes apenas. Incrível!

Sua ótima qualidade e durabilidade me deixaram tão tranquilo que me esquecia completamente do fato que, um dia, teria que substituí-lo. Um amigo mais afeito aos chistes e gaiatices, uma espécie de pândego da turma, sempre que me encontrava começava a cantar: “o relógio que vovô usou, o meu pai herdou e deixou pra mim”. Ele se divertia com o fato de eu usar o mesmo artefato havia tantos anos. Com isso, o maior mérito do meu instrumento de medição temporal acabou se tornando também o principal motivo de zombaria alheia.

Não me importava com o humor do meu amigo, adepto da filosofia de que nunca se deve deixar passar uma oportunidade de tripudiar com os demais. Preferia manter-me fiel a meu relógio, companheiro de todas as horas, enquanto este ainda cumprisse bem sua missão. Era uma questão de lógica: se funciona bem, se realiza o que dele se espera, não havia porque trocá-lo por outro, ainda que mais moderno, bonito e que transmitisse mais status. Substituí-lo sem uma boa justificativa seria sujeitar-se aos caprichos nocivos do consumismo, dos supérfluos, da aparência sem propósito. Eu não sou assim. Não gosto. Prefiro adquirir coisas que realmente sejam necessárias e não sucumbir aos apelos sedutores da publicidade que cria “necessidades” novas e inúteis a cada dia, alimentando o eu-materialista que habita a superfície de cada um de nós. Por sustentar firmemente essa postura, por tomar atitudes da mais pura austeridade e absoluta consciência, por não ser mais uma vítima dos exageros e arroubos capitalistas, eu me senti tranquilo, pois sabia que a crise econômica mundial que atravessamos não foi responsabilidade minha, pelo menos em grande medida.

Só que… o tempo… Este mesmo tempo que é senhor da razão, este “mano velho” que nos dá sabedoria, discernimento e maturidade, e que é, em si mesmo, a razão para que o relógio exista, é também carrasco implacável de todas as pessoas e coisas, setenciando o nosso inevitável ocaso. Digo isso porque essa semana, depois de 10 anos de serviços prestados, meu companheiro parou de funcionar. Seu coração artificial interrompeu suas pulsações e ele, cansado da labuta de uma década, deixou de mover seus ponteiros. Estou agora neste preciso momento olhando para ele, sua carcaça inanimada é pouco mais que um arremedo do que já foi, remetendo a lembranças de episódios passados.

Percebo que finalmente chegou o momento de substituí-lo. Vou comprar outro relógio. Buscarei numa loja outro que me inspire a mesma confiança e que seja tão discreto e de boa procedência quanto ele. Espero acertar outra vez na escolha.

Quanto ao meu velho amigo, o “relógio que vovô usou”, trocarei suas baterias e ele reviverá no pulso de um homem humilde que necessite de um relógio, mas não tenha tantas condições para comprar. Espero que este homem seja tão feliz quanto eu fui e que ele funcione mais 10 anos em seu pulso. Porque certamente a sua hora derradeira ainda não chegou.

Tudo tem seu tempo.

Coluna da Digi # 101 – E agora, Brasil?

fevereiro 2, 2011

Na coluna 100 da Digi fiz uma leve retrospectiva dos 99 textos anteriores. Aí passamos para a coluna de número 101. No dia 13 de abril de 2010 publiquei o texto “E agora, Brasil?”, uma divertida reflexão sobre a mudança de patamar de nosso país.

Boa leitura, jovens!

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E agora, Brasil?

E essa história de que agora o Brasil é uma potência, hein? A verdade é que nos custa a adaptar. Nossos, agora colegas, os países ricos convidam para as festas mais exclusivas. No encontro do G8, lá estamos nós. Na cúpula do clima de Copenhagen, nossa participação é fudamental. A Copa e as Olimpíadas? Levamos, sob o olhar resignado e de reconhecida admiração dos outros concorrentes que, no fundo, sabiam que não seriam páreos para nós. Eles apaludiam o nosso sucesso e pensavam por trás de seus sorrisos: “Ah, como nós queríamos ser como eles…” No meio de um encontro, a Alemanha nos chama a um canto e nos conta um segredo e até (por Deus!) pede uma opinião. Quando confraternizamos com os nossos iguais no meio do salão, aparece os Estados Unidos, apontam para nós e dizem para todos ouvirem: “Vocês são os caras!”

O Brasil aceita os convites com alegria e transborda toda a sua simpatia característica, quebrando seguidamente sisudos e cerimoniosos protocolos. De vez em quando, faz uma metáfora espirituosa e arrisca até uma sambadinha. Os outros riem e, mais uma vez, nos admiram pela espontaneidade. Todos parecem muito felizes com a nossa chegada ao clube. Na verdade, os únicos que parecem um pouco incomodados com isso somos nós, os próprios brasileiros.

E não é por mal, nem uma demonstração tardia e pós-rodrigueana de síndrome de viralatas, mas é que nós, os filhos do Brasil (assim como Ele), não estamos lá muito bem resolvidos com essa situação. Desde que éramos pequenos (em vários sentidos) nos diziam que éramos pobres, subdesenvolvidos, que nossa economia era fraquinha, que a hiperinflação não tinha jeito, que até tínhamos potencial, mas infelizmente não daria para desenvolvê-lo nesta encarnação. Éramos o país do futuro. E o futuro, como se sabe, não acontece hoje. Essa era a nossa realidade: a de povo pobre, mas limpinho que usava nossa supremacia futebolística para brincar um pouco de soberba. O refrão de “Inútil”, do Ultraje era o nosso hino nacional extraoficial.

Aí, de repente a gente cresceu. Nossa voz mudou e passou a ser ouvida, ganhamos corpo frente às outras nações e, apesar de desajeitados com nossas novas dimensões, tentamos nos adaptar. Os países ricos nos olharam e disseram orgulhosos: “Gente, olha só o Brasil. Eu conheço desde que o PIB era deste tamanhinho.” A partir daí começa o nosso conflito adolescente em busca da sua identidade. Estamos crescendo mais rápido que esperávamos e ainda não decidimos se vamos ser Bélgica ou Índia.

Diante de tanta pressão o Brasil senta à mesa de um boteco (ou no balcão de um pub irlandês) e resolve desabafar com um dos novos amigos europeus. A Espanha, digamos. Começam falando amenidades, contam uma que outra piada e, a certa altura da conversa, o Brasil solta a frase que já lhe sai tão automática por força do hábito: “é que eu, como sou um país pobre…” A Espanha dispara um olhar severo, chama a atenção do gigante verde e amarelo (“você é pobre? Você?!”) e começa a enumerar suas desgraças recentes, aparentemente mais graves que as nossas. Para serenar os ânimos e desfazer a tensão, o Brasil resolve mudar de assunto. “Falemos agora de futebol. Esse ano tem Copa, nossa seleção é uma das favoritas…” Mais uma vez ele é fuzilados pelo olhar inquisidor espanhol. “Vocês favoritos? Esse ano não tem pra ninguém! A Espanha é favorita e nenhuma seleção do mundo está no nosso nível de excelência individual, coletivo e ainda com tantos craques jovens despontando.”

E aí a coisa se torna ainda pior. Se antes a possibilidade de o mundo estar de cabeça para baixo não passava apenas de uma hipótese possível, agora se converte em certeza irrefutável. O Brasil está entre as melhores, mais estáveis e sólidas economias do mundo, porém não é mais o país do futebol. Como se vê, a coisa é mais grave do que parece. Nos custa a entender esse mundo. Precisamos de uma explicação lógica e plausível. Alguma coisa está muitíssimo fora da ordem. Mas agora que somos ricos, pelo menos já podemos pagar a terapia.

Coluna da Digi # 98 – Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.

janeiro 28, 2011

No dia 15 de março de 2010, publiquei um texto que se tornou mais um viral nessa minha carreira de seguidos e fugazes sucessos internéticos. A crônica “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ” nasceu de muitos relatos de amigos a respeito do comportamento habitual dessa juventude carnatalesca que é linda. Publiquei o texto na NET e logo ele se tornou um hit. Foi repassado por e-mail, divulgado no twitter, passado adiante das mais variadas formas. Virou assunto em mesas de bar e inflou meu ego a ponto de eu ter deixado de cumprimentar alguns amigos. Hômi, me deram tanto cabimento que até gente bacana da cidade escreveu textos opositores e Cristiano fez um bom trabalho, dizendo-se alvo do texto e, espertamente, promovendo  o Jukebox.  Enfim, foi muito legal tudo o que essa coluna provocou.

Boa leitura! E divulguem pra galera. Quero bombar esse blogue de acessos nessa sexta!

Valeu!

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Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!

Major, a vida anda cada vez mais difícil. Se esse hômi soubesse… Tá foda, bicho. Difícil mesmo. E o que é difícil, como esse hômi deve saber, não é fácil. É nada, hômi. Nem a pau. Ser um jovem de classe média alta em Natal está ficando cada vez mais trabalhoso. Pra mim, tem sido uma tarefa bastante árdua atender todas as exigências impostas pela sociedade e manter a pose de nababesca futilidade que se espera de um bom playboy natalense. Antigamente, bastava ter um carrão, com um som potente no porta-malas, um guarda-roupa cheio de grifes da moda, frequentar uns poucos lugares e exibir-se com a urgência de um pavão no ritual da corte. Valia falar alto, brigar em shows de axé, ser fotografado pelos colunistas sociais e ficar vergonhosamente bêbado em lugares públicos. O importante era ser notado pelos seus pares.

Mas essa moleza acabou. Hoje em dia o jovem playboy natalense e a autêntica patricinha conterrânea têm muito mais a fazer do que pensar em como vai ser o carnatal a partir de janeiro. Eles têm que cumprir uma rotina de compromissos sociais e extenuantes maratonas de eventos que deixariam qualquer chefe-de-estado em frangalhos.

Pra começar, os lugares que requerem a presença do jovem playboy são muitos. E se deixar de ir a algum deles pode significar a morte. Não a morte, morte mesmo, morrida de verdade. Mas uma morte ainda pior, uma morte social. Se você deixa de ir a um dos lugares da moda, já era! No outro dia tá todo mundo comentando, com maledicência, suposições, scraps no Orkut e SMSs mil, a respeito de sua ausência. Antigamente o roteiro de locais obrigatórios se restringia ao camarote da Vila Folia ou àquela boate da estação. Hoje, para ver e ser vista, nossa “geração Y” tem que ir a muitos barzinhos, boates, points, festas e, ainda por cima, tomar muito cuidado com a seleção dos locais que frequenta.

E não se trata só de seguir o rebanho, como muitos pensam. Deve-se ir aonde todos vão, mas com muito bom gosto, sabe? Teve até um amigo meu que quis escrever um guia de boa conduta para facilitar a nossa vida. Algo que dissesse o que é e o que não é cool. Seria o máximo para nós, membros orgulhosos dessa juventude carnatalesca que atrofiou as sinapses neuronais por falta de uso e total inapetência para a arte do pensamento. Imagina só, major, um circuito seguro para não derrapar e manter intacta a imagem e boa reputação de playboy/patricinha acéfalo potiguar. Hômi, isso não ia prestar não! O problema era que meu amigo não sabia escrever direito, daí nunca saiu o tal guia. Sem bronca, nossos iguais não iam conseguir ler mesmo. Sabe como é: a gente se cansa de ler qualquer coisa que não seja as legendas das fotos do Bobflash.

De qualquer maneira, eu, como sou um cabra de peia e gosto de ver meus amigos se darem bem, sem vacilar, saca?, vou lhe dizer qual o roteiro que deve seguir para não se queimar com as bichinhas. O caminho de tijolos amarelos se inicia nas baladas de quinta e sexta no circuito Seven, Maranello e Medievo. Não tem muito mistério não. Vista-se igual aos outros cabras, com as marcas da moda e o mesmo tipo de calça, camisa e pisante que eles estiverem usando. É melhor comprar tudo ali pela Afonso Pena, saca? Eles têm umas marcas “exclusivas”. Quer dizer, são iguais à maioria das roupas de qualquer shopping da cidade, mas como são muito mais caras, vão ajudar a te dar uma moral na noite. Quando estiver na boate, é bom estar entrosado com os grupinhos de pessoas VIPs. É gente badalada que geralmente tem nome e sobrenome. Eles nunca se chamam Renata ou Roberto. Sempre têm um sobrenome que indica status e sem o qual eles não são ninguém. Algo como Renata Faria, ou Roberto Maia. Aliás, se você próprio tiver um sobrenome legal, pode se integrar e ser aceito com muito mais facilidade. Tem certeza que não se chama De Paula ou Rosado?

Vamos seguindo. No sábado, no fim da manhã, dirija-se para a frente do hotel Manary, em Ponta Negra. Não se esqueça de sua bermuda florida. Nada de calção de futebol, senão as meninas não vão nem te olhar, a não ser com um desdém de quem acabou de ver um asquelminto gigante piscar pra elas. Se você estiver em dia com a academia e as aplicações de “estró”, melhor. Pois poderá se amostrar um pouco sem camisa pra todo mundo ver.

Depois da praia, saia correndo e dá um pulo pelo Dom Vinícius, Cervantes ou Pitanga. Uns tira-gostos legais, cervejinha ou uisquinho e papo animado sobre carros, shows, festas e resenhas diversas. É sempre bom pra saber quem tá comendo quem e qual dos amigos trocou de carro essa semana. De lá, uma passadinha no Shock Bar pra se espremer entre toda a galera. Não vale ficar cansado e deixar de ir. Tem que marcar presença, ver e ser visto. Por isso, toma um Redbull e vamu simbora, major! Vai com fé.

O “esquente” no Shock Bar termina cedo e o sábado ainda é uma criança. Por isso, vá em casa, tome um banho e volte pro circuito de bares por trás da AABB ou, pra “variar” um pouco, um Dom Café até que vai bem. Inclusive, aqui vai uma dica. Sabe o que é legal?, levar o ipod com as caixinhas de som pra colocar na mesa. Quanto mais caro e moderno melhor. É a nova versão da mala do carro escancarada. O efeito fica ainda melhor se todo mundo na mesa cantar junto as músicas alto para passarem o recado: “helloooo, eu tenho um ipod”.

No domingo, é dia de descanso? Que nada! Durma até meio-dia e depois trate de descobrir onde a galerinha esperta se encontra e vá correndo pra lá. Um churrasco na mansão de alguém, um almoço num restaurante chiquê, tipo o Buongustaio, onde as pessoas podem lhe ver da rua e admirar o quanto você é interessante por estar ali. Um sushizinho à noite também vai bem. Mas, olha só, tem que ser onde a turminha estiver, senão é o mesmo que não ter ido. É que, a partir do momento em que você decidiu se tornar um jovem society natalense, deve ir sempre aos mesmos lugares, ver e ser visto sempre pelas mesmas pessoas e julgar e ser julgado por elas. É como fazer parte de um clube, uma sociedade secreta, aliás, de secreta não tem nada. É bastante exibicionista, na verdade. Mas não importa. Você faz parte dela, então assuma o seu fardo.

Ah, sim! E cuide de se comportar de forma adequada. Tem que ser um pouco de ator também. Nada de discrição. Você não deve ser coadjuvante de porra nenhuma. Nesse filme, todos são protagonistas. Então, tudo o que fizer, faça com que seja notado por sua “plateia”. E entenda-se por plateia toda essa gente bronzeada, siliconada, anabolizada, de sorrisos perfeitos e valores frívolos que lhe circunda. Não faça nada, desde acender seu cigarro a balançar seu drink, sem o mínimo de estardalhaço. Fale de suas posses, de grandes feitos (nada precisa ser verdade. Lembre-se: você é um ator), de seu saldo bancário, de suas inúmeras conquistas amorosas. Mas fale alto, pra todo mundo ouvir. Nesse clube, as mulheres são gasguitas e os homens são gabolas.

Quando o fim de semana acaba vem a segunda-feira. A semana, lembre-se, serve pra recarregar as baterias para a próxima sucessão de compromissos inadiáveis, com início marcado para a quinta seguinte. Por isso, nada de atividades desgastantes como um estágio, faculdade difícil ou, pelo amor de Deus, um trabalho! Se for estagiar em algum lugar, dê preferência a alguma empresa do seu pai ou da família, onde você goze de todos os privilégios e regalias, como chegar tarde e sair na hora que quiser.

Agora, como eu sou seu amigo, major. Vou lhe dizer qual é o pulo do gato: trabalhar com algo que esteja ligado a sua rotina. Promotor de boate, comissário de bloco ou produtor de show. Ou ainda, major, você pode ser, sabe o que?, pois eu vou lhe dizer agora. DJ, meu amigo! É limpeza e dá a maior moral na cidade. Basta inventar um nome invocado e manter a pose nas picapes. Nem precisa desse negócio de conhecimento musical. Isso é coisa de amador. Descubra quais as musiquinhas da moda entre a rapaziada dos camarotes ou nas boates de São Paulo e Recife. Daí, encha seu equipamento de MP3 e fique lá todo posudo com a testa franzida e fones nos ouvidos.

Mas isso, claro, se você quiser se estressar. Porque dá trabalho ser DJ. Você acaba ficando muito solicitado e famoso demais. E ainda tem que cumprir toda a rotina semanal de ir aos lugares da quinta ao domingo, enfim, os seus dias úteis. Não pode descuidar. Qualquer passo em falso e sua reputação vai pro espaço. Porque é aquela coisa, major. É um dia-a-dia muito trabalhoso, sabe? É um sacerdócio, uma vida de renúncias e sacrifícios. Mas é assim que é. A vida pra um jovem playboy natalense anda cada vez mais difícil. E o difícil, major, não é nada fácil.

***

1. “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!” é uma frase de um publicitário amigo que não me autorizou a publicar seu nome.
2. Agradecimentos especiais para Paulo André Linhares e Rodrigo Silveira (o Rodra) pelas dicas.

Colunas da Digi # 93 a #97 e # 99 – Big Bróder Natown

janeiro 28, 2011

Em 2010, no comecinho do ano, cometi a insensatez de publicar o saudoso BBN (Big Bróder Natown), utilizando 12 celebridades natalenses escolhidas por votação popular. A brincadeira rendeu 6 crônicas durante mais de 2 meses em que Clênio Maciel, vocalista da banda Uskaravelho, terminou por sair vencedor, segundo o próprio graças ao seu numeroso fã-clube feminino. Sei, sei. Bem, relembro a história aqui apenas para dizer que não republicarei os textos. Este ano, quero produzir crônicas e colunas mais edificantes e aquela brincadeira, apesar de muito divertida, ficou no passado. Além disso, acredito que tiver sorte de não ser processado por nenhum dos “participantes” e mais sorte ainda por quase todos terem levado na brincadeira. Ainda mais porque acabei pegando pesado com alguns. Fiquei sabendo que pergonagens diversos se divertiram junto. Monsenhor Lucas, por exemplo, conheceu os textos por meio de Sylvinha Serejoe teve crises de riso. Até mesmo os políticos foram informados de suas, er, performances e encararam a situação com humor. Massa. Dessa, eu escapei. 🙂

Mas vamos lá. Bola pra frente que á próxima postagem vai fazer bastante sucesso também. Vai ser a republicação do meu texto de maior projeção do ano passado.

Um abraço.

Carlos Fialho

Coluna da Digi # 92 – Bem-vindo a Natal

janeiro 27, 2011

Em 4 de janeiro de 2010, publiquei a coluna de número 92 da Diginet. Era uma crônica cheia de ironia, em que um conterrâneo escrevia a um amigo, convidando-o a passar uma temporada na cidade e expondo razões para tal. Uma coluna que passou meio despercebida à época, mas que nem por isso fica de fora da nossa retrospectiva.

***

Bem-vindo a Natal.

Meu amigo, como vão as coisas por aí? Espero que bem. Escrevo para transmitir as saudades que sentimos da sua agradável presença, de sua família linda. Inclusive, manda um beijão na Joana e nas crianças. Minha senhora deseja o mesmo. Imagino que a vida de vocês ande corrida, aquele ritmo de cidade grande, né? Escritório, trânsito, deixar as crianças na escola, pegar as crianças na escola, voltar pra casa, mais trânsito, uma loucura. A impressão que me dá é que vocês sempre estão precisando de férias. Aí, já sabe, né? Venham pra cá, pois vocês têm a sorte de ter amigos que moram onde vocês passam férias. E aqui não tem o trânsito que vocês têm aí. Bem, er, quer dizer, ainda né? Porque a quantidade de carros que as concessionárias botam nas ruas a cada mês sem que a cidade tenha condições de absorver está deixando as ruas um tanto quanto lentas e até mesmo intransitáveis em certos horários. Barulho, fumaça, stress e alguns ingredientes novos no caldo cotidiano natalense. Mas normal. É um preço a se pagar pelo desenvolvimento.

Fora isso, tudo na paz. Quer dizer, metaforicamente falando, porque a onda de assaltos a mão armada, sequestros relâmpagos e assassinatos parece não ter fim. Ninguém mais pode morar em casa para não ter a propriedade invadida por bandidos que fazem as famílias reféns e depenam tudo o que eles têm. A nossa casa de veraneio que você tão bem conhece, lembra? Só esse ano foi arrombada duas vezes. As saídas de banco então, são o ponto favorito dos trombadinhas com revólver em punho. Os sinais vermelhos também não são exatamente os lugares mais seguros para se estar parado, pois logo se encosta uma arma no vidro e aí já viu, né? A gente tem que dar um passeio forçado com um cano frio na nuca bem menos prazeroso que aquele que demos pelas dunas em janeiro passado. Com emoção, mas não a mesma daquela vez, sabe? Veja você que até mesmo a Afonso Pena que é tipo a Oscar Freire daqui sofre com os marginais. Todos os dias as lojas, restaurantes, bancas de revista e comércios em geral são assaltados. Os comerciantes estão contratando segurança privada, incluindo uma margem para os assaltos no orçamento, enfim, se virando como bons brasileiros que são, pois se ficarem esperando pela polícia ou pelo poder público, dançam bonito.

Mas é como você sempre diz, meu amigo: “o importante é ter saúde.” E isso a gente tem de sobra. Ainda mais com a benção de Deus que recebemos, que nos deu essa natureza belíssima, exuberante. Se bem que… sabe como é, os cenários aqui estão sofrendo umas pequenas mudanças circunstanciais. É que a especulação imobiliária, os empresários do setor, as construtoras e essa turma toda fazem de tudo pra construir cada vez mais. Eles deram uma “impactante” ajuda aos vereadores em 2007 para votarem um “plano diretor amigo”, financiaram a campanha da prefeita, querem construir uns arranha-céus na frente do Morro do Careca e, a última deles é o seguinte: pressionam a opinião pública para construir uns emissários submarinos, levando os esgotos da cidade toda direto para o mar de Ponta Negra. E olhe que a água da praia já está imprópria pra banho faz tempo. É que a CAERN, órgão estadual que deveria cuidar da nossa água e dos esgotos é, na verdade, um loteamento de empregos para um deputado aliado da governadora. É um que tem um filho bem famoso que vive pegando mulher bonita da televisão. O resultado são as línguas negras de ligações clandestinas e a água da zona norte da cidade, contaminada com nitrato.

E quer saber? Esse negócio de “o importante é ter saúde” já não é tão certo, viu? Tenho uma prima que é enfermeira e trabalha numa unidade de saúde da prefeitura. Ela andou reclamando que faltava esparadrapo e até sabonete pra lavar as mãos. Nos hospitais do Estado também tá feia a coisa. Veja você que um dia desses precisei passar no Walfredo Gurgel e o que vi por lá foi um cenário desses que a gente vê nos filmes de guerra. Desde que eu sou pequeno, ouço falar que ali é uma filial do inferno e ninguém muda a situação.

Mas pelo menos a gente tem o… o… bem, er, o clima, né? O ano inteiro aqui é verão. Um verão cada vez mais intenso, pois estão cortando todas as árvores da cidade. Aí a temperatura sobe mais e a cada ano tá mais quente. Outra coisa que li por aí é que as árvores também absorvem muito a água da chuva, talvez por isso temos sofrido tanto com alagamentos. De maio a agosto fica tudo inundado por aqui. Só você vendo.

Em todo caso, estamos esperando vocês aqui pra passar as férias com a gente. Sabe como é, né? Sou um otimista nato e acredito sempre que as coisas vão melhorar. Então já sabe, estão convidados. Mas, olha só: se vocês decidirem ir a outra parte, viajar por aí, nos avise antes, talvez a gente queira ir junto. Tá bom?

Um abraço.

Seu amigo.

Coluna da Digi # 91 – Top 5 Literatura 2009

janeiro 26, 2011

No dia 30 de dezembro de 2009, publiquei a segunda parte da retrospectiva daquele ano, desta vez enfocando os livros. Li umas cousas muy buenas na temporada que passei na Espanha. Belas dicas.

Boa leitura e boas leituras.

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Top 5 2009 – Literatura  

Laranja Mecânica, há mais de 4 décadas fundindo cérebros mundo afora.

Diferentemente da lista dos filmes, a de livros não terá uma ordem de preferência. Citarei os top 5 com breves comentários, mas sem dizer qual deles é o melhor na minha opinião, mesmo porque, eu não saberia fazê-lo.

O homem do Castelo Alto – Philip K Dick

No final de 2008, li na coluna Bazar de Alex de Souza no portal Nominuto, uma breve sinopse deste romance de Philip K Dick a respeito de um desfecho diferente na Segunda Guerra Mundial. As nações do Eixo haveriam vencido a guerra e o mundo, em 1960, se encontrava loteado entre Alemanha, Japão e Itália. Trata-se de uma rara história de K Dick que nunca recebeu uma adaptação para o cinema e, segundo informou Alex em sua coluna, inaugurou o gênero de “História Alternativa”, hoje muito difundido na ficção científica e que alcançou seu auge com “The Watchmen” de Alan Moore.  Publicado com capricho pela editora paulista Aleph, para mim é simplesmente inexplicável que ainda não tenha ido parar na telona.

Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski

Esse livro eu estava me devendo a mim mesmo. Minha namorada me emprestou e dediquei umas boas semanas em sua leitura. Era só ter uma folguinha do trabalho ou momento de solidão que abria o Dostô pra descobrir o que o Raskolnikof iria aprontar em seguida. Já escrevi aqui em outras oportunidades que “Os Irmãos Karamazov” é o melhor livro que eu já li. Isto posto, fica justificada a obrigatoriedade de ler também o “Crime e Castigo”. Muito bom! Que adorável canalha que é o protagonista assassino de velhinhas.

Laranja Mecânica – Anthony Burgges  

Escrevi uma crônica inteira sobre o livro, ainda inédita, mas que deverá ser publicada aqui mesmo na Digi. Fiquei muito impactado pela história e encantado pelo autor, Anthony Burgges. A maneira como ele escreveu sua história passada num futuro próximo sombrio, em que as ruas, durante a noite, viram território livre para adolescentes violentos e niilistas saquearem, agredirem, estuprarem e consumirem drogas, é quase hipnótica. O jogo de palavaras que ele utiliza também é sensacional. Burgges criou uma língua própria de seus adolescentes, o Nasdat, e no fim do livro, de tão habituados com os termos ditos pelos jovens, nós próprios já nos encontramos quase fluentes no idioma. É considerado ao lado de “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) e “1984” (George Orwell) como uma espécie de santíssima trindade da ficção. Justíssimo.

A Fortaleza dos Vencidos – Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro em estado puro. Um livro cheio de sátira, uma ótima narrativa, ambientado num período de grande relevância histórica para o nosso país. Um dos melhores lançamentos do ano em terras potiguares. Ótima leitura para as férias de verão.

O cobrador – Rubem Fonseca

Entra na lista porque foi graças a ele que voltei a ler o Zé Rubem depois de uns anos de pausa, felizmente interrompida por este que é um dos mais emblemáticos livro de contos de sua carreira.

A zona do desconforto – Jonathan Frazen

Este livro é uma biografia do autor norte-americano premiado com o romance “As Correções”. Uma história contada francamente em que divide com os leitores sua história de vida sem se preocupar em fazer demasiados floreios e ainda contextualiza os acontecimentos de sua vida com a história dos Estados Unidos e com as figuras da cultura pop que povoavam sua vida como o Snoopy e as bandas de Rock. Este livro entrou na lista por razões pessoais e também porque eu sempre fui meio capenga em matemática, a ponto de, como vocês podem averiguar, fazer uma lista de 5 com a presença de 6. Normal. As razões pessoais se dão porque estou tentando escrever uma história longa aqui do exílio onde me encontro e o livro do Frazen me ajudou a elucidar algumas dúvidas narrativas que tento esclarecer para que meu trabalho resulte em uma boa história.

Menção Honrosa

Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine – José Manuel Serrano Cueto

Gostei muito de ter lido este livro-reportagem sobre a história e os detalhes dos filmes de zumbis. O resultado da leitura se deu através de 4 crônicas publicadas recentemente aqui mesmo na Digi. Quem tiver curiosidade de ler, basta clicar em colunas anteriores deste autor.

Feliz 2010!

Coluna da Digi # 90 – Cinema Top 5 2009

janeiro 25, 2011

Todos os anos, desde 2008, eu fazia uma breve lista de melhores do ano. Em 2010, falhei, é verdade. Foi um ano corrido e, confesso, vi poucos filmes. 😦 Porém, 2009 não foi assim. Naquele ano, havia frequentado muitas salas escuras e pude fazer uma boa lista. Republico aqui a coluna da Digi publicada em 28 de dezembro de 2009.

Bom texto pra vocês e ótimos filmes, caso ainda não os tenha visto.

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Top 5 2009 – Cinema

Este 2009 foi animador em se tratando de bons filmes assistidos. Mesmo com todos os problemas, embargos, crise econômica, queda de arrecadações, pirataria e tudo mais, foi difícil fazer a lista de 5 mais, não pela escassez, mas pela profusão de boas opções a indicar. Sem mais milongas, vamos à lista:

Os eleitos

05 – Na natureza selvagem

Este filme de Sean Penn é um sensível manifesto à vida simples, ao respeito à individualidade, ao idealismo, ao idealismo e à heróica atitude de negar-se a ter mais do que precisa ter. É um libelo contra as pressões sociais que nos impõem valores como o consumismo, a aparência, o sucesso e os posiciona acima das pessoas, da amizade, da natureza e da beleza das pequenas coisas. O filme é também uma bonita homenagem à solidão voluntária, à opção pelo silêncio, pelo sossego, pelo autoconhecimento. A trilha sonora a cargo do Eddie Vedder do Pearl Jam também é primorosa e se integra perfeitamente à história. Destaque para a excelente canção “Society” que traz o trecho “Sociedade, espero que você não se sinta sozinha sem mim”. O filme, que é baseado em uma história real, é de 2007, mas como eu só vi esse ano, acabou entrando na lista.

04 – Se a coisa funciona

Uma vez o Saramago disse numa entrevista que iria escrever o máximo de livros que pudesse dali pra frente, pois sabia que estava perto de morrer e publicar seus livros seria o seu legado. Bem, acredito que Woody Allen chegou à mesma conclusão e entrou nesse ritmo meio Roberto Carlos de um lançamento por calendário. Tem gente que torce o nariz, que acusa a queda de qualidade, que transborda de saudosismo em declarações como “eu preferia os filmes de antigamente” ou “já não é o mesmo”. Bobagem. “Match Point”, “Scoop” e “Vicky Cristina Barcelona” são sim bons filmes. E ainda por cima nos trazem Scarlett Johanson no papel principal. Porém, dessa vez, ele nos brindou com um roteiro de rara competência com diálogos divertidíssimos e uma divertida visão da America contemporânea e todas as suas ideologias falidas, sentimentos reptimidos e hipocrisias extremistas. Se a coisa funciona? Pra mim, funcionou às maravilhas.

03 – UP

A Pixar é um estúdio de animação que elevou suas produções ao mais alto grau de perfeição. Não se pode definir o trabalho da empresa sem utilizar superlativos ou elogios grandiloquentes. Sou fã de primeira hora e colecionador dos DVDs. Acredito que eles são os que melhor sabem combinar os conceitos de arte e entretenimento no mundo. Para 2010, já estou ansioso para ver “Toy Story 3”, ler o livro “A Magia da Pixar” e o documentário que conta a história da empresa. Quanto ao filme, “UP”, é sensacional. Uma ótima história, muitíssimo bem escrita e produzida com o esmero já característico do estúdio. Imperdível!

02 – Bastardos Inglorios

Estava ansioso para ver o novo Tarantino. A história parecia divertidíssima e as primeiras críticas que chegavam me enchiam de boas expectativas. Fosse pelo equilíbrio perfeito entre uma boa história e entretenimento, fosse pelos diálogos tarantinescos, ou ainda pelas atuações inspiradas dos atores, especialmente o austríaco Cristoph Waltz que acumulou prêmios de melhor ator. Vi o filme e não me decepcionei. É o melhor Tarantino. Superou, para mim, os já clássicos “Cães de Aluguel” e “Pulp Ficction”. É muitíssimo melhor que os bonzinhos “Jackie Brown” e “Death Proof” (gostei mais da metade do Robert Rodriguez da “Grindhouse”). E, por fim, não vou nem falar dos “Kill Bill”, pois eu detestei aquilo lá. “Bastardos Inglórios” é, talvez, e como defeiniu o próprio Tarantino, sua obra prima.

Na ocasião em que assisti ao filme, publiquei uma crônica aqui na Digi. Leiam aqui.

01 – The Watchmen

É difícil adaptar um objeto de culto. Por isso, Zack Snyder foi extremamente corajoso ao embarcar na produção de “The Watchmen”, que levaria ao cinema uma obra que figura em 9 de cada 10 listas de melhor história em quadrinhos de todos os tempos. Estava brincando com fogo e continuou caminhando na corda bamba ao peitar os executivos e insistir em fazer um filme o mais fiel possível ao original. Resultado: críticas dos não-iniciados, os ignorantes da história de Alan Moore e bilheterias muito aquém do que poder-se-ia projetar. O diretor conseguiu desagradar a muitos expectadores mundo afora, mas conseguiu algo muito mais importante: o respeito dos fãs e um lugar no céu da posteridade como um homem de colhões que enfrentou dificuldades hercúleas e fez uma entrega decente. O filme “The Watchmen” tem um destino certo e bem traçado. Foi combatido num primeiro momento, não obteve o êxito de arrecadação esperado, mas certamente será visto e admirado por gerações, convertendo-se num “cult”, assim como ocorreu com o Blade Runner do Ridley Scott há quase 30 anos. será justo, pois Alan Moore está à altura do K. Dick. Pela minha adoração à história em papel e pela satisfação em ver tudo passado para a telona sem traumas ou sacrilégios, este é o meu primeiro lugar no pódio.

Menção honrosa

Quem quer ser um milionário?

Valsa com Bashir (este tambémnão é uma produção lançada em 2009, mas como eu só vi este ano, tá valendo).

O pior

Transformers 2

Não vejam este filme por nada nesse mundo! Nem se lhe oferecerem o cachê do Padr Fábio! E tenho dito.