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Coluna da Digi # 108 – Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

janeiro 24, 2011

Hoje, resolvi subverter a sequência cronológica de publicações neste blogue. Tudo porque, após ter anunciado a morte da série de crônicas sobre zumbis no cinema (Coluna da Digi #98), afinal já havia publicado 5 textos a esse respeito, ressucitei o assunto em uma 6ª e, por hora, definitiva coluna. A crônica “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, publicada em 20 de setembro de 2010, fala do surpreendentemente ótimo filme de comédia protagonizado por Woody Harelson e Mark Zuckberg.

Curtam eo texto e vejam o filme depois. Valeu!

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Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

 

 “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom. A frase não passa de uma piadinha para muitas pessoas, para legiões de leitores e expectadores ao redor do mundo, ela é um truísmo estático sedimentado por centenas de livros, filmes, HQs, videogames. Quando um morto-vivo surge numa narrativa, ele carrega nas costas uma respeitável bagagem de histórias que deram certo, que aterrorizaram, divertiram e fizeram pensar”

Daniel Galera, na orelha de “Areia nos dentes”, do autor Antônio Xerxenesky.

 

Dia desses, saí de casa para conferir dois filmes novos que acabavam de entrar em cartaz. Estava curioso acerca de “Onde vivem os monstros” do diretor Spike Jonze (“Quero ser John Malkovitch”), roteirizado pelo escritor americano Dave Eggars. No mesmo local estava passando também uma comédia com zumbis chamada “Zumbilândia”. Este último fui ver sem muitas expectativas. Apesar de fã confesso das produções sobre mortos-vivos e de estar empolgado com a recente leitura de “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine” do jornalista espanhol Jose Manuel Serano Cueto, eu sabia que aquele filme representava uma aposta de alto risco.

Uma comédia americana sobre mortos andantes poderia resultar num desastre muito pior que uma infecção real de zumbis. “Shawn of dead”, que no Brasil ganhou a tradução ridícula “Todo mundo quase morto”, é uma divertida paródia do gênero, mas é inglês. As comédias inglesas costumam ser mais inteligentes que os filmes sorvete na testa americanos. Mesmo assim, resolvi arriscar. “Zumbilândia” vinha sendo elogiado, havia recebido boas críticas e além do mais, como disse o escritor Daniel Galera na orelha do romance “Areia nos dentes” do autor Antônio Xerxenesky: “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom”. Generalizações a parte, resolvi conferir.

Foi então que ocorreu uma reviravolta digna dos bons roteiros, uma inversão de expectativas realmente inesperada. Decepcionei-me com “Onde vivem os mostros”. Um bom filme, mas apenas isso. Nada perto do que se poderia esperar de uma parceria entre o inventivo diretor Spike Jonze e Dave Eggars, que vem sendo cultuado nos Estados Unidos como o queridinho da nova geração de escritores, já tendo sido até chamado de “o Bono da literatura”.

“Zumbilândia”, por sua vez, agradou em cheio. Para minha surpresa, não se tratava de é uma paródia dos filmes de George Romero, nem de outras produções sobre moribundos andarilhos. Trata-se de uma história original, bem escrita, com boas piadas e partindo de uma premissa bastante interessante: a de que, para sobreviver a um mundo dominado por zumbis, é preciso criar regras estritas e segui-las rigorosamente. Dessa forma, foi concebido o improvável protagonista frágil, nerd e extremamente tímido que, paradoxalmente é o mais indicado a sobreviver num mundo infectado. Tudo porque o personagem criou seu próprio manual de sobrevivência e repassa sempre as normas estabelecidas para não se tornar mais um morto-vivo.

A fonte de inspiração do filme pode muito bem ter sido o livro “The zombie survival guide”, de 2003. Algo como “O guia de sobrevivência para um mundo de zumbis”, do autor estadosunidense Max Brooks, filho do cineasta Mel Brooks. Max vem se destacando por escrever livros muito bem sucedidos sobre o gênero. Sua segunda publicação, “World War Z: an oral history of a zumbi war”, repetiu as ótimas vendas da estreia. Em seu guia de sobrevivência, Max explicita duas informações básicas. A primeira é: como não ser mordido, infectado, devorado ou morto pelos monstros. A segunda: como matá-los, informando diferentes maneiras de acabar com as aberrações a parte do clássico tiro na cabeça.

Em “Zumbilândia”, além do tímido Columbus (…), surge também o excêntrico Talahasee (Woody Halreson, muito bom) que se especializou em matar zumbis das mais variadas maneiras. Assim, os dois personagens principais se complementam e parecem tirados do primeiro livro de Max Brooks. Um especialista em fuga e sobrevivência e o outro em acabar com os mortos que surgirem no caminho. Os próprios comerciais de TV disponíveis no Youtube ilustram bem isso ao mostrarem os dois protagonistas, respondendo perguntas acerca de como agir num mundo zumbificado.

Columbus e Talahasee tem a companhia de duas garotas em sua aventura. Uma delas é interpretada pela atriz Abigail …, que ficou conhecida como a “Pequena Miss Sunshine”. E tem também os zumbis, que seguem a tendência moderna desta década, ditada pelo filme “Extermínio” do diretor escocês Danny Boyle. Zumbis rápidos, ágeis e mais ameaçadores. Esta nova realidade já havia sido explorada por Zack Snyder na nova versão de “Madrugada dos Mortos” (2004). 

Além desses elementos principais da história, há diversos outros que temperam o filme. Detalhes capazes de diferenciar um bom filme de um ótimo.

1 – Boa trilha sonora – A abertura com … do Metallica é sensacional, já servindo para introduzir os expectadores na história, avisando que o que eles verão ali é ação da boa, intensa e mostrando também que os realizadores tem bom gosto.

2 – A parte visual é uma atração a parte. Os cenários apocalípticos ou abandonados, como as estradas, cidades, supermercados ou comércios estão ótimos. Recomendo que assistam aos extras do DVD para verem como eles produziram tudo.

3 – Os letterings interativos – a maneira com que eles aplicaram os caracteres tanto na abertura quanto durante todo o filme é de uma criatividade arrebatadora. As regras sempre relembradas por Columbus surgem o tempo todo em perfeita harmonia com o cenário onde ocorre a ação. Seja no interior do carro, acompanhando o bip do cinto de segurança ou no asfalto, após um acidente, você pode sempre recapitular as regras junto com o personagem.

4 – As regras – as regras estabelecidas também são bastante divertidas, pois trazem consigo as lembranças de todas as produções do gênero ao concluírem que alguns segredos de sobrevivência são bastante simples e até mesmo ridiculamente óbvios: ter bom preparo físico (“os gordos foram os primeiros a serem pegos”), cuidado com banheiros, ponha o cinto de segurança, olhe o banco de trás, alongue sempre, mate duas vezes. Enfim, mandamentos que poderiam ser transmitidos aos muitos personagens de outros filmes que foram alcançados pelos monstrengos por pura ignorância dessa lista de normas de conduta.

No filme, existem algumas piadas referenciais a outros filmes como Anaconda, Garfield, Titanic. E há também uma participação sensacional de Bill Muray interpretando a si mesmo. 

Por todas essas peças que se encaixam harmoniosamente, formando um ótimo filme, com um bom roteiro, ação e entretenimento de primeira, recomendo a todos que são fãs desse que é o subgênero cinematográfico mais popular da atualidade. Se você não é fã ou alimenta algum preconceito a respeito, é bom ficar onde está e não macular esta produção com sua audiência pouco qualificada e opiniões descontextualizadas. “Zumbilândia” é para quem tem senso de humor e o mínimo de conhecimento específico. Se você preenche esses requisitos básicos, divirta-se.

Coluna da Digi # 89 – Zumbis 5 – Dicas do além túmulo

janeiro 21, 2011

E a sequência continua. Esta crônica foi publicada em 26 de dezembro de 2009. E parecia ser o fim definitivo da saga… parecia.

Valeu!

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Zumbis 5 – Dicas do além túmulo

"Planeta Terror" de Robert Rodriguez (2007)

Esta é a quinta e última crônica de minha saga particular sobre o universo dos zumbis, a não ser que o assunto ressuscite em uma crônica futura, o que aliás é bem possível. Ainda deve pintar um conto (talvez dois) com base nos mortos vivos mais populares do cinema. A razão de toda essa instiga com o tema se deveu à leitura do livro “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”, conforme já externei anteriormente, mas nunca é demais reforçar, caso você não tenha lido os 4 capítulos primeiros desta série. A publicação é um compêndio elucidativo a respeito do tema que há muito me interessava, mas nunca havia podido encontrar palavras adequadas para expressar com o mínimo de respeito a tão distintos monstros.

Este derradeiro texto tratando do assunto traz uma seleção de dicas genéricas presentes no livro ou não para os que quiserem conhecer alguns artigos literários, cinematográficos e musicais alusivos aos zumbis.

No início do livro, o autor, José Manuel Serrano Cueto explica a origem do mito. Os zumbis surgiram no Haiti, quando pessoas supostamente mortas eram revividas pelos  feiticeiros locais (bokors) em rituais vudu. O assunto chegou a ser capa da revista “Time” no início dos anos 80. Ele também expõe duas possíveis explicações para o nome “zumbi” (ou zombie em inglês e zombi em espanhol). Poder-se-ia ser uma referência a uma serpente divina norteafricana ou seria uma derivação de “jumbie” (fantasma) ou “nzambi” (algo como o espírito de um morto em um idioma falado em regiões do Congo. Em todo caso, o próprio autor reconhece que é muito difícil descobrir a origem correta do termo uma vez que são muitas as teorias a esse respeito.

Depois de fazer essa contextualização histórica, o livro discorre sobre a presença de zumbis em todas as manifestações artísticas. Partindo do princípio que o primeiro zumbi que aparece em livros é Lázaro (Bíblia), faz uma retrospectiva de todos os quadros onde aparece o personagem ressuscitado por Jesus Cristo. Na literatura, o autor expõe uma extensa bibliografia sobre o assunto que vai do “Frankenstein” de Mary Shelley (1818), representando a volta à vida de, não um, mas de vários seres humanos que tiveram suas partes unidas no surgimento de um novo ser, passa pelos universos de Edgard Alan Poe e H.P. Lovecraft e pelo “Cemitério Maldito” (1983) de Stepehen King.  Algumas publicações  indicadas são os livros do autor estadosunidense Max Brooks (curiosamente, filho do cineasta Mel Brooks) “The zombie survival guide” (2003) e “World War Z: an oral history of zombie war” (2006). Por fim, ele faz uma exaltação ao “Monster island, a zombie novel” (2006) que, na sua opinião é o melhor romance sobre o tema e acabará se tornando filme.

O autor destaca também a presença de zumbis na música em bandas como “The White Zombie” ou “The Zombies”, o revolucionário clipe “Thriller” de Michael Jackson (outro que foi ao mundo dos mortos para voltar e nos atormentar) e a canção “Pet Semetary” dos Ramones.  São ainda muito frequentes aparições desses bizarros seres nos quadrinhos (com destaque para a história “Marvel Zombies” em que descobrem uma dimensão paralela onde os heróis Marvel se converteram em… adivinhem!), nos videogames (“Resident Evil” comanda a turma), animação (“A noiva Cadáver” de Tim Burton) e televisão, demonstrando a todos como esse monstro cinematográfico se tornou uma das criaturas mais pops de nossos tempos.

Outros filmes de zumbis que não foram falados anteriormente nesta série, uma vez que me limitei a abordar as películas de George A. Romero, e que são destacadas pelo jornalista Serrano Cueto são  “Re-animator”, “Pet semetary 1 e 2”, “Braindead” (este de humor negro, dirigido por Peter Jackson que já me havia sido apresentado pelo professor Gustavo Bitencourt), “Resident Evil”, a ótima sátira inglesa “Todo mundo quase morto” e o filme francês “Les revenants” que traz uma ótica diferente sobre o assunto, com os mortos levantando-se, mas causando outro tipo de problema, como rombo na previdência, suas antigas casas sem espaço para acomodá-los, seus cônjugues casados com outras pessoas. O enredo se assemelha aos livros de Saramago, especialmente o “Intermitências da Morte”. Não poderia faltar também a série “A volta dos mortos vivos”, aquela em que os zumbis saem clamando por miolos e que foi uma irmã enviesada da saga de Romero.

Um espaço considerável também é dedicado aos zumbis apócrifos, como os presentes em “REC” (filme espanhol de grande sucesso que rendeu a continuação “REC.2”), “Planet Terror” (metade que coube a Robert Rodriguez da Grindhouse feita com tarantino) e a série “Extermínio” que deverá ter uma terceira produção em breve.

O mesmo autor do livro é pai de uma tirinha que pode ser facilmente encontrada na inetrnet que tem como protagonista um zumbi chamado “Johny Putrido”. Além de todas essas dicas dadas por ele no livro, eu gostaria de incluir umas poucas por minha conta e risco. O livro “Sangue e Areia” do jovem escritor gaúcho Antonio Xerxenesky (que pode ser adquirido no sítio www.naoeditora.com.br) e a insana versão “Orgulho e Preconceito e Zumbis” que deverá, inclusive, virar filme em breve. Cito ainda as bandas brasileiras “Zumbis do espaço” e “Zumbi do mato”.

Por fim, algo que tem no livro e que eu reforço também fora: as “passeatas zumbis” (Zombie Walks”) que ocorrem em todo o mundo e que já teve até uma edição (ou mais de uma?) na sempre quente e festiva Caicó. Como se vê, os zumbis estão mais perto do que se pensa, presentes em muitas manifestações culturais e seguem vivos, vivos demais até.

Com essa crônica, encerro o ciclo. Nos vemos além.

Coluna da Digi # 88 – Zumbis 4 – George Romero Revivido

janeiro 20, 2011

No dia 23 de dezembro de 2009, publiquei mais uma crônica da série sobre filmes de zumbis. Dessa vez, abordando as refilmagens de clássicos romerianos e novas produções do próprio diretor. Espero que sigam gostando.

Um abraço.

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Zumbis 4 – George Romero Revivido

Cartaz da refilmagem de "Dawn of the dead" de Zack Snyder (2004)

Esta crônica é uma continuação de outras escritas anteriormente. Para entendê-la melhor recomendo que leiam os demais textos aqui, aqui e aqui.

“The night of the living dead” (1990)

Quando “The night of the living dead” foi lançado, em 1968, um problema burocrático fez com que George A. Romero e seus amigos perdessem os direitos autorais sobre a obra. Com isso, acabaram faturando menos do que esperavam, servindo apenas para recuperar o dinheiro investido. Em 1990, o filme e a saga romeriana iniciada na “Latent Images” já havia se tornado célebre e muitas homenagens, referências e releituras livres haviam sido feitas sobre suas obras em todos os meios possíveis, sobretudo no cinema, claro. Os amigos, decidiram, entretanto, fazer eles mesmos um remake para ver se finalmente ganhavam algum dinheiro. Romero não quis dirigir o filme e a função foi desempenhada por Tom Savini que tinha pouca experiência como diretor e antes era o responsável pela maquiagem das entregas anteriores. A escolha se mostrou acertada, todos gostaram do resultado e “The night of the living dead” (1990) tornou-se uma bela homenagem à obra original com o selo de qualidade do próprio criador da saga.

“Dawn of the dead” (2004)

Em 2004, um novato chamado Zack Snyder, também foi convidado para realizar uma releitura de um filme de Romero. Dessa vez, seria o segundo filme, “Dawn of the dead” (1978), em que um grupo de sobreviventes se refugia em um centro de compras, configurando-se em uma crítica explícita ao consumismo. Snyder dirigiu um filme exitoso em vários sentidos. É entretenimento dos bons, teve boa recepção do público e faturou bem no mundo tod. Ainda por cima, agradou ao homenageado, apesar de ele ter feito algumas ressalvas: “É um bom filme de ação, bom entretenimento, mas não há muita substância por baixo de uma embalagem tão bonita”.

A afirmação de Romero tem razão de ser. Em vez do universo reduzido de protagonistas da versão original (apenas 4) com seus conflitos, relação tensa, dramas psicológicos oriundos da situação extrema de sobrevivência, aqui existem 12 principais. A crítica ao consumismo da película mãe também se perde e o centro de compras que era como um personagem se torna um simples cenário para a ação, nada mais que um refúgio seguro para os apersonagens. Outra licença artística do diretor foi a não continuidade. Snyder optou por contar a história de um novo início para a epidemia enquanto no filme de 1978, já se haviam passado 10 anos do surgimento. Em contrapartida, outro dogma sagrado romeriano foi mantido ao não explicar a origem do ocorrido. Essa não é a única referência, os mais atenciosos e nerds encontrarão várias pequenas homenagens e participações especiais que remetem à produções do cultuado diretor.

“Dawn of the dead” (2004) recorre a uma concepção mais moderna do espetáculo audiovisual e utiliza ação frenética e diversos focos de dramaturgia para não aborrecer o público atual. Apesar dos “poréns” apontados acima, é um filme muito bom e divertido que agrada a diferentes públicos, revelando o diretor Zack Snyder para o grande mercado, fato que acabaria por convertê-lo num dos grandes nomes da nova geração, a despeito das acusações de “gozar com o pau dos outros” feitas em virtude de sua obra até o momento (adaptações das obras de Romero, Frank Miller e Alan Moore).  

Uma boa dica para os que virem o longa é a existência do curta “The lost tape: Andy’s terryfing last days revealed” com um minidocumentário sobre os últimos dias de Andy, o dono da loja de arma que fica em frente ao shopping e interage com os sobreviventes protagonistas do filme.

“Diary of the dead” (2008)

Este filme marca o feliz regresso de George Romero às catacumbas do cinema independente após a fracassada tentativa de ser mainstream em “Land of the dead” e que resultou em algo tão deslocado quanto uma apresentação da banda “Expose your hate” no Faustão.

Dessa vez a produção não segue a trama original, revelando-se uma peça independente da história clássica, e mostra um outro início para o fenômeno zumbis. O alvo da reflexão proposta é a era da (des)informação que vivemos com a explosão de de meios de comunicação alternativos que observamos ao nosso redor. Para chamar a atenção, os meios tradicionais, principalmente a TV, recorrem a uma linguagem sensacionalisma cada vez mais escandalosa. O diretor desenvolveu uma leitura sobre a necessidade e obsessão da imagem nos tempos atuais, na era do Youtube.

Sobre o filme, ele declarou: “Se eu pusesse alguns estudantes de cinema na noite em que ocorre a loucura no mundo (a epidemia zumbi), provavelmente filmariam. Em 1968 não. Naquele tempo, eles correriam, mas hoje filmariam. Daí, surgiu a ideia.”

O filme segue a linha de outras produções como “A bruxa de Blair”, “Cloverfield” e “REC”. Câmera nervosa, no ombro, registrando as cenas de um pseudodocumentário. A história mostra uns estudantes iniciando a produção de um filme de múmia (que, na verdade, pode ser encarada como uma ancestral dos zumbis modernos) quando percebem que o seu protagonista, envolto em ataduras converteu-se em um zumbi de verdade. Daí, eles percebem que um morto real daria muito mais projeção audiência que um de ficção.

No Brasil, vivemos um pouco dessa realidade mórbida ano passado quando cultuamos o cadáver da menina Isabela Nardoni. Quanto mais apareciam notícias referentes à menina na TV, maior era nossa urgência em violar o túmulo, profanar seus restos mortais, mexer, remexer, impedir seus descanso. E fizemos com muito deleite e regojizo, ataravés do Jornal Nacional, Ana Maria Braga, noticiários da Record e tantos outros. “Diary of the dead”

 fala um pouco desse fascínio que sentimos e não conseguimos disfarçar pela morte.

Uma cena marcante da película ocorre quando, já perto do final, um dos personagens percebe que está se tornando um zumbi, entrega a câmera para um colega e decreta: “Grave-me.” Este segura a câmera com uma mão e uma arma com a outra e dispara as duas simultaneamente no amigo moribundo.

…of the dead (2009/2010)

Atualmente está em fase de pós-produção um novo filme de Romero chamado “…of the dead”. É mais uma produção independente e, com toda certeza, o mestre dos zumbis nos trará mais uma pérola do gênero. Pois como seus personagens favoritos, George A. Romero sabe voltar. E cada vez mais assustador do que antes.

Coluna da Digi # 87 – Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

janeiro 14, 2011

No dia 14 de dezembro de 2009, publiquei a terceira crônica a respeito do universo dos zumbis no cinema, inspirado pelo livro “Zombie Evolution”, cuja leitura acabara de concluir.

Boa leitura, jovens.

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Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

George Romero

George A. Romero nasceu em Pittsburgh, estado da Pensilvania, Estados Unidos. Levou uma vida normal, tornou-se um jovem fanático por ficção cientíica e terror (uma espécie de Alex de Souza estadosunidense), estudou cinema e junto com alguns amigos, começou a fazer filmes nas horas vagas. Até aí, esta parece ser a trajetória de milhares de estudantes de cinema ou comunicação pelo mundo que, realizam suas produções independentes para ganhar experiência na área e se divertirem um pouco. Contudo, este exemplo é diferente, pois trata-se do profissional que alterou conceitos, mudou os rumos da indústria do cinema de terror, popularizou um personagem que se converteu num dos monstros mais populares (e por que não dizer pops?) do cinema moderno. No livro que li e que inspirou esta série de crônicas sobre zumbis (“Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”), o autor José Serrano Cueto, opina: “Poucas abominações podem ser definidas como tão autenticamente cinematográficas quanto os zumbis.” E foi Romero o grande responsável para que esta afrirmação possa ser encarada hoje como uma irrefutável verdade.

Depois de fazerem diversos filmes experimentais juntos, durante as férias, horarios de folga e fins de semana, os amigos Russel Streiner, Rudy Ricci, Richard Ricci, John Russo e George Romero decidiram abrir em 1963 uma pequena produtora para gravar filmes para publicidade, a “Latent Images”. A empresa foi bem e eles acabaram adquirindo uma câmera de 35mm. Com ela, veio a ideia de realizar um longametragem. Mas sobre o que? John Russo estabeleceu uma premissa: tinha que começar num cemitério. Na época, Romero havia lido o livro “Eu sou a lenda” (Richard Matheson, 1954) em que os antagonistas são vampiros. Baseado no livro havia escrito um argumento sem fazer referência ao que atacava os protagonistas. Mostrou o texto aos amigos e sócios e todos ficaram encantados.

 

“The night of the living dead” (1968)

Ele escreveu o roteiro, os sócios pediram dinheiro emprestado a familiares e conhecidos (20 pessoas contribuíram), arrumaram sangue e carne com um amigo dono de açougue e os mesmos que emprestaram dinheiro foram os atores secundários e figurantes. Na hora de dividir as tarefas imperou o mesmo espírito de cooperativa: uns cuidavam da maquiagem por terem mais aptidão para tal, outro seria o produtor por ter experiência com administração de empresas, e a Romero coube dirigir, pois ele tinha um poco mais de experiência nessa área que os demais.

O protagonista negro (Duane Jones), foi escolhido por acaso. O roteiro não previa que ele fosse negro. Na verdade, não fazia nenhuma menção à cor da pele. Mas como ele foi muito bem nos testes, Russo e Romero nem quiseram ver mais nenhum ator postulante ao papel. Muitas teorias foram desenvolvidas sobre o significado oculto em se escolher um negro para protagonista, ainda mais que no final acaba morto por brancos, justo no ano em que Martin Luther King foi assassinado. No entanto, todas as suposições deste tipo são falas, uma vez que o filme já estava pronto quando King foi morto e Romero não mexeu sequer uma vírgula no roteiro depois de escolherem Duane Jones para viver Ben. Ou seja, o filme teria sido rigorosamente o mesmo caso o ator principal houvesse sido um branco.

 

O estilo romeriano

O filme entrou pra história e se tornou  um divisor de águas no cinema de terror, transformando o próprio Romero numa lenda, objeto de culto e alvo da admiração de milhares de fãs mundo afora. O que mais chama atenção nos filmes de Romero é a profundidade com que toca temas delicados, por trás da embalagem do terror. Em entrevista, ele declarou: “Todos os meus filmes sobre zumbis surgiram a partir de ideias, ao observer o que estava ocorrendo cultural e politicamente.”

Dessa forma, os monstros se transformam em instrumentos para articular uma crítica social, uma análise dos conflitos humanos que podem ser associados a acontecimentos históricos determinados: a guerra do Vietnã (“The night of the living dead”, 1968), o consumiso exagerado (“Dawn of the dead”, 1978), o abuso do poder militar (“Day of dead”, 1985), a luta de classes (“Land of the dead”, 2005) e a informação sencaionalista (“Diary of the dead”,2008). A Romero não interessa o simples terror, mas leitura que através dele se possa ter da sociedade.

Os 4 primeiros filmes formam uma mesma saga que mostra, gradualmente a devastação do mundo mediante o surgimento e avanço da epidemia dos zumbis. Separadamente, é possível assistir e assimilar a mensagem de cada um deles, mas no todo, representam a decadência do planeta em 3 tempos: a noite, o amanhecer e o dia, até que (no 4º filme) o homem passa a conviver com o problema como se achasse tudo natural e os mortos caminhantes já fizessem parte do dia-a-dia. Nas histórias romerianas, os personagens formam coletivos pequenos em constante conflito entre si.

Outra característica importante é o ambiente da ação. Em seus roteiros, o espaço é tão importante quanto os próprios personagens, sendo praticamente um protagonista em si mesmo. Uma casa no primeiro, um centro comercial no segundo e um bunker no terceiro são, não só cenários, mas também parte ativa das histórias que nos são contadas. A terra dos mortos tenta repetir a fórmula sem êxito. A cidade em que se passa o filme deveria ser uma geradora de conflitos, mas não consegue e isso a afasta das outras 3 produções anteriores, tirando um pouco a unidade da tetralogia.

“Dawn of the dead” (1978)

O segundo filme da saga traz uma clara crítica ao consumismo exarcebado. 10 anos depois do início da epidemia, 4 personagens (2 policiais e 2 jornalistas) decidem ir a um centro de compras de helicóptero, para recolher algumas provisões antes de partirem em busca de um refúgio seguro aonde a epidemia ainda não haja chegado. Uma vez lá dentro, concluem que o lugar pode servir de abrigo temporário antes de partirem , já que está cheio de mantimentos e objetos úteis. No interiro encontram muitos zumbis que se movem mecanicamente como se recordações de vida os fizessem andar pelas lojas. Eles representam a massa alienada, uma hipérbole dos consumidores hipnotizados pela publicidade e se movem todos os dias pelos centros comerciais do mundo. O filme exprime que hoje (já era assim em 1978)não há lugar para a simplicidade voluntária, a que só praticam umas poucas mentes revolucionárias, capazes de sentir que a plenitude não se encontra em possuir, mas em extrair o máximo proveito daquilo que se tem.

A uma certa altura um bando de motoqueiros invade o lugar e começa a saquear e roubar tudo o que podem, ignorando o fato de que dinheiro e objetos outrora vailosos não faziam mais sentido num mundo caótico em que viviam. Nada daquilo que roubam teria utilidade na terra arrasada. É a ganância sobrevivendo mesmo em tempos extremos. O ápice do materialismo, como o consumismo desenfreado mesmo em tempos de crise.

“Day of dead” (1985)

Mais alguns anos depois, a terra está arrasada, o mundo está morto e existem mais zumbis que sobreviventes. O filme começa com imagens silenciosas do chão rachado de um pequeno povoado. Logo o silêncio é quebrado por alguns gemidos distantes.

É a maneira com que Romero exprime a terra de ninguém e de valores distorcidos que estava sendo construída nos anos 80, em que um governo republicano belicoso governava os Estados Unidos e regia o mundo mediante uma corrida armamentista desenfreada e o mercado financeiro vivia um colapso desesperador. Um mundo cada vez mais desigual, o ápice da desumanidade estava se configurando. Romero disse que ele começava a se perguntar: “O que diabos estivemos construindo esses anos todos?”

“Day of dead” representa todo esse pessimismo. Afinal, o que seria melhor para representar um mundo que perdia sua humanidade do que o domínio daqueles que haviam sido humanos um dia? É o filme mais sujo e mais feio das produções. Logo na primeira aparição de zumbis, um recado claro: esse filme vai ser duro, muito duro. Aqui não se esconde nada. O que vocês vão ver é agressivo.

Os sobreviventes que dessa vez são representados por 3 grupos distintos (cientistas, militares e civie) vivem conflitos entre si. Estão todos encerrados em um bunker. Um cientista louco quer domesticar os zumbis, um militar com vocação para ditador quer matá-los e os civis só querem fugir dali e sobreviver. Os militares representam o excesso de poder em tempos de tensão, os cientistas a insesatez travestida de razão, e os civis seriam os cidadãos comuns, encurralados em meio a essa disputa de ambos os grupos. No fim, um final anárquico e subversivo, obsceno até para os padrões hollywoodianos. Morrem os cientistas e militares das piores formas possíveis e só sobrevivem uma mulher, um negro e um bêbado.

“Land of the dead” (2005)

Em 2005, 20 anos depois do terceiro filme de zumbis, o homem de Pittsburgh, Pensilvania, já se tornara um mito, havendo adquirido fama e respeito e todas as partes. Por isso um dos maiores estúdios estadosunidenses, a Universal, resolveu dar a ele a oportunidade de realizar uma produção com grande orçamento. Pela primeira vez, George A. Romero poderia contar com atores famosos, profissionais vindos de grandes produções (e não apenas seus amigos). Dessa vez, a narrativa gira em torno da luta de classes e, como não poderia deixar de ser em 2005, faz uma crítica ao governo Bush.

O mundo aprendeu a coexistir com os zumbis. As cidades se converteram em enormes fortalezas cercadas por grades, fossos e pontes superprotegidas. As elites financeiras e governantes se refugiaram em enormes arranha céus nos centros, enquanto as populações mais pobres ficavam às margens das grades, mais próximas do perigo, mais expostas. E os zumbis, fora de tudo isso, excluídos do processo e da sociedade, apenas contemplando de longe a cidade que um dia também foi deles. Representam a classe mais oprimida, os deserdados da terra. Romero critica o abuso de poder e a desigualdade social. O vilão da história, Kaufman (Dennis Hopper) é um corrupto e sem escrúpulos gestor que foi baseado no então secretário de estado americano, Donald Rumsfeld.

Em meio a disputa, existem ainda um grupo de mercenários que se encarrega de matar zumbis e cobrar por isso, protegendo as elites e população. Um deles, ambicioso e ingênuo sonha fazer parte da elite dos arranha céus. Em um dado momento da película, alguém faz um alerta despretensioso que dá a chave da trama: “E se eles (os zumbis) adquirissem a capacidade de se organizarem?” É exatamente o que acontece. Os mortos pegam em armas e promovem uma revolução zumbi contra os vivos que os oprimem, partindo em direção a cidade que um dia foi deles para reconquistá-la.

Neste filme ocorre uma humanização maior dos montros, como se, de 68 para cá, eles houvessem evoluído. O resultado, no entanto, na opinião do jornalista Serrano Cueto e do próprio Romero, não foi tão bom quanto os anteriores. Apesar de ter contado com um grande orçamento, pela primeira vez, existe mais ação que trama psicológica e a reflexão social se perde em meio ao ritmo mais acelerado. Os fãs protestaram, as bilheterias não corresponderam e Romero admitiu que o tamanho do projeto o superou. Por isso, decidiu voltar a produções mais  modestas depois dela. “Eu prefiro as coisas mais simples”, declarou. Certamente. E é justamente nas produces mais simples e despretensiosas que ele consegue ser grande. Ou melhor: grandioso.

Coluna da Digi # 86 – Zumbis 2 – A volta dos que se foram.

janeiro 13, 2011

A coluna da Digi número 85 está meio datada. Por isso decidi pular. Passo para a sequência de crônicas sobre o universo dos zumbis. Esta foi publicada em 03.12.2009. Amanhã postarei a outra.

Valeu!

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Zumbis 2 – A volta dos que se foram.

Em 10 de setembro de 2007, escrevi uma coluna aqui na Digi sobre minha admiração pelos filmes de zumbis. Era um texto leve e bastante simples que visava um público geral, não necessariamente fãs deste gênero cinematográfico. A crônica, que mantinha uma verve bem humorada em toda a sua extensão, começava citando uma conversa que tive com um amigo na qual ele ficou surpreso com o fato de eu, um rapaz tão bem educado, gostar desse tipo de produções. Na verdade, meu amigo foi além ao demonstrar total desconhecimento sobre a existência desta categoria de películas de terror.

O conteúdo genérico da coluna falava muito rapidamente de George A. Romero, maior ícone dos mortos vivos na tela grande, limitando-se praticamente a citar sua filmografia. Também falava de alguns outros trabalhos como a homenagem a Romero dirigida por Zack Snyder em 2004, a paródia inglesa “Todo mundo quase morto” e o parente próximo “Extermínio” da dupla britânica Alex Garland e Dany Boyle.

Como todo assunto que desperta paixões, logo surgiram reações contrárias, revelando a controvérsia gerada pelo tema. Sobre o texto, um leitor mais atento e detalhista chamado César denuciou a pouca profundidade do que escrevi: “Extermínio não é filme de zumbi. vc nao captou a mensagem dos filmes do romero e falou deles com uma interpretação aborrecente e superficial. o buraco é mais embaixo. outra coisa, filme de zumbi em que se explica o porque dos mortos estarem andando, não é filme de zumbi.

O leitor estava correto ao acusar-me de superficial. O texto não se atreveu a ir mais fundo pelo simples fato de que eu não queria falar com falso conhecimento de causa sobre um assunto que não dominava plenamente. Porém, mesmo cercando-me de precauções, em certa altura, cometi um pecado grave. Afirmei de maneira um tanto irresponsável o que segue: “A premissa é simples. Os mortos voltam a viver e atormentam a vida dos vivos. Nada de muita elaboração ou de roteiros rebuscados. Geralmente eles vêm tentar comer ou morder os vivos para também transformá-los em zumbis.” Esse trecho deu razão parcial ao comentário do leitor. Esta era, com certeza, uma interpretação “superficial e aborrecente” dos filmes de zumbis. Por isso, essas linhas que teclo agora são uma tentativa tardia de tréplica. 

Daí do outro lado da tela, vocês devem estar se perguntando “mas por que só responde agora, mais de 2 anos após o ocorrido?” Respondo: é que um dia desses encontrei um livro que é uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto: “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine” (autor José Manuel Serrano Cueto, T&B Editora, Espanha). Percebi na publicação uma oportunidade de aprender mais a respeito e adentrar de vez no universo pútrido dos cadáveres famintos e caminhantes. O escritor é um jornalista espanhol nerd, aficcionado por ficção científica e terror, que realizou uma extensa pesquisa e nos presenteou a todos com um belíssimo livro elucidador de dúvidas. Por isso, finalmente, me sinto devidamente apto a argumentar em defesa de meus escritos frente ao comentário de César.

Por exemplo, quando ele afirma irredutível que “extermínio não é filme de zumbi” e que “filme de zumbi em que se explica o porque dos mortos estarem andando, não é filme de zumbi.”, cabem argumentos em contrário e respeitosas discordâncias. Na crônica de 2007 eu não dizia que “Extermínio” era um filme de zumbi, mas sim uma produção semelhante a eles, sendo contudo, perfeitamente plausível nesses tempos de epidemias globais. E para meu regozijo, tenho prazer de revelar que o escritor especialista no assunto José Manuel Serrano Cueto corrobora minhas palavras ao afirmar que “Dois dos mais badalados filmes de zumbis dos últimos anos não são, a rigor, filmes de zumbis. Extermínio” (“28 days later”, 2002) e “REC” (2004) são histórias sobre seres humanos infectados por vírus, mas ainda vivos, e apesar de apresentarem similitudes físicas e de comportamento com os mortos vivos, não podem ser definidos como tal pelo fato de que os personagens ainda não morreram.” Mais na frente, o autor disse que essas duas produções mudaram o perfil das produções a partir de então. Os montsros de movimentos lentos e arrastados deram lugar a ameaças ágeis, fortes e mais ameaçadoras. Na lista de “zumbis apócrifos” do livro entram ainda os monstros de “Planeta Terror” (2007) de Robert Rodriguez, em que mais uma vez um estranho vírus converte as pessoas em monstros canibais, mas não as mata.

 A segunda colocação sobre a revelação ou não da razão porque os mortos retornaram pode ser classificada como uma opinião pessoal de um evidente seguidor “romeriano”. Em tal condição, sinto-me a vontade de me posicionar em contrário sem que minha opinião tenha que prevalecer sobre a dele. É certo que os filmes de Romero não revelam a origem da epidemia ou a causa das ressucitações e que 99% dos fãs preferem assim. Também é verdade que o cinesta de Pittsburgh é o autor de uma obra seminal que ditou diversas regras para esse gênero de produção. Um exemplo de filmes de zumbis em que é revelada a origem dos mesmos é o da saga “Return of living dead” (1985), bastante popular entre admiradores do sub-gênero e que uma substância radioativa provoca a ressurreição dos mortos. Sou da corrente que é um equívoso desconsiderar todas os longas que quebrem uma ou outra das regras elaboradas por Romero. Acredito que este seja um caminho por demais reducionista que prefiro não trilhar.

 Em todo caso, falarei de George A. Romero e seus filmes mais detidamente, com o devido respeito e culto que o diretor merece na próxima coluna. Até lá.

Coluna da Digi # 84 – Pior é na guerra.

janeiro 11, 2011

Escrevi esse texto após assistir Valsa com Bashir. Demorei algumas semanas, talvez meses, e publiquei na coluna da Digi. foi em 26.11.2009. Republico aqui, seguindo a cronologia da retrospectativa de colunas.

Boa leitura.

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Pior é na guerra

 

“Valsa com Bashir” é mais uma dessas pequenas obras-primas com as quais nos deparamos quando estamos distraídos. Representa o nosso lado mais desumano através da arte, demonstrando, contraditoriamente, por meio de uma produção belíssima, todo o horror de uma guerra. Está, guardadas as proporções, apresso-me em dizer, para a guerra do Líbano assim como o quadro Guernica de Picasso está para a guerra civil espanhola. Um resgitro em movimento do sofrimento, da agonia, de morte e dor.

A animação, vencedora do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro além de uma porção de outros prêmios pelo mundo, conta a história de alguns veteranos de guerra israelenses atormentados com as lembranças do conflito ocorrido 20 anos antes. Os homens, que se aproximam de entrar nos 40 anos, tinham entre 18 e 19 anos quando estiveram no campo de batalha. Em meio à ação, eles viram amigos tombarem ao seu lado, foram obrigados a matar cachorros para abafarem os latidos, presenciaram massacres de civis sem poderem fazer nada e sentiram a morte de muito perto.

Carregando seus traumas, cicatrizes e culpas para o resto de suas vidas, eles tentam lembrar de episódios que o sub-consciente os fez esquecer. Acreditam que, ao rememorar o ocorrido, poderão curar suas angústias de homens de meia-idade atormentados. O filme mostra delicadamente, como a cadência de uma valsa, que mesmo por trás das maiores atrocidades, existem seres humanos que não tem responsabilidade direta pelo que ocorre e que dariam tudo para não estar ali.

A trilha sonora da animação também é excelente, revelando ótimos rocks israelenses que tratam de guerra e paz. “Valsa com Bashir” é arte pura. Alterna momentos de fina delicadeza com cenas chocantes. No final que não é, nem poderia ser, feliz, fica claro para todos que numa guerra cruel, como foi a guerra de Israel contra o Líbano em 1982?, não há nem nunca haverá vencedores.

Coluna da Digi # 83 – Por trás daquele beijo.

janeiro 10, 2011

Antes de mais nada, duas cousas: 1 – em algum momento nessa retrospectiva eu me confundi e perdi a conta. Como não estou a fim de conferir as postagens passadas uma por uma, apenas regularizei a situação daqui por diante. Fica então esta coluna da Digi numerada corretamente como a 83. E estamos conversados. 2 – Esta é a primeira postagem de 2011. Que seja a primeira de muitas e que este ano superemos bastante o número de acessos de 2010. Muito obrigado aos mais de 40 mil amigos que estiveram aqui em 2010. Vamos ver se esse ano eu consigo chegar a uns 100 mil. Ia ser bom, né não? Vamos pra frente.

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Em 2009, quando morava em Madrid com Nina, minha mulher, certa vez me deparei com um casal se beijando na rua. A cena me agradou tanto que, naquele mesmo dia, ao chegar em casa, escrevi uma crônica bem legal e postei na coluna da Diginet. Foi publicada em 23.11.2009. Minha homenagem a todos os casais apaixonados.

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Por trás daquele beijo

 

Sinal aberto. Eu, pedestre. Esperava o câmbio de cores que permitiria minha passagem para o outro extremo. Nada mais usual, nada mais corriqueiro, até que uma visão ousou desafiar a normalidade da urbe. Uma imagem terna, do outro lado da rua, quebrava a urgência da rotina, destoava dos passos apressados, dos olhares determinados ou perdidos, apontando o vazio.

Era um beijo. Intenso, demorado, com direito a um abraço apertado. Ele, sujeito jovem, mas formal. Terno cinza, gravata, sapatos italianos, óculos de grau, a pasta executiva no chão, aos seus pés, sustentada entre os calcanhares. Nada nele poderia revelar que fosse capaz de tamanho arrojo, de ir na contramão do senso comum, de declarar o seu amor, de sucumbir a espontaneidade de um gesto tão significativo, assim, em público, na frente de quem quisesse ver, nesses dias tão impessoais, de discrições e limites, de boa conduta e vida em sociedade, de etiqueta e autocontrole.

Ela, também vestida para o trabalho, menos formal, mas bem arrumada, de calças e salto alto, maquiada, cabelos lisos, se entregava completamente. Era cedo da manhã. O expediente ainda não começara, mas a metrópole já despertara, por suas artérias corriam carros e pessoas, pulsando, bebendo café, com pressa de chegar. Porém, aquele casal desafiava a paisagem, quebrava o ritmo frenético, promovia uma intervenção, quase uma licença romântica inesperada, surpreendente, longa, demorada.

O sinal abriu. Atravessei a larga avenida, passei pelo casal, andei mais de 100 metros além deles, minutos se passaram, olhei pra trás. Nenhuma mudança. Ambos permaneciam completamente envoltos um no outro, alheios ao mundo que os cercava. Os cidadãos iam e vinham, fingindo sórdida indiferença. Mas eles viam, ah viam. Teriam inveja? Satisfação? Esboçariam um sorriso em pensamento? Censurariam aquela depravação? Sentiriam vergonha alheia?

Fiquei imaginando o que esconderia aquela demonstração explícita e afetuosa. Seria um reencontro? Ou talvez um primeiro encontro? Seriam colegas de empresa, apaixonados um pelo outro, e que finalmente resolveram se declarar? O que haveria por trás daquele ilimitado catálogo de possibilidades?  Cheguei ao meu destino. Pensei em olhar pra trás, comtemplá-los mais uma vez, saber se ainda estavam se beijando com a mesma intensidade depois de tanto tempo. Não o fiz. Preferi crer que sim, prosseguiam absortos pela mesmíssima paixão que testemunhei. E continuo acreditando nisso. Penso que eles ainda estão se beijando naquela esquina neste preciso momento. E vou além: vão continuar se beijando amanhã, depois de amanhã e para sempre, mostrando aos impassíveis transeuntes, que um beijo como aquele é uma dessas coisas que fazem a vida valer a pena.

Coluna da Digi # 80 – Histórias de uma Natal Assombrada

dezembro 22, 2010

Texto do qual gosto muito publicado originalmente na Revista Papangu e depois, em o9.11.2009, na Diginet. Espero que gostem e não se assustem.

Feliz Natal.

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Histórias de uma Natal Assombrada

Dia desses, fui fazer uma pesquisa pelas ruínas da Biblioteca Câmara Cascudo, que se mantém decrépita por obra e graça da nossa querida Vilma de Faria, cuja aura está presente em cada recôndito do edifício por causa, paradoxalmente, da total ausência que o poder público estadual mantém em relação a essa e todas as outras bibliotecas sob sua responsabilidade. Em meio a montes de poeira que me fizeram espirrar 3 meses sem cessar, um calor de derreter o juízo dos poucos estudantes que têm coragem de frequentar o lugar e o barulho proveniente do intervalo do Atheneu (não é possível fechar as janelas porque não existem ar-condicionados funcionando), fui até as prateleiras que por muito pouco não desabaram quando me aproximei.

Na ocasião, manuseando livros ao acaso, me deparei com um em especial que me saltou aos olhos de súbito. Uma obra muito interessante que disserta sobre um capítulo da cultura popular de Natal que me era totalmente desconhecido. O autor é o jornalista e pesquisador Neto Pão com Ovo, filho do eminentíssimo intelectual do passado Júnior Pão com Ovo. O tema abordado na publicação é a grande incidência de fenômenos sobrenaturais na cidade do sol e se chamava “Histórias de uma Natal Assombrada”. Tão curioso fiquei diante de tão preciosa descoberta que levei comigo o compêndio sem mais demora até uma das mesas de estudos, não sem antes desviar das crateras que abundam no chão do prédio e tomando cuidado de me posicionar longe de uma das partes onde a pintura do teto está rachada e caindo sobre os visitantes.

O volume de elegante edição, capa dura, colada e costurada em couro, ricamente ilustrado e de vasto conteúdo catalogava algumas lendas urbanas surgidas em Natal em décadas recentes. Fui consumido pela leitura de imediato e separei aqui algumas das assombrações descritas no livro como exemplo para que eu possa dividir com vocês um pouco do fascínio que tive ao ter conhecimento destes formidáveis episódios que revelam uma riqueza folclórica interessantíssima. Uma peculiaridade das tais lendas natalenses ou, como o autor, jornalista Pão com Ovo, se refere: “Histórias de uma Natal Assombrada”, é que são todas histórias recentes, pois Natal, como declarou recentemente outro intelectual, Pablo Capistrano, é uma cidade em formação.

Vamos às lendas:

O FANTASMA DA AFONSO PENA

Em noites de lua cheia e lançamentos de coleções de outono/inverno, um espectro de aparência torpe e maltrapilha vaga pela rua que é sinônimo do luxo e da usura na capital potiguar. Ele sai repetindo seu mantra que é basicamente “um dinheirinho pra eu comer, um dinheirinho pra eu comer, um dinheirinho pra eu comer”, exigindo dos vivos uma pequena parcela da riqueza ostentada. Os especialistas dizem que uma pequena quantidade de dinheiro ofertada pode serenar seus ânimos temporariamente, mas para afastá-lo de vez só com técnicas  avançadíssimas chamadas justa distribuição de renda e melhores oportunidades de vida. O Fantasma, que é definido pelos místicos como uma entidade de pobreza, se refugia no morro de Mãe Luíza e provoca um leve incômodo nos mais abastados da cidade, frequentadores daquela avenida, porém estes e também os políticos natalenses preferem fingir que não o veem (apesar destes últimos acenderem muitas velas para o dito ser em época de eleições).

O LOBISOMEM DE PONTA NEGRA

Surgiu há alguns anos quando um turista italiano foi mordido por uma menina de 13 anos numa noite de entorpecida agitação na orla de Ponta Negra. Desde esse dia, ele assombra a beira-mar do tradicional bairro praiano natalense e a sua assustadora presença uivando ensandecido em noites de lua nova (porque ele prefere as novas) afugentou os moradores nativos. O “Lobisomem Italiano em Natal”, como foi batizado pelos doutores em Ciências Ocultas mais respeitados da capital, só se sente saciado perante a oferta de jovens garotas potiguares para que possa praticar sua cópula interespécies. Para evitar esse monstro de caráter maldito, é preciso nunca sair do caminho seguro, mantendo-se longe de seu território preferencial, a Avenida Beira-mar em Ponta Negra e a rua do antigo Sargent Peppers no alto Ponta Negra. Os habitantes humanos de Natal temem bastante o lobisomem, mas segundo se comenta a população, a Prefeita da cidade e os secretários de turismo também sentem indescritível pavor do bicho, sendo incapazes de fazer alguma coisa para combatê-lo.

A CAVEIRA DE BURRO DA CULTURA

Em 1903, quando se estava construindo o Teatro Alberto Maranhão, que na época seria chamado de Teatro Carlos Gomes, um dos operários de nome Ricardo Porpino Carvalho enterrou uma caveira de jumento embaixo de uma das colunas que alicerçam o prédio. Ao fazê-lo, decretou: “Nessa terra nenhuma manifestação cultural genuína tocará o coração do povo, nada germinará e frutificará, todo trabalho em prol do desenvolvimento da boa música, literatura, dramaturgia e artes plásticas será em vão. Apenas alguns poucos testemunharão o fracasso desta civilização que verá o tempo avançar sem nunca prosperar, que testemunhará a cidade crescer sem nunca encontrar uma real identidade. Nesta cidade ninguém nunca sentirá orgulho do que é, foi ou poderá vir a ser!” Após dizê-lo, deu uma risada sinistra e partiu para Salvador. A caveira de burro, porém, permaneceu entre nós, emanando seus poderes de atrofiamento cultural, cultivando nos espíritos o comodismo e semeando a má vontade em todas as camadas sociais. Certa vez, o jornalista, advogado e dublê de paleontólogo Marcus Vinícius (MV) tentou organizar uma escavação para encontrar e levá-la embora da cidade, mas foi impedido pela radiação nociva à livre iniciativa que emana do artefato ósseo diabólico.

O VAMPIRO DA ASSEMBLEIA

Este monstro sanguessuga extrai dos cidadãos pagadores de impostos a energia, o vigor e uns tantos mil Reais por mês que permitem sua sobrevivência e enfraquecem as pessoas de bem. Dizem que se refugia em gabinetes de deputados estaduais, mas também encontra uma variante na câmara de vereadores, e convive com diversos fantasmas, também funcionários do lugar. Mas sobre estes últimos, não há indícios suficientes de que existam de fato, uma vez que eles nunca aparecem na assembleia, apesar de ser atribuído a eles o desaparecimento de vultosas quantidades de recursos públicos. Um história de verdadeiro terror.

A MALDIÇÃO DO JÁ TEVE

Não se sabe ao certo quem foi o feiticeiro que, sabedor das artes do oculto, lançou sobre Natal esta terrível maldição. O que se sabe é que um dia, quando a cidade era pouco mais que uma fazenda iluminada, ele foi às margens do Potengi e praguejou: “Não deixarás de ser província!” Desde então passamos a exibir uma incompatível mania de grandeza. Exigimos do universo que fôssemos dele o centro absoluto e passamos a querer ser mais modernos, mais cosmopolitas, mais grandiosos, queríamos ter a maior ponte de todos! E assim tivemos de tudo que o nosso olho grande, nosso rei na barriga e nossa total e absoluta falta de “semancol” poderia prover. Como todas essas coisas eram produtos de um delírio coletivo de megalomania, logo os grandes projetos se encerravam. Um pai de santo, meu vizinho, disse que muito dessa maldição também é resultado da caveira de burro e do esforço uníssono de população, autoridades e mediocridade do além-vida em não deixar que nada prospere por muito tempo. Com isso, a cidade onde já se teve de tudo, caminha rumo ao nada sufocada por sua própria vaidade desmedida.

OS ZUMBIS DO SOL

Eles se deslocam em grupo, aparentemente a esmo, hipnotizados pelos meios de comunicação de massa que, pos sua vez, são controlados por manipuladores chamados de “formadores de opinião” já que introduzem nas mentes ociosas das criaturas suas próprias vontades, valores morais e normas de comportamento a serem seguidas e adotadas por todos eles. Quando um zumbi começa a frequentar um lugar, utilizar uma roupa ou adotar um padrão de comportamento qualquer “sugerido” pelos “formadores de opinião”, logo é imitado por seus semelhantes que procuram fazer tudo exatamente igual. O aparecimento destas hordas de mortos-vivos em nossa cidade pode ser atribuído ao excesso de exposição solar na moleira, fato altamente perigoso para os miolos que, sem a solidez da boa educação, raciocínio lógico e cultura geral, se revelam demasiado flácidos e vulneráveis à alta temperatura, derretendo docilmente e originando tais aberrações. As maiores concentrações destes débeis monstos caminhantes podem ser vistas em concertos de verão, boates de Petrópolis e Tirol, além de acorrerem sempre no início de dezembro em desvairada perseguição aos trios elétricos que chegam da Bahia para inebriá-los com um espetáculo de sons, luzes e cores. Foi daí que surgiu o ditado: “Atrás do trio elétrico só vai quem já morreu!”

Já era quase noite quando eu fechei o livro “Histórias de uma Natal Assombrada”. Os relatos que expus aqui são apenas alguns poucos retirados do extenso dicionário de lendas reunidas pelo pesquisador e organizador da obra. Fiquei muito impressionante com tantas fantasias populares natalenses surgidas nas ruas e praias da cidade. Será preciso, a partir de agora, tomar mais cuidado quando andarmos distraídos pelas veias do organismo urbano, pois além da violência crescente dos vivos que ameaça nos converter em mortos, existem também todas essas criaturas do breu a nos aterrorizar com suas artimanhas do além. Eu digo é VÔTS!

Coluna da Digi # 79 – Realizadores: Ânderson Foca.

dezembro 13, 2010

Mais uma crônica da série Realizadores (Leonardo Panço, Fábio de Silva, Revista Catorze e Válerio Augusto). Dessa vez, o personagem foi Ânderson Foca, o homem que entre uma bola e outra que equilibra no nariz, ainda movimenta a cena rock de Natal, formando um público roqueiro que certamente vai tirar a cidade da monocultura em que se encontra há décadas. Esta coluna foi publicada na Digi em 03 de novembro de 2009. Releiam e, se gostarem, divulguem.

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Realizadores: Ânderson Foca.

Ana Morena e Ânderson Foca - o casal Dosol

Conheci Ânderson Foca há muito tempo, através de dois amigos em comum, Caio Vitoriano e Leonardo Medeiros. Na época, estávamos numa mesa de lanchonete e descobrimos que torcíamos pelo mesmo time. Fanáticos por futebol que éramos, e somos até hoje, desenvolvemos uma animada conversação sobre as possibilidades de nossa equipe no ano que se anunciava (era um dezembro qualquer da década de 90). Aquele diálogo foi a centelha de uma amizade duradoura que revelou diversas afinidades, interesses comuns e nos enriqueceu com outros novos amigos apresentados de parte a parte.

Porém, deixando um pouco a amizade de lado, houve um momento em que eu passei da condição de simples amigo para fã confesso e entusiasmado admirador do trabalho de Foca. Na segunda metade dos anos 90, ele era um dos caras que proporcionaram com que se pudesse sair na cidade e ouvir algo além do ritmo preferido dos natalenses, o forró-pagode-axé. Naqueles anos, algumas válvulas de escape pops respondiam por “Banda Officina”, “Inácio Toca Trumpete” (de Karol Polsadski), a “Boca de Sino”, além dos ótimos “Mad Dogs” do ídolo Paulo Sarkis que, como vinho, ficam ainda melhores com o tempo. Em meio a uma cidade monocultora por convicção, Foca e seus colegas de banda conseguiam viver de Pop-Rock com bons vencimentos a cada mês. Isso mostrava um lado empreendedor bastante apurado e uma firmeza de propósitos de quem realmente quer atingir seus objetivos. Entretando, apesar de gostar do trabalho, não foi aí que virei fã do Foca.

Foi com a iniciativa e o trabalho árduo à frente do Dosol (selo musical, estúdio de gravação, rock-bar, centro cultural e festival) que ele me convenceu, ganhando pontos e estrelas no boletim hipotético no qual emitimos notas mentais e julgamos todas as pessoas que conhecemos em nosso inconsciente.  Com a abnegação, sacrifícios e conquistas obtidas, Foca deixou de ser simplesmente um amigo e passou a ser uma pessoa daquelas que a gente tem orgulho de conhecer. Ele subiu o elevador no meu conceito e agora era alguém que fazia algo relevante para a coletividade, que tentava realizar um trabalho notável, colocando Natal entre as cidades onde acontecem coisas boas, que recebem bons concertos de cultura alternativa, por onde passam bandas legais que gostaríamos de ver ao vivo. E não só isso, mas também promovendo um fluxo de mão dupla, oferecendo aos jovens roqueiros potiguares a chance de levarem o seu trabalho pra fora, gravarem suas músicas, mostrarem suas performances para gente do meio que viesse para a cidade.

Todo mundo deve ter alguém com história semelhante. Um cara que se conhece há tempos e que prospera, vence, se destaca, faz e acontece, nos deixando orgulhosos, como se também fizéssemos parte, de alguma forma, das façanhas empreendidas. Em mim, dá uma sensação boa, pois fico feliz, de verdade, com o êxito dos amigos. Como fiquei em 2005, quando vi a última noite do Festival Dosol lotada por um público empolgado. Também em 2007, quando o festival perdeu o patrocínio devido às jogadas do Governo do Estado e da Fundação José Augusto para financiar projetos do próprio Governo através da Lei Câmara Cascudo para depois anunciar que a “verba tinha acabado”, e mesmo assim ele realizou o maior festival de Rock já ocorrido no RN até então com mais de 50 bandas, muitas tocando de graça, na brodagem, pra ajudar diante da situação difícil.

E agora chegamos a 2009. Mais uma edição do Festival Dosol se avizinha, a programação oficial saiu com 23 bandas potiguares, 17 do resto do Brasil e mais 3 gringas de expressão e relevância. Fico com um sorriso estampado no rosto ao saber dessas coisas. Em saber que um trabalho persistente, bem feito, mesmo diante das muitas adversidades que se impõem na província, alguém consiga colher frutos, dividi-los conosco e promover um bem maior para a cidade e sua cena cultural. O trabalho de Foca nem sempre encontra reconhecimento e o valor que merece, o que ele faz não repercute na Afonso Pena nem nas boates da Salgado Filho, mas é de boas ideias e disposição de colocá-las em prática como as dele que surgem grandes resultados. Todas as iniciativas do Dosol representam uma vitória contra o marasmo, a mesmice, a mediocridade e a estagnação. Por isso, confesso aos meus leitores que hoje, talvez mais do que amigo, sou fã do cara. O sucesso dele e de suas invenções é também um pouco meu.

Coluna da Digi # 78 – Realizadores: Ainda sobram Catorze.

dezembro 9, 2010

Dando continuidade à série realizadores iniciada com Valério Medeiros e depois com Leonardo Panço, cheguei a meu terceiro texto cheio de elogios. Dessa vez, os alvos foram os caras da Revista Catorze. Republico aqui o texto a respeito do único site de jornalismo cultural do RN que é maior que treze.

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Realizadores: Ainda sobram Catorze.

Ramon da Catorze entrevista Rafael Coutinho no lançamento de Cachalote.

Um amigo dos tempos de universidade chamado Jussiê Costa costumava dizer uma frase feita (por ele próprio, diga-se) que era a seguinte: “No mundo tem gente com gosto pra tudo e ainda sobram 14.” Eu gostava tanto dessa sentença que até hoje recorro a ela para justificar preferências aparentemente insanas com as quais nos deparamos nesse manicômio a céu (nem sempre) aberto que chamamos civilização. Dia desses recordei da frase de Jussiê ao tomar conhecimento de uma boa notícia e percebi que deveria escrever mais uma crônica da série Realizadores.

Como já tem sido uma praxe nesta sequência de textos temáticos em particular, trato aqui mais uma vez de uma pessoa que promove algum bem à coletividade como resultado de seus esforços e a um bom trabalho realizado, dessa vez vou fazer um elogio público a Fábio Farias. Público e merecido, gostaria de ressaltar, uma vez que, apesar de jovem, vem se destacando no cenário local como um profissional articulado, dedicado e muito envolvido com o seu ofício que, afinal de contas tem muito a contribuir com nosso Estado tão carente de iniciativas como as que este exemplo de boa conduta tem tido. Um homem de atitude e que já começa a exibir os primeiros frutos resultantes de boas ideias e empreendedorismo independente.

O Fábio de quem estou falando de maneira tão elogiosa é o Fábio Figuerôa de Farias, jovem estudante de jornalismo, que conheci na TVU há uns 3 anos, quando participei do programa Xeque-Mate. Na época, entre os estudantes presentes à gravação da entrevista, ele era de longe o mais preparado, havia pesquisado o assunto, lido a respeito e preparado com antecedência perguntas pertinentes ao tema. Tempos depois, encontrei novamente aquele estudante e ele me diz que está estagiando na área de cultura de um jornal impresso. Fiquei feliz com a notícia sabedor que sou da contribuição que um genuíno talento aliado a sincero interesse no bom cumprimento do ofício teria a dar ao jornalismo cultural da terrinha.

Porém, a alegria durou pouco, apenas o tempo de ele dizer com inevitável desiluzão como era o esquema do estágio. Cultura não era exatamente o principal foco do periódico e as pautas sugeridas por Fábio, nunca eram aceitas pela editora que sempre se preocupava mais em eventos carnatalescos e andava a procura de um substituto para o principal colunista social que havia saído da publicação. Na época me comprometi a falar com alguns amigos que trabalhavam em jornais melhores e ver se encaminhava o rapaz para um lugar melhor. De fato, o fiz, mas as conversas não avançaram muito. Uma pena.

Passou-se mais tempo e tive novas notícias de Fábio. Havia vencido um prêmio de jornalismo oferecido pelo Instituto Itaú Cultural. Agora vai!, pensei na época. Foi pra São Paulo receber a premiação e participar de um evento do Instituto sobre jornalismo e cultura. Motivou-se, aprendeu bastante, voltou pra Natal disposto a fazer algo diferente, a não esperar que as oportunidades caíssem do céu, a se revestir da ideologia do movimento punk, escrituras sagradas de uma geração anterior a sua que repetia um mantra essencial: “Faça você mesmo!”

 Com ideias diabólicas na cabeça, juntou-se com alguns amigos e decidiram botar no ar uma revista cultural na internet chamada Catorze (www.revistacatorze.com.br). Dessa forma, coloca em prática um jornalismo cultural de qualidade, alimentado pela empolgação de jovem e instigado profissional que é. Acessei a revista Catorze pela primeira vez e me tornei um dependente de seu conteúdo. Coberturas completas de eventos como a Flipa, matérias, bons textos, críticas, divulgação de uma Natal Cultural que fervilha de boas e animadoras opções. Recomendo que meus leitores (que talvez também sejam 14) acessem o sítio dos rapazes. É que nossa cidade tem muita gente que não está nem aí pra cultura, mas como dizia meu amigo Jussiê Costa, ainda sobram catorze!

Coluna da Digi # 77 – Adoráveis Bastardos

dezembro 3, 2010

Um dos melhores filmes do ano passado pra mim, foi “Bastardos Inglórios”. A maestria de Tarantino me pegou de jeito. Fiquei encantado pela película e escrevi uma coluna a seu respeito. Hoje, republico a coluna da Digi postada em 19 de outubro de 2010. Espero que gostem tanto quanto eu curti o filme.

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Adoráveis Bastardos

Sabem o que eu mais gosto do estilo Tarantino de fazer cinema? Do prazer que ele sente ao trabalhar com isso. A satisfação do diretor em realizar suas obras é nítida em cada centímetro de celulose. No seu mais recente filme, “Inglorious Basterds” ele parece que escreveu uma história por pura e inconsequente diversão. Brincou de redigir o roteiro, acompanhar a préprodução, dirigir as cenas e montar. O resultado é uma divertida fábula que se utiliza a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo para contar a história dos arruaceiros judeus que tinham como missão matar o maior número de nazistas quanto pudessem em território europeu.

Ao assistir “Inglorious Basterds”, tive muitíssimas lembranças de outros filmes ou personagens do cinema ou da literatura, algo perfeitamente natural diante da grande quantidade de referências e homenagens que costuma fazer o diretor em seus trabalhos. De Sherlock Holmes a Cinderela, passando por filmes de Western e suspense, a história flui num ritmo bastante agradável repleta de pequenas mensagens subliminares, discretos acenos à plateia capazes de fazer os mais atentos ou bem informados darem um que outro sorriso a mais. E, claro, as longas e maravilhosas cenas de impagáveis diálogos, já uma marca registrada do diretor, não poderiam faltar, dando à história um equilíbrio essencial. Suas ideias parecem delírios juvenis, nascidas a partir de uma fértil imaginação adolescente e anabolizada por uma profusão de hormônios típica daquela idade.

Lembro de um conto que escrevi certa vez e que se chama “Anjos”. Tratava de 3 jovens de 20 e poucos anos que decidiam matar italianos e espanhóis que vinham fazer turismo sexual com menores em uma Natal dominada pela violência, um quadro bastante fiel à Natal de Vilma Maia e sua filhota bastarda (apesar de não reconhecida) Micarla de Sousa. A tensão da narrativa, os diálogos e a ação chamaram a atenção de Henrique Fontes, dramaturgo potiguar, dizendo que ele poderia tornar-se um curta. Levei o texto a Buca Dantas que se interessou e deverá transformá-lo em cinema muito em breve. Essa minha história, quando a escrevi, tem um pouco da empolgação adolescente presente nos roteiros tarantinescos.

É aquilo que todos nós temos vontade de fazer, mas como não podemos, mandamos nossos personagens fazerem por nós. Como nos velhos filmes de ação em que um dos mocinhos morre, mas ainda consegue, antes de exalar o último suspiro, dizer a um amigo: “Vá lá e pegue eles por mim!” É precisamente o que os meus 3 garotos fazem no conto “Anjos” o que os bastardos sem glória de Quentin fazem no novo filme. Enquanto meus personagens assassinam italianos maníacos como eu adoraria fazer, o pelotão comandado por Brad Pitt cumpre aquilo que o diretor teria o maior prazer em fazer se tivesse a oportunidade: matar nazistas.

A sede com que Tarantino busca fazer algo prazeroso, encontrar satisfação plena no seu ganha pão também é contagiante, não raro resultando em verdadeiras jóias do entretenimento, encontrando um cômodo lugar entre o cine de arte e o cinemão pipoca. “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” já são objetos de culto merecido, “Jackie Brown” e “Death Proof” garantias de diversão, e os dois volumes de “Kill Bill” são uma colcha de retalhos de referências (inclusive a si mesmo) que renderam até uma ótima produção brasileira, o engraçadíssimo curtametragem “Tarantino’s Conection” protagonizado por Selton Mello e Seu Jorge.

Porém, a despeito de toda sua obra anterior, com a nova película, o cinesta parece ter ido além. Conforme têm apregoado em entrevistas pelos 4 cantos a fim de promover a produção: “Essa pode ser a minha obra prima!” Após assisti-lo, faço eco às declarações do diretor. Ele não está exagerando.

Coluna da Digi # 76 – Um Dia Verde

novembro 1, 2010

Textinho bem legal que escrevi ano passado. Curto muitíssimo. Boa leitura.

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Um Dia Verde

Eu gosto do verde. Da cor verde. E não se trata de consciência ecológica ou simpatia gratuita. Minha predileção por essa cor tem duas razões bastante simples: sou consumidor e fã da cerveja holandesa Heineken e quando eu tinha 15 anos ouvi um certo som que fez muito bem aos meus ouvidos em meio à confusa e cheia de sobressaltos adolescência na medíocre classe média (e por que não dizer mediana?) natalense. Era um som, digamos assim, “verde”, contagiante e, como não poderia deixar de ser, punk. Naquele já longínquo 94 do século passado, ano de muita efervescência musical, tive a consciência que só o Punk salva. Amém!

O ano do tetra foi relembrado outro dia aqui mesmo na Digi na ótima crônica de Hugo Morais a respeito dos 15 anos do CD “Da Lama ao Caos” de Chico Sciensce e Nação Zumbi. O texto me fez voltar no tempo para aquele ano e foi como se eu vivesse tudo de novo. Além do CD da Nação, teve o acústico do Nirvana (e do tiro na cabeça do Kurt Cobain), o primeiro disco dos Raimundos, a explosão do Oasis (“Wonderwall”, “Don’t look back in anger”), o surpreendente “Usuário” do Planet e o “Smash” do Offspring, só pra citar alguns de memória. Gosto de todos, mas para mim talvez o mais divertido que foi prensado naquele ano tenha sido um com encarte bonito em que havia uma ilustração bem bacana de uma cidade e uma explosão, o “Dookie” do Green Day.

Som vibrante, alegre, moleque, urgente e pegajoso até que invadiu meu toca-CDs e segue tocando alto nos fones de ouvido até hoje. Faixa por faixa era um disco quase todo composto por hits e meio que me salvou de um caminho muito perigoso. Entre os 13 e 17 anos o adolescente vive aquele período de tomada de decisão, busca de uma identidade, formação de um caráter e de uma personalidade. As escolhas que a gente faz nessa fase da vida podem marcar para sempre nossa passagem por este mundo. Por isso eu me encontrava em um terreno bastante perigoso, pois o Colégio das Neves onde estudava era uma verdadeira incubadora de idiotas. O nível educaional era muito bom. Tínhamos bons professores e o conteúdo, tirando os dogmas medievais que nos eram repetidos como mantras, produziu alguns dos melhores e mais bem sucedidos adultos de minha geração. O problema era a mentalidade reinante entre os meus colegas, uma gente muito simpática, mas careta, preconceituosa e adepta de uma estupidez corrosiva e mais contagiante que vírus da gripe.

Num ambiente como esse, se você não reza segundo a cartilha reinante da coletividade, o que para um jovem aluno Neves significava ir a shows de Axé, saber dançar forró e frequentar os pagodes de fim de semana, pode estar condenado à uma rápida morte social ou, muito pior, ganhar reputação de excêntrico o que, aliás, dá no mesmo. Eu gostava de rock. Até me esforçava (não muito) para ser igual aos outros, mas não dava. Paguei um preço por minhas opções. Meus amigos achavam exótico, as meninas da GRD nem olhavam pra mim e os que não me conheciam tinham a sensação de que era melhor continuarem assim. Até que descobri em outras salas e séries, alguns como eu.  Minha solidão terminou quando percebi que havia um pequeno nicho roqueiro na escola. Fiz amigos como Fernando Filho, Thales Lago, Caio Vitoriano, Leonardo Medeiros, Diogo Salim, Vítor Duarte e juntos criamos nosso próprio gueto, protegido da intolerância e hostilidade dos demais.

O Green Day, Offspring e muitos outros conjuntos roqueiros gringos e também brasileiros proporcionaram minha catequese, pavimentano um caminho para que eu conhecesse outros sons, bandas mais pesadas, ritmos mais frenéticos. Estava salvo. Só havia um problema: possivelmente eu nunca teria a oportunidade de ver meus dois grupos californianos ao vivo. Numa cidade em que Durval é rei e todos os puxadores de bloco ganham títulos de cidadãos locais, deveria haver alguma lei que mantinha os shows internacionais a milhares de quilômetros. Felizmente, os anos mostraram que eu estava errado.

Em 2004, o Offspring tocou em Recife. Em 2009, foi a vez do Iron Maiden fazer o mesmo. Vez por outra também rola um concerto imperdível em São Paulo ou Rio e, com um pouco de economia e planejamento, dá pra marcar presença. Mas ainda faltava o Green Day. Faltava, pois por uma dessas jogadas do destino, acabei vindo passar um período de estudos fora de Natal e haveria um show dos californianos aqui onde estou morando.

Quando chegamos à fila do evento, gigantesca, dando voltas no quarteirão, a primeira coisa que vi foi a multidão de camisetas pretas que passavam uma mensagem clara: eu estava em casa. Depois percebi que a maioria era de adolescentes, ou pelo menos adultos bem jovens que eu. Senti-me o tiozão do Rock. Aquela gurizada conheceu o grupo certamente através do American Idiot. Ao percorrer a extensão da fila, comecei a perceber representantes de minha época, facilmente identificáveis pelas primeiras rugas, precoces pelos grisalhos ou proeminentes calvícies. Fiquei imaginando se a banda foi tão importante para eles, na formação de seus gostos musicais, quanto foi pra mim. durante a espera, muitos senhores e senhoras que passavam, paravam um pouco para nos perguntar o propósito de uma multidão de jovens como aquela disciplinadamente alinhados, ordenadamente a espera de algo certamente grande. “Vamos a um concerto de Rock”, eu respodia todo sorrisos.

Até que, finalmente, teve início o espetáculo: público ensandecido, devotado e de alma lavada. Inclusive eu, pois finalmente podia ver Billy Joe, Tré Cool e Mike Dirnt numa performance memorável. Quase 3 horas de clássicos (“Basket Case”, “She”, “When I come arround”), canções históricas (“Minority”, “American Idiot”, “Boulevard of broken dreams”) e baladas (“Good riddance”), além das novas do “21st Century  Breakdown”. Tudo bem orquestrado com uma produção alucinante, muita energia na plateia e ótima presença de palco.

A data de 29 de setembro de 2009 entrou para a história, pelo menos para a minha história. Foi um bom dia, colorido com contornos verdes, regado ao sabor amargo de muita cerveja e cada vez que lembro do concerto se anuncia um largo sorriso em meu rosto. O que aconteceu naquela terça-feira foi uma celebração aos 15 anos que se passaram desde que eu ouvi o Green Day pela primeira vez.  A alegria que eu exibia no show não era apenas de um fã que via ao vivo a performance de seus ídolos, mas de um adulto que se descobria muito feliz pelas escolhas que fez.

Coluna da Digi # 75 – Tem piadas que duram 40 anos ou mais.

outubro 27, 2010

A piada mais engraçada do mundo foi tão hilária que muitos dos que souberam de seu conteúdo, morreram de rir fulminantemente. Ela foi contada pela primeira vez no dia 5 de outubro de 1969, quando a TV inglesa BBC levou ao ar o primeiro episódio de “Monty Python Flying Circus”, o programa televisivo que reinventou o humor como nós conhecemos, elevou a arte de fazer rir a um patamar de excelência e estabeleceu uma referência obrigatória para todas as produções do gênero no mundo a partir de então. O Circo Voador do Monty Python foi um divisor de águas, um registro do melhor que o homem pode fazer para arrancar gargalhadas de seus semelhantes, uma pós-graduação em Oxford ou Cambridge do riso, um tributo ao exagero. O legado deixado por eles é objeto de culto para milhões de fanáticos em todo o planeta, entre eles, este que vos tecla.

Quem me conhece sabe como eu tenho o riso frouxo. Sou o melhor público para piadas e rio com as mais incrivelmente simples besteiras. Muitas vezes, minha namorada, dominada por seu pragmatismo feminino, custa a acreditar em certas situações que me fazem rir. Gosto do absurdo, como a falta absoluta de noção (favor não confundir com mau gosto, escatologia ou demais distorções morais exibidas como se fossem humor na televisão hoje em dia) também conhecida pelo seu original em inglês, o nonsense. Pois bem, os ingleses são os mestres do nonsense. Além dos saltimbancos do Circo Voador, havia também ótimos escritores como Douglas Adams, o homem que escreveu “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, que Hollywood fez questão de estragar.

O Monty Python era composto por John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Jones e o americano Terry Gilliam, que depois virou um diretor muito bem sucedido. A primeira vez que tive contato com eles foi quando, ainda na infância, tive o prazer de assitir ao filme “Monty Python em busca do cálice sagrado” (1974), narrando uma improvável e fantástica aventura do Rei Arthur e seus cavaleiros. Umas duas décadas depois, concluo feliz que, até hoje, aquele foi o filme mais engraçado que já vi na vidae para muitos, a obra prima da trupe. O fato de não usarem cavalos, mas sim quengas de coco para simular o galopar, os confrontos contra o Cavaleiro Negro e os homens que dizem “NI”, a antológica cena de travessia da ponte, a cômica arrogância de Sir Robin, o bravo. Cenas que fazem parte do meu imaginário afetivo e as quais recorro sempre que sinto saudades de reviver momentos de alegria incontida.

Após o fim do programa na TV (que durou 5 temporadas, de 69 a 74), eles viajaram o mundo se apresentando em espetáculos de quadros escritos, protagonizados e dirigidos por eles próprios. Em meio à turnê escreveram mais um filme, “A vida de Brian”, sátira da vida de Jesus Cristo. Como nenhuma produtora quis patrocinar a sacrílega aventura, a aventura acabou sendo bancada pelo ex-Beatle George Harrison. O enorme êxito da película, repetindo o desempenho de “Em busca do cálice…” (que aliás também havia sido financiada por outros músicos, no caso, as bandas Led Zeppelin e Pink Floyd), rendeu um ótimo retorno para o espiritualizado rapaz de Liverpool e dezenas de sequências impagáveis, entre elas, o inesquecível final do filme, clímax do politicamente incorreto, em que condenados crucificados cantam a inesquecível “Always look to the bright side of life” (algo como, “Sempre veja o lado bom da vida ou olhe sempre para o lado bom das coisas”). Canção esta que foi cantada no episódio da morte de Graham Chapmam, o único integrante que já nos deixou, há exatos 20 anos, em 1989. Este episódio rendeu uma crônica em uma das minhas primeiras colunas da Digi: “O lado bom da morte”.

Hoje, com a relativa democratização dos meios eletrônicos, é possível encontrar o conteúdo humorístico do Monty Python muito mais facilmente. DVDs como “Ao vivo em Hollywood” de 1982 e o filosófico “O Sentido da vida”, pretensiosa produção de 1983, podem ser encontrados em boas locadoras como a Videolaser ou nos sítios de compra da internet. Todos os outros filmes lançados e também as 5 temporadas do “Flying Circus” estão disponíveis da mesma forma. E, como não poderia deixar de ser: abençoado seja o Youtube! O grupo foi um dos primeiros a ter um canal oficial no portal de vídeos número 1 do mundo. É possível assitir suas sketches originais em ótima qualidade. Se o internauta preferir ver legendado em português, tudo bem, graças a uns bons samaritanos que prestam esse importante serviço de utilidade pública virtual. 

Eu não me canso de rir de quadros como o “Ministério do andar idiota”, “O futebol filosófico disputado entre Alemanha e Grécia”, “O Papa fazendo alterações na Santa Ceia de Michelângelo” e oO serviço de discussão” e seu maravilhoso diálogo:

“Isso não é uma discussão!”

“ É sim!”

“Isso não é uma discussão!”

“É sim!”

“Isso não é uma discussão!”

“É sim!”

“…”

De lá para cá, todos os humoristas de TV que se prezem beberam desta fonte. Do Saturday Night Live, passando pelos globais TV Pirata e Casseta&Planeta, até os propositalmente toscos Hermes e Renato, ninguém está livre de sua influência,carregando em seu código genético o DNA dos loucos ingleses e seu estilo único, revolucionário, inconfundível.

No dia 5 de outubro de 1969, eles deram início a essa piada que não tem prazo de validade, pois nunca vai perder a graça. É, sem sombra de dúvida, a piada mais engraçada do mundo. Há 40 anos, o Monty Python implantou um programa de qualidade total em nosso senso de humor.

Coluna da Digi # 74 – Baile dos coroas.

outubro 26, 2010

Esta republicação de hoje é bastante oportuna. Na verdade, trata-se de uma incrível coincidência que motivou, inclusive a mudança do nome de uma personagem citada pela protagonista. Ela foi publicada no dia 28 de setembro de 2009, quando eu estava passando uma temporada em Madrid, mas vem dando o que falar até hoje, mais de um ano depois.

Boa leitura.

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Baile dos coroas

Pode uma única noite provocar tão lindo desabrochar em flores cujas pétalas permanecem 364 alvoreceres cerradas em si, aguardando (e guardando-se) para finalmente revelarem sua esplendorosa beleza durante uma curta caminhada do ponteiro mais largo? Sim, pode. E eu sou testemunha deste cortejo anual, quando todas as atenções se voltam para o que mulheres e homens estão dispostos a usar para chegarem mais próximos do Olimpo. Uma noite em que a justiça divina é ensaiada com rigor de purgatório, podendo ser condenados com olhares inquisitores os que fracassarem na missão de parecerem membros de um plano superior em visita oficial ao mundo dos mortais, garbosamente flutuando em nosso mundo, como se fossem nossos quase iguais.

Se a aparência angelical de uma Grace Kelly ou a elegância viril e inconteste de um Humprfey Bogart não forem suficientemente convincentes aos ávidos olhos alheios, os próprios réus seguirão dantescas jornadas ao mais baixo andar do inferno, pois nem o tormento de mil demônios e o calor sufocante de toda a lava do Vesúvio será capaz de aplacar a vergonha inerente a um deslize tão imperdoável quanto não fazer da grande noite uma ocasião perfeita, ferindo com a indisfarçável marca da inveja o semblante de todos os presentes.

E não há palavras que possam expressar a angústia, expectativa e ansiedade das horas que antecedem a grande noite, divisora de águas em biografias e reputações. Nem há ciência que possa medir o regozijo por saber-se absoluta, senhora de suas ações, capaz de atrair os mais rasgados elogios que, apesar de verdadeiros, contrariam sentimentos vis, oculto no mais profundo da alma feminina.

Precisamente hoje, vivo o porvir e antevejo a cada fechar de olhos mais demorado como será minha entrada triunfal que, de tão arrasadora, fará soar trombetas celestiais, a ponto de parecer que o próprio céu estará abrindo seus portais para minha passagem. Nas mentes atentas povoará pensamentos de que meu vestido poderia ter sido feito para ninguém menos que Santanna, encomendado para a mais hábil costureira, pela maior de todas as devotas.

Os calafrios que percorrem meu corpo produzem suores febris e me fazem padecer em vida, eriçando pelos, causando vertigens poderosas de tanta pressão. A relevância deste momento não poderia ter menor medida, uma vez que há exatos 12 meses, seus preparativos são tratados como prioridade absoluta de minha e de muitas outras famílias. E foi um caminho árduo o que trilhamos até aqui. No último ano passamos por terríveis provações e vimos os recursos escassearem ante os gastos cada vez mais vultosos. Nos vimos forçados a cortar certos luxos e benesses com as quais contávamos dada à bonança em que vivíamos antes.

Os meninos, mudamos de escola. Uma mais simplezinha, com mensalidade mais barata. O que, no fim das contas, nem fez tanta diferença, já que atrasamos o pagamento em 6 meses. Em casa, entramos todos em um regime inclemente, pois com o preço que anda a comida hoje, dá pra contratar um bom alfaiate e fazer um terno sob medida para o Marcelo, meu marido. O carro não pudemos vender ou trocar por outro mais barato ou econômico. Acontece que, além de estar financiado em muitíssimas prestações, desafiando a expectativa de vida de um ser humano saudável, não seria bom para nossa imagem um retrocesso automobilístico. Todo mundo sabe que um bom carro separa os vencedores dos fracassados. O jeito foi deixar de quitar alguns meses para sobrar uma laminha pro uísque 12 anos e o complemento do enxoval.

Um esforço hercúleo, 12 trabalhos e até mais, se você analisar direitinho, pois esta noite teremos a oportunidade de experimentar extremos absolutos e de encarar feras tão terríveis quanto Cérbero. Arrisco dizer que há mais dignidade nos vermes que se alimentam do cadáver de um rato que em certas víboras que destilam o produto de suas peçonhas pelo abarrotado salão de vítimas potenciais.

O brilho de um longo admirável e deslumbrante, bem como o corte irrepreensível de um terno perfeito não bastam em si. É necessária uma extenuante bateria de embelezamento. Para nós, mulheres: pés, mãos, maquiagem, cabelo, depilação. Tudo para que, por uma noite, sejamos alguém que desejamos ser, bem diferente de quem somos. E é preciso ser persuasivos para que as outras pessoas também acreditem ou admitam acreditar que sejamos pessoas mais belas e felizes, próximas da perfeição humana. Elas vão continuar nos odiando, claro, mas pelos motivos certos. Sentirão inveja, mas nunca indiferença.

E os outros, meu Jesus! Os outros e principalmente as outras! Que Deus tenha piedade de suas almas desgraçadas por cometerem o grave pecado de não saberem combinar razoavelmente as roupas ou exibirem maquiagens tão berrantes quanto suas vozes gasguitas. Algumas delas tem um olhar de fazer murchar todas as plantas do Seridó e a língua mais ferina que faca amolada. Pessoas assim, quando pousam os olhos sobre minha imaculada figura, fico baratinadinha. Tenho que me benzer 10 vezes e tomar um banho de sal grosso senão caio doente de cama e nem todo o lambedor do mundo vai me levantar. E são bregas, visse? Ali cabe mais cafonice que água no Itans. Gostam de usar umas roupas mais coloridas que penteadeira de rapariga. Mas, assim, se eu encontrar com uma cururu dessas no baile, pois além de tudo costumam estar tão gordas que devem estar almoçando e jantando queijo de manteiga com carne de sol, eu vou dizer pra assim: “Meniiiina, você está tão bem. Tá forte, saudável… muito bem. Um beijo, querida.” E saio logo de perto desse poço de falsidade, dando graças a Deus. Afe! Aquela ali nem Abbis e Arlete juntos dão jeito. Nasceu pra ser uma prejura e vai morrer uma prejura, bicha véia beradeira!

Ai, meu Deus! Já vai dar 4 da tarde! Tenho hora marcada no salão. Espero ficar tão bela a ponto de derramar lágrimas alheias ao simples vislumbre de minha entrada no salão do baile. Fiz minhas escolhas, espero corretas, para levantar-me acima da obscuridade comum. Serei ilustre ou estarei ao menos notável? Penso que sim. Tenho o instinto das elegâncias e um bom gosto inato. Tomara que tudo dê certo, que seja uma noite divina para mim e meu marido. Que se agrade Nossa Senhora de Santanna dos nossos atos para que amanhã não nos venha censurar com o arrependimento.

Coluna da Digi # 73 – A Entrevista

outubro 19, 2010

No dia 23 de setembro de 2009 publiquei na coluna da Digi esse relato fiel de um acontecimento verdadeiro que passei ao lado do nobre amigo Daniel Minchoni. Leiam e podem rir à vontade. Não chega a ser tão hilariante quanto o texto de Crystyan de Saboya contando a perda da virgindade de sua poodle Maria do Socorro, mas dá pra se divertir um pouquinho.

Boa leitura.

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A Entrevista

Esta é uma história real, valendo-se evidentemente de algumas liberdades e ênfases necessárias em determinados pontos que poderiam ser interpretados como inverdades, porém defendo-me de tais acusações, afirmando peremptoriamente se tratarem de pequenos adornos narrativos a fim de dar ao texto uma dinâmica mais adequada ao bom proveito do leitor. Tais detalhes controvertidos também poderiam ser encarados como simples exageros do autor ou leves falhas de memória que fazem com que o acontecimento real seja dessa forma recordado. O fato é que, com ou sem precisão e sem demasiado apego aos mais ínfimos detalhes, tudo o que relato a seguir aconteceu realmente no verão do ano da graça de 2006.

Numa noite de sexta-feira, eu já a caminho da praia após uma exaustiva semana de trabalho, recebo um telefonema do poeta Daniel Minchoni. Ele diz que ligaram para ele de um canal de TV de Natal, querendo agendar para o dia seguinte, às 8 da manhã, uma entrevista ao vivo no programa d emaior audiência do canal, para falar do selo literário Jovens Escribas, que eu, junto com os autores Patrício Jr., Thiago de Góes e o próprio Daniel, criei em idos de 2004. Minchoni achava que era uma boa chance de divulgação do nosso trabalho, mas que ele não gostaria de ir sozinho, uma vez que um dos diferenciais dos JEs era a nantureza coletiva do projeto. Argumentei que estava a caminho do litoral sul e que falaria com Patrício para que ele acompanhasse Minchoni.

Tarde demais. Patrício já se encontrava no litoral norte, na casa de praia de sua família e, uma vez que Thiago de Góes mora em Fortaleza, eu próprio teria que ir à entrevista sob pena de perdermos a chance de divulgar os nossos livros que vínhamos lançando naqueles meses. Adiei minha ida à praia pra depois da entrevista e fui pegar Daniel bem cedo em sua casa. A caminho da emissora, combinamos como seria todo o nosso roteiro para não nos enrolarmos. Primeiro, antes de entrar no ar, conversaríamos com o apresentador do programa, para dizermos que eu começaria falando um pouco de como surgiu a ideia do selo, como começamos a publicar os livros, o que pretendíamos publicar ainda em 2006. Em seguida, Minchoni falaria um pouco dos livros (Verão Veraneio, Lítio, É Tudo Mentira!, Contos Bregas e Escolha o Título) que já havíamos publicado. Limpeza. Com tudo combinado previamente não teria erro, uma vez que, tanto eu, quanto ele, somos muito tímidos diante de microfones ligados, estúdios com ar-condicionado no máximo e câmeras de TV apontadas para nós.

Ao chegarmos na sede do canal de TV, fomos recebidos pelo produtor do programa e cumprimentados pelo apresentador. Ele reconheceu Minchoni como sendo publicitário, pois ele já o havia entrevistado anteriormente a respeito de um evento do Clube de Criação do RN, entidade da qual ele era diretor. Daniel respondeu algo como: “Sim, sou publicitário, faço parte do CCRN, mas hoje estamos aqui para falar só de literatura.” O apresentador soltou um “hum-rum” enquanto amarrava sua gravata e perguntou o que eu fazia da vida além de publicar livros. Falei que também era publicitário e trabalhava numa agência ao que ele também soltou um desinteressado “hum-rum”.

Fomos conduzidos a um estúdio refrigerado e posicionados em tamboretes altos com os microfones de lapela devidamente presos em nossas camisas. Conosco no estúdio, além do apresentador, havia uma garotinha de uns 8 anos de idade a frente de um microfone de pedestal. Meu frio na barriga crescia rapidamente e eu ficava cada vez mais nervoso (o programa era ao vivo). “Silêncio no estúdio!”, passa a vinheta de abertura e…

“Boooom dia! Bom dia! Este é mais um programa … da sua TV… e hoje nós temos aqui a Ádala Nataly, a cantora mirim de Macaíba. E temos também os publicitários Daniel Minchoni e Carlos Filho, que vão falar de publicidade e também de livros num papo muito interessante. Mas antes vamos ouvir um pouco de Ádala Nataly, a cantora evangélica mirim de Macaíba.

A garotinha começou então a cantar altíssimo com uma voz muito aguda em seu microfone: “DEEEEEEEUS, ME CAPACIIIIIITA EM SEU BEM QUEREEEEEER! POIS É PRA TI QUE EU QUERO VIVEEEEEEER!!!” Eu e Minchoni, assustados com aquela voz vigorosa e intimidados com a desenvoltura da menina com as câmeras, certamente inversamente proporcional à nossa, ficamos pensando em que contexto, nós falaríamos sobre os livros. Quando a garotinha terminou sua canção, o apresentador chegou ao nosso lado e disse novamente: “Daniel Minchoni e Carlos Filho vão conversar com a gente…” Eu já me preparava para dizer o que havia combinado previamente com Daniel, quando o homem completou “… mas não agora, porque temos uma participação ao vivo”.

Durante os seguintes 5 minutos, uma telespectadora falou o quanto ela estava tocada pela voz da pequenina Ádala Nataly, como aquela garotinha melodiosa era um instrumento de promoção do Senhor, como era possível sentir a presença do Altíssimo ao se deliciar com a suas canções maravilhosas e etc…  Logo, percebemos que 99% do público daquele programa era composto por protestantes ou católicos que realmente levavam sua religião muito a sério e não pudemos concluir com exatidão se aquilo era bom ou ruim.

O apresentador, influenciado pela vivaz empolgação da telespectadora do programa, pediu a Ádala Nataly que cantasse mais uma canção. Ele próprio, visivelmente comovido, olhava para nós, fora do foco das câmeras e comentava: “É um rouxinol! É um rouxinol!”Com isso, encerrou-se o primeiro bloco e a entrevista ficou para a segunda metade do programa.

Ao voltarmos do intervalo, cumprindo a promessa, o apresentador, logo após saldar o público de casa e anunciar que “estamos de volta com o programa …”, se dirigiu a nós e fez a primeira pergunta da entrevista: “Clube de Publicidade de Natal! Meu amigo, Carlos Filho, explique o que faz o Clube de Publicidade de Natal…” Eu, que não tinha nada a ver com o Clube de Criação do Rio Grande do Norte, fiquei sem saber o que fazer. Então, fiz o que talvez a maioria fizesse em meu lugar, tive uma crise de riso de quase um minuto. Quando voltei a mim, tive que responder alguma coisa uma vez que aquilo era televisão ao vivo. Falei então de todas as ações maravilhosas que o CCRN promovia (todas inventadas ali mesmo de improviso) e, pra não passar vergonha sozinho, citei um monte de nomes de colegas publicitários para poder dividir, pelo menos um pouco, todo aquele embaraço surreal.

Em seguida à minha resposta, o apresentador se voltou pra Minchoni e perguntou: “E como vai a agência …?”, referindo-se à agência de propaganda em que EU trabalhava. Daniel, acompanhando o que eu havia feito, também mentiu descaradamente, falando que era uma ótima empresa, repleta de pessoas formidáveis e que tinha muito orgulho de trabalhar lá. O apresentador, muito satisfeito com a entrevista, elogiou nossa postura de jovens profissionais, exemplos para os muitos garotos que assistiam ao programa e agradeceu a presença naquela manhã de sábado. Saímos de lá sem nem sequer mencionar os assuntos livros ou selo editorial, mas antes de irmos embora, fomos mais uma vez agraciados com a voz de rouxinol da cantora evangélica mirim de Macaíba, Ádala Nataly em sua derradeira canção da manhã.

Deixei Minchoni em casa em meio a risos incontidos de ambos e torcendo para que nenhum dos nossos amigos tenha assistido ao programa. Depois, finalmente fui pra praia com vontade de não voltar. Nunca mais.