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Mônica e Eduardo – Do tempo dos fanzines

junho 9, 2011

Talvez muitos aqui não tenham vivido esta época, mas no fim dos anos 90, quando eu era estudante de comunicação, havia os fanzines, publicações em papel que evoluíram para plataformas mais dinâmicas como sites e blogues. Entre 1997 e 1999, alguns amigos editavam a AZ Revista, publicação da qual participei com muito orgulho ao lado de Caio Vitoriano, Paulo Celestino, George Rodrigo e Cristiano Medeiros. Hoje, tirando o Lado Erre, não há mais fanzines por aí, mas naquela época os fanzineiros se correspondiam e enviavam suas publicações uns para os outros pelo correio. Uma vez recebi de alguém um zine chamado “Os reis da gambiarra”, divertidíssimo que trazia um texto chamado “Mônica e Eduardo” supostamente escrito por um tal Adolar Gangorra, um senhor de 71 anos de idade. Era uma crítica analítica à música “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana.

Essa semana, com o (muito bom) vídeo da VIVO em homenagem à canção da Legião, procurei aqui em meus arquivos o texto do zine e aproveito para publicar aqui pra vocês.

Antes, vejam o vídeo da VIVO:

E agora, divirtam-se com o texto resgatado do fundo falso do baú.

***

Mônica e Eduardo
Por Adolar Gangorra
18/05/01

Esse texto é uma análise comportamental crítica sobre Eduardo e Mônica (aquela música que todo mundo tem obrigação de tocar em churrascos, ao lado de Wish You Were Here, Stairway to Heaven, etc ….) A música Eduardo e Monica da banda Legião Urbana esconderia uma implicância com o sexo masculino? É o que garante Adolar Gangorra. Leia e confira.


O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista.  Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava.  E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso.

Como no caso da música Eduardo e Monica, do álbum Dois da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente enquanto a feminina (Monica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos.

Analisemos o que diz a letra. Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (“Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram”) ao mesmo tempo que tentar dar uma imagem forte e charmosa à Monica (“enquanto Monica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram”). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã, como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (“Festa estranha, com gente esquisita…”). Bom, “Festa Estranha” significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poder fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. “Gente esquisita” é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da Via-Láctea. Enfim, esta era a tal “festa legal” em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos (“- Eu não estou legal. Não agüento mais birita”). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Monica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground. Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (“E a Monica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar”). Vamos por partes: em “E a Monica riu” nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Monica para com Eduardo. Ela, bêbada inveterada, ri de um bêbado inexperiente!

Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se “quis saber um pouco mais” leia-se “quis dar para”!  É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Monica. A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo “boyzinho que tentava impressionar”!  É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como “boyzinho”… Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Monica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (“Se encontraram então no parque da cidade A Monica de moto e o Eduardo de camelo”). A não ser que o Eduardo fosse um beduíno, e estivesse realmente de camelo, mas ainda nesse caso não seria um “boyzinho”. Se alguém aí age como boy, esta seria Monica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 (“Ela era de Leão e ele tinha dezesseis”) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Monica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu? Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Monica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo (“O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Monica queria ver um filme do Godard”). Atitude esta nada democrática para quem se julga uma liberal. Na verdade, Monica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto, em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado pra caralho e com muitas cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo “menina” para se referir suavemente à Monica (“O Eduardo achou estranho e melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo”). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. À pouco vimos Monica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Note que Russo informa a idade de Eduardo, mas propositadamente omite a de Monica. Além disto, se Monica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril ou porque é uma baranga escrota mesmo.

O autor insiste em retratar Monica como uma gênia sem par. (“Ela fazia Medicina e falava alemão”) e Eduardo como um idiota retardado (“E ele ainda nas aulinhas de inglês”). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar “iéis”, “nou” e “mai neime is Eduardo”! Incomoda como são usadas as palavras “ainda” e “aulinhas”, para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente. Coitado do Eduardo, é um jumento mesmo…

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (“Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud”). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.As, muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão “do Bandeira”. Francamente, “Bandeira” é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí, cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar “Êta” com “Tiêta” e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (“E o Eduardo gostava de novela”) e crianção (“E jogava futebol de botão com seu avô”). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões!  É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos (“Ela falava coisas sobre o Planalto Central, também magia e meditação”). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada … Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Monica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (“E o Eduardo ainda estava no esquema “escola – cinema – clube – televisão”). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse “bar da esquina – terreiro de macumba – sauna gay – delegacia”?? E qual é o problema de se ir a escola, caramba?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Monica (“Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar”). Por ordem: 1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto. 2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo. 3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (“A Monica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar”). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Monica trabalha na previsão do tempo? Não. Monica é geóloga? Não. Monica é professora de química? Não. Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba? Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência …

Ainda em “Ele aprendeu a beber”, não precisa ser muito esperto pra sacar com quem… é claro, com Monica, a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Monica! Grande contribuição!

Depois, temos “deixou o cabelo crescer”. Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Monica na cabeça do iludido Eduardo. Sempre à frente em tudo, Monica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (“E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular”). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Monica deverá estar ganhando o seu prêmio Nobel. Outra prova da parcialidade do autor está em (“porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação”). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Monica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. Bem típico de algum recalque homossexual do autor, talvez magoado com a natureza masculina. É sabido que em todas culturas e povos existentes, o homem sempre oprimiu amulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra.

Por quê? Ora, porque tanto homens, mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até… Renato!

Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos The Fevers.

Coluna da Digi # 83 – Por trás daquele beijo.

janeiro 10, 2011

Antes de mais nada, duas cousas: 1 – em algum momento nessa retrospectiva eu me confundi e perdi a conta. Como não estou a fim de conferir as postagens passadas uma por uma, apenas regularizei a situação daqui por diante. Fica então esta coluna da Digi numerada corretamente como a 83. E estamos conversados. 2 – Esta é a primeira postagem de 2011. Que seja a primeira de muitas e que este ano superemos bastante o número de acessos de 2010. Muito obrigado aos mais de 40 mil amigos que estiveram aqui em 2010. Vamos ver se esse ano eu consigo chegar a uns 100 mil. Ia ser bom, né não? Vamos pra frente.

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Em 2009, quando morava em Madrid com Nina, minha mulher, certa vez me deparei com um casal se beijando na rua. A cena me agradou tanto que, naquele mesmo dia, ao chegar em casa, escrevi uma crônica bem legal e postei na coluna da Diginet. Foi publicada em 23.11.2009. Minha homenagem a todos os casais apaixonados.

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Por trás daquele beijo

 

Sinal aberto. Eu, pedestre. Esperava o câmbio de cores que permitiria minha passagem para o outro extremo. Nada mais usual, nada mais corriqueiro, até que uma visão ousou desafiar a normalidade da urbe. Uma imagem terna, do outro lado da rua, quebrava a urgência da rotina, destoava dos passos apressados, dos olhares determinados ou perdidos, apontando o vazio.

Era um beijo. Intenso, demorado, com direito a um abraço apertado. Ele, sujeito jovem, mas formal. Terno cinza, gravata, sapatos italianos, óculos de grau, a pasta executiva no chão, aos seus pés, sustentada entre os calcanhares. Nada nele poderia revelar que fosse capaz de tamanho arrojo, de ir na contramão do senso comum, de declarar o seu amor, de sucumbir a espontaneidade de um gesto tão significativo, assim, em público, na frente de quem quisesse ver, nesses dias tão impessoais, de discrições e limites, de boa conduta e vida em sociedade, de etiqueta e autocontrole.

Ela, também vestida para o trabalho, menos formal, mas bem arrumada, de calças e salto alto, maquiada, cabelos lisos, se entregava completamente. Era cedo da manhã. O expediente ainda não começara, mas a metrópole já despertara, por suas artérias corriam carros e pessoas, pulsando, bebendo café, com pressa de chegar. Porém, aquele casal desafiava a paisagem, quebrava o ritmo frenético, promovia uma intervenção, quase uma licença romântica inesperada, surpreendente, longa, demorada.

O sinal abriu. Atravessei a larga avenida, passei pelo casal, andei mais de 100 metros além deles, minutos se passaram, olhei pra trás. Nenhuma mudança. Ambos permaneciam completamente envoltos um no outro, alheios ao mundo que os cercava. Os cidadãos iam e vinham, fingindo sórdida indiferença. Mas eles viam, ah viam. Teriam inveja? Satisfação? Esboçariam um sorriso em pensamento? Censurariam aquela depravação? Sentiriam vergonha alheia?

Fiquei imaginando o que esconderia aquela demonstração explícita e afetuosa. Seria um reencontro? Ou talvez um primeiro encontro? Seriam colegas de empresa, apaixonados um pelo outro, e que finalmente resolveram se declarar? O que haveria por trás daquele ilimitado catálogo de possibilidades?  Cheguei ao meu destino. Pensei em olhar pra trás, comtemplá-los mais uma vez, saber se ainda estavam se beijando com a mesma intensidade depois de tanto tempo. Não o fiz. Preferi crer que sim, prosseguiam absortos pela mesmíssima paixão que testemunhei. E continuo acreditando nisso. Penso que eles ainda estão se beijando naquela esquina neste preciso momento. E vou além: vão continuar se beijando amanhã, depois de amanhã e para sempre, mostrando aos impassíveis transeuntes, que um beijo como aquele é uma dessas coisas que fazem a vida valer a pena.

Coluna da Digi # 23 – Eu vi o amor.

janeiro 15, 2010

Essa foi uma das minhas crônicas que mais agradou a muitas pessoas. Fiquei feliz, pois trata de um tema mais sensível e intimista que acertou em cheio a uma categoria de leitores mais qualificada que muitos dos histéricos que acompanham as coluna da Digi ávidos por uma nova polêmica para fazer o circo pegar fogo. Gostei também porque me senti bem em ter escrito algo que indica uma certa versatilidade criativa. Esta crônica foi publicada no dia 11 de fevereiro de 2008, dias depois de eu ter presenciado de verdade a cena descrita. Ela também acabou entrando no livro “Mano Celo – O Rapper Natalense”.

Espero que gostem!

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Eu vi o amor.

Eu vi o amor. Aliás, tenho visto o amor todas as manhãs. Não reconheci de início, é verdade. já faz meses que cruzo com ele, mas só um dia desses me dei conta. É que o amor é assim mesmo: dissimulado. Anda por aí sempre fingindo não ser, disfarçando-se, misturando-se à multidão. Aí, quando você se dá conta, eles está lá, bem diante de seus olhos.

Encontrei o amor por acaso e no lugar mais inusitado possível. Estava pedalando na Rota do Sol. Sim, sim, tenho essa mania estranha de acordar de madrugada e sair por aí avançando uma perna após a outra em movimentos circulares, até considerar já ter vertido suficiente sudorese a ponto de me considerar um atleta amador médio de desempenho minimamente aceitável. Pedalando e suando e seguindo a canção vou me deparando com outros ciclistas e corredores da alvorada. E foi em meio a estes tipos madrugadores e umedecidos por glândulas sudoríparas em plena atividade que encontrei o amor. Por essa eu não esperava. Mas o amor é assim mesmo: surpreendente. Se você espera, ele não vem.

O amor que vi se apresentou na forma de um casal por volta dos 40. Ele, sempre correndo. Ela, sempre ao seu lado, pedalando numa bicicleta com cestinha. Todos os dias, eles cumprem a mesma rotina esportiva. Ele corre num bom ritmo e a regularidade com que o faz deve render uma dose extra de saúde e disposição para encarar o dia-a-dia. Talvez o faça por recomendação médica, ou por amor ao esporte, dependência de endorfina, ou por qualquer outra razão. Mas, apesar de seu trote ininterrupto, mostra-se sempre preocupado com sua consorte, para que ela esteja sempre protegida de veículos e desviando de outros ciclistas. Ela pedala devagar, muito lentamente mesmo. Para poder acompanhar uma pessoa a pé, o ciclista precisa moderar o ritmo a um nível quase inercial. Em suma, ela não se exercita de fato. Seu passeio diário tem o mesmo efeito sobre seu corpo que teria ficar dormindo por mais uma hora. Fica claro que o que a faz levantar mais cedo todas as manhãs é ele.

Porém, não foi essa demonstração diária de afeto mútuo que me fez ver o amor naquele casal. Um dia, quando eu pedalava, estava nublado e já nos últimos quilômetros o céu resolveu que não tinha nada melhor para fazer naquele momento que não fosse cair em nossas cabeças e assim o fez. Em meio ao caos, encharcado por um dilúvio que faria Noé botar as barbas de molho e tremer na arca, apressei o ritmo para chegar logo em casa, quando vi, do outro lado da pista, o casal, caminhando lentamente de mãos dadas. Ele conduzia a bicicleta com uma das mãos, enquanto segurava a dela com a outra. Ela, já no chão, o acompanhava sorridente rumo ao ponto final de seu trajeto. O amor é assim: adora andar de mãos dadas na chuva.

Naquele momento compreendi o que minha percepção capenga havia negligenciado por todos os meses passados. Ao ver os dois caminhando calmamente no aguaceiro que caía, de mãos dadas, sem se abalar, transmitindo uma sensação boa de calor no coração, contrastando com a frieza da chuva.

Amanhã cedo eles vão estar lá de novo. Ele, desprendendo-se de alguns ml de suor em troca de um suprimento extra de saúde e vigor físico, dispensando a ela toda a atenção. Ela, sempre ali, apoiando com sua companhia, numa pedalada inócua. Porque o amor é assim: rotineiro, sem nunca ser chato. Faça chuva ou faça sol.

Dia dos Namorados por Márcio Nazianzeno

junho 12, 2009

O post de hoje resgata um texto antigo do jovem Márcio Nazianzeno, ex-proprietário da Limbo Livros Selecionados. Como hoje é dia dos Namorados, tem tudo a ver com a data. Leiam e divirtam-se.

"Não pega mal sermos fotografados num post sobre o dia dos Namorados?" "Cala a boca e esboça um sorriso, vai. Iiiisso."

"Não pega mal sermos fotografados num post sobre o dia dos Namorados?" "Cala a boca e esboça um sorriso, vai. Iiiisso."

Prova de amor
e outros clichês a dois

por márcio nazianzeno

FRIGORÍFICO
ele: casa comigo
ela: não
ele: porque?
ela: porque estamos presos nesse frigorífico
ele: a gente foge daqui
ela: pra se prender de novo? num mais gelado?
E foram encontrados numa civilização futura, congelados em cima de um sofá.

PROVA DE AMOR
ela: faça uma loucura por mim
ele: Diabos, e o que você quer que eu faça?
ela: ah, sei-lá-qualquer-coisa, inventa!
Ele arrisca um salto mortal e quebra o pescoço. Ela acha o gesto ‘bonitinho’.

VALIDADE
ela: tá sentindo?
ele: o que?
ela: esse mau cheiro
ele: não fui eu
ela: vem cá, é você… você tá azedo.
ele: coisa estranha.
E foi aí que eles perceberam, que o amor também tem prazo de validade.

MEU AMOR POR VOCÊ É ENORME, ESPERO QUE CAIBA
ele: não me entenda mal, eu só tenho um interesse puramente intelectual pelas suas tetas.
ela: você é um babaca.
ele: não fala isso, boneca. Eu sei que existe algo de muito profundo em você, bem aí, no meio das suas pernas.
E foram felizes para sempre (longes um do outro, é claro).

OLHOS
ela: gosto de me ver nos seus olhos
Muito tímido ele fecha os olhos, guardando uma lembrança pra toda a vida.

PIERCING
ela: curtchiu o meu piercing na língua?
ele: prefiro a língua.
Eis um manifesto: essa tal pós-modernidade está nos roubando boas partes da vida.

QSL. FOMOS DESCOBERTOS
ela: não estamos sós.
ele: hã? Pirou, mulher?
ela: ali, do outro lado do monitor… tem uns voyers.
ele: doentes.
E o escritor vai embora, com o rabo entre as pernas.

Márcio escreve às vezes, é adepto do pugilismo e atualiza seu blogue http://queridobunker.wordpress.com. Também trabalha com publicidade na função de redator.