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Coluna do Novo Jornal – 011 – Eu sei, mas não tô lembrado. – 06.11.2010

julho 18, 2011

Ano passado, fiz uma nova amizade que me encheu de alegria e orgulho. Conheci o Prata pai. Em razão desta nova amizade, escrevi esta coluna para o Novo Jornal. Publicada no início de novembro de 2010. Espero que curtam.

***

Eu sei, mas não lembrado.

Mario Prata, o Prata Pai.

 

Numa sexta-feira qualquer você está no trabalho por volta das 11h30 da manhã, ainda meio indeciso a respeito de onde vai almoçar quando, repentinamente, toca o telefone. E não poderia ser de outra forma, ou você já viu algum telefone que não toque repentinamente? Os telefones não avisam quando vão tocar. Eles não mandam um SMS dizendo: “claro usuário, dentro de alguns segundos, o senhor receberá um telefonema. Atenção para a contagem: 10… 9… 8…” Não, isso não existe. Eles simplesmente tocam.

Naquela sexta-feira, em particular, quando o meu telefone tocou, eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser, pois, apesar de meu aparelho contar com os muitíssimo úteis préstimos de um bina, o visor de cristal líquido olhava para mim com uma cara de “olha, senhor, o número é esse mesmo. Eu também não o conheço e estou tão curioso quanto o senhor.” Quando um número desconhecido brilha em seu aparelho celular, a chance de ser alguém que você conheça, mas que tenha mudado de número recentemente é considerável. Chega a 90%. A probabilidade de ser alguém que você não conheça, mas precisa falar com você por um motivo qualquer é de 7%. Engano fica com 2,9%. Já a possibilidade de ser alguém que você admire há anos, que acompanhe o trabalho, que viva no outro extremo do país e que acredite nunca conhecer pessoalmente é quase nula: 0,01%.

– Alô.

– Alô, aqui é o Prata pai.

E foi assim que, contrariando todas as estatísticas e leis da probabilidade, recebi um telefonema de Mario Prata, o escritor. Queria encontrar-se comigo para almoçar, bater um papo. Quase que eu respondo: “Senhor Prata, na verdade, essa fala deveria ser minha. Façamos o seguinte: vamos desligar, eu retorno o telefonema e digo “quero me encontrar com você, almoçar, bater um papo.” Mas não o fiz. Limitei-me a aceitar resignado o quinhão de generosidade com que o destino me presenteava.

Mario Prata é pai de Antonio, também escritor, de quem me tornei amigo em 2006 graças aos felizes e tortuosos caminhos da literatura. Mario esteve em Natal para participar de um congresso sobre leitura educação promovido pela educadora Cláudia Santa Rosa e havia sido avisado pelo filho de que eu poderia levá-lo a algum restaurante local para comer iguarias com as quais Antonio havia se fartado quando esteve por essas bandas (feijão verde, arroz de leite, paçoca, pirão de queijo e carne de sol). Essa era uma das razões do telefonema. Ele queria almoçar em um bom restaurante de comida regional. A outra razão era para poder bater um bom papo com gente de Natal num ambiente aprazível para trocar impressões e fazer novos amigos. Marquei de pegá-lo no hotel dentro de 30 minutos e levá-lo a um bom restaurante ali mesmo em Ponta Negra, onde ele estava hospedado.

Assim que desligamos, convidei alguns amigos meus que eu sabia serem seus leitores. Eu não queria correr o risco de um possível surto de timidez de minha parte somado a uma personalidade introspectiva do visitante. Nossos comensais foram Renato Quaresma e Patrício Jr., dois articulados conhecedores dos textos do autor, que não deixariam a conversa morrer nem o silêncio pairar sobre a mesa. Após alguns poucos minutos, percebemos que não corríamos esse perigo. Bastante comunicativo e tomado por uma urgência de dividir com os demais suas idéias, pensamentos, opiniões, típico de alguns escritores e cronistas, Mario nos brindou com muitíssimas palavras numa conversa inspirada e inspiradora que nos limitávamos a pontuar com perguntas a cada respiro do comensal, procurando sorver o máximo de conhecimento que ele depositava ali sobre a mesa, entre a vinagrete e a farofa d’água.

“Quanto custa um apartamento aqui em Natal? Eu quero vir morar em Ponta Negra durante 6 meses por ano. Quero estar aqui quando a Copa de 2014 acontecer.” Explicamos que os preços não eram nada convidativos, que a especulação imobiliária e o foco das construtoras no público estrangeiro fizeram subir muitíssimo os valores de imóveis, sobretudo em Ponta Negra, que a crise mundial até atenuou um pouco a situação, mas os patamares continuavam altos. Enfim, desencorajamos o homem. Ainda mais quando comentamos alguns valores de imóveis. Ele lamentou profundamente, explicando que estava encantado com as pessoas daqui.

“Estou um pouco cansado de Florianópolis, sabem? Faz um frio danado no inverno e as pessoas não são simpáticas como aqui. Quando cheguei no aeroporto, perguntei a um taxista se ele conhecia o hotel em que eu ficaria hospedado. Ele respondeu: ‘Eu sei, mas não tô lembrado.’ Essa frase é sensacional! Vou usá-la numa crônica ou em algum livro: ‘Eu sei, mas não tô lembrado.’ Isso é muito bom.”, disse às gargalhadas.

Perguntei a ele a respeito do seu primo, Walter Campos de Carvalho, escritor genial de quem sou fã incondicional. Mario contou como ele próprio resgatou Campos de Carvalho do ostracismo onde ele se escondia e articulou a republicação de sua obra completa, transformando o autor em referência Cult para toda uma nova geração de escritores. O autor passou os últimos 40 anos de sua vida sem escrever uma linha sequer, tudo porque um dia ladrões invadiram sua casa e roubaram a máquina de escrever. Campos interpretou aquilo como um sinal de que deveria parar e assim o fez. Ao falecer, em 1995, meses depois de ter sido encontrado por Mario, quase ninguém compareceu ao seu enterro e só depois de algum tempo, seus livros foram descobertos pelos jovens e se tornaram um sucesso. Qualquer dia desses, em outra crônica reproduzirei aqui a história completa que Mario contou a respeito do escritor. Uma sucessão de surpresas e reviravoltas.

Como não poderia deixar de fazer, pedi dicas para escrever um futuro romance. “Quer escrever um romance? Leia livros policiais. Romance é ação e é nos bons romances policiais que está a ação. Vou passar pra você uma lista de bons livros do gênero para você poder ler e aprender com os mestres”, respondeu em tom professoral. Depois, desabafou: “Vivo insistindo para o meu filho ler os policiais, mas ele só quer saber desses intelectuais. Puxa vida! Lendo intelectuais, ele pode até seguir uma carreira acadêmica ou se tornar um cronista cada vez melhor, mas tem que ler os policiais. Eu digo isso a ele, mas o Antonio não me ouve. É incrível: o Antonio não me ouve.” Como se estivesse dando uma bronca no filho por nosso intermédio arrematou: “O único intelectual que se tornou um bom romancista é o Umberto Eco. E vocês sabem porque? Ele é fanático em literatura policial.” Com isso, deu o caso por encerrado.

Mario Prata ainda conversou bastante conosco durante o almoço e, no dia seguinte, num jantar. Deu várias dicas sobre o ofício da escrita e contou muitas histórias de sua vivência pessoal. Histórias essas que procuramos ouvir atentamente, ao contrário do Antonio, e que dariam uma série inteira de crônicas exclusivamente a seu respeito. Só que, infelizmente não poderei contá-las. Até porque, muitas delas eu até sei, mas não lembrado.

Vídeos Legais

julho 8, 2011

Os vídeos desta postagem servem para tornar sua tarde de trabalho de sexta e, por extensão, o fim de semana que se avizinha, algo mais divertido.

# 1 – Razões para acreditar em propaganda

Produzido pelo CCRJ, uma divertida paródia do comercial da Coca-cola. Ficou bem legal, mas só pra quem é publicitário ou manja do assunto.

 

# 2 – Joca Reiners Terron fala de seu próximo romance

Joca Reiners Terron fala sobre o livro “Guia de ruas sem saída” que será publicado em 2012. Pela descrição, deve ser bom pra car***alho.

 

# 3 – Antonio Prata no Programa do Jô – Impagável, divertidíssimo, hilariante!

Vejam como se suas vidas dependessem disso!

 

 

 

Guia de Navegação – Nos Blogues dos Caras ESPECIAL

novembro 3, 2009

A internet com todo esse espírito democrático acaba se tornando um pouco terra de ninguém, não é mesmo? É como aquela canção dos Tribalistas: “não sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me tem”. Uma coisa meio “cu de bêbado não tem dono”, concordam? Mas, para colocar ordem na bagunça, resolvi escrever este post. São dicas da hora pra você só navegar com segurança, por sítios e blogues com selo de qualidade aferido pelos leitores e atestado pelos autores dos mesmos. Gente do gabarito de Tácito Costa, Pablo Capistrano, Caio Vitoriano, Moacy Cirne e por aí vai. A lista é longa. Então, sejam prudentes a partir de agora ao manejar o timão nas traiçoeiras marés vituais. Utilizem esta carta náutica, boas viagens e ótimos acessos!

1 – Querido Bunker – http://queridobunker.wordpress.com/

Tenho repetido sempre pra vocês que Márcio Nazianzeno é uma das minhas maiores influências literárias. Não só por gostar do que o jovem escreve, mas também por que sua fértil imaginação sempre me dá novas ideias para contos e crônicas em conversas despretensiosas em mesas de bares ou de cafés. Márcio também é afeito a leituras exóticas, estranhas e alternativas e, em razão disso, vez por outra indica um livro qualquer, de um autor novo, pouco conhecido no Brasil, e quando me ponho a ler, TOME A SIPUADA! Cousa boua! Da melhor qualidade. Conheci muitos autores incríveis assim nos últimos 5 anos: por indicação de Márcio. Por isso, recomendo o seu blogue, para que vocês possam também travar conhecimento com as dicas essenciais deste garoto de vasta cultura e glândulas sudoríparas proeminentes nas palmas das mãos.

 

2 – Caio Vitoriano – www.flickr.com/photos/caiovitoriano/

Um dos melhores (senão o melhor) artistas gráficos do RN. Caio Vitoriano é o talento herdado no DNA. Filho do artista plástico Vicente Vitoriano, Caio trabalha como diretor de arte numa agência de propaganda. Nas horas vagas, produz cartazes para clientes como o Centro Cultural Dosol, Galpão 29, e-sessions e Sgt Peppers. Também faz encartes para CDs, direção de arte de revistas e muito mais. O seu trabalho encantador pode ser visuzlizado nesta página/portfólio. Confiram e segurem o queixo!

 

3 – Chico Guedes – http://hungaromania.wordpress.com/

Numa tarde de sábado da Limbo, antiga/moderna livraria de Petrópolis, conheci o professor de línguas Chico Guedes. Naquela semana, havia falecido o jogador húngaro Puskas e Guedes era apaixonado pela Hungria, havia morado lá vários anos e se tornara tradutor de húngaro. Inclusive, iniciava uma pesquisa a respeito de jovens escritores magiares para poder traduzi-los ao português. Daí a uma possível publicação da ideia maluca de Chico pelos Jovens Escribas foi um pulo. Hoje, algum tempo depois, a coisa começa a virar realidade. Chico finaliza as últimas traduções, o livro vai para revisão de português muito em breve e, em seguida, receberá uma direção de arte caprichada. Ano que vem (a previsão inicial é abril) sai a obra organizada por ele dentro do projeto JE 2010. Aqui neste endereço vocês podem saciar um pouco a curiosidade sobre as literaturas húngaras pesquisadas por Chico.

 

 4 – Patrício Jr – www.pariciojr.com.br

 O portal de Patrício Jr. tem um pouco de tudo. Crônicas, podcasts, textos de colaboradores, novidades culturais, agendas. Vale a pena passar por lá de vez em quando e confererir seu conteúdo.

 

 5 – Internetcidade – http://internetcidade.wordpress.com

 Paulo Celestino é um dos jornalistas mais atuantes que já passou pelos corredores do setor V da UFRN. Um dos criadores do histórico fanzine “AZ Revista”, vive há muitos anos em São Paulo onde ensina comunicação numa faculdade paulista e trabalha numa empresa de assessoria de imprensa. Quando lhe sobra tempo, realiza entrevistas para o seu blogue, com atualizações mensais. Nas postagens, faz uma relação dos seus entrevistados com as suas cidades, os lugares onde vivem. Entre os já consultados por Paulo estão o carioca Marcelo Moutinho e os potiguares Nei Leandro de Castro, Emanuelle Albuquerque e Pablo Capistrano.

 

 6 – RevistaCatorze – www.revistacatorze.com.br

 Tudo o que eu poderia dizer sobre a revista Catorze já o fiz em formato de crônica da série “Realizadores”. É uma revista virtual que põe em prática jornalismo cultural de qualidade, como a gente pena pra ver nos jornais locais. Com imaginação e criatividade, os garotos e garotas vão produzindo entrevistas, matérias, resenhas, coberturas de eventos (MADA, Flipipa, Feira do Livro do Seridó) e as ótimas reportagens em quadrinhos que muito lembram os livros do Joe Sacco. Vale a pena passar por lá sempre!

 

7 – Fabrício Cavalcante – http://fabriciocavalcante.blogspot.com/

 Um manipulador de imagens para a publicidade. A qualidade do trabalho de Fabrício é impressionante. Tanto que apenas agências em Natal que realmente prezam pela qualidade como Comitê Criativo e Art&C recorrem aos seus préstimos. A maioria dos clientes do profissional está fora do território potiguar como em Recife, Rio de Janeiro e até fora do Brasil.

 

 8 – Antonio Prata – http://blog.estadao.com.br/blog/antonioprata/

 Um dos melhores cronistas do Brasil na atualidade. Seus textos são divertidíssimos, hilários, de morrer de rir. Para espairecer, não há nada melhor que acessar sua página. Mas cuidao para não ficarem viciados.

 

 9 – Dosol – www.dosol.com.br

 O coronel ânderson Foca comanda com rigor militar as ações do complexo Dosol. É um centro cultural, estúdio de gravação, selo/gravadora, rock bar, festival de rock, portal de internet e muito mais. No endereço acima, vocês poderão conhecer novidades do cenário rock, ouvir e conhecer novas bandas do Brasil e do mundo. Tem a TV Dosol com vídeos, entrevistas, conteúdo. O portal conta ainda com a colaboração de vários jornalistas dos 4 cantos do país. É O ROCK!

 

10 – Substantivo Plural – www.substantivoplural.com.br

Um fórum de discussão permanente sobre a cultura e intelectualidade potiguar, sempre aberto a novas contribuições. Quer saber o que as cabeças pensantes da terrinha opinam? Passa no Substantivo do Tácito. Todo dia tem muitas novidades. Atualização constante a todos os momentos.

 

11 – Moacy Cirne – http://balaiovermelho.blogspot.com/

Moacy Cirne é escritor, dramaturgo, poeta, zineiro, especialista em cinema, especialista em quadrinhos, professor universitário, respeitado em todo o Brasil, autoridade em vários assuntos. Deste blogueiro, conta com respeito e admiração. Um dos pioneiros na internet, quando migrou seu Balaio Porreta do impresso para os e-mails e depois para o blogspot, Moacy sempre se mostrou a frente do seu tempo. Mas como dizia Campos de Carvalho: “Não sou eu que ando fora de tempo. É o tempo.”

 

12 – Kripterion – http://www.kriterion.zlg.br/

No blogue do Jairo Lima não tem papo furado. A regra é bem simples: acesse e esteja pronto para boas leituras!

 

13 – Pablo Capistrano – www.pablocapistrano.com.br ou http://colunas.digi.com.br/author/pablo/

No post anterior eu já defini Pablo como uma das mentes mais brilhantes que atuam no cenário intelectual natalense. Esses dois endereços acima servem para que o internauta possa ler suas crônicas. O primeiro é de sua página pessoal onde há informações completas sobre os livros do autor, muitas crônicas armazenadas e dados diversos. A segunda é da sua coluna na Diginet, com textos atualizados semanalmente (ou quase) a respeito de temas que misturam erudição com cultura pop, filosofia com cotidiano, alta literatura com o nosso dia-a-dia. Aproveitem!

 

14 – Lívio Oliveira – http://oteoremadafeira.blogspot.com/

Um blogue com as impressões sobre cultura do grande entusiasta e poeta Lívio Oliveira.

 

15 – Lado R – http://ladorsemcolchetes.blogspot.com/

Ao lado dos garotos da “Revista Catorze” e do blogue “O Inimigo”, o coletivo “Lado R” manda ver na cobertura cultural, divulgando o que de melhor se produz no rock, no cinema, e na contracultura de uma forma geral. Eles mantém o blogue acima e o zine impresso “ERRADO” que será distribuído nas duas noites do Festival Dosol 2009.

 

16 – Cleyciany – http://cleycianne.blogspot.com/

Henrique Neto deu a dica e eu fiquei estupefacto. Trata-se do melhor blogue sobre religião que já acessei. Talvez seja a coisa mais linda que li na internet desde a crônica emocionada que Crístian de Saboia escreveu quando sua poodle Maria do Socorro perdeu a virgindade. Acessem e digam amém!

 

17 – Minus Garfield – http://garfieldminusgarfield.net/

Um dos blogues mais geniais da internet mundial nasceu de uma ideia simples. “E se tirássemos Garfield das tirinhas do Garfield?” O resultado são situações inusitadas, aborrecidas e engraçadíssimas em que o dono do gato, John convive com a solidão, a depressão e um vazio existencial insuportável. Sensacional!

 

18 – Malvados – www.malvados.com.br

Sou fã entusiasmado do trabalho de André Dahmer. A mente criativa, diabólica e maravilhosa deste sequelado cartunista já me fez rir muitas vezes. Que sua mente continue fértil e nos trazendo tirinhas insanas e axiomas subversivos. Afinal, somos todos malvados!

 

19 – Daniel Sour – http://www.disfuntorerectil.blogspot.com/

O escritor, desenhista, músico e filósofo mossoroense Daniel Sour é um dos autores que (um dia) vamos lançar pela editora Jovens Escribas. Um pouco do seu trabalho, escritos, ilustrações e humor non-sense podem ser vistos neste blogue pessoal cheio de boas referências.

 

20 – O Inimigo – http://www.oinimigo.com/blog/

Com a indicação do sítio de “O INIMIGO”, página cultural dos jornalistas Hugo Morais e Alexis Peixoto fecho a lista da santíssima trindade de cultura jovem natalense. São eles: “Revista Catorze”, “Lado R” e “O Inimigo”.

 

Aproveito para fechar também a lista e espero que essa lista seja útil para que você navegue com segurança, bom conteúdo, informação de qualidade e, claro, diversão garantida.

E o Antonio Prata continua ótimo!

agosto 21, 2009

Jovens, leiam este blogue como se suas vidas dependessem disso:

http://blog.estadao.com.br/blog/antonioprata/

Ótimas crônicas. Cada vez admiro mais esse sujeito.

Bom fim de semana a todos!

Bar ruim é lindo, bicho. – Antonio Prata

maio 29, 2009

Este texto é um clássico da internet. Do escritor paulista Antonio Prata. Divirtam-se com a leitura e tenham um ótimo fim de semana, mas bebam com moderação.

CF

Bar ruim é lindo, bicho.

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins, que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um
novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do
jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Antonio Prata