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Coluna do Novo Jornal – 073 – Top 5 Cinema 2011 – 14.01.2012

fevereiro 27, 2012

Passei uns dias sem atualizar o blogue, pois estava viajando. Um mini-recesso aproveitando o carnaval. Porém, hoje na retomada, um dia após o Oscar, por coincidência, a postagem se refere aos 5 melhores filmes que vi em 2011 (não necessariamente produzidos em 2011, mas vistos por mim durante o ano).

Espero que gostem das dicas.

Abralhos.

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Top 5 Cinema 2011

Em 2011, algumas gratas surpresas saltaram aos olhos deste espectador distraído e cinéfilo amador. Graças a isto, a lista de 5 melhores filmes do ano, que elaboro a cada troca de calendário, me deixou muito satisfeito, como há muito não ficava. Vamos à relação.

 

Meia noite em Paris

Woody Allen na sua melhor forma, divertindo, encantando e surpreendendo em igual medida. Vejo cada filme do cineasta nova-iorquino com grande interesse e entusiasmo renovado, mesmo porque, de “Match Point” (2005) em diante, tenho percebido um sopro de inspiração em suas histórias, como se ele estivesse sempre se atualizando, aplicando roupagens mais atuais a sua conhecida genialidade criativa. “Meia noite em Paris”, porém, superou ainda mais as sempre positivas expectativas em torno do judeu nervosinho. Ao transformar personagens icônicos da cultura mundial em interlocutores do protagonista interpretado por Owen Wilson, numa Paris boêmia e romântica dos anos 1920, o diretor joga o anzol da criatividade contida numa ótima história, fisgando direitinho o público e convertendo este nos seu filme mais bem sucedido desde dos últimos 40 anos. De quebra, o elenco está repleto de coadjuvantes de luxo, muitos ganhadores do Oscar, como Cristopher Waltz, Adrien Brodie, Marion Cotillard e Kathy Bates.

 

Senna

Uma equipe de produção inglesa resolveu fazer este documentário, contando a vida de um dos maiores ídolos do esporte mundial. O Ayrton que se revela na tela é um verdadeiro herói, não por causa das incríveis habilidades na pista, mas por suas características mais humanas. A obstinação, o carisma, personalidade forte e a simpatia, incomum ao frio e arrogante ambiente da Fórmula 1. Tudo isso mostrado sem a pieguice e patriotada que certamente marcaria uma produção nacional. O fato de a história ser contada a partir de um olhar europeu também permite a utilização de reportagens veiculadas em outros países, saindo um pouco do eixo GalvãoBueno-ReginaldoLeme, além de serem exibidas também imagens de bastidores inéditas, conferindo um tempero extra à história.

Outro ponto alto do filme é a contextualização do papel de um cidadão como Ayrton Senna no Brasil da virada dos anos 1980 para os 1990 (eras Sarney e Collor), amplificando mais ainda a idolatria de um povo em torno do homem que se fez mito, do rico que tinha todos os motivos para se envergonhar do seu país, mas preferiu trilhar o caminho mais difícil: o de não apenas de sentir orgulho, mas de irradiá-lo a todo um povo pobre e sofrido, provocando também a admiração por parte do mundo numa época muito anterior aos promissores tempos atuais.

 

X-Men – Primeira Classe

Vivemos um período de transição no mercado cinematográfico. A crise desencadeada pela democratização ao acesso de filmes ou mesmo pela pirataria, situação idêntica à que ocorreu com a falida indústria fonográfica, assola os estúdios, vitimando primeiro a capacidade inventiva dos filmes e, por consequência, a qualidade do que é levado às salas de projeção. A insegurança dos executivos e investidores tiraram o a ousadia da ordem do dia hollywodiano, levando os produtores a jogarem escancaradamente na retranca. Daí a tendência irrefreável às adaptações e refilmagens. Tudo o que fez sucesso em outra mídia (livros, quadrinhos, TV, videogames) pode virar filme, assim como todos os filmes que obtiveram êxito em tempos remotos (ou nem tanto) têm chance de serem refeitos em meio à seca imaginativa que assola os grandes estúdios.

Um dos expedientes mais utilizados é o das continuações ou filmes de origem, como o “X-men: Primeira Classe” que conta o início de uma das franquias de heróis mais bem sucedidas do cinema. Um grande acerto da produção é o respeito ao legado do que já havia sido realizado até então na grande tela para estes personagens. Ao manter a coerência com tudo o que foi contado no cinema até agora sobre os mutantes o filme ganhou pontos com os fãs e, por seguir uma tendência dos estúdios Marvel de priorizar os bons roteiros, alcançou um enorme êxito de bilheteria. O início dos X-Men, a antiguidade da amizade entre Charles Xavier e Magneto, a descoberta dos primeiros mutantes e uma trama cuidadosamente amarrada com a época em que se passa: o auge da Guerra Fria. “X-Men: Primeira Classe” foi uma das grandes surpresas do ano, lançado com desconfiança após os dois filmes anteriores na franquia ( “X-Men 3” e “X-Men Origens: Wolverine”) apenas bonzinhos. Como o filme se mostrou muito bom, o bom e velho boca-a-boca, que tem seu poder amplificado pelas redes sociais, fez o resto. O resultado foi sucesso de público e crítica e a consagração do intérprete do jovem Magneto: Michael Fassbender.

 

Capitalismo, uma história de amor

Como funciona o mercado financeiro? O que aconteceu, realmente, na crise de 2007/2008? Como agem as grandes empresas na condução dos seus negócios e, por consequência, das vidas de milhões de pessoas? Até que ponto uma grande corporação é capaz de ir para obter lucro? Todas essas perguntas serviram de ponto de partida para o norte-americano Michael Moore mostrar o lado mais insaciável do sistema capitalista.

A despeito da ironia do título, o que se vê nos relatos obtidos pelo documentarista, bem como nas histórias de vida mostradas na tela, são retratos desoladores da sociedade de consumo que construímos de forma, aparentemente, irreversível, na qual não se pensa duas vezes em destruir as vidas de pessoas, desde que se assegurem alguns décimos a mais no balanço do mês. Também está permitido lucrar com a morte de pais de família por meio de um curioso sistema de seguros de vida, ou mesmo destruir o patrimônio de milhares de cidadãos ao incentivá-los a pegar empréstimos que não vão poder pagar, com a conivência, incentivo e respaldo do Governo.

“Capitalismo, uma história de amor” promove uma reflexão acerca de um sistema predatório que pode (e deve) ser ajustado para promover o bem de um número muito maior de indivíduos, revelando ainda o tipo de atitude gananciosa, egoísta e sem escrúpulos com que o topo da pirâmide oprime sua base. Um belo filme: elucidativo e divertido ao melhor estilo Michael Moore.

 

Planeta dos macacos – A origem

Numa quarta-feira à tarde da minha infância, liguei a TV para ver o filme da sessão da tarde global. Quando os créditos iniciais anunciaram “O Planeta dos Macacos”, meus sentidos vibraram num misto de curiosidade e excitação para, em seguida,  todo um novo mundo se revelar diante de mim. A história de um grupo de astronautas que viaja para o futuro e se depara com um planeta em que os macacos dominam e os homens são seus inferiores na cadeia evolutiva encantou aquele garoto viciado em desenhos, quadrinhos e filmes legais. Depois disso, revi o filme muitas vezes ao longo dos anos, li a respeito e compreendi sua real dimensão e valor como clássico da sétima arte.

Detestei a refilmagem de Tim Burton de 2001. Por isso, e também em nome da prudência, desconfiei deste filme de origem símio. Minha resistência começou a fraquejar quando saiu o trailer. Logo, percebi que algo muito bom se anunciava. Quando conferi o filme, fiquei muito feliz com a produção, que faz justiça à original da década de 1960. A história de César e sua trajetória até se tornar líder são contadas de forma magistral.

 

5 filmes que valeram a pena ver em 2011.

5 dicas pra você.

Coluna do Novo Jornal – 006 – No princípio, era a fita. – 02.10.2010

junho 28, 2011

Uma coluna do Novo Jornal publicada em 02 de outubro de 2010. Inspirado no filme “Rebobine, por favor.”, resolvi fazer esta nostálgica crônica.

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No princípio, era a fita.

 

Outro dia, papeando sobre o inevitável assunto que pauta muitas conversas informais dos novos tempos desde a mais remota aldeia amazônica até a cobertura de um prédio comercial na Paulista: a tecnologia, alguns amigos e eu fizemos uma analogia dos dias de hoje com tempos imemoriáveis, desses que custamos a acreditar que nós próprios vivemos. Ao recordarmos certas circunstâncias passadas, a relativização do tempo não pareceu suficiente para diferir tais lembranças de sonhos fantásticos, distantes e tão absurdos quanto um pinguim voador ou o Tiririca ser eleito deputado.

A conversa tomou este rumo surreal, quase uma obra de Dalí, quando alguém, lá pelo meio da prosa, despretensiosamente, como sói acontecer com as melhores idéias, perguntou: “Vocês lembram o primeiro filme que viram no videocassete?”

Silêncio.

Suspense.

Apreensão.

Em questão de segundos, o filme de nossas vidas foi projetado na memória. Num rompante, lembramos das primeiras idas a uma vídeolocadora, do nomezinho “National” prateado fixado em alto relevo na pesada carcaça de metal preta. Expressões como “4 cabeças”, “rebobinar” e “cabeçote sujo”  vieram à tona como esqueletos guardados no fundo de armários comprometedores, revelando-nos que, sim, chegamos à meia idade. Ainda não estamos velhos, é verdade, mas já estamos passando pelo meio do caminho.

Podemos, por exemplo, distribuir olhares de serena sabedoria e altiva condescendência aos jovens, estupefatos que estão com tudo o que a Maitê anda aprontando em “Passione”.  Mal sabem eles que já conhecemos a ninfomania dessa senhora desde que ela era uma promissora revelação, tomando inspiradores banhos de cachoeira em “Dona Beija”, aquela novela que, por alguma razão, agradava mais aos pais que às mães. Também vimos, mesmo com olhos de crianças, a Argentina campeã do mundo, o governo Sarney (aquele amigo do Lula), o Plano Cruzado, o Corcel sair de linha e as mudanças drásticas na formação do Balão Mágico. Naquele tempo, um amigo que morava muito longe, tinha casaem Cidade Jardimou Capim Macio, a gente ia ao Cine Nordeste ver filmes dos Trapalhões e a grande revolução era que não precisaríamos mais esperar que um filme passasse na TV. As famílias estavam adquirindo um novo aparelho que proporcionava a chance de assistirmos o filme que quiséssemos à hora que preferíssemos.

Na minha casa, vivíamos toda a excitação característica da chegada de um videocassete. Imagino que haja ocorrido algo parecido com os televisores adquiridos nos primórdios da TV no Brasil. Vizinhos e parentes próximos estavam presentes para conferirem conosco as fitas alugadas na locadora Vitória Régia, que ficavaem Petrópolis. Naépoca, além dela, havia também a Canal 1 e a Vídeo Imagem. Era nessas 3 que tínhamos cadastro. A primeira fita a desbravar a fenda receptáculo do sagrado aparelho reprodutor de imagens foi “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Começamos com o pé direito. No mesmo fim de semana, vimos ainda “Os Goonies” e “A última festa de solteiro”. Nas semanas seguintes, viriam ainda “De volta para o futuro”, “Os caçadores da arca perdida” e diversos outros. Foram tantos filmes de Spielberg em tão pouco tempo que tenho a impressão de ele ter ligado pra nossa casa lá no Alecrim pra agradecer pessoalmente.

Entre os componentes da roda de bate-papo que originou o assunto desta coluna, as primeiras experiências com fitas VHS também foram marcantes. Ou então, aquela era uma turma de prodigiosa memória, uma vez que todos lembraram dos seus longas-metragens particulares que deram início às séries de filmes vistos e revistos até hoje. Havia “Os caça-fantasmas” e sua inconfundível música tema, “Stallone Cobra” fazendo justiça com sua arma e frases de efeito (“você é a doença e eu sou a cura.”), além de outras variações do mesmo personagem (Rambo, Rocky, Falcão…).

O Governator também era assíduo de nossas salas de exibição domésticas com “clássicos” da estirpe de “Predador”, “O exterminador do futuro” e, o maior de todos, “Comando para matar” (“Você prometeu que ia me matar por último”. “Pois é. Eu menti.”). Monstro sagrado. De vez em quando chegava uma novidade: “Rapaz, você precisa ver “Curtindo a vida adoidado”. Barra todos os filmes que vi esse ano”. E pior que barrava mesmo.

E tinham os Extra-terrestres que pousavam muito por aqui naqueles tempos. Eles eram os vampiros da vez, fosse com “ET”, “Contatos imediatos do terceiro grau”, “Cocoon” ou “Guerra nas estrelas”. Ainda no clima futurista, mas com os pés firmes no planeta terra, havia produções como “Robocop” e “Blade Runner” (este baseado na obra do Philip K. Dick) que tentavam antever como seria a vida num amanhã não tão distante.

E quando queríamos ter um filme em casa para revermos sempre? Era preciso pegar dois vídeos e conectar ambos para reproduzir a fita, ou gravar direto da TV. Não tinha essa de baixar pela, como é o nome mesmo? Internet? Não, não tinha isso não. Nem DVD que só foi chegar aqui lá por volta de nem lembro mais quando. A evolução nos trouxe o DVD e agora o Blu-ray. A internet e os computadores portáteis também nos deram a oportunidade de baixar gratuitamente o filme que quisermos, forçando os grandes estúdios a se adaptarem a uma nova realidade, ditada por nós, seus consumidores.

Agora, para ver um filme, basta digitar seu nome no Google e procurar um arquivo acessível para download. Mas toda essa comodidade que vivemos hoje só é possível porque um dia descobrimos que ver um filme no conforto do lar, a qualquer hora do dia, sozinhos ou bem acompanhados era melhor do que nos submeter a sessões, multidões de desconhecidos e deslocamentos inconvenientes. Os filmes em arquivos de MPEG que guardamos hoje em nossos pen-drives são descendentes diretos daqueles impressos nas fitas marrons que nos eram tão familiares nos anos 1980.

As fitas e os pen-drives, aliás, são provas concretas da irrefreável passagem do tempo.  E querem saber? Ainda bem que o tempo passa. Porque eu não tenho saudade nenhuma daquela mão de obra toda.

E vamos pra frente.

A Arte de Pedro Victor

maio 6, 2011

Ânderson Foca e Ana Morena estão juntos faz um tempo, mas nunca tiveram filhos. Ou, pelo menos, era isso que pensavam as pessoas que não conhecem a verdade. Foca e Ana são pais de milhares de jovens roqueiros que cresceram admirando os reis do rock potiguar como a ídolos num altar. Essa geração de meninos e meninas do mal perambula pela Ribeira e um deles, Pedro Victor (o chupacabra), deu pra diretor de arte.

Outro dia, o pequeno herdeiro da família camisetas pretas criou uma série de cartazes minimalistas em homenagem ao cinema brasileiro. Confiram:

Chupacabra feliz da vida com sua camisa dos Jovens Escribas entre Patrício Jr e eu. Aliás, esses 3 modelos ainda estão à venda.

Coluna da Digi # 106 – O roteirista de Stallone Cobra

fevereiro 17, 2011

A exemplo de outros textos publicados aqui (“A Copa de 90” e “Saúde é o que interessa.”), este  é mais um conto que escrevi para a coletânea organizada por Thiago de Góes “80 contos sobre os anos 80”. Gosto dele. Acho bem divertido. Espero que vocês gostem também.

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O roteirista de Stallone Cobra

Sempre gostei das frases de efeito. As verdades absolutas, incontestáveis, que impactam como uma sipuada no meio da testa. Aquelas que deixam qualquer interlocutor sem chão, pensativo, sem prumo nem ação. E o melhor das verdades inegáveis é que nem precisam ser verdades. Basta serem pronunciadas com cerimônia, a trilha sonora adequada no fundo, no tempo certo e conforme a ocasião. Se você constrói o cenário ideal, uma boa frase de efeito se torna a mais irresistível verdade já proferida.

No meu caso, sempre foi assim. Por exemplo, eu nem me lembro direito quando vim dar com os costados nos Estados Unidos, mas recordo qual foi a primeira frase que disse assim que cheguei: “Deixarei marcas indeléveis nesta gloriosa nação libertária!” Infelizmente, como eu ainda não falava inglês e as pessoas que estavam no saguão não entendiam português, essa frase não entrou pra história. Faltou timming.

É que as coisas funcionam mais ou menos assim: tem que ter o momento certo pra dizer a frase, mas também não pode ser qualquer frase. Imaginem se o Dom Pedro I tivesse dito algo como “É, acho que já deu. Bem que o Brasil poderia, assim, ficar, tipo, independente de Portugal, saca?”? Certamente a gente estaria até hoje dançando o vira, ouvindo fado e contando piadas sobre nós mesmos. Ele tinha que dizer algo imponente e marcante como “Independência ou morte!”, montado em um cavalo magnífico, rodeado de fiéis e patrióticos guerreiros, com uma trilha épica de fundo composta pelo John Williams e muito gelo seco pra dar um clima. E, olha que se fosse eu que tivesse escrito a cena, ainda faria mais dramática. Ele diaria algo como “Eles podem até levar nossas vidas, mas nunca poderão levar nossa LIBERDADE!” Como não fui, acabei sugerindo essa fala pro Mel Gibson e ele aproveitou no “Coração Valente” anos depois.

E o Neil Amstrong? E se ele tivesse dito, ao pisar na Lua, algo como “Uhuuuuuu!!! Cheguei primeiro! Pega porra!” Poderia ter sido a primeira e última viagem tripulada ao satélite. O resto da humanidade nunca mais se interessaria por outros planetas ou estrelas ou satélites e os astronautas e cosmonautas de todo o mundo perderiam irremediavelmente seu charme. A corrida espacial não teria vencedores, só frustração e uma terrível sensação de tempo e dinheiro perdidos. Mas não, o roteirista da viagem à lua foi o Kubrick e ele não daria bobeira. Era perfeccionista e sensível. Sabia dizer a coisa certa no momento adequado.

Eu também tive a sorte de ser agraciado com esse dom. Sei o que colocar na boca dos atores e a carga dramática exigida a cada nova cena. Por isso venci aqui nessa terra do entretenimento. Escrever filmes de sucesso em Hollywood requer talento, claro. Mas não é só isso. Os roteiros de grande alcance popular com resultados expressivos nas bilheterias exigem um quê de genialidade, o auxílio de luxo de profissionais como eu: assistente de roteiro, que se ocupa em imaginar as tiradas geniais, os ditos que ecoarão nas mentes mundo afora e ficarão na memória dos espectadores. Ser roteirista respeitado nos Estados Unidos é trabalho para mentes criativas. Agora ser um assistente de roteiro digno de registro é para cabeças divinamente iluminadas e inovadoras, ousadas e brilhantes. Enfim, gente como eu.

Ou vocês acham que frases como “Que a Força esteja com você.”, de “Star Wars” ou  “Tire suas patas imundas de mim, seu macaco maldito” do “Planeta dos Macacos” foram idealizadas pelos próprios roteiristas? Não, foram cunhadas por Assistentes de roteiro históricos. O mesmo pode ser dito sobre “My name is Bond, James Bond.” E “Eu vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.” De “O Poderoso Chefão”. Gente mais importante que os próprios que assinam os roteiros.

No meu começo no showbusiness, trabalhei como o cara que segura o cabo, com o devido respeito. Daí, em 1980 quando o George Lucas estava numa dúvida danada sobre um nó que ele queria desatar numa história, eu criei coragem e falei pra ele: “Look, mister Lucas, lá no Brasil, sempre que acontecem essas coisas nas novelas, os caras dão um jeito de alguém ser filho de alguém. Can you understand? Tipo um casal que descobre que são pai e filha… aí sai dizendo “Look, minha filha, I’m your father.” Ele abuticou os olhos pra cima de mim e disse “That’s it! LUKE, I AM YOUR FATHER!” E acabaram-se meus dias de rapaz do cabo.

Logo depois, minha fama de ajeitador de histórias se espalhou por Hollywood e o Silvester Stallone me pediu pra que eu desse uma força com seu novo filme sobre um soldado rebelde no Vietnã: Rambo. Sugeri um pequeno diálogo em que um vilão pergunta: “Quem é você?” e o Stallone respondia “Seu pior pesadelo!” Minha contribuição acrescentou uma carga dramática de tal magnitude à produção que o filme fez sucesso no mundo todo e o Stallone me pediu que escrevesse um roteiro inteirinho pra ele em vez de apenas colaborações esparsas.

Só que eu não poderia atender o convite do Sly imediatamente por já ter topado trabalhar com o Spielberg e ajudá-lo com o seu projeto da vez, além de outros que havia assumido antes. Em 82, o diretor de “Tubarão” ficou bastante satisfeito com meu toque de Midas. Bastou uma única frase minha para fazer o seu “ET” voar até a lideranças das bilheterias mundiais: “ET telefone casa!” Depois, o Arnold, meu amigo, pediu uma dica para encerrar o seu “Exterminador do Futuro”. Sem pestanejar, declarei: “Eu voltarei!” E por causa disso, os caras já vão bem no sexto filme da franquia.

Depois mais dois clássicos para adolescentes: “Quem vão chamar? Caça-fantasmas!” e “Slott quer chocolate.” dos Goonies, mais uma parceria minha com o Steve. Como o Stallone não me deixava em paz, fui escrever o filme novo dele, meu único trabalho como roteirista propriamente dito. Bem, digo aos senhores, sem medo de errar: foi minha obra prima. “Stallone Cobra” de 1986 é o melhor filme da história do cinema! Cheio de sentenças memoráveis e a antológica “Você é a doença e eu sou a cura!”. Com mnha reputação cada vez mais nas alturas, até o Stephen King recorreu a mim para adornar uma de suas histórias. Era sobre amizade. Pensei um pouco e falei pra ele que “Amigos entram e saem de nossas vidas como garçons num restaurante”. Ele escreveu o filme “Conta Comigo” que até virou cult.

O ano de 86 ainda me proporcionou mais uma pérola. Estávamos bebendo, eu e dois colegas, em um bar de Los Angeles quando eu disse que era muito bom estar ali com eles, pois “a vida é muito curta pra desperdiçar.” Eles começaram a gritar eufóricos e afirmaram que tiveram uma ideia para um roteiro me colocariam como co-autor. Foi assim que participei de “Curtindo a vida adoidado”.

Minha última façanha na década de ouro foi uma contribuição que dei a um certo cara chamado Tom. Eu sugeri duas frases “Oh, Capitão, meu Capitão!” e “Carpe Diem.” E, a partir delas, ele fez um filme bem legal e elogiado chamado “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Nos anos que se seguiram, me aposentei. Uma vez, um indiano ligou pra mim querendo que eu o ajudasse numa história. Me fiz de doido, e disse algo bem sem sentido como “Eu vejo gente morta!” O safado fez um ótimo filme a partir dessa frase. Depois veio me pedir mais dicas e eu me recusei a dizer algo. Parece que desde então, nunca mais fez nada que prestasse.

No início dos anos 2000, promovi uma festa pra comemorar 20 anos de carreira. Convidei uns amigos do meio, entre eles o Fernando, que estava pra filmar um livro do qual ele gostava muito. Ele quis conversar sobre o projeto. Disse que o Bráulio Montovani, um garoto muito talentoso estava à frente e me contou alguns detalhes da história. Eu até gostei, mas o nome do vilão não estava certo. Aí, ele me perguntou: “O que foi? Você não gosta do Dadinho?” Ao que eu respondi: “Pô, Fernando! Dadinho é o caralho!” Acabei que não vi o filme ainda, mas fiquei sabendo que a frase teve um efeito legal na plateia. É como eu sempre digo ao ver um roteiro com defeito: “Você é a doença e eu sou a cura!”

Coluna da Digi # 90 – Cinema Top 5 2009

janeiro 25, 2011

Todos os anos, desde 2008, eu fazia uma breve lista de melhores do ano. Em 2010, falhei, é verdade. Foi um ano corrido e, confesso, vi poucos filmes. 😦 Porém, 2009 não foi assim. Naquele ano, havia frequentado muitas salas escuras e pude fazer uma boa lista. Republico aqui a coluna da Digi publicada em 28 de dezembro de 2009.

Bom texto pra vocês e ótimos filmes, caso ainda não os tenha visto.

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Top 5 2009 – Cinema

Este 2009 foi animador em se tratando de bons filmes assistidos. Mesmo com todos os problemas, embargos, crise econômica, queda de arrecadações, pirataria e tudo mais, foi difícil fazer a lista de 5 mais, não pela escassez, mas pela profusão de boas opções a indicar. Sem mais milongas, vamos à lista:

Os eleitos

05 – Na natureza selvagem

Este filme de Sean Penn é um sensível manifesto à vida simples, ao respeito à individualidade, ao idealismo, ao idealismo e à heróica atitude de negar-se a ter mais do que precisa ter. É um libelo contra as pressões sociais que nos impõem valores como o consumismo, a aparência, o sucesso e os posiciona acima das pessoas, da amizade, da natureza e da beleza das pequenas coisas. O filme é também uma bonita homenagem à solidão voluntária, à opção pelo silêncio, pelo sossego, pelo autoconhecimento. A trilha sonora a cargo do Eddie Vedder do Pearl Jam também é primorosa e se integra perfeitamente à história. Destaque para a excelente canção “Society” que traz o trecho “Sociedade, espero que você não se sinta sozinha sem mim”. O filme, que é baseado em uma história real, é de 2007, mas como eu só vi esse ano, acabou entrando na lista.

04 – Se a coisa funciona

Uma vez o Saramago disse numa entrevista que iria escrever o máximo de livros que pudesse dali pra frente, pois sabia que estava perto de morrer e publicar seus livros seria o seu legado. Bem, acredito que Woody Allen chegou à mesma conclusão e entrou nesse ritmo meio Roberto Carlos de um lançamento por calendário. Tem gente que torce o nariz, que acusa a queda de qualidade, que transborda de saudosismo em declarações como “eu preferia os filmes de antigamente” ou “já não é o mesmo”. Bobagem. “Match Point”, “Scoop” e “Vicky Cristina Barcelona” são sim bons filmes. E ainda por cima nos trazem Scarlett Johanson no papel principal. Porém, dessa vez, ele nos brindou com um roteiro de rara competência com diálogos divertidíssimos e uma divertida visão da America contemporânea e todas as suas ideologias falidas, sentimentos reptimidos e hipocrisias extremistas. Se a coisa funciona? Pra mim, funcionou às maravilhas.

03 – UP

A Pixar é um estúdio de animação que elevou suas produções ao mais alto grau de perfeição. Não se pode definir o trabalho da empresa sem utilizar superlativos ou elogios grandiloquentes. Sou fã de primeira hora e colecionador dos DVDs. Acredito que eles são os que melhor sabem combinar os conceitos de arte e entretenimento no mundo. Para 2010, já estou ansioso para ver “Toy Story 3”, ler o livro “A Magia da Pixar” e o documentário que conta a história da empresa. Quanto ao filme, “UP”, é sensacional. Uma ótima história, muitíssimo bem escrita e produzida com o esmero já característico do estúdio. Imperdível!

02 – Bastardos Inglorios

Estava ansioso para ver o novo Tarantino. A história parecia divertidíssima e as primeiras críticas que chegavam me enchiam de boas expectativas. Fosse pelo equilíbrio perfeito entre uma boa história e entretenimento, fosse pelos diálogos tarantinescos, ou ainda pelas atuações inspiradas dos atores, especialmente o austríaco Cristoph Waltz que acumulou prêmios de melhor ator. Vi o filme e não me decepcionei. É o melhor Tarantino. Superou, para mim, os já clássicos “Cães de Aluguel” e “Pulp Ficction”. É muitíssimo melhor que os bonzinhos “Jackie Brown” e “Death Proof” (gostei mais da metade do Robert Rodriguez da “Grindhouse”). E, por fim, não vou nem falar dos “Kill Bill”, pois eu detestei aquilo lá. “Bastardos Inglórios” é, talvez, e como defeiniu o próprio Tarantino, sua obra prima.

Na ocasião em que assisti ao filme, publiquei uma crônica aqui na Digi. Leiam aqui.

01 – The Watchmen

É difícil adaptar um objeto de culto. Por isso, Zack Snyder foi extremamente corajoso ao embarcar na produção de “The Watchmen”, que levaria ao cinema uma obra que figura em 9 de cada 10 listas de melhor história em quadrinhos de todos os tempos. Estava brincando com fogo e continuou caminhando na corda bamba ao peitar os executivos e insistir em fazer um filme o mais fiel possível ao original. Resultado: críticas dos não-iniciados, os ignorantes da história de Alan Moore e bilheterias muito aquém do que poder-se-ia projetar. O diretor conseguiu desagradar a muitos expectadores mundo afora, mas conseguiu algo muito mais importante: o respeito dos fãs e um lugar no céu da posteridade como um homem de colhões que enfrentou dificuldades hercúleas e fez uma entrega decente. O filme “The Watchmen” tem um destino certo e bem traçado. Foi combatido num primeiro momento, não obteve o êxito de arrecadação esperado, mas certamente será visto e admirado por gerações, convertendo-se num “cult”, assim como ocorreu com o Blade Runner do Ridley Scott há quase 30 anos. será justo, pois Alan Moore está à altura do K. Dick. Pela minha adoração à história em papel e pela satisfação em ver tudo passado para a telona sem traumas ou sacrilégios, este é o meu primeiro lugar no pódio.

Menção honrosa

Quem quer ser um milionário?

Valsa com Bashir (este tambémnão é uma produção lançada em 2009, mas como eu só vi este ano, tá valendo).

O pior

Transformers 2

Não vejam este filme por nada nesse mundo! Nem se lhe oferecerem o cachê do Padr Fábio! E tenho dito.

Coluna da Digi # 108 – Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

janeiro 24, 2011

Hoje, resolvi subverter a sequência cronológica de publicações neste blogue. Tudo porque, após ter anunciado a morte da série de crônicas sobre zumbis no cinema (Coluna da Digi #98), afinal já havia publicado 5 textos a esse respeito, ressucitei o assunto em uma 6ª e, por hora, definitiva coluna. A crônica “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, publicada em 20 de setembro de 2010, fala do surpreendentemente ótimo filme de comédia protagonizado por Woody Harelson e Mark Zuckberg.

Curtam eo texto e vejam o filme depois. Valeu!

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Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia.

 

 “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom. A frase não passa de uma piadinha para muitas pessoas, para legiões de leitores e expectadores ao redor do mundo, ela é um truísmo estático sedimentado por centenas de livros, filmes, HQs, videogames. Quando um morto-vivo surge numa narrativa, ele carrega nas costas uma respeitável bagagem de histórias que deram certo, que aterrorizaram, divertiram e fizeram pensar”

Daniel Galera, na orelha de “Areia nos dentes”, do autor Antônio Xerxenesky.

 

Dia desses, saí de casa para conferir dois filmes novos que acabavam de entrar em cartaz. Estava curioso acerca de “Onde vivem os monstros” do diretor Spike Jonze (“Quero ser John Malkovitch”), roteirizado pelo escritor americano Dave Eggars. No mesmo local estava passando também uma comédia com zumbis chamada “Zumbilândia”. Este último fui ver sem muitas expectativas. Apesar de fã confesso das produções sobre mortos-vivos e de estar empolgado com a recente leitura de “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine” do jornalista espanhol Jose Manuel Serano Cueto, eu sabia que aquele filme representava uma aposta de alto risco.

Uma comédia americana sobre mortos andantes poderia resultar num desastre muito pior que uma infecção real de zumbis. “Shawn of dead”, que no Brasil ganhou a tradução ridícula “Todo mundo quase morto”, é uma divertida paródia do gênero, mas é inglês. As comédias inglesas costumam ser mais inteligentes que os filmes sorvete na testa americanos. Mesmo assim, resolvi arriscar. “Zumbilândia” vinha sendo elogiado, havia recebido boas críticas e além do mais, como disse o escritor Daniel Galera na orelha do romance “Areia nos dentes” do autor Antônio Xerxenesky: “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom”. Generalizações a parte, resolvi conferir.

Foi então que ocorreu uma reviravolta digna dos bons roteiros, uma inversão de expectativas realmente inesperada. Decepcionei-me com “Onde vivem os mostros”. Um bom filme, mas apenas isso. Nada perto do que se poderia esperar de uma parceria entre o inventivo diretor Spike Jonze e Dave Eggars, que vem sendo cultuado nos Estados Unidos como o queridinho da nova geração de escritores, já tendo sido até chamado de “o Bono da literatura”.

“Zumbilândia”, por sua vez, agradou em cheio. Para minha surpresa, não se tratava de é uma paródia dos filmes de George Romero, nem de outras produções sobre moribundos andarilhos. Trata-se de uma história original, bem escrita, com boas piadas e partindo de uma premissa bastante interessante: a de que, para sobreviver a um mundo dominado por zumbis, é preciso criar regras estritas e segui-las rigorosamente. Dessa forma, foi concebido o improvável protagonista frágil, nerd e extremamente tímido que, paradoxalmente é o mais indicado a sobreviver num mundo infectado. Tudo porque o personagem criou seu próprio manual de sobrevivência e repassa sempre as normas estabelecidas para não se tornar mais um morto-vivo.

A fonte de inspiração do filme pode muito bem ter sido o livro “The zombie survival guide”, de 2003. Algo como “O guia de sobrevivência para um mundo de zumbis”, do autor estadosunidense Max Brooks, filho do cineasta Mel Brooks. Max vem se destacando por escrever livros muito bem sucedidos sobre o gênero. Sua segunda publicação, “World War Z: an oral history of a zumbi war”, repetiu as ótimas vendas da estreia. Em seu guia de sobrevivência, Max explicita duas informações básicas. A primeira é: como não ser mordido, infectado, devorado ou morto pelos monstros. A segunda: como matá-los, informando diferentes maneiras de acabar com as aberrações a parte do clássico tiro na cabeça.

Em “Zumbilândia”, além do tímido Columbus (…), surge também o excêntrico Talahasee (Woody Halreson, muito bom) que se especializou em matar zumbis das mais variadas maneiras. Assim, os dois personagens principais se complementam e parecem tirados do primeiro livro de Max Brooks. Um especialista em fuga e sobrevivência e o outro em acabar com os mortos que surgirem no caminho. Os próprios comerciais de TV disponíveis no Youtube ilustram bem isso ao mostrarem os dois protagonistas, respondendo perguntas acerca de como agir num mundo zumbificado.

Columbus e Talahasee tem a companhia de duas garotas em sua aventura. Uma delas é interpretada pela atriz Abigail …, que ficou conhecida como a “Pequena Miss Sunshine”. E tem também os zumbis, que seguem a tendência moderna desta década, ditada pelo filme “Extermínio” do diretor escocês Danny Boyle. Zumbis rápidos, ágeis e mais ameaçadores. Esta nova realidade já havia sido explorada por Zack Snyder na nova versão de “Madrugada dos Mortos” (2004). 

Além desses elementos principais da história, há diversos outros que temperam o filme. Detalhes capazes de diferenciar um bom filme de um ótimo.

1 – Boa trilha sonora – A abertura com … do Metallica é sensacional, já servindo para introduzir os expectadores na história, avisando que o que eles verão ali é ação da boa, intensa e mostrando também que os realizadores tem bom gosto.

2 – A parte visual é uma atração a parte. Os cenários apocalípticos ou abandonados, como as estradas, cidades, supermercados ou comércios estão ótimos. Recomendo que assistam aos extras do DVD para verem como eles produziram tudo.

3 – Os letterings interativos – a maneira com que eles aplicaram os caracteres tanto na abertura quanto durante todo o filme é de uma criatividade arrebatadora. As regras sempre relembradas por Columbus surgem o tempo todo em perfeita harmonia com o cenário onde ocorre a ação. Seja no interior do carro, acompanhando o bip do cinto de segurança ou no asfalto, após um acidente, você pode sempre recapitular as regras junto com o personagem.

4 – As regras – as regras estabelecidas também são bastante divertidas, pois trazem consigo as lembranças de todas as produções do gênero ao concluírem que alguns segredos de sobrevivência são bastante simples e até mesmo ridiculamente óbvios: ter bom preparo físico (“os gordos foram os primeiros a serem pegos”), cuidado com banheiros, ponha o cinto de segurança, olhe o banco de trás, alongue sempre, mate duas vezes. Enfim, mandamentos que poderiam ser transmitidos aos muitos personagens de outros filmes que foram alcançados pelos monstrengos por pura ignorância dessa lista de normas de conduta.

No filme, existem algumas piadas referenciais a outros filmes como Anaconda, Garfield, Titanic. E há também uma participação sensacional de Bill Muray interpretando a si mesmo. 

Por todas essas peças que se encaixam harmoniosamente, formando um ótimo filme, com um bom roteiro, ação e entretenimento de primeira, recomendo a todos que são fãs desse que é o subgênero cinematográfico mais popular da atualidade. Se você não é fã ou alimenta algum preconceito a respeito, é bom ficar onde está e não macular esta produção com sua audiência pouco qualificada e opiniões descontextualizadas. “Zumbilândia” é para quem tem senso de humor e o mínimo de conhecimento específico. Se você preenche esses requisitos básicos, divirta-se.

Coluna da Digi # 89 – Zumbis 5 – Dicas do além túmulo

janeiro 21, 2011

E a sequência continua. Esta crônica foi publicada em 26 de dezembro de 2009. E parecia ser o fim definitivo da saga… parecia.

Valeu!

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Zumbis 5 – Dicas do além túmulo

"Planeta Terror" de Robert Rodriguez (2007)

Esta é a quinta e última crônica de minha saga particular sobre o universo dos zumbis, a não ser que o assunto ressuscite em uma crônica futura, o que aliás é bem possível. Ainda deve pintar um conto (talvez dois) com base nos mortos vivos mais populares do cinema. A razão de toda essa instiga com o tema se deveu à leitura do livro “Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”, conforme já externei anteriormente, mas nunca é demais reforçar, caso você não tenha lido os 4 capítulos primeiros desta série. A publicação é um compêndio elucidativo a respeito do tema que há muito me interessava, mas nunca havia podido encontrar palavras adequadas para expressar com o mínimo de respeito a tão distintos monstros.

Este derradeiro texto tratando do assunto traz uma seleção de dicas genéricas presentes no livro ou não para os que quiserem conhecer alguns artigos literários, cinematográficos e musicais alusivos aos zumbis.

No início do livro, o autor, José Manuel Serrano Cueto explica a origem do mito. Os zumbis surgiram no Haiti, quando pessoas supostamente mortas eram revividas pelos  feiticeiros locais (bokors) em rituais vudu. O assunto chegou a ser capa da revista “Time” no início dos anos 80. Ele também expõe duas possíveis explicações para o nome “zumbi” (ou zombie em inglês e zombi em espanhol). Poder-se-ia ser uma referência a uma serpente divina norteafricana ou seria uma derivação de “jumbie” (fantasma) ou “nzambi” (algo como o espírito de um morto em um idioma falado em regiões do Congo. Em todo caso, o próprio autor reconhece que é muito difícil descobrir a origem correta do termo uma vez que são muitas as teorias a esse respeito.

Depois de fazer essa contextualização histórica, o livro discorre sobre a presença de zumbis em todas as manifestações artísticas. Partindo do princípio que o primeiro zumbi que aparece em livros é Lázaro (Bíblia), faz uma retrospectiva de todos os quadros onde aparece o personagem ressuscitado por Jesus Cristo. Na literatura, o autor expõe uma extensa bibliografia sobre o assunto que vai do “Frankenstein” de Mary Shelley (1818), representando a volta à vida de, não um, mas de vários seres humanos que tiveram suas partes unidas no surgimento de um novo ser, passa pelos universos de Edgard Alan Poe e H.P. Lovecraft e pelo “Cemitério Maldito” (1983) de Stepehen King.  Algumas publicações  indicadas são os livros do autor estadosunidense Max Brooks (curiosamente, filho do cineasta Mel Brooks) “The zombie survival guide” (2003) e “World War Z: an oral history of zombie war” (2006). Por fim, ele faz uma exaltação ao “Monster island, a zombie novel” (2006) que, na sua opinião é o melhor romance sobre o tema e acabará se tornando filme.

O autor destaca também a presença de zumbis na música em bandas como “The White Zombie” ou “The Zombies”, o revolucionário clipe “Thriller” de Michael Jackson (outro que foi ao mundo dos mortos para voltar e nos atormentar) e a canção “Pet Semetary” dos Ramones.  São ainda muito frequentes aparições desses bizarros seres nos quadrinhos (com destaque para a história “Marvel Zombies” em que descobrem uma dimensão paralela onde os heróis Marvel se converteram em… adivinhem!), nos videogames (“Resident Evil” comanda a turma), animação (“A noiva Cadáver” de Tim Burton) e televisão, demonstrando a todos como esse monstro cinematográfico se tornou uma das criaturas mais pops de nossos tempos.

Outros filmes de zumbis que não foram falados anteriormente nesta série, uma vez que me limitei a abordar as películas de George A. Romero, e que são destacadas pelo jornalista Serrano Cueto são  “Re-animator”, “Pet semetary 1 e 2”, “Braindead” (este de humor negro, dirigido por Peter Jackson que já me havia sido apresentado pelo professor Gustavo Bitencourt), “Resident Evil”, a ótima sátira inglesa “Todo mundo quase morto” e o filme francês “Les revenants” que traz uma ótica diferente sobre o assunto, com os mortos levantando-se, mas causando outro tipo de problema, como rombo na previdência, suas antigas casas sem espaço para acomodá-los, seus cônjugues casados com outras pessoas. O enredo se assemelha aos livros de Saramago, especialmente o “Intermitências da Morte”. Não poderia faltar também a série “A volta dos mortos vivos”, aquela em que os zumbis saem clamando por miolos e que foi uma irmã enviesada da saga de Romero.

Um espaço considerável também é dedicado aos zumbis apócrifos, como os presentes em “REC” (filme espanhol de grande sucesso que rendeu a continuação “REC.2”), “Planet Terror” (metade que coube a Robert Rodriguez da Grindhouse feita com tarantino) e a série “Extermínio” que deverá ter uma terceira produção em breve.

O mesmo autor do livro é pai de uma tirinha que pode ser facilmente encontrada na inetrnet que tem como protagonista um zumbi chamado “Johny Putrido”. Além de todas essas dicas dadas por ele no livro, eu gostaria de incluir umas poucas por minha conta e risco. O livro “Sangue e Areia” do jovem escritor gaúcho Antonio Xerxenesky (que pode ser adquirido no sítio www.naoeditora.com.br) e a insana versão “Orgulho e Preconceito e Zumbis” que deverá, inclusive, virar filme em breve. Cito ainda as bandas brasileiras “Zumbis do espaço” e “Zumbi do mato”.

Por fim, algo que tem no livro e que eu reforço também fora: as “passeatas zumbis” (Zombie Walks”) que ocorrem em todo o mundo e que já teve até uma edição (ou mais de uma?) na sempre quente e festiva Caicó. Como se vê, os zumbis estão mais perto do que se pensa, presentes em muitas manifestações culturais e seguem vivos, vivos demais até.

Com essa crônica, encerro o ciclo. Nos vemos além.

Coluna da Digi # 88 – Zumbis 4 – George Romero Revivido

janeiro 20, 2011

No dia 23 de dezembro de 2009, publiquei mais uma crônica da série sobre filmes de zumbis. Dessa vez, abordando as refilmagens de clássicos romerianos e novas produções do próprio diretor. Espero que sigam gostando.

Um abraço.

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Zumbis 4 – George Romero Revivido

Cartaz da refilmagem de "Dawn of the dead" de Zack Snyder (2004)

Esta crônica é uma continuação de outras escritas anteriormente. Para entendê-la melhor recomendo que leiam os demais textos aqui, aqui e aqui.

“The night of the living dead” (1990)

Quando “The night of the living dead” foi lançado, em 1968, um problema burocrático fez com que George A. Romero e seus amigos perdessem os direitos autorais sobre a obra. Com isso, acabaram faturando menos do que esperavam, servindo apenas para recuperar o dinheiro investido. Em 1990, o filme e a saga romeriana iniciada na “Latent Images” já havia se tornado célebre e muitas homenagens, referências e releituras livres haviam sido feitas sobre suas obras em todos os meios possíveis, sobretudo no cinema, claro. Os amigos, decidiram, entretanto, fazer eles mesmos um remake para ver se finalmente ganhavam algum dinheiro. Romero não quis dirigir o filme e a função foi desempenhada por Tom Savini que tinha pouca experiência como diretor e antes era o responsável pela maquiagem das entregas anteriores. A escolha se mostrou acertada, todos gostaram do resultado e “The night of the living dead” (1990) tornou-se uma bela homenagem à obra original com o selo de qualidade do próprio criador da saga.

“Dawn of the dead” (2004)

Em 2004, um novato chamado Zack Snyder, também foi convidado para realizar uma releitura de um filme de Romero. Dessa vez, seria o segundo filme, “Dawn of the dead” (1978), em que um grupo de sobreviventes se refugia em um centro de compras, configurando-se em uma crítica explícita ao consumismo. Snyder dirigiu um filme exitoso em vários sentidos. É entretenimento dos bons, teve boa recepção do público e faturou bem no mundo tod. Ainda por cima, agradou ao homenageado, apesar de ele ter feito algumas ressalvas: “É um bom filme de ação, bom entretenimento, mas não há muita substância por baixo de uma embalagem tão bonita”.

A afirmação de Romero tem razão de ser. Em vez do universo reduzido de protagonistas da versão original (apenas 4) com seus conflitos, relação tensa, dramas psicológicos oriundos da situação extrema de sobrevivência, aqui existem 12 principais. A crítica ao consumismo da película mãe também se perde e o centro de compras que era como um personagem se torna um simples cenário para a ação, nada mais que um refúgio seguro para os apersonagens. Outra licença artística do diretor foi a não continuidade. Snyder optou por contar a história de um novo início para a epidemia enquanto no filme de 1978, já se haviam passado 10 anos do surgimento. Em contrapartida, outro dogma sagrado romeriano foi mantido ao não explicar a origem do ocorrido. Essa não é a única referência, os mais atenciosos e nerds encontrarão várias pequenas homenagens e participações especiais que remetem à produções do cultuado diretor.

“Dawn of the dead” (2004) recorre a uma concepção mais moderna do espetáculo audiovisual e utiliza ação frenética e diversos focos de dramaturgia para não aborrecer o público atual. Apesar dos “poréns” apontados acima, é um filme muito bom e divertido que agrada a diferentes públicos, revelando o diretor Zack Snyder para o grande mercado, fato que acabaria por convertê-lo num dos grandes nomes da nova geração, a despeito das acusações de “gozar com o pau dos outros” feitas em virtude de sua obra até o momento (adaptações das obras de Romero, Frank Miller e Alan Moore).  

Uma boa dica para os que virem o longa é a existência do curta “The lost tape: Andy’s terryfing last days revealed” com um minidocumentário sobre os últimos dias de Andy, o dono da loja de arma que fica em frente ao shopping e interage com os sobreviventes protagonistas do filme.

“Diary of the dead” (2008)

Este filme marca o feliz regresso de George Romero às catacumbas do cinema independente após a fracassada tentativa de ser mainstream em “Land of the dead” e que resultou em algo tão deslocado quanto uma apresentação da banda “Expose your hate” no Faustão.

Dessa vez a produção não segue a trama original, revelando-se uma peça independente da história clássica, e mostra um outro início para o fenômeno zumbis. O alvo da reflexão proposta é a era da (des)informação que vivemos com a explosão de de meios de comunicação alternativos que observamos ao nosso redor. Para chamar a atenção, os meios tradicionais, principalmente a TV, recorrem a uma linguagem sensacionalisma cada vez mais escandalosa. O diretor desenvolveu uma leitura sobre a necessidade e obsessão da imagem nos tempos atuais, na era do Youtube.

Sobre o filme, ele declarou: “Se eu pusesse alguns estudantes de cinema na noite em que ocorre a loucura no mundo (a epidemia zumbi), provavelmente filmariam. Em 1968 não. Naquele tempo, eles correriam, mas hoje filmariam. Daí, surgiu a ideia.”

O filme segue a linha de outras produções como “A bruxa de Blair”, “Cloverfield” e “REC”. Câmera nervosa, no ombro, registrando as cenas de um pseudodocumentário. A história mostra uns estudantes iniciando a produção de um filme de múmia (que, na verdade, pode ser encarada como uma ancestral dos zumbis modernos) quando percebem que o seu protagonista, envolto em ataduras converteu-se em um zumbi de verdade. Daí, eles percebem que um morto real daria muito mais projeção audiência que um de ficção.

No Brasil, vivemos um pouco dessa realidade mórbida ano passado quando cultuamos o cadáver da menina Isabela Nardoni. Quanto mais apareciam notícias referentes à menina na TV, maior era nossa urgência em violar o túmulo, profanar seus restos mortais, mexer, remexer, impedir seus descanso. E fizemos com muito deleite e regojizo, ataravés do Jornal Nacional, Ana Maria Braga, noticiários da Record e tantos outros. “Diary of the dead”

 fala um pouco desse fascínio que sentimos e não conseguimos disfarçar pela morte.

Uma cena marcante da película ocorre quando, já perto do final, um dos personagens percebe que está se tornando um zumbi, entrega a câmera para um colega e decreta: “Grave-me.” Este segura a câmera com uma mão e uma arma com a outra e dispara as duas simultaneamente no amigo moribundo.

…of the dead (2009/2010)

Atualmente está em fase de pós-produção um novo filme de Romero chamado “…of the dead”. É mais uma produção independente e, com toda certeza, o mestre dos zumbis nos trará mais uma pérola do gênero. Pois como seus personagens favoritos, George A. Romero sabe voltar. E cada vez mais assustador do que antes.

Coluna da Digi # 87 – Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

janeiro 14, 2011

No dia 14 de dezembro de 2009, publiquei a terceira crônica a respeito do universo dos zumbis no cinema, inspirado pelo livro “Zombie Evolution”, cuja leitura acabara de concluir.

Boa leitura, jovens.

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Zumbis 3 – George Romero caminha entre nós.

George Romero

George A. Romero nasceu em Pittsburgh, estado da Pensilvania, Estados Unidos. Levou uma vida normal, tornou-se um jovem fanático por ficção cientíica e terror (uma espécie de Alex de Souza estadosunidense), estudou cinema e junto com alguns amigos, começou a fazer filmes nas horas vagas. Até aí, esta parece ser a trajetória de milhares de estudantes de cinema ou comunicação pelo mundo que, realizam suas produções independentes para ganhar experiência na área e se divertirem um pouco. Contudo, este exemplo é diferente, pois trata-se do profissional que alterou conceitos, mudou os rumos da indústria do cinema de terror, popularizou um personagem que se converteu num dos monstros mais populares (e por que não dizer pops?) do cinema moderno. No livro que li e que inspirou esta série de crônicas sobre zumbis (“Zombie Evolution – El libro de los muertos vivientes en el cine”), o autor José Serrano Cueto, opina: “Poucas abominações podem ser definidas como tão autenticamente cinematográficas quanto os zumbis.” E foi Romero o grande responsável para que esta afrirmação possa ser encarada hoje como uma irrefutável verdade.

Depois de fazerem diversos filmes experimentais juntos, durante as férias, horarios de folga e fins de semana, os amigos Russel Streiner, Rudy Ricci, Richard Ricci, John Russo e George Romero decidiram abrir em 1963 uma pequena produtora para gravar filmes para publicidade, a “Latent Images”. A empresa foi bem e eles acabaram adquirindo uma câmera de 35mm. Com ela, veio a ideia de realizar um longametragem. Mas sobre o que? John Russo estabeleceu uma premissa: tinha que começar num cemitério. Na época, Romero havia lido o livro “Eu sou a lenda” (Richard Matheson, 1954) em que os antagonistas são vampiros. Baseado no livro havia escrito um argumento sem fazer referência ao que atacava os protagonistas. Mostrou o texto aos amigos e sócios e todos ficaram encantados.

 

“The night of the living dead” (1968)

Ele escreveu o roteiro, os sócios pediram dinheiro emprestado a familiares e conhecidos (20 pessoas contribuíram), arrumaram sangue e carne com um amigo dono de açougue e os mesmos que emprestaram dinheiro foram os atores secundários e figurantes. Na hora de dividir as tarefas imperou o mesmo espírito de cooperativa: uns cuidavam da maquiagem por terem mais aptidão para tal, outro seria o produtor por ter experiência com administração de empresas, e a Romero coube dirigir, pois ele tinha um poco mais de experiência nessa área que os demais.

O protagonista negro (Duane Jones), foi escolhido por acaso. O roteiro não previa que ele fosse negro. Na verdade, não fazia nenhuma menção à cor da pele. Mas como ele foi muito bem nos testes, Russo e Romero nem quiseram ver mais nenhum ator postulante ao papel. Muitas teorias foram desenvolvidas sobre o significado oculto em se escolher um negro para protagonista, ainda mais que no final acaba morto por brancos, justo no ano em que Martin Luther King foi assassinado. No entanto, todas as suposições deste tipo são falas, uma vez que o filme já estava pronto quando King foi morto e Romero não mexeu sequer uma vírgula no roteiro depois de escolherem Duane Jones para viver Ben. Ou seja, o filme teria sido rigorosamente o mesmo caso o ator principal houvesse sido um branco.

 

O estilo romeriano

O filme entrou pra história e se tornou  um divisor de águas no cinema de terror, transformando o próprio Romero numa lenda, objeto de culto e alvo da admiração de milhares de fãs mundo afora. O que mais chama atenção nos filmes de Romero é a profundidade com que toca temas delicados, por trás da embalagem do terror. Em entrevista, ele declarou: “Todos os meus filmes sobre zumbis surgiram a partir de ideias, ao observer o que estava ocorrendo cultural e politicamente.”

Dessa forma, os monstros se transformam em instrumentos para articular uma crítica social, uma análise dos conflitos humanos que podem ser associados a acontecimentos históricos determinados: a guerra do Vietnã (“The night of the living dead”, 1968), o consumiso exagerado (“Dawn of the dead”, 1978), o abuso do poder militar (“Day of dead”, 1985), a luta de classes (“Land of the dead”, 2005) e a informação sencaionalista (“Diary of the dead”,2008). A Romero não interessa o simples terror, mas leitura que através dele se possa ter da sociedade.

Os 4 primeiros filmes formam uma mesma saga que mostra, gradualmente a devastação do mundo mediante o surgimento e avanço da epidemia dos zumbis. Separadamente, é possível assistir e assimilar a mensagem de cada um deles, mas no todo, representam a decadência do planeta em 3 tempos: a noite, o amanhecer e o dia, até que (no 4º filme) o homem passa a conviver com o problema como se achasse tudo natural e os mortos caminhantes já fizessem parte do dia-a-dia. Nas histórias romerianas, os personagens formam coletivos pequenos em constante conflito entre si.

Outra característica importante é o ambiente da ação. Em seus roteiros, o espaço é tão importante quanto os próprios personagens, sendo praticamente um protagonista em si mesmo. Uma casa no primeiro, um centro comercial no segundo e um bunker no terceiro são, não só cenários, mas também parte ativa das histórias que nos são contadas. A terra dos mortos tenta repetir a fórmula sem êxito. A cidade em que se passa o filme deveria ser uma geradora de conflitos, mas não consegue e isso a afasta das outras 3 produções anteriores, tirando um pouco a unidade da tetralogia.

“Dawn of the dead” (1978)

O segundo filme da saga traz uma clara crítica ao consumismo exarcebado. 10 anos depois do início da epidemia, 4 personagens (2 policiais e 2 jornalistas) decidem ir a um centro de compras de helicóptero, para recolher algumas provisões antes de partirem em busca de um refúgio seguro aonde a epidemia ainda não haja chegado. Uma vez lá dentro, concluem que o lugar pode servir de abrigo temporário antes de partirem , já que está cheio de mantimentos e objetos úteis. No interiro encontram muitos zumbis que se movem mecanicamente como se recordações de vida os fizessem andar pelas lojas. Eles representam a massa alienada, uma hipérbole dos consumidores hipnotizados pela publicidade e se movem todos os dias pelos centros comerciais do mundo. O filme exprime que hoje (já era assim em 1978)não há lugar para a simplicidade voluntária, a que só praticam umas poucas mentes revolucionárias, capazes de sentir que a plenitude não se encontra em possuir, mas em extrair o máximo proveito daquilo que se tem.

A uma certa altura um bando de motoqueiros invade o lugar e começa a saquear e roubar tudo o que podem, ignorando o fato de que dinheiro e objetos outrora vailosos não faziam mais sentido num mundo caótico em que viviam. Nada daquilo que roubam teria utilidade na terra arrasada. É a ganância sobrevivendo mesmo em tempos extremos. O ápice do materialismo, como o consumismo desenfreado mesmo em tempos de crise.

“Day of dead” (1985)

Mais alguns anos depois, a terra está arrasada, o mundo está morto e existem mais zumbis que sobreviventes. O filme começa com imagens silenciosas do chão rachado de um pequeno povoado. Logo o silêncio é quebrado por alguns gemidos distantes.

É a maneira com que Romero exprime a terra de ninguém e de valores distorcidos que estava sendo construída nos anos 80, em que um governo republicano belicoso governava os Estados Unidos e regia o mundo mediante uma corrida armamentista desenfreada e o mercado financeiro vivia um colapso desesperador. Um mundo cada vez mais desigual, o ápice da desumanidade estava se configurando. Romero disse que ele começava a se perguntar: “O que diabos estivemos construindo esses anos todos?”

“Day of dead” representa todo esse pessimismo. Afinal, o que seria melhor para representar um mundo que perdia sua humanidade do que o domínio daqueles que haviam sido humanos um dia? É o filme mais sujo e mais feio das produções. Logo na primeira aparição de zumbis, um recado claro: esse filme vai ser duro, muito duro. Aqui não se esconde nada. O que vocês vão ver é agressivo.

Os sobreviventes que dessa vez são representados por 3 grupos distintos (cientistas, militares e civie) vivem conflitos entre si. Estão todos encerrados em um bunker. Um cientista louco quer domesticar os zumbis, um militar com vocação para ditador quer matá-los e os civis só querem fugir dali e sobreviver. Os militares representam o excesso de poder em tempos de tensão, os cientistas a insesatez travestida de razão, e os civis seriam os cidadãos comuns, encurralados em meio a essa disputa de ambos os grupos. No fim, um final anárquico e subversivo, obsceno até para os padrões hollywoodianos. Morrem os cientistas e militares das piores formas possíveis e só sobrevivem uma mulher, um negro e um bêbado.

“Land of the dead” (2005)

Em 2005, 20 anos depois do terceiro filme de zumbis, o homem de Pittsburgh, Pensilvania, já se tornara um mito, havendo adquirido fama e respeito e todas as partes. Por isso um dos maiores estúdios estadosunidenses, a Universal, resolveu dar a ele a oportunidade de realizar uma produção com grande orçamento. Pela primeira vez, George A. Romero poderia contar com atores famosos, profissionais vindos de grandes produções (e não apenas seus amigos). Dessa vez, a narrativa gira em torno da luta de classes e, como não poderia deixar de ser em 2005, faz uma crítica ao governo Bush.

O mundo aprendeu a coexistir com os zumbis. As cidades se converteram em enormes fortalezas cercadas por grades, fossos e pontes superprotegidas. As elites financeiras e governantes se refugiaram em enormes arranha céus nos centros, enquanto as populações mais pobres ficavam às margens das grades, mais próximas do perigo, mais expostas. E os zumbis, fora de tudo isso, excluídos do processo e da sociedade, apenas contemplando de longe a cidade que um dia também foi deles. Representam a classe mais oprimida, os deserdados da terra. Romero critica o abuso de poder e a desigualdade social. O vilão da história, Kaufman (Dennis Hopper) é um corrupto e sem escrúpulos gestor que foi baseado no então secretário de estado americano, Donald Rumsfeld.

Em meio a disputa, existem ainda um grupo de mercenários que se encarrega de matar zumbis e cobrar por isso, protegendo as elites e população. Um deles, ambicioso e ingênuo sonha fazer parte da elite dos arranha céus. Em um dado momento da película, alguém faz um alerta despretensioso que dá a chave da trama: “E se eles (os zumbis) adquirissem a capacidade de se organizarem?” É exatamente o que acontece. Os mortos pegam em armas e promovem uma revolução zumbi contra os vivos que os oprimem, partindo em direção a cidade que um dia foi deles para reconquistá-la.

Neste filme ocorre uma humanização maior dos montros, como se, de 68 para cá, eles houvessem evoluído. O resultado, no entanto, na opinião do jornalista Serrano Cueto e do próprio Romero, não foi tão bom quanto os anteriores. Apesar de ter contado com um grande orçamento, pela primeira vez, existe mais ação que trama psicológica e a reflexão social se perde em meio ao ritmo mais acelerado. Os fãs protestaram, as bilheterias não corresponderam e Romero admitiu que o tamanho do projeto o superou. Por isso, decidiu voltar a produções mais  modestas depois dela. “Eu prefiro as coisas mais simples”, declarou. Certamente. E é justamente nas produces mais simples e despretensiosas que ele consegue ser grande. Ou melhor: grandioso.

Coluna da Digi # 84 – Pior é na guerra.

janeiro 11, 2011

Escrevi esse texto após assistir Valsa com Bashir. Demorei algumas semanas, talvez meses, e publiquei na coluna da Digi. foi em 26.11.2009. Republico aqui, seguindo a cronologia da retrospectativa de colunas.

Boa leitura.

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Pior é na guerra

 

“Valsa com Bashir” é mais uma dessas pequenas obras-primas com as quais nos deparamos quando estamos distraídos. Representa o nosso lado mais desumano através da arte, demonstrando, contraditoriamente, por meio de uma produção belíssima, todo o horror de uma guerra. Está, guardadas as proporções, apresso-me em dizer, para a guerra do Líbano assim como o quadro Guernica de Picasso está para a guerra civil espanhola. Um resgitro em movimento do sofrimento, da agonia, de morte e dor.

A animação, vencedora do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro além de uma porção de outros prêmios pelo mundo, conta a história de alguns veteranos de guerra israelenses atormentados com as lembranças do conflito ocorrido 20 anos antes. Os homens, que se aproximam de entrar nos 40 anos, tinham entre 18 e 19 anos quando estiveram no campo de batalha. Em meio à ação, eles viram amigos tombarem ao seu lado, foram obrigados a matar cachorros para abafarem os latidos, presenciaram massacres de civis sem poderem fazer nada e sentiram a morte de muito perto.

Carregando seus traumas, cicatrizes e culpas para o resto de suas vidas, eles tentam lembrar de episódios que o sub-consciente os fez esquecer. Acreditam que, ao rememorar o ocorrido, poderão curar suas angústias de homens de meia-idade atormentados. O filme mostra delicadamente, como a cadência de uma valsa, que mesmo por trás das maiores atrocidades, existem seres humanos que não tem responsabilidade direta pelo que ocorre e que dariam tudo para não estar ali.

A trilha sonora da animação também é excelente, revelando ótimos rocks israelenses que tratam de guerra e paz. “Valsa com Bashir” é arte pura. Alterna momentos de fina delicadeza com cenas chocantes. No final que não é, nem poderia ser, feliz, fica claro para todos que numa guerra cruel, como foi a guerra de Israel contra o Líbano em 1982?, não há nem nunca haverá vencedores.

Coluna da Digi # 77 – Adoráveis Bastardos

dezembro 3, 2010

Um dos melhores filmes do ano passado pra mim, foi “Bastardos Inglórios”. A maestria de Tarantino me pegou de jeito. Fiquei encantado pela película e escrevi uma coluna a seu respeito. Hoje, republico a coluna da Digi postada em 19 de outubro de 2010. Espero que gostem tanto quanto eu curti o filme.

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Adoráveis Bastardos

Sabem o que eu mais gosto do estilo Tarantino de fazer cinema? Do prazer que ele sente ao trabalhar com isso. A satisfação do diretor em realizar suas obras é nítida em cada centímetro de celulose. No seu mais recente filme, “Inglorious Basterds” ele parece que escreveu uma história por pura e inconsequente diversão. Brincou de redigir o roteiro, acompanhar a préprodução, dirigir as cenas e montar. O resultado é uma divertida fábula que se utiliza a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo para contar a história dos arruaceiros judeus que tinham como missão matar o maior número de nazistas quanto pudessem em território europeu.

Ao assistir “Inglorious Basterds”, tive muitíssimas lembranças de outros filmes ou personagens do cinema ou da literatura, algo perfeitamente natural diante da grande quantidade de referências e homenagens que costuma fazer o diretor em seus trabalhos. De Sherlock Holmes a Cinderela, passando por filmes de Western e suspense, a história flui num ritmo bastante agradável repleta de pequenas mensagens subliminares, discretos acenos à plateia capazes de fazer os mais atentos ou bem informados darem um que outro sorriso a mais. E, claro, as longas e maravilhosas cenas de impagáveis diálogos, já uma marca registrada do diretor, não poderiam faltar, dando à história um equilíbrio essencial. Suas ideias parecem delírios juvenis, nascidas a partir de uma fértil imaginação adolescente e anabolizada por uma profusão de hormônios típica daquela idade.

Lembro de um conto que escrevi certa vez e que se chama “Anjos”. Tratava de 3 jovens de 20 e poucos anos que decidiam matar italianos e espanhóis que vinham fazer turismo sexual com menores em uma Natal dominada pela violência, um quadro bastante fiel à Natal de Vilma Maia e sua filhota bastarda (apesar de não reconhecida) Micarla de Sousa. A tensão da narrativa, os diálogos e a ação chamaram a atenção de Henrique Fontes, dramaturgo potiguar, dizendo que ele poderia tornar-se um curta. Levei o texto a Buca Dantas que se interessou e deverá transformá-lo em cinema muito em breve. Essa minha história, quando a escrevi, tem um pouco da empolgação adolescente presente nos roteiros tarantinescos.

É aquilo que todos nós temos vontade de fazer, mas como não podemos, mandamos nossos personagens fazerem por nós. Como nos velhos filmes de ação em que um dos mocinhos morre, mas ainda consegue, antes de exalar o último suspiro, dizer a um amigo: “Vá lá e pegue eles por mim!” É precisamente o que os meus 3 garotos fazem no conto “Anjos” o que os bastardos sem glória de Quentin fazem no novo filme. Enquanto meus personagens assassinam italianos maníacos como eu adoraria fazer, o pelotão comandado por Brad Pitt cumpre aquilo que o diretor teria o maior prazer em fazer se tivesse a oportunidade: matar nazistas.

A sede com que Tarantino busca fazer algo prazeroso, encontrar satisfação plena no seu ganha pão também é contagiante, não raro resultando em verdadeiras jóias do entretenimento, encontrando um cômodo lugar entre o cine de arte e o cinemão pipoca. “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” já são objetos de culto merecido, “Jackie Brown” e “Death Proof” garantias de diversão, e os dois volumes de “Kill Bill” são uma colcha de retalhos de referências (inclusive a si mesmo) que renderam até uma ótima produção brasileira, o engraçadíssimo curtametragem “Tarantino’s Conection” protagonizado por Selton Mello e Seu Jorge.

Porém, a despeito de toda sua obra anterior, com a nova película, o cinesta parece ter ido além. Conforme têm apregoado em entrevistas pelos 4 cantos a fim de promover a produção: “Essa pode ser a minha obra prima!” Após assisti-lo, faço eco às declarações do diretor. Ele não está exagerando.

Coluna da Digi # 75 – Tem piadas que duram 40 anos ou mais.

outubro 27, 2010

A piada mais engraçada do mundo foi tão hilária que muitos dos que souberam de seu conteúdo, morreram de rir fulminantemente. Ela foi contada pela primeira vez no dia 5 de outubro de 1969, quando a TV inglesa BBC levou ao ar o primeiro episódio de “Monty Python Flying Circus”, o programa televisivo que reinventou o humor como nós conhecemos, elevou a arte de fazer rir a um patamar de excelência e estabeleceu uma referência obrigatória para todas as produções do gênero no mundo a partir de então. O Circo Voador do Monty Python foi um divisor de águas, um registro do melhor que o homem pode fazer para arrancar gargalhadas de seus semelhantes, uma pós-graduação em Oxford ou Cambridge do riso, um tributo ao exagero. O legado deixado por eles é objeto de culto para milhões de fanáticos em todo o planeta, entre eles, este que vos tecla.

Quem me conhece sabe como eu tenho o riso frouxo. Sou o melhor público para piadas e rio com as mais incrivelmente simples besteiras. Muitas vezes, minha namorada, dominada por seu pragmatismo feminino, custa a acreditar em certas situações que me fazem rir. Gosto do absurdo, como a falta absoluta de noção (favor não confundir com mau gosto, escatologia ou demais distorções morais exibidas como se fossem humor na televisão hoje em dia) também conhecida pelo seu original em inglês, o nonsense. Pois bem, os ingleses são os mestres do nonsense. Além dos saltimbancos do Circo Voador, havia também ótimos escritores como Douglas Adams, o homem que escreveu “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, que Hollywood fez questão de estragar.

O Monty Python era composto por John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Jones e o americano Terry Gilliam, que depois virou um diretor muito bem sucedido. A primeira vez que tive contato com eles foi quando, ainda na infância, tive o prazer de assitir ao filme “Monty Python em busca do cálice sagrado” (1974), narrando uma improvável e fantástica aventura do Rei Arthur e seus cavaleiros. Umas duas décadas depois, concluo feliz que, até hoje, aquele foi o filme mais engraçado que já vi na vidae para muitos, a obra prima da trupe. O fato de não usarem cavalos, mas sim quengas de coco para simular o galopar, os confrontos contra o Cavaleiro Negro e os homens que dizem “NI”, a antológica cena de travessia da ponte, a cômica arrogância de Sir Robin, o bravo. Cenas que fazem parte do meu imaginário afetivo e as quais recorro sempre que sinto saudades de reviver momentos de alegria incontida.

Após o fim do programa na TV (que durou 5 temporadas, de 69 a 74), eles viajaram o mundo se apresentando em espetáculos de quadros escritos, protagonizados e dirigidos por eles próprios. Em meio à turnê escreveram mais um filme, “A vida de Brian”, sátira da vida de Jesus Cristo. Como nenhuma produtora quis patrocinar a sacrílega aventura, a aventura acabou sendo bancada pelo ex-Beatle George Harrison. O enorme êxito da película, repetindo o desempenho de “Em busca do cálice…” (que aliás também havia sido financiada por outros músicos, no caso, as bandas Led Zeppelin e Pink Floyd), rendeu um ótimo retorno para o espiritualizado rapaz de Liverpool e dezenas de sequências impagáveis, entre elas, o inesquecível final do filme, clímax do politicamente incorreto, em que condenados crucificados cantam a inesquecível “Always look to the bright side of life” (algo como, “Sempre veja o lado bom da vida ou olhe sempre para o lado bom das coisas”). Canção esta que foi cantada no episódio da morte de Graham Chapmam, o único integrante que já nos deixou, há exatos 20 anos, em 1989. Este episódio rendeu uma crônica em uma das minhas primeiras colunas da Digi: “O lado bom da morte”.

Hoje, com a relativa democratização dos meios eletrônicos, é possível encontrar o conteúdo humorístico do Monty Python muito mais facilmente. DVDs como “Ao vivo em Hollywood” de 1982 e o filosófico “O Sentido da vida”, pretensiosa produção de 1983, podem ser encontrados em boas locadoras como a Videolaser ou nos sítios de compra da internet. Todos os outros filmes lançados e também as 5 temporadas do “Flying Circus” estão disponíveis da mesma forma. E, como não poderia deixar de ser: abençoado seja o Youtube! O grupo foi um dos primeiros a ter um canal oficial no portal de vídeos número 1 do mundo. É possível assitir suas sketches originais em ótima qualidade. Se o internauta preferir ver legendado em português, tudo bem, graças a uns bons samaritanos que prestam esse importante serviço de utilidade pública virtual. 

Eu não me canso de rir de quadros como o “Ministério do andar idiota”, “O futebol filosófico disputado entre Alemanha e Grécia”, “O Papa fazendo alterações na Santa Ceia de Michelângelo” e oO serviço de discussão” e seu maravilhoso diálogo:

“Isso não é uma discussão!”

“ É sim!”

“Isso não é uma discussão!”

“É sim!”

“Isso não é uma discussão!”

“É sim!”

“…”

De lá para cá, todos os humoristas de TV que se prezem beberam desta fonte. Do Saturday Night Live, passando pelos globais TV Pirata e Casseta&Planeta, até os propositalmente toscos Hermes e Renato, ninguém está livre de sua influência,carregando em seu código genético o DNA dos loucos ingleses e seu estilo único, revolucionário, inconfundível.

No dia 5 de outubro de 1969, eles deram início a essa piada que não tem prazo de validade, pois nunca vai perder a graça. É, sem sombra de dúvida, a piada mais engraçada do mundo. Há 40 anos, o Monty Python implantou um programa de qualidade total em nosso senso de humor.

Coluna da Digi # 68 – Pra cima!

setembro 29, 2010

No dia 10 de agosto de 2009, publiquei na Digi uma crônica a respeito do então mais recente filme da Pixar, “UP – Altas aventuras”. Quem me conhece sabe que sou fã da empresa e dos seus produtos fílmicos, inclusive colecionando os DVDs. Republico aqui no blogue e recomendo a todos este e todos os demais filmes da Pixar.

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Pra cima!

Sou suspeito para comentar qualquer coisa a respeito das produções da Pixar. Há muito deixei de ser um mero admirador  e espectador satisfeito para me tornar aficcionado por tudo o que eles nos trazem ano após ano. A diversão levada a sério, com uma preocupação genuína em contar boas histórias, amparadas por ótimos roteiros, situações envolventes e um cuidado obsessivo com os detalhes, que certamente faz a diferença. Nenhuma ponta solta, nenhum acontecimento sem propósito, as referências, a trilha sonora como elemento essencial à narrativa, a capacidade de encantar (e a palavra é bem essa mesmo) crianças e adultos em igual medida são características inerentes a Procurando Nemo, Os Incríveis, Carros e todos os outros.

Ano passado, eles bateram um recorde de capricho ao realizarem um filme que chegou muito perto da perfeição, se é que isso é possível. Gosto de criar meu próprio ranking pessoal de melhor show, livro ou filme de cada ano. E em 2008, Wall-e, produção da Pixar, sobre o robozinho solitário que se apaixona e corre atrás de sua Eva, atingiu com folga o primeiro lugar desta criteriosa lista pessoal na categoria cinema. Arrisco dizer, após ter visto Wall-e que, os desenhos do estúdio são o casamento perfeito do entretenimento com a arte. E quando digo arte, faço-o com enorme respeito para o que essa palavra representa. É arte mesmo, no sentido mais sagrado do vocábulo, representando tudo aquilo que vale a pena ser lembrado, merecendo seu lugar na tão criteriosa posteridade. Filmes que são importantes hoje e que o tempo os tornará clássicos.

A primeira meia hora de Wall-e é antológica. São 30 minutos de um absoluto silêncio em que a trilha sonora elaborada por Peter Gabriel nos embala, mostrando a rotina do robozinho na Terra arrasada e abandonada. Longe de ser monótono, o efeito é, na verdade, hipnótico. Adultos, crianças e os que não temos certeza, todos!, de olhos arregalados, sem ação, sem palavras, diante da beleza das imagens, da maestria da fotografia, das sutis trapalhadas do simpático herói.

Essa semana assisti “UP”, a mais nova película da turma do Steve Jobs. E, jovens, eles conseguiram de novo! Mais um filmaço pra lista de produções imperdíveis da Pixar. A história do velhinho que viaja à América do Sul com balões (isso, isso, exatamente como aquele padre maluco quis fazer.) diverte, encanta, satisfaz, vale cada centímetro de celulose e cada minuto investidos pelos muitíssimos profissionais que devem ter trabalhado nela. A passagem em que se conta a vida do velhinho e de sua esposa com música e imagens é emocionante. E a história, redundância seja dita, está magistralmente bem contada.

O curta-metragem que antecede o filme também repete o desempenho de todos os seus antecessores. Um quê de genial e muito divertido. Além disso, a boa notícia fica por conta do próximo filme que vem por aí: Toy Story 3. Woody, Buzz e todos os brinquedos que nos trazem lembranças irresistíveis de nossas infâncias com suas deliciosas referências a quem foi criança naqueles confusos anos 80.

UP é outra demonstração de excelência técnica e artística desses criadores mágicos, bruxos do entretenimento. Segue à risca, o altíssimo padrão de qualidade ditado por Monstros S.A, Vida de Inseto e todos os outros que, por ventura, eu não tenha citado aqui. É ótimo para quem, como eu, adora desenhos animados ou boas histórias contadas na tela grande. O filme mantém a Pixar no mesmo patamar onde sempre esteve, bem acima dos concorrentes. Eles parecem levar a sério o jargão do patrulheiro estelar Buzz Lightear: “Ao infinito e além!”

Coluna da Digi # 63 – Realizadores: O filme heróico de Mary Land e Fábio de Silva.

setembro 16, 2010

No dia 07 de junho de 2009, publiquei na Digi uma crônica sobre o documentário feito pelos diretores Fábio De Silva e Mary Land Brito. Foi o início de uma série de crônicas intitulada “realizadores” nas quais costumo enaltecer o trabalho de pessoas que fazem bastante pela arte e pela cultura. O filme “Sangue do barro” foi premiado e agradou bastante gente. É bom elogiar quem merece. Valeu!

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Realizadores: O filme heróico de Mary Land e Fábio de Silva.

A coluna de hoje seria novamente sobre a Copa de 2014, dessa vez repercutindo opiniões abalizadas sobre o evento, seus possíveis impactos sobre o país, a economia e a população. Seria um texto esperançoso, falando bem mesmo, mostrando dados de pesquisas e estudos sérios que trazem um pouco de luz ao horizonte que se vislumbra.

Contudo, precisei mudar às pressas o tema da crônica de hoje por uma ótima e justíssima razão. Fui arrebatado pelo filme potiguar “Sangue no barro” dos diretores Fábio de Silva e Mary Land Brito. Isso mesmo, vocês não leram errado: eu utilizei as palavras “filme” e “potiguar” na mesma sentença e não estou delirando nem nada. É daqui, feita por conterrâneos de sensibilidade, talento e capacidade de realização comprovada.

Fábio e Mary Land foram contemplados pelo programa Doc.TV do Governo Federal que patrocina películas em todos os Estados brasileiros. A ideia deles era produzir um registro do massacre de Santo Antônio das Barreiras, distrito de São Gonçalo do Amarante, ocorrido em 1997. Na época, um até então pacato morador chamado Genildo Ferreira assassinou 14 pessoas. Ele teria premeditado uma vingança em razão de um boato de que seria homossexual.

O episódio é reconstituído pelos realizadores de maneira envolvente, através dos depoimentos de gente que viveu o fato. Reportagens do finado “Aqui Agora “ também são mostradas para relembrar as horas de tensão vivenciadas em todo o Estado. O resultado é um documentário dinâmico, bem costurado, estarrecedor e emocionante. A sala (abarrotada, por sinal) ficou perplexa, estupefata e acabou a sessão de alma lavada.

Os diretores souberam explorar muito bem os contornos do episódio e contar a história sem tomar partido. Nem o assassino foi mostrado como um monstro e nem foi beatificado tal qual um justiceiro romântico, equívoco muito comum em produções do gênero. As possíveis motivações do bandido, seu passado, traumas sofridos, as palavras de sua família, amigos e conhecidos se alternam com falas de parentes das vítimas que revelaram todo o drama inerente às perdas irreparáveis que sofreram e o desamparo que se seguiu ao trágico ocorrido. Em meio a tudo isso, reflexões sobre o papel da imprensa no episódio nos relembram a importância da mídia em um caso como este.

Entre as cenas marcantes do filme, está o momento em que a filha de Genildo finalmente consegue ler a carta de suicídio do pai e a hora em que o repórter pergunta à garotinha que viu a mãe ser assassinada na sua frente: “O que seu pai fez com sua mãe?”

No fim da sessão, enquanto subiam os créditos, logo após os efusivos aplausos, ouvia-se nitidamente o choro incontido de muitos espectadores. Emoção coletiva ante um filme que não deixa ninguém indiferente, seja pela primazia com que foi realizado, pelas palavras fortes e emocionates daquela gente simples ou pelo orgulho de o filme ter sido produzido por gente como Gustavo Lamartine e Gabriel Souto (trilha sonora original), Flávio Aquino (fotografia) e Keila Sena (produção). Gosto de ver os amigos fazendo bonito e concretizando algo tão significativo.

Por isso, convido todos a verem o filme e constatar, como eu fiz, que apesar de ser um documentário, “Sangue no Barro” tem dois grandes heróis: Fábio e Mary Land.

Coluna da Digi # 49 – Fazendo Justiça

julho 27, 2010

Hoje publico a crônica de número 49 da Digi, publicada em 29 de dezembro de 2008. Mais umas miudezas literárias pra consumo moderado. Aproveitem.

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Há poucas semanas, ao mencionar alguns dos melhores inícios de livros que li na vida, pequei por omissão, uma vez que não citei o antológico princípio de “A Lua vem da Ásia” de Walter Campos de Carvalho. Alertado nos comentários por Daniel Minchoni, tento, sem a intenção de camuflar o meu delito, fazer justiça neste mesmo espaço onde operei o erro.

“A Lua vem da Ásia” começa da seguinte forma:
“Aos 16 anos matei meu professor de lógica, invocando legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? –, logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte no Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

 Já no princípio da obra, Campos de Carvalho nos apresenta ao seu narrador/personagem, Astrogildo. Um homem que conta sua história de forma frenética e verborrágica, falando sem parar, encadeando histórias, fatos, lugares, acontecimentos, viagens e narrativas e demonstrando uma natureza pouco ortodoxa, excêntrica até. A trajetória inverossímil do personagem nos faz questionar se estamos diante de um herói improvável que vivenciou de tudo e esteve em todos os lugares possíveis, um narrador astuto e extremamente imaginativo, ou ainda um mentiroso inveterado, destilando sua farsa diante de leitores inocentes e de corações abertos.

Aos poucos, Campos de Carvalho vais nos conduzindo pelos caminhos que revelam a verdade do personagem e sua história, initerupta, acelerada e singular diverte, mas também se mostra dura a uma certa altura. Astrogildo tenta nos provar que a lua vem, de fato, da Ásia e sua narrativa que, a princípio aviva nossa curiosidade, acaba por nos causar uma leve angústia em nossa cumplicidade de leitor ao fugir da realidade lado-a-lado com o protagonista.

Ato 2.
Também faz pouco que indiquei aqui os 5 melhores livros que li em 2008. Bem, acabei por citar 5 porque queria utilizar o método “top 5” aplicado à exaustão pelo personagem de John Cussak em “Alta Fidelidade”. No entanto, teve um livro que li este ano que poderia tranquilamente figurar na lista sem fazer vergonha.

Trata-se do “Balé ralé” de Marcelino Freire. É um desses livros que surpreende a cada conto e nos faz querer ler o próximo avidamente, imediatamente, ontem, se possível for! Personagens com o rosto marcado por rugas de sofrimento, cicatrizes de desamor, incompreensão e abuso. Cada protagonista conta sua história, sua versão definitiva do que pode ser chamado de vida. Biografias do submundo, realidades periféricas de um país que todos vemos, mas nem sempre enxergamos. “Balé ralé” é surpreendente e encantador. Façam justiça vocês também: leiam!

 Ato 3.
“Wall-e”.
Não escrevi nada sobre filmes, pois 2008 não foi um bom ano para mim nesse sentido. Poucas foram as produções que me arrebataram, ao contrário de anos anteriores. Aliás, estaria sendo generoso se afirmasse que vi mais de um filme digno de registro este ano. Em todo caso, vi uma produção que causou o efeito hipnótico que podemos esperar de uma obra-prima cinematográfica: “Wall-e”. A saga do robozinho programado para fazer exatemente aquilo que se deve fazer é uma belíssima metáfora para o nosso mundo, a solidão e as pequenas coisas que fazem a vida valer a pena. No blogue de Márcio Nazianzeno queridobunker.wordpress.com, foram feitos alguns posts a respeito do filme. Quem quiser, pode acessar e buscar, pois foram escritos na época do lançamento da animação no cinema.

 Por hora, é isso. Feliz 2009!