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Olá, eu por aqui?

novembro 27, 2011

Faz tempo que não atualizo o blogue, né? Desculpem por isso. É que esse fim de ano tem sido bem corrido pra mim. Em outubro, realizamos a Ação Potiguar de Incentivo à Leitura e a coisa foi tão sensacional e intensa que, ao final, eu estava exausto e num nível de realização tão grande que precisava de um tempo para respirar e retomar as atividades blogueiras. Mas aí, veio a maratona de fim de ano do Comitê Criativo. Mil campanhas para ir ao ar e um volume imenso de trabalho na agência me mantiveram beeeeem ocupado nesses últimos 40 dias que, aliás, passaram voando.

Por isso, já retorno aqui com mais uma novidade: LANÇO LIVROS NOVOS NO DIA 08 DE DEZEMBRO E QUEM NÃO FOR PRO LANÇAMENTO É MULHER DO PADRE!

Serão os livros “Uns contos de Natal” e “Mano Celo de Bolso” (com histórias inéditas). Ambos serão vendidos juntos por apenas R$ 30. Super em conta, hein? 2 LIVROS POR 30 PILAS. Feitos especialmente para serem presenteados nas festinhas de fim de ano e nos amigos secretos mil.

As capas dos danados são essas aí embaixo:

 

A reunião de amigos será no Solar Bela Vista e todos os livros dos Jovens Escribas estarão em promoção especial. Todos por R$ 20. E ainda haverá descontos ainda maiores para quem comprar vários.

A partir desta segunda-feira, voltarei aqui constantemente para falar do lançamento dos livros.

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Também recomeça essa semana a publicação das crônicas do Novo Jornal. Nesta segunda, publico a coluna de número 34, “#GasolinaMaisBarataJá #Será?”

Depois, de terça até sexta tem mais. E será assim até o fim deste ano. De segunda a sexta haverá uma nova crônica publicada no Novo Jornal para a leitura de vocês, seus lindos!

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Aliás, preciso muito agradecer todos vocês, pois enquanto estive ausente, o Blogue alcançou a marca de 100.000 acessos. Muito bom! Mas isso merece uma postagem de agradecimento exclusiva. Ou seja, voltarei ao assunto.

FUI!

FUIALHO!

 

Coluna da Digi # 103 – Papa essa, Brasil!

fevereiro 8, 2011

Ah, a Copa de 90! Que celebraçãpo do futebol arte, não foi mesmo? Este texto foi concebido a partir da ideia do autor Thiago de Góes (“Contos Bregas”, “Lobas, Deusas e Ninfetas”) de escrever contos sobre os anos 80. Brinquei com o fato de que o ano de 1990 faz parte da década de 80, apesar de as pessoas em geral não considerarem isso. Foi então que resolvi escrever um texto cheio de ironia a respeito da pior Copa do Mundo de todos os tempos.

Abraços.

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Papa essa, Brasil!

Eu acho que agora vai! Depois de 20 anos chegou a hora de a gente papar essa Copa do mundo. E olhe que eu tenho uma intuição muito boa, boa mesmo. O Collor, por exemplo, começou mal, com essas medidas impopulares, mas pra fazer as coisas darem certo no Brasil, com esses tantos problemas, tem que ser radical mesmo. Um remédio, pra ser bom, tem que ser amargo. Senão remédio seria pizza, né não? Meu pai é que quase teve um treco quando tomaram a poupança dele, mas depois se recuperou, ou quase, e tirando os remédios pra pressão alta e depressão, está levando uma vida próxima do normal.

Mas, fanado de coisas boas, a seleção vai ganhar a Copa sim. Eu tenho fé nisso. Veja a Copa América do ano passado. Demos um baile, jogando bonito, vencendo os rivais. Inclusive a Argentina que vinha com toda aquela banca de campeã mundial. Dançaram bonito no Maracanã. O Lazaroni é aquela coisa, né? Estrategista, com boas peças na mão. Na defesa tem o Taffarel, o Jorginho, o Branco, Mozzer. Na frente tem o Careca, o Muller e ainda Bebeto, Romário e Renato no banco. Só não gosto muito do Dunga, sabe? Não acho que esse aí vá a lugar nenhum. Mas, enfim, se a gente for campeão, ele também vai estar na foto do tetra. Aliás, voltando ao Lazaroni, vocês viram como ele está bem como ator naquela propaganda da Fiat? Hehehe. Muito engraçado.

E vamos que vamos, ao ritmo da Lambada, conquistar a Itália. Por falar nisso, minha irmã virou professora de Lambada. Aquela ali está feita. Vai se dar muito bem na vida, pois não dou 5 anos para o ritmo paraense desbancar o samba como símbolo da música brasileira no mundo. Com certeza, não nenhuma moda. É uma profunda mudança de costumes e valores culturais. A Lambada veio pra ficar. Pode confiar.

E podem confiar em meus palpites futebolísticos também. A Holanda é a campeã europeia. Por isso acho que vai bem longe. Certamente vai fazer a final contra o Brasil. Não acredito nas outras seleções. Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental e Argentina não vão chegar longe dessa vez. E olhe que os donos da casa têm pinta de favoritos. Argentina e Alemanha também porque foram finalistas no México, mas nenhum deles vai ficar de pé se cruzar com Brasil ou Holanda.

Sabe qual é uma equipe que pode surpreender? O Uruguai. Em 86 Francescoli já deu um show e acredito que agora eles também vão arrebentar. É capaz de pintar numa semifinal. Outro time sul-americano que pode ser uma zebra é a Colômbia. Aquelas saídas do Higuita para driblar fora da área irritam os adversários a ponto de deixá-los sem ação. Ele ainda vai aprontar uma das suas nessa Copa. Alguns acham que é irresponsabilidade, mas eu e minha intuição sabemos que não vai acontecer nada de errado com os colombianos por causa daquilo. É capaz que, em uma dessas jogadas, ele dê início a uma jogada de gol na Colômbia.

O que ainda é triste é o fato de as equipes asiáticas e principalmente as africanas serem enormes sacos de pancada, meros coadjuvantes para que europeus e sul-americanos exibam seu talento. Já na abertura a gente vai ver. A Argentina vai dar uma surra em Camarões e vão se achar os favoritos absolutos. Ouvi dizer que Camarões tem um centroavante de 38 anos de idade. O nome dele é Roger Milla. Minha Nossa Senhora! O que é que esse senhor vai fazer numa Copa do Mundo? Tá na cara que vieram passar vergonha.

E aposto no artilheiro também. Vai ser o Van Basten. Seguro que vai. Ou talvez o Lineker ou algum brasileiro. Da Itália é que não vai ser. Aquele futebol feio, amarrado, sem criatividade. O pessoal tá dizendo que o Brasil está querendo jogar à italiana, mas… que nada! O Brasil vai testar esse esquema de 3 zagueiros, mas logo vai mostrar sua categoria, malemolência, futebol moleque e, esquemas italianos à parte, vamos vencer uma linda final contra a Holanda.

Enfim, quem quiser pode anotar o que eu estou dizendo. Sou muito bom em previsões e tudo o que eu disse vai acontecer. O Brasil vai ganhar a Copa de 90 depois de 20 anos, o Collor vai ser um grande presidente, a Lambada vai ser o ritmo essencialmente brasileiro, tomando o lugar do Samba e muitas outras coisas que a minha intuição está me dizendo. Podem confiar. Eu sou infalível!

A Cidade Morta – Parte Final

agosto 20, 2010

A prefeita ficou sabendo da epidemia, ou que pelo menos havia algo de muito estranho acontecendo, através do seu assessor pessoal. A maneira, porém que o braço direito da gestora escolheu para revelar a verdade não poderia ter sido pior. Ele entrou em seu gabinete quando ela estava sozinha. “Oi. Tenho que despachar uns assuntos com você.” Aproximou-se da mesa da prefeita e com as duas mãos em seu pescoço, apertou com força e suspendeu-a bem alto até sufocá-la. Ela não teve nem tempo hábil para pensar o porquê de aquilo estar acontecendo e logo por meio de seu seguidor mais fiel. Depois de morta, o assessor para todos os assuntos deixou o corpo inerte da prefeita sobre a mesa oficial. Estranhamente, o zumbi assessor não quis morder ou sequer devorar a antiga chefe. Contentou-se em matá-la, uma atitude incomum a sua natureza de morto caminhante, inexplicável até mesmo para os maiores especialistas no assunto.

A zona norte da cidade também já começava a sentir os efeitos da contaminação. Milhares de mortos viventes andavam pela Ponte Newtom Navarro ou pela Ponte de Igapó, no afã de compartilhar com os irmãos do hemisfério mais populoso da capital, o que eles tinham para lhes oferecer. A residência do Deputado populista símbolo da localidade foi transformada em trincheira por centenas de fiéis seguidores e eleitores do político. A Governadora estava desaparecida desde o fim da manhã. Havia sido vista pela última vez numa solenidade no Centro Administrativo ao lado do vice, que concorreria para o cargo majoritário do governo, e de alguns secretários. O ponto alto da festa foi quando o seu filho, que também era candidato nas eleições, adentrou o evento zumbificado e causou mais um escândalo para sua administração ao morder diversos dos presentes. Aliás, o filho da gestora, que era candidato a deputado estadual, já havia abocanhado bastante durante o governo da mamãe.

Uma tropa de altos mortos viventes, sarados, outrora saudáveis e atletas marchavam pela cidade, saídos todos da academia Athletica. Na frente Alex de Souza, o paciente zero da epidemia, ladeado pelo Deputado Federal e empresário dono da academia, muitos alunos e instrutores de musculação e ginástica, além da namorada do político e empresário, a artista Preta Gil. O zumbi Federal parecia ser o mais satisfeito com sua recém adquirida condição de morto. Era como se tivesse descoberto, após a morte, a verdadeira razão por que nascera. Observando-o mais atentamente, poderíamos até dizer que parecia mais inteligente morto do que quando em vida.

A noite caía na capital potiguar e a profecia da prima gostosa de Alex de Souza finalmente se cumprira. “Natal é uma cidade muito morta…” Os que não conseguiram fugir, ou haviam se convertido em mortos-vivos, ou em mortos-mortos, ou estavam em bunkers improvisados, muito bem ocultos, como um pequeno grupo que se refugiou no Gringos, bar Rocker de Ponta Negra, bairro turístico da cidade convertido em zona de prostituição pelas autoridades.

Os zumbis tinham que caminhar cada vez mais longe para conseguir boa carne humana, fresca e nutritiva. Um grupo de sobreviventes que fugia em um carro na BR 101 desde um supermercado da Avenida Roberto Freire parou no meio da pista por falta de gasolina. Agora, estavam ali, sujeitos aos ataques certos dos mortos que tomaram conta da cidade. Não demorou muito para eles serem completamente cercados por uma multidão.

De repente, ante o pânico generalizado daqueles 5 condenados, do desespero que a morte próxima, o fim iminente e inevitável, traziam, viram um grupo de mortos mais fortes abrirem caminho entre os demais. Eram os zumbis anabolizados da Athletica, o Deputado Zumbi entre eles, transformados em lacaios e escravos por Alex de Souza. Acontece que uma das pessoas que constituía aquele grupo fugitivo era, ninguém menos, que a prima, objeto de seu afeto, que faltou a sua missa de (suposta) despedida.

Ela reconheceu o primo e, em seus olhos brilhou uma centelha de esperança de escapar com vida daquela situação absurda. “Meu primo lindo.”, disse chorando. “Por favor, peça pra eles não machucarem a gente, peça pra eles não machucarem a gente.”, implorava de joelhos. Alex ergueu a prima e olhou diretamente em seus olhos. Parecia lembrar de algo, de reconhecer alguém do passado. Queria lhe dizer alguma coisa, exprimir um sentimento, um desejo, querer retomar o fluxo sanguíneo, que abandonou suas veias. A prima retribuía o olhar como quem se agarra a uma possibilidade única de escapar. Alex então, rápido e preciso, deu o bote. Matou a prima rapidamente, sem dor, enquanto a multidão em sua volta, avançava sobre os outros 4 do grupo sobrevivente.

Alex, após a morte, realizou finalmente o seu grande sonho, quando em vida. Comeu a prima e constatou o quanto, de fato, ela era gostosa. Não foi exatamente da maneira que ele havia imaginado, mas, a essa altura dos acontecimentos, não fazia lá muita diferença.

E verdade seja dita: Natal é mesmo uma cidade muito morta.

FIM

A Cidade Morta – Parte 9

agosto 19, 2010

Pelo Twitter, alguém deu a dica. “Acabo de matar meu pai. Tem que furar a kbça. Atirei nele c/ arpão.” Era um alento virtual aos vivos diante do tumulto real e geral. As lutas começaram a produzir as primeiras baixas zumbis, graças a essa nova informação propagada aos gritos pelos que fugiam em desabalada carreira pelas ruas, se escondiam em apartamentos ou refúgios improvisados, ou aglomeravam-se em lugares de difícil saída e flagrante desvantagem geográfica. Como no restaurante Buongustaio, por exemplo, uma ilha suspensa nos confins de Petrópolis, onde os empresários Paulo de Paula, Fernando Fernandes e uma infinidade de Patriotas, Flores, Gadelhas e afins viram-se cercados por centenas de homens, mulheres e crianças, todos gemendo e grunhindo, com os braços estendidos, arrastando-se para eles.

Alguns reconheceram ligeiramente os flanelinhas que costumavam guardar seus carros importados, sempre que estacionavam ali, algumas esposas vislumbraram vendedoras de lojas chiques localizadas próximas ao restaurante. Era como se aquelas camadas mais baixas da sociedade se insurgissem contra eles, cobrando finalmente uma fatia do bolo social, tudo o que eles temiam, que os pobres se organizassem contra o monopólio do dinheiro. A verdade é que, enquanto conversavam animadamente a espera do almoço, os comensais perderam todo o espetáculo dantesco que ocorria a sua volta. Agora, era tarde. Os zumbificados que sempre tiveram suas vidas exploradas pelos detentores do capital vinham agora virar o jogo, extraindo eles próprios as vidas dos corpos bem alimentados e fartos dos clientes do Buongustaio.

A esta altura, o Midway Mall, maior centro de compras da cidade, estava um caos. Mas nenhuma metamorfose ou experiência de ida-e-volta ao mundo do além foi registrada. É que o dia-a-dia do lugar era marcado pela loucura frenética de uma população sem opções que acorria às vitrines das lojas à guisa de entretenimento, que sucumbia aos apelos fáceis do capitalismo rasteiro para compensar a falta de cultura e educação. Também havia os que se refugiavam nos ar-refrigerados e praças de alimentação constantemente vigiadas dos centros comerciais, da rua lá fora, cada vez mais ameaçadora nesta Natal de sequestros relâmpagos e assaltos a mão armada. Quando a turba alucinada e sem vida invadiu o shopping numa horda numerosa, muitos pensaram se tratar de uma ação de marketing, como o lançamento de uma nova loja âncora ou ainda uma dessas mobilizações ruidosas convocadas pela internet para chamar a atenção promovidas por adolescentes com os hormônios em erupção. O fato é que logo, os zumbis vivos que se arrastavem pelo Midway se converteram em zumbis mais autênticos dada a ação dos muitos que entravam para lhes enfiar os dentes nos couros, devorando bem mais que os sanduíches do Pittsburg ou as carnes da Montanna Grill.

CONTINUA. AMANHÃ: PARTE FINAL.

A Cidade Morta – Parte 8

agosto 19, 2010

No interior do Estado também ocorreram muitas mortes quando as prefeituras decidiram armar barricadas nas entradas das cidades com ordem de manterem o vírus fora dos perímetros urbanos. Com isso, carros foram metralhados na entrada de Mossoró, Caicó, Currais Novos e principais interiores do RN. Em algumas cidades correram boatos que davam conta da origem da “raiva humana”, como vinha sendo chamada. Diziam que era uma derivação da hidrofobia comum em cães. Com isso, pessoas que criavam cachorros ou que haviam tido contato com esses animais passaram a ser assassinadas por seus vizinhos, amigos e até familiares em toda parte. A doença logo ganhou o apelido de “A gripe do cão” com mais de um sentido. Por isso, claro, os cachorros também foram dizimados.

O primeiro vereador a se transformar em zumbi foi justamente o primeiro na contagem de votos nas eleições anteriores. O apresentador Paulo Wagner discursava em plenário quando um guarda municipal maneta entrou e correu para ele. Ainda teve tempo de dizer “É a oposição raivosa atentando contra a minha idoneidade e moral! Este homem está me agredindo! AI, DANOU UMA DENTADA NO MEU BUCHO!” Os engravatados colegas, aspones, jornalistas e curiosos viram de seus assentos o guarda municipal zumbificado arrancar as tripas do político. Cena dura demais até para os mais destemidos como a vereadora Sargento Regina. A desordem instaurada não foi distinta de nenhum outro ambiente ao viver semelhante situação. Os políticos foram se dirigindo à saída tomados de horror, mas esta já trazia plenário adentro, toda uma turba de mortos caminhantes, ansiosos por provarem das carnes, órgãos e vísceras dos representantes do povo, sentir um pouco do gostinho de seu sangue, justo eles que eram acostumados a terem a atitude inversa, vivendo dos suores do povo que agora os comia ou transformava em neo-mortos.

Os zumbis veradores Júlio Protásio, Adão Eridan e Dickson Nasser talvez disputassem a liderança daquela nova comunidade da qual fariam parte. Porém, não tiveram sorte (sorte?) de semi-sobreviver aos ataques da população que, carente já em vida, tornou-se ainda mais necessitada de boas quantidades de carne que aplacassem sua fome, agora como mortos-vivos. Com isso, estes estimados políticos foram devorados por completo.

Ao verem aquele jovem fantasiado de monstro, as recepcionistas pensaram tratar-se de uma estátua viva que havia trocado o prateado noturno, por uma indumentária que pudesse usar durante o dia, numa performance estática em troca de algumas moedas. Acharam a iniciativa interessante, apesar do extremo mau gosto, pois deveria ter escolhido uma fantasia esteticamente mais agradável. Alex entrou na academia e dirigiu-se direto à recepção, atraído pelas duas belas garotas que ali trabalhavam. Parou diante de uma delas e, ao ouvir um elogio ao “realista que estava” sua fantasia, desferiu-lhe um beijo de língua. Desesperada por desvencilhar-se da atitude sedutora de micareta, a recepcionista se sacudia toda. Até porque, a decrepitude no hálito do morto já se evidenciava no odor sufocante. Foi Alex, porém, que interrompeu o beijo. Voltou-se para trás, levando consigo a língua da recepcionista que, não encontrou nenhuma solução melhor que não fosse desmaiar de dor. A segunda recepcionista também desmaiou diante da visão da cena. Do alto da escada da academia descia um professor de Jiu-jitsu muito alto e forte. Este atleta, por um mero acaso, namorava a garota que acabara de ser despojada de sua língua por Alex. Impressionado com a cena, desceu para espancar o zumbi, pois era mais urgente fazê-lo que socorrer sua consorte. Enquanto ele aplicava um golpe, uma chave no pesoço com o intuito de imobilizar e desmaiar o oponente, este lhe mordeu o braço. Logo, o professor subia novamente as escadas rumo ao pátio de exercícios da academia, acompanhado de Alex. Aquelas dezenas de pessoas se exercitando fariam ambos salivar, caso ainda dispusessem de alguma secreção corpórea. Como um cachorro diante de um frango assando e rodopiando, eles contemplaram por alguns segundos as meninas que corriam nas esteiras enfileiradas. Depois, cambalearam a passos de zumbi para aproveitarem o banquete.

A Cidade Morta – Parte 7

agosto 17, 2010

Repetindo mecanicamente gestos que realizava em vida, como é corrente entre os zumbis, a mãe se dirigiu ao Banco do Brasil da Afonso Pena. Entrou sem avançar contra ninguém. Foi direto a um dos caixas eletrônicos que encontrou desocupado e, ali diante do visor, parecia ser invadida por reminiscências de hábitos costumeiros, instintivamente posicionada diante da máquina, mas sem saber o que deveria fazer. Logo, alguém argumentou que “aquela senhora furou a fila”. Os protestos se multiplicaram e uma funcionária de colete amarelo foi pedir-lhe gentilmente que cedesse lugar para as pessoas que esperavam ordeiramente e de maneira adequada. No entanto, para supremo infortúnio da estagiária, a cliente investiu, mas não no banco, em suas ancas, causando alvoroço no recinto e a reação do segurança que, de arma em punho veio em socorro da funcionária mordida.

Os médicos que saíam dos dois hospitais, com dentes à mostra em sorrisos aterradores de psicopatas, olhos sem vida a mirar o vazio e atitudes firmes de presos amotinados contra todo e qualquer ser humano que cruzasse o seu caminho, eram apenas alguns dos muitíssimos tipos bizarros que surgiam de suas portas escancaradas para ganhar as ruas de Natal, espalhando medo, sangue, terror e morte. As primeiras equipes de TV que tentaram registrar o evento ao vivo foram devoradas diante dos olhos incrédulos de telespectadores de todo o Estado. Com isso, a notícia se espalhou um pouco antes da epidemia que também seguia a galope de jumento fugindo de cachorro brabo.

As pessoas dos mais distantes grotões da cidade passaram a fugir imediatamente. O caos tomou conta de tudo. Nas ruas em engarrafamento contínuo simplesmente pararam de circular automóveis. O número de acidentes nos cruzamentos, sob semáforos que ninguém mais respeitava, cresceu assustadoramente. As brigas e conflitos provocados pelas batidas de trânsito, tentativas de fuga e o próprio desespero típico de uma situação capital como aquela, cobravam também os seus óbitos. Muitos mortos por golpes de armas improvisadas, artefatos dos mais diversos convertidos em instrumentos de batalha. Atropelamentos, saques, gente pisoteada, acontecia de tudo na, outrora ordeira, cidade do sol.

Alguns com mais sorte, por estarem próximos dos limites da cidade ou por se encontrarem em trânsito, ao ouvirem as cataclísmicas notícias que chegavam pelo rádio ou TV, conseguiram se evadir rapidamente, numa diáspora revisitada, holocausto reloaded, alerta de tsunami. Todos só queriam fugir do apocalipse que se levantava e os perseguia, rente a seus calcanhares. Um cenário de Orson Welles se apoderou da cidade e arredores. Uma “Guerra dos Mundos” de HG Wells, narrada pelo cultuado cineasta, revivida agora no mais improvável dos cenários, tão distante do Central Park e próximo do Bosque dos Namorados. Por átimos de segundo, pensavam nos entes queridos e amigos do peito, deixados pra trás, pensamentos de pesar logo sobrepujados pela impotência justificadora de qualquer covardia. Sair dali era sinônimo de permanecer com vida. Muitos fugiam também a pé. Um sem número de atropelamentos fatais puderam ser vislumbrados nas BRs. Andarilhos que atravessavam na frente dos carros, implorando uma carona redentora, eram atingidos em cheio, sem nenhuma hesitação, pelos condutores, temerosos que eles fossem os infectados anunciados pelo rádio, que espalhavam uma espécie de “raiva” pelos bairros natalenses. De repente, um locutor em pânico começou a berrar ao vivo: “Saia daqui! SAIA! SAIA DAQUI! AAAAAAAAAH!!!!” A transmissão saiu do ar.

CONTINUA

A Cidade Morta – Parte 6

agosto 16, 2010

A mãe partiu em direção à Avenida Afonso Pena e, ao chegar na esquina onde se localiza o Hospital Papi foi abordada por um médico que chegava para dar plantão. “Minha Nossa! A senhora está bem? Alguém me ajude a levar essa mulher pra dentro. Ela está ferida.”, pediu ele, impressionado com o rosto encharcado de sangue e um nariz pendurado. As pessoas já começavam a aglomerar-se em torno deles, quando a defunta deformada mordeu, com toda a força de seu potente maxilar, num golpe profundo de animal selvagem, o doutor ali mesmo na calçada. Ele gritou um grito de morte, sem saber que o era de fato, e a mulher sem vida era segura pela multidão, enquanto mastigava um generoso naco do braço do médico. Ele chorava baixo, encostado ao muro, amparado por outros tanto transeuntes e funcionários do hospital que saíram em seu socorro. A mãe investia contra os que a continham, estes cada vez mais certos que seu caso era para a Casa de Saúde Natal ou para o Hospital Colônia, conhecidas instituições para pacientes mentais, e não para o PAPI. Um dos homens que tentava contê-la, já eram 6, teve um dedo arrancado e saiu deseperado direto para a emergência do Natal Hospital Center, vizinho ao PAPI. Os outros se surpreendiam com a força de bicho, fúria de besta ferida, demonstrados por aquela senhora. Com raiva quase canina, ela desferiu mais um par de mordidas em seus algozes que agora recebiam a ajuda de mais dois homens fortes, policiais militares que passavam pelo local.

O médico que era levado para dentro por um casal de enfermeiros, curvou-se em direção ao ouvido da moça que o sustentava. Parecia que iria lhe fazer um pedido, uma súplica, falando baixo, sussurrando, utilizando as poucas forças que a copiosa hemorragia não fizera esvair-se de seu corpo convulso. Ela aproximou a cabeça para ouvir o que ele tinha a dizer, mas só sentiu uma dor fina e o morno líquido rubro deslizar pelo lado do rosto quando sua orelha direita foi arrancada. Pânico na sala de espera da emergência. O doutor, diante de uma plateia atônita e paralisada pelo medo, pela surpresa e pela mórbida curiosidade, avançava para o maior número de vítimas possível. Logo a enfermeira “monorelha” se juntou a ele em sua fome de zumbi nova. Nunca o PAPI viu tanto sangue.

O pai saiu da Santa Terezinha e pela porta da frente, caminhando chegou à rua Campos Sales sem conseguir morder ninguém. Devido ao seu aspecto deplorável de morto, os moradores de Petrópolis/Tirol desviavam do seu caminho, por confundi-lo com algo, para eles, muito pior: um mendigo. Em seus passos errantes, porém, coseguiu chegar a um edifício de paredes brancas. Um guarda municipal o abordou, mais um que o confundia com um despossuído. “O senhor não pode entrar agora pra pedir. Os vereadores estão em sessão. Volte umas 11h, quando acaba o expediente deles e…” A mão do sentinela repousada sobre o peito do pai pareceu-lhe apetitosa demais para não receber uma mordida, convertendo-se em sua primeira refeição de morto. Enquanto tinha suas falanges, falanginhas e falangetas, carpo, metacarpo e tudo mais sendo avidamente deglutidos pelo pseudo-mendigo, o vigilante desferia poderosos golpes em sua cabeça com a mão que lhe restava, o que não parecia produzir muito efeito a não ser o recuou provisório do farrapo faminto e semi-humano. Num puxavanco vigoroso, porém, o pai conseguiu arrancar a mão do guarda a partir do punho e saiu mastigando seu lanche matinal. Aquele, desesperado, gritava correndo para dentro da Câmara Municipal.

Alex foi mais feliz em sua caminhada, tendo mordido várias vítimas tão logo saiu da Santa Teresinha e se deparou com os populares que iam, vinham ou “pastoravam” carros na Rodrigues Alves. Pacientes ou profissionais das clínicas, clientes dos restaurantes que buscavam suas marmitas para levar a casa, pedintes mil. O cardápio era variado e sua voracidade típica de um jovem zumbi faminto que, empolgado com o fato novo e mantendo intactos a energia e impertinência próprias dos 20 anos, mostrava-se ensandecido, não podendo ver uma jugular à mostra ou rosto apavorado que arremetia seus dentes e tirava bifes inteiros dos pedestres que tinham a falta de sorte suprema de cruzar o seu caminho.

Distanciando-se um quarteirão da igreja de onde se levantara e saíra à rua, parou diante de um prédio, vizinho ao América Futebol Clube. Um edifício envidraçado, repleto de pessoas com suculentos nacos de carne fresca em exibição, correndo em esteiras, pedalando em bicicletas ergométricas, forçando os músculos em máquinas de roldanas. Era a Academia Athletica.

Monsenhor Lucas caminhou pela parte central da paróquia de Santa Terezinha. Logo, cruzou com uma beata que passava e lhe puxou pela mão. “Monsenhor! Não sabia que a missa de corpo presente do rapaz ia durar tão pouco. Venha! Vamos participar do curso de padrinhos que está acontecendo no anexo. O padre Marlos vai ficar feliz com sua presença.”

“Monsenhor, seja bem-vindo! Estamos agora falando dos valores cristãos que o padrinho deve transmitir ao seu afilhado até o fim da vida. O senhor gostaria de falar alguma coisa para os nossos alunos? Palmas para o Monsenhor Lucas!” As palmas foram ouvidas imediatamente, em resposta aos pedidos do professor Padre Marlos. Tanto que, quando ele se fundiu com o Monsenhor num apertado abraço de urso, mexendo freneticamente a mão direita em espasmos verticais, os assistentes pensaram que se tratava de um pedido para subirem o tom e a intensidade da homenagem. Por isso bateram palmas com ainda mais força e rapidez. A beata então, comovida com o vigoroso gesto de afeto dos dois sacerdotes, gritou para o público: “Viva o Monsenhor Lucas!” E todos responderam: “Viva!” Novamente: “Viva o Monsenhor Lucas!” “Viva!” “Viva o Monsenh…!” Neste momento ele deixou cair o corpo já sem vida do Padre Marlos Apyus e com o sangue, que não era de Cristo, escorrendo pela batina, rangeu os dentes para os pretensos padrinhos. Um deles, menos atento e de raciocínio pouco prodigioso, ainda respondeu retardatário: “Viva!” Aquela saudação, porém, não poderia ser mais inadequada.

CONTINUA

A Cidade Morta – Parte 5

agosto 15, 2010

– Alex de Souza era um rapaz lutador. Ainda muito jovem partiu para um país humilde, para ajudar um povo sofrido que tanto precisava de ajuda…

7h30 da manhã. Cheiro de flores. Choro de alguns. O som inconfundível de muitos narizes fungando simultaneamente.

– …ele não se negou a ajudar. Dedicou dois anos de sua juventude para prestar auxílio a uma nação pobre, longe dos amigos, da família, de tantas pessoas queridas que enchem esta igreja na mesma medida em que o próprio Alex sempre encheu seus corações de alegria…

Na primeira fila, os pais desconsolados, tentavam entender o porquê. Se ele havia sobrevivido à instabilidade de um país dividido, aos perigos da guerrilha, como é que poderia ter morrido logo de uma febre? E depois de já ter voltado pra casa. Desde que o doutor do hospital militar ligara para a família com a notícia, todos custavam a crer no inusitado da situação. Parecia um sonho ruim. Ou uma piada de humor negro, de péssimo gosto e baixíssimo calão. A matriz da paróquia de Santa Terezinha, localizada entre os bairros de Tirol e Petrópolis reunia todas as pessoas que costumavam sentar-se juntas no alpendre da avó de Alex na casa de Zumbi. Ou quase todas. A prima, por alguma razão, não comparecera. Há muito se esquecera do primo por quem tinha uma boa amizade quando adolescente. Por isso a sua morte não lhe causou impacto forte o bastante para que ela acorresse à missa de corpo presente. Daria “uma passadinha” no velório porque “família é família”, mas nada de fortes emoções e sentimentos à flor da pele. Além disso, ela trabalhava num supermercado na Avenida Engenheiro Roberto Freire e ficava um pouco fora de mão se deslocar até a região central da cidade.

O padre continuava seu sermão:

-… ele se levantou e partiu em socorro dos mais necessitados, pois Alex sempre se erguia diante das injustiças.

Qual não foi a supresa de todos os presentes quando Alex levantou-se, mas não diante de nenhuma injustiça, e sim dos olhos de todos. Surpresa, sobressaltos, terror, burburinho. Um e outro grito, além de alguns desmaios súbitos. Monsenhor Lucas emudeceu. Chegou perto do corpo para certificar-se de que aquilo estava mesmo acontecendo. Alex abriu os olhos. O padre anunciou a boa nova: “É UM MILAGRE!” Foram suas últimas palavras antes que o cadáver revivido pulasse sobre ele e investisse contra sua jugular. O sangue jorrou e a mãe de Alex correu em direção ao filho. “Menino, saia já daí! Deixe o Monsenhor em paz!” Alex interrompeu o ataque parou diante da mãe e pareceu estar reconhecendo alguém remotamente familiar. “Meu filho.”, disse ela, chorando e o abraçou. O pai também se aproximava para participar daquele abraço quando o celebrante da missa, ágil como um ginasta, levantou-se do chão e, com a batina, ora branca, agora tingida de vermelho, surgiu em seu caminho. “Pa-pa-padre? O senhor está bem?”

Uma forte mordida em seu ombro direito foi o atestado de boa saúde do sacerdote. A mãe, ao vislumbrar o marido sendo atacado pelo Monsenhor, numa clara represália ao que o filho do casal fez com ele havia pouco, partiu indignada com a bolsa em punho. “Que coisa feia, Mosenhor Lucas! Um homem de Deus não pode guardar rancor no coração. Tem que perdoar! Solta o meu marido!” Quando se aproximou, foi o próprio marido que, livrando-se do padre, mordeu o nariz da mulher. Ela urrou de dor, mas logo se entregou em silenciosa letargia. Os 4 permaneceram na nave da capela por mais alguns minutos, como se assimilando sua nova condição. Todos os presentes à cerimônia se haviam evadido daquele lugar tão rápido quanto puderam ante os últimos sucessos. Aquele templo, outrora sagrado, agora se tornara maldito. Os 4 personagens restantes (um padre, um jovem militar e o casal que representava o seio de uma família) tomaram uma atitude anarquista: separaram-se e saíram da igreja, cada um por uma porta, para saciarem sua fome. Era, mais uma vez a história se repetindo: “Deus, Pátria e Família, marchando pela liberdade”, ou pelo menos marchando pra matar a fome. Só que dessa vez, subversivamente, foi cada um marchando por si.

A Cidade Morta – Parte 4

agosto 13, 2010

Quando entraram no carro do guia e intérprete, Alex revelou parcialmente o que lhe ocorrera. “Na correria lá de dentro, acabei me machucando. Acho que esbarrei em uma garrafa quebrada ou em uns pregos, sei lá.” “Deixa eu ver. Ah, não é nada, garoto. Foi só um cortezinho. Toca daqui logo, François que a gente tem que levar o parceiro pra fazer um curativo.”.

Os 3 soldados na enfermaria comentavam a aventura. “Caraca, maluco! Sinistro, aê!” O médico apenas passava um antisséptico no local da mordida e fazia um curativo bem simples. Perguntou pra ele quem lhe havia mordido. “Mordida? Você não disse que tinha cortado num vidro?” Alex argumentou que só sentiu a dor no meio do tumulto e nem teve tempo de ver o que tinha acontecido de verdade. Os colegas ficaram satisfeitos com a resposta. Ao chegar no alojamento, decidiu não dormir. Arrumaria suas coisas imediatamente e, no dia seguinte, tentaria embarcar no primeiro vôo que levasse militares de volta pro Brasil. Mesmo que seu horário já estivesse marcado para as 17h, tinha boas relações com um coronel que era seu conterrâneo e sabia que poderia conseguir uma vaga no avião das 6h da manhã.

Numa missão diplomática de urgência, conseguiu falar com o coronel que, pra sua sorte, só dormia depois da 1h da madrugada. Este preparou um ofício que o autorizava a embarcar na aeronave de logo mais. “Sempre sobram algumas vagas para casos como estes, de pedidos das autoridades. Leve este documento que ele garante sua viagem.” Alex ficou tão feliz que foi direto para o hangar de saída do avião. Já estava impecavelmente fardado e com sua bolsa a tiracolo. Não queria perder o vôo por nada neste mundo. Às 5h da madrugada, já havia entrado e se acomodado na aeronave e pontualmente às 6h, levantou vôo com o resto da tripulação que comemorou a partida como um gol do time do coração. O nervosismo, a tensão daquelas últimas horas, os sustos passados no ritual vudu, tudo aquilo parecia estar tendo um certo efeito sobre ele. Sentia-se febril e um pouco fraco até.

 ***

 A enfermeira tentava mais uma vez obter sucesso:

– Alô. Alô. Você pode me ouvir?

– Hã?! O que?

– Ele acordou! Doutor, o paciente acordou.

– …

– Oi, você tá entendendo o que eu digo?

Alex fez sinal de positivo.

– Você está dormindo há 2 dias. Desmaiou ainda no caminho para o Brasil e tem uma febre muito forte. Não conseguimos identificar o que é, mas seus sinais vitais estão oscilando muito. Você se sente bem?

– Hã? Sim…

– É um caso estranho o seu. Vamos ter que refazer os exames porque… Enfermeira! Venha cá! Os batimentos estão diminuindo de novo! Ele vai desmaiar.

 ***

A Cidade Morta – Parte 3

agosto 12, 2010

Os 3 recrutas saíram da base um pouco depois das 8. Seguiram de carona com o François, intérprete da ONU, que havia se tornado amigo do Carioca e aceitou ciceroneá-los num ambiente que raramente recebia estrangeiros. Eles iriam testemunhar um ritual de magia negra realizado por um dos principais bokors (feiticeiro vudu) do país. Ele traria de volta à vida um jovem trabalhador rural morto há menos de 24 horas. François explicava em português algumas peculiaridades sobre as crenças do país. “Posso assegurar aos senhores que o que veremos esta noite não tem nada a ver com supertisção nem com qualquer cerimonial religioso ou tradições populares. É uma prática real, demoníaca, mas real. E, no Haiti, práticas como esta são mais frequentes do que se possa imaginar.” Um suspiro de hesitação foi ouvido vindo do banco de trás do automóvel. O Carioca riu excitado.

O local do ritual ficava numa zona remota de Porto Príncipe, num bairro ainda mais pobre que as zonas centrais da capital. O “templo”, uma espécie de quintal de uma casa paupérrima estava cheio de expectadores com olhos tão atentos ao sacerdote (bokor) que nem se deram conta da presença estrangeira a observar tudo ali. No centro do terreno, uma mesa comprida. Fogueiras e batuques remetiam a velhos rituais de origem africana, como pode ser ouvido nos terreiros de macumba brasileiros. De repente, ao som de batidas cadenciadas, entram quatro homens negros e fortes, carregando uma maca com um corpo coberto por um lençol. Eles o depositam na mesa central e retiram o lençol. É um homem sem vida, não resta dúvida.

O bokor se aproximou do cadáver e começou a dizer palavras supostamente mágicas em um idioma indecifrável, num transe convincente. “É a língua dos mortos.”, disse o “guia” do grupo. Após proferir solenemente as palavras, ofeiticeiro abriu um frasco e jogou um líquido, algo como uma poção mágica no morto. Depois disso, fez silêncio. Ele e o público. Os tambores e o vento. Nada se atrevia a manifestar-se. Todos prendiam a respiração. Poderia ser ouvida a queda de um lenço na areia. O bokor retirou de um dos bolsos um saco e derramou sobre a palma da mão seu conteúdo, um pó branco amarelado. O Carioca cochichou com os amigos sorrindo: “Vambora que é antraz.” O feiticeiro fechou a mão e ficou esperando algo. O morto permanecia, obviamente, imóvel.

De repente, gritos, choros, interjeições de espanto das mais variadas. O homem, deitado na mesa, levantou-se. Os 3 soldados brasileiros empalideceram. “O que é isso, maluco?”, gritou o Carioca. O feiticeiro começou a entoar um cântico, novamente em transe e se preparava para jogar o pó no ex-morto quando foi mordido no pulso por ele. As muitas testemunhas estarrecidas entraram em pânico. Muita correria e barulho. Tumulto. Pela reação dos haitianos, não foi difícil concluir que algo não havia saído como esperado.

Os negros fortes que trouxeram o cadáver se precipitaram em sua direção, armados com espingardas e atiraram na cabeça. O ex-morto estava novamente 100% morto. Ouvia-se ao longe os berros do feiticeiro. “Tuer moi! Tuer moi!”, que significa “Mate-me” em francês. No empurra-empurra, Alex foi parar no meio do terreiro. Viu de longe o guia e seus dois colegas se juntarem para fugir dali. Eles olhavam desesperados em volta, à sua procura. Um pavor quase de morte o assaltou ao ser seguro pelas calças. Olhou pra baixo e viu ninguém menos que o bokor de joelhos implorando: “Me mate! Me mate!” Disse isso, revirou os olhos e caiu para trás. Alex olhou em direção dos amigos e se preparou para correr quando sentiu uma dor dilacerante no antebraço esquerdo. O bruxo o havia mordido. Deu um soco no bizarro personagem, desvencilhou-se dele e disparou ao encontro dos companheiros. “Onde você tava, maluco! Vambora daqui! Tá sinistro! A chapa esquentou de vez! Ih, ó lá! Tão matando o macumbeiro!” Os homens negros e parrudos davam tiros na cabeça do sacerdote que há bem pouco tempo comandava a cerimônia.

A Cidade Morta – Parte 2

agosto 11, 2010

O freio do caminhão resgatou-lhe de seus devaneios e o trouxe de volta ao presente caribenho. Ele que viajava olhando fixamente a carta da prima, guardou os papéis num bolso e desceu com o resto do pelotão. “Lembrando da namorada? Daqui a uns dias, você vai estar lá de novo e ela vai cavalgar sobre você!”, disse o Carioca e gargalhou. Pensou em reprimir a falta de respeito do companheiro para com o objeto de seu afeto, mas logo a imagem da prima cavalgando sobre ele, gritando palavras obscenas surgiram na mente, aplacando qualquer reação firme e provocando um sorriso satisfeito. Chegou mesmo a ficar grato ao colega de tropa por proporcionar visão tão alentadora.

E mais feliz ainda ao ser recordado novamente que dentro de dois dias chegaria a Natal. Seu trabalho no Haiti haveria terminado. Ele dormiria aquela noite, despertaria no dia seguinte para arrumar suas coisas, se despedir dos amigos e partir. Após dois anos de trabalho duro, tensão permanente e toda a estupidez inerente à vida militar, voltaria para casa. Mas antes, o Carioca tinha uma proposta:

 – Você não pode ir embora do Haiti sem uma despedida.

– Hômi, me deixe quieto!

– É sério! Uma parada diferente. Um ritual típico local. Uma cerimônia vudu.

– Afe, Maria! Você tá ficando é doido!

– Vâmu lá, rapá! Sacar um pouco da cultura local. Passou dois anos só indo do quartel pra rua, da rua pro quartel. Não viu porra nenhuma! Pelo menos na última noite, poderia ver umas paradas novas.

– E vudu lá é cultura, hômi de Deus!

– Cara, 90% dos haitianos são católicos, mas 110% são vudus. Se isso não for a cultura do país, não sei mais o que é.

– Quem vai?

– Eu, você e o Edu. O François vai dar um bonde pra gente.

– Tá bom. Depois do jantar já vou estar de folga. Aí a gente vai.

– Ah, mulheque! É assim que se fala, meu quiriado! Formou, então. E hoje, maluco, vai ter um ritual ali que é Copa do Mundo, tá sabendo. Eles vão ressucitar um figura que já morreu. Vão transformar o presunto em zumbi.

– Ai, meu Deus! Dá pra desistir ainda?

– Ah, não vai peidar não, vacilão! Deu a palavra, então já era.

CONTINUA

A Cidade Morta – Parte 1

agosto 10, 2010

A carta da sua prima não poderia ser mais desanimadora. “Por aqui, tudo na mesma. Nada de novo. Natal é uma cidade muito morta, você sabe.” Alex, ou soldado De Souza, leu e ficou pensativo por um instante. Pensou numa frase feita, um lugar comum, aquela história de só se dar valor a uma coisa depois que a gente perde. Sua prima havia dito na carta que “queria estar no lugar dele, conhecendo o mundo, vivendo aventuras como viajar pro Haiti e trabalhar como soldado de paz da ONU (Que orgulho!). E o Haiti é muito Caribe, sabe? Muito música do Caetano. Com certeza estava sendo uma experiência e tanto.”

Ah, se ela soubesse que ele trocaria toda aquela “experiência e tanto” por um fim de semana em Natal, uma caída no mar em Ponta Negra com sua prancha Radical, uma reunião em família na casa de veraneio da avó, na praia de Zumbi, em noite de lua cheia com todo mundo junto na varanda.

A verdade é que a sensação de adrenalina, o espírito de aventura e o friozinho na barriga de emoção que costumava sentir no início, assim que desembarcou em Porto Príncipe, nas primeiras missões externas, o acompanharam por algum tempo, mas logo se esvaíram. Dispersaram-se em meio a uma infinidade de protocolos militares e burocracias oficiais que faziam sua rotina ser mais monótona que a da cidade interiorana de sua família materna, onde a única diversão era levar as cadeiras para as calçadas com a urgência de quem assiste um reality show de rostos conhecidos.

Outra coisa que o deprimia na capital haitiana era a miséria. Não era uma miséria envergonhada, disfarçada, escondida e acanhada como em Natal. Lá não havia prédios luxuosos tapando o morro de Mãe Luíza. Era uma pobreza orgulhosa da sua extrema carência, extravagante, exibicionista até, com urgência de se mostrar, de exigir um olhar, de impedir qualquer indício de indiferença. Tanto sofrimento e falta de perspectiva na vida daquelas pessoas se tornavam tão opressores que, por mais que permanecesse mil anos por ali, jamais se acostumaria.

Sua sorte grande era que se avizinhava a hora de partir. Ele relia a carta da prima, recebida havia quase dois anos, quando fazia apenas 2 meses que chegara ao país, e que funcionava como um talismã, uma distração, um consolo, um recurso para os piores momentos, ícone de toda a esperança que ele tinha de sair dali um dia, símbolo dos prazeres que encontraria na volta pra casa, da ambição acalentada desde a puberdade de comer a prima, de persuadi-la a deitar-se com ele, de penetrá-la na mesma cama onde passaram tantas tardes conversando sobre a vida, sobre sua falta de opções para o futuro e a vontade dela de sair daquele inferno de cidade, cheia de pessoas fúteis, provincianas, de cabeça pequena. Ele ouvia suas lamentações, mas muitas vezes estava concentrado no contorno dos seios que a blusinha justa permitia vislumbrar. Ficava mirando a proeminência dos biquinhos firmes que tanto se esforçavam em perfurar a malha. Imaginava-se lambendo os mamilos e ir descendo, descendo, até que chegasse à…  “E você?” “Hã?!” “E você? Não pensa em sair de Natal, esse cu do Brasil?”

Ele não sabia. Não sabia o que faria de sua vida. Não sabia se faria vestibular para Engenharia Mecânica ou se tentaria o exército. Na verdade, nesses momentos em que ficava tão junto da prima, só lhe restavam duas certezas: estava apaixonado pela prima e seu pau estava a ponto de explodir.

CONTINUA

Cantos das Cidades 10 – Aquela Mulher (PB)

novembro 25, 2009

João Pessoa

João Pessoa é a capital mais próxima de Natal, não só na geografia, mas também na maneira de ser das pessoas e em suas características gerais. Por isso queria escrever um conto especial para a cidade. Quando decidia se o melhor seria homenagear Zé Ramalho ou a banda “Pau de dá em doido” (in memorian), me deparei com um problema bom de resolver: O “Raimundos”, um grupo de Rock moleque que marcou minha adolescência estava prestes a ficar de fora da coletânea e isso não poderia acontecer.

Esse fato imperdoável ocorreria porque os contos passados em Brasília, cidade de origem da banda, já haviam sido escritos baseados em canções do “Bois de Gerião”, “Legião Urbana” e “Móveis Coloniais de Acaju”. Brasília e Natal serão as únicas cidades do livro que serão homenageadas com 3 contos cada, mas isso eu explico outro dia.

Bem, voltando a JP, eu decidi escolher uma música dos “Raimundos”, aproveitando-me de sua ascendência paraibana e situar em João Pessoa. A eleita foi “Cintura Fina”, canção, digamos assim, romântica do primeiro trabalho da banda (na época se chamava CD) e que narra a história de uma cara que se apaixona por uma mulher muito feia, mas que é uma especialista na arte do amor (boa de cama pra c******). Os versos “Aquela mulher/ que tem a cintura fina/ quero me casar com ela” estarão sempre na memória de qualquer roqueiro brazuca que tenha vivido bem os anos 90.

Raimundos, feios de cara, bons sujeitos no fundo.

O conto fala de Rodolfo (Ooooh!) um paraibano de nascimento que é jornalista em Brasília e vai passar o período junino na terra natal. Lá, ele conhece Genoveva e o resto do conto (epistolar internético) só vocês lendo.

Já posto um trechinho aqui pra sentirem o clima:

“…Como pode num mesmo mundo existir a Aline Morais e a Genoveva? Ah, esqueci de dizer, o nome dela é Genoveva. Mas disse que eu posso chamá-la simplesmente de Gê. Ainda bem!

Marcamos de nos encontrar no Jacaré uma hora antes do pôr do sol e, quando ela chegou, percebi que não poderia ter escolhido melhor o horário, pois logo iria escurecer e ela não ficava nada bem à luz do dia. Decidi que, naquela noite subiria de patamar: nada de cerveja, tinha que beber alguma cachaça artesanal de Areia.

Felizmente ela tentou disfarçar sua feiúra por meio de artifícios aplicados com a desenvoltura que só anos e anos de escassa formosura e uma longa experiência como catrevagem profissional poderiam conferir-lhe. Seu vestido, por exemplo, estava mais para uma aberração da baixa costura, de tal forma chamativo que só se levei o primeiro susto ante o vislumbre de seu rosto uns bons 5 minutos depois de sua chegada. Seu rosto, aliás, estava coberto por uns bons 10 centímetros de pesada maquiagem, uma massa de blush que muito me fez lembrar os palhaços do Circo Garcia. Ah, mas pra compensar, ela tinha um belo sorriso do ponto de vista odontológico residual. Quero dizer: os 4 dentes que heroicamente resistem em sua boca parecem estar em perfeita ordem e livres de caríes ou demais enfermidades bucais…”

Pôr do sol em JP, foto do blogueiro Fred Matos

 

Quem me ajudou a dar ao conto uma autenticidade paraibana foi meu amigo de longa data natalense honorário, pois morou aqui muitos anos, Jeder Morais, que hoje trabalha como assessor de imprensa num escitório que eu não sei o nome. Vou ficar devendo uma foto do meu amigo, mas acho que pro bem de vocês, queridos leitores. É que o Jeder é mais feio que a doidinha do conto.

“Aquela Mulher” é o 9º conto concluído para o livro “Cantos das Cidades”. Minha peregrinação continua, dessa vez rumo a Maceió e, em seguida, Fortaleza. Vem mais histórias divertidas por aí.

Cantos das Cidades 9 – Falta de sol (PE)

novembro 17, 2009

Vista de Olinda

Pernambuco é um dos Estados brasileiros mais férteis no que toca a criatividade. Ainda mais que eu já viajei muitas vezes a turismo ou a trabalho, tendo conhecido lugares e pessoas. Ali, fiz amigos que sempre proporcionam reencontros festivos em almoços lamentavelmente curtos ou noites ébrias e efusivamente longas. Porém, mesmo com tantos conhecidos na capital pernambucana ou recifenses residentes em Natal, tive extrema dificuldade em encontrar alguém disposto a me ajudar a escrever uma história que se passasse naquelas terras. Tentei com os companheiros Rafoso, depois com a redatora publicitária Juliana Lisboa, em seguida com o diretor de criação Cristiano de Souza e, por fim, com o analista de sistemas Gil Limpeza. Todos se dispuseram, num primeiro momento a ajudar-me, para depois ignorarem solenemente meus apelos.

Até que decidi quebrar uma regra que havia me auto-imposto na elaboração dos contos deste livro. Resolvi apelar para um amigo escritor, algo que eu, a princípio preferia não fazer, dando a oportunidade de que outras pessoas participassem da brincadeira. Foi aí que entrou em campo o romancista, publicitário e jornalista Paulo Costa, ou Costner para alguns amigos do tempo em que ele viveu em Natal. Mandei para ele os dois contos que havia escrito, passados em Pernambuco. O primeiro se baseia na música “Falta de Sol” do Eddie e se passa em Olinda. É  a história de Flor, uma mulher que decide se alimentar de luz. O segundo, se passa em Recife, mas não vou falar dele agora. Esta postagem serve para que eu dê a ótima notícia de que Paulo teve palavra e foi rápido na contribuição que fez nos contos, incluiu partes essenciais para as narrativas e melhorou (e muito) as histórias.

 

Paulo Costa, embaixador de Pernambuco no "Cantos das Cidades", co-autor de dois contos do livro.

Afirmo, feliz da vida, que “Falta de Sol” será um dos melhores contos do “Cantos das Cidades”.

 Confiram agora um aperitivo rápido:

 “…Flor queria encarar seu novo momento com seriedade, com profundidade. Passaria a habitar um plano acima dos demais, em paz consigo mesmo, com a vida e com os outros seres humanos que são, tipo assim, criaturas lindas de Deus, sabe?

 Já que ia mesmo se alimentar de luz, Flor deveria tomar cuidado para não exagerar na dose. O verão chegou com força em Olinda naquele ano e Flor não podia sair por aí a toda hora, subindo e descendo ladeira sob o risco de terminar a estação bastante rechonchudinha, vermelha como camarão de praia, aqueles cozidos na água e sal, que passam o fim de semana tomando sol no plástico dos ambulantes. Era preciso seguir uma dieta balanceada de complexos UVA e vitaminas UVB, além de raios de fim de tarde, que são bem menos gordurosos do que as lipídicas radiações a que nos submetemos entre as 10 da manhã e as 14 horas. Se quiser tomar um milk shake de colesterol solar, sugiro que saia da sombra ao meio dia. Seria um almoço nada nutritivo pra você. O mundo poderia ser mais feliz sem fome, com todo mundo irradiando luz, alimentando-se de sol…”

 Obrigado, Paulo, autor do livro “Balada para uma serpente” e responsável pelos seguintes endereços virtuais:

www.blogpaulocosta.blogspot.com
(Meu portfolio: vídeos, projetos de televisão, documentários, campanhas políticas e publicidade)

www.myspace.com/paulocosta62
(Criações para rádio)

www.comunicausos.blogspot.com
(Ideias e novidades da comunicação)

www.baladaserpente.blogspot.com
(Versão virtual do meu livro publicado pela Bagaço, em 2001. Policial noir ambientado na cena mangue)

E obrigado ao Eddie por ter composto essa música que gosto tanto.

Cantos das Cidades 8 – Boa Noite, Cinderela. (RN)

outubro 30, 2009
ETM - Gustavo Lamarine

Gustavo Lamartine, o artista, o homem, o parceiro na idealização do conto.

Eu estava bebendo uma noite perdida com o músico maloqueiro e high society Gustavo Lamartine quando o assunto partiu para, sabe-se lá porque, o golpe “Boa noite, Cinderela” que mulheres gatas e desconhecidas costumam aplicar em homens desavisados. Segundos os relatos dos e-mails mais sensacionalistas, elas botam alguma substância entorpecente na bebida do cara, arrastam para um lugar específico e extraem alguns órgãos internos. A pobre vítima acorda horas depois numa banheira de gelo e um bilhete de alerta escrito pela golpista.

Gustavo perguntou:”e se uma dessas mulheres roubasse o coração do cara? Ele teria que sair atrás dela, né?” De golpe, numa arrojada associação de ideias provocada, certamente, pela lubrificação etílica em curso, cantei um trecho da canção “A conta” do Mad Dogs: “Perambulei de bar em bar e procurei sem encontrar a vagabunda que roubou meu coração.” Pronto. Eu já tinha cenário e uma ideia para o próximo conto que escreveria para o livro Cantos das Cidades.

E resultou que o “Boa noite, Cinderela!” é um dos melhores contos que escrevi até agora. Natal merece mesmo contar com uma das mais divertidas narrativas da reunião de histórias.

Confiram um trecho:

“… Nos jornais, ofertas de córneas que custavam os olhos da cara, rins que até que não estavam caros, uma casa de frente pro mar com muitos metros de área e Shirley, universitária, recém chegada do sul, loira, 1,75m, namoradinha, anal-e-oral-inclusos-no-pacote. Quando já estava para fechar o jornal, um susto! Mas era só um apartamento de dois quartos mais dependência em Três Corações. Pensei em ir até lá, para negociar pessoalmente com o prefeito se a cidade não poderia ceder-me um dos corações. Talvez o governante ficasse comovido com minha história trágica. Talvez. Fiquei de fazer isso mais tarde. Por hora ia só anotar o telefone da Shirley mesmo.

Espalhei cartazes pelas cidades, como nesses que ficam pregados em lugares públicos e pet-shops, sempre em busca de um poodle chamado Rambo. O meu dizia “Procura-se órgão muscular oco interessado em compromisso duradouro de cerca de uma vida humana. É necessário residir em meu peito, sob o osso esterno, ligeiramente deslocado para a esquerda. Precisa ter tamanho aproximado de um punho fechado e pesar cerca de 400 gramas. Contatos no…” Bem, não houve resposta ao meu apelo, mas soube de fonte segura que Rambo foi encontrado são e salvo acompanhado de vira-latas no centro da cidade e passa bem. Se eu tivesse coração, ficaria feliz pelo pequeno peludo.

As pessoas ficavam perguntando como o meu organismo fazia para bombear o sangue sem coração. O caso é que a corrente sanguínea se reuniu e decidiu que iria continuar indo para onde bem entendesse, pois de tanto ir sem parar, acabar aprendendo o caminho e que se ficasse parado ia ser chato todos aqueles glóbulos brancos e vermelhos e plaquetas ali parados, sem fazer nada, se dedicando ao ócio, ou quem sabem à marginalidade, o que seria terrível, e era melhor continuar fazendo o que estavam fazendo até que se realizasse outra assembléia posteriormente ou que chegasse um coração novo para colocar ordem no corpo. E assim foi, e assim é, e assim vai sendo…”

Sarkis e Nalva

Paulo Sarkis (na foto, conversando com Nalva) - baixista do Mad Dogs e ídolo deste blogueiro autor.

Com um co-autor como Gustavo Lamartine e inspiração na letra dos Mad Dogs fica fácil escrever uma boa história. Essa é a verdade.