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Cruvinel e o Japão

outubro 22, 2009

Quaresma deu a dica: “Hoje tem rodízio de sushi no Takami, Cruvinel”. Meditabundo, nosso rei das oportunidades perdidas, senhor absoluto do zero a zero, tentou conjecturar o que aquilo queria dizer. Percebendo a cara de abestalhado do amigo, Quaresma esclareceu: “Vai estar cheio de gatinha, rapá! Todas elas ali, patricinhas natalenses, vulneráveis e doidas pra se dar bem, esperando os predadores naturais. Daí, dois jovens, bonitos, charmosos, bem apessoados e sobretudo humildes, como nós, honrosos membros do topo da pirâmide alimentar, vamos lá e pimba! Sacou? Catamos as boyzinhas, rapá! Nem que seja com dois pauzinhos. Aliás, você não tem problema em comer com dois pauzinhos, né Cruvinel?”

Tinha. Disse que não, que adorava comer sushi, que para ele o salmão em abundância presente nas mesas dos restaurantes japoneses era o maior símbolo da melhoria de vida dos últimos anos. Antigamente era aquela coisa de “ontem fui a um lugar muito chique, pois tinha até salmão”. Hoje não. As pessoas dizem agora algo como “garçon, você poderia me trazer esse prato com menos salmão? É que estou enjoado de tanto comê-los”. Isso sem falar em todo o resto. Aqueles outros peixes de cores diversas. Tem o branquinho, o vermelhinho e o camarão. Tem também o “hot filadélia”. Enfim, são tantas iguarias que ficava até difícil dizer de qual ele gostava mais. Foi mais ou menos isso que Cruvinel disse enquanto seu estômago se revirava só de pensar em ter que digerir toda aquela carne crua.

Se a comida oriental não apetecia Cruvinel, pelo menos o restaurante fora bem escolhido. Quaresma era expert nesses assuntos paquerativos e o Takami era o melhor restaurante japonês para ver e ser visto pelas garotas de Natal. Seus proprietários são o casal Lee, Bruce e Bárbara, sempre zelosos da qualidade e bom ambiente.  Coincidia ainda que no dia seguinte à noite da ofensiva, o Brasil jogaria contra o Japão para garantir o primeiro lugar do grupo e os 100% de aproveitamento na primeira fase.

O jogo contra o Japão, aliás, pautou as animadas conversas na mesa do Takami. Quaresma dissertava sobre a teimosia do Parreira em não escalar o Robinho e o Juninho Pernambucano, a manutenção do Cafu e do Roberto Carlos mesmo sem estar produzindo nada. a única coisa que ele concordava era com a insistência no Ronaldo que, ainda com 18 kg acima do peso, poderia fazer a diferença, já que se tratava de um fora-de-série.

Eles veriam o jogo na casa do Jacozinho onde também fariam um. Cruvinel já salivava quando pensava na quantidade de carne vermelha bem passada que consumiria dali a algumas horas e sentia um calafrio ao comparar os pedaços de picanha e maminha com os pescados que logo aportariam a sua frente. Além dele e Quaresma, havia diversos outros comensais. Alguns amigos, uns tantos conhecidos e umas gatinhas amigas dos conhecidos. Uma delas, de feições orientais, sentou ao lado de Cruvinel que, a um comando de Quaresma, avançou rumo à zona do agrião.

Seu nome era Ronalda, a filha do meio dos Aoki, aliás, a mais gatinha das 3. Cruvinel logo imaginou que pra ela, comida japonesa era como um prato típico e uma ida ao Takami equivalia para ele como uma ida ao Mangai. Sendo assim, era melhor ser discreto e fingir que estava tudo bem. Como um jogador experiente que aprende com os revezes da carreira, evitou beber para não acabar embriagado como aconteceu no dia em que o Brasil enfrentou a Croácia e mediu bem as palavras para não escorregar como há poucos dias, quando jogamos contra a Austrália. Disfarçava bem o fato de estar pouco à vontade diante daquele cardápio e também conseguia esconder a liga de borracha que unia seus dois pauzinhos para ocultar sua extrema falta de habilidade com os utensílios.

Ronalda, pelo contrário, exibia toda a desenvoltura que uma boa sansei, faixa preta de judô, que já havia até morado e trabalhado no Japão como modelo, deveria demonstrar. Ela se fartou não só dos sushis, sashimis e tekamakis, como também mandou ver no saquê. Logo estava bastante animada, enquanto o Cruvinel, que não bebera nada, apenas comera uns quantos sushis pode suportar regado a Coca-cola para não enjoar, já começava a ganhar terreno ante a crescente fragilidade do adversário.

Lá pelas tantas, as amigas de Ronalda decidiram ir mais cedo e Cruvinel, matou no peito e emendou de primeira: “Pode ficar que eu te deixo em casa.” Mais tarde, um sóbrio Cruvinel ajudava uma cabaleante Ronalda Aoki a se deslocar do carro até a entrada de sua casa. Como seus pais estavam viajando para visitar os familiares em Yokohama e as irmãs moravam em São Paulo.

Sem conseguir acreditar em sua sorte, agradeceu à milenar culinária japonesa por proporcionar os sushis, os restaurantes orientais e aquele ocasional encontro que salvaria a primeira fase da Copa da Alemanha para o nosso atacante ruim de pontaria. Ao adentrar na sala vislumbrou muitos quadros estampando figuras de samurais, gueixas e ideogramas. Na varanda, alguns bonsais belíssimos e no quarto de Ronalda, onde Cruvinel entrou rapidamente, havia um poster de Jigoro Kano (inventor do judô) e muitas medalhas de competições de judô. Ela pediu que esperasse na sala para onde voltaria em instantes.

Intantes que demoraram séculos. Foi preciso muita paciência para não explodir de tanta ansiedade. Ronalda voltoutoda cheirozinha e de quimono de seda. Cruvinel não podia crer. Seria uma vitória maiúscula, para dar moral, para assumir o favoritismo nas fases finais, no mata-mata. Ela se aproximou e ele também. Encontraram-se frente a frente no centro da sala de TV. Foi quando, bem diante dela, rostos quase colados, ela já de olhos cerrados e lábios entreabertos, no mano-a-mano, de frente pro crime, na cara do gol, na marca de pênalti, o estômago de Cruvinel resolveu se amotinar em protesto a toda aquela carne de pescado crua que ele ingerira avidamente a despeito da intolerância alimentar que aquilo poderia provacar. Nosso camisa 9 mandou a bola pra lua, sentiu um fortíssimo enjôo e vomitou salmão semi digerido na Semp Toshiba da família Aoki. Ronalda, indignada, aplicou um golpe quase mortal, derrotando Cruvinel por ipón em tempo recorde.

Ele saiu correndo, debaixo de mais golpes e muitos xingamentos. A jovem sansei não entendia como ele não havia bebido nada e passava mal daquele jeito! “Um absurdo!”, disse ela. Ele que sumisse da vida dela como um ninja em meio à fumaça, senão iria apanhar toda vez que se cruzassem.

Cruvinel chegou em casa ainda passando mal e cheio de dores no corpo. E ainda lhe doía a cabeça só de pensar nas perguntas que o Quaresma lhe faria na tarde seguinte, no churrasco na casa do Jacozinho. Decidiu fazer umas compressas para aliviar as dores do corpo e da alma. Ligou a TV enquanto aplicava as bolsas de gelo e percebeu que passava um filme. “Os 7 samurais” do Akira Kurosawa. Desligou. Era melhor tentar dormir. Mas sua agonia ainda não terminara. Durante o sono, teve um pesadelo. O godzila aparecia e destruía vorazmente sua reputação. A interpretação daquele sonho ruim era simples: Cruvinel tinha se dado mal de novo. Estava perdido. E agora, nem Jaspion, Senhor Miagy ou um exército de samurais poderiam salvá-lo.

Cruvinel e a Croácia

setembro 23, 2009

O Peixoto era amigo de infância. Por isso, quando ele convidou pra ser padrinho do seu casamento com a Anita, Cruvinel se sentiu na obrigação de aceitar. Detestava casamento, usar terno e gravata todas as formalidades inerentes à cerimônia. Mas o Peixoto era o Peixoto e ele não poderia faltar. Ainda mais depois do que aconteceu. Todos os outros padrinhos do noivo desistiram e só o Cruvinel havia aceitado. O Quaresma foi o primeiro a pular do barco. “Pô Peixoto, adoro você, cara, mas competir com a canarinho não dá. Faz o seguinte: no teu próximo casamento, pode me chamar que eu vou que vou ligeiro, valeu?”, declarou ao recusar. O caso é que a data e hora da cerimônia coincidiram com a estreia do Brasil na Copa. E o pior é que não dava pra alterar nada, pois aquela era uma das igrejas mais disputadas da cidade e a data foi marcada com mais de um ano de antecedência, quando ninguém sabia ainda qual seria a tabela da Copa. Por isso, o Peixoto corria o risco de, não só perder todos os padrinhos, como também não contar com nenhum amigo para prestigiá-lo na igreja.

Cruvinel, ao contrário do noivo, não achou a situação nada desagradável. Com a quase total deserção masculina ao evento, muitas belas mulheres solteiras estariam a mercê de seu instinto goleador. Ele estava recém recuperado de uma leve depressão que se seguiu ao fim do seu namoro com a Natália. 4 anos de relacionamento e um fim abrupto quando ela decidiu cruzar o oceano e fazer seu mestrado em Lisboa. Desde esse dia ele odiava Camões, Saramago, Pedro Álvares Cabral, era capaz de vomitar ao sentir cheiro de bacalhau e jurava de pés juntos que se visse alguém dançando o “vira” seria capaz de matar. Só não odiava o Cristiano Ronaldo porque não fazia ideia de quem ele fosse.

Depois que começara a namorar a Natália, na final da Copa de 2002, Cruvinel voltara ao normal. Parou de se informar sobre futebol e seguiu sua vida. Por uma fatalidade do destino, o namoro acabou justo antes da Copa seguinte e o nosso artilheiro precisava retomar sua velha estratégia de jogo, agora versão 2006. Suas armas eram mais mortais que o quadrado mágico do Parreira e a estreia na competição seria simultaneamente à da seleção, no casamento do Peixoto.

Na tarde da sagrada união que seria seguida pela festa, Cruvinel terminava de se arrumar, pensando nas amiguinhas da noiva, gatas, felizes, levemente alcoolizadas, além de sensíveis e vulneráveis (como as mulheres costumam ficar em casamentos), quando percebeu que estava só em casa e não sabia dar nó em gravata.

O jeito foi bater na porta do vizinho do 502, seu Luiz, professor de história aposentado e viúvo, que falava pelos cotovelos. Seu Luiz atendeu com afabilidade e se prontificou a ajudar o rapaz com um dos seus mais de uma centena de nós conhecidos. Enquanto ele amarrava foi falando da origem da gravata, que vinha dos tempos do império de Carlos Magno, quando soldados de origem croata usavam cachecois pendurados no pescoço que pendiam pelo peito. Os franceses gostaram tanto da novidade que adotaram o estilo e logo ele se tornou sinônimo de elegância. Por isso, o nome gravata é uma corruptela do nome do país originário (Croácia) da peça no idioma local. Seu Luiz ainda riu ao lembrar que a Croácia era a adversária do Brasil naquela tarde e convidou Cruvinel a vir assistir a partida em sua companhia.

Agradecendo (e recusando) polidamente o convite e o pronto auxílio do professor, Cruvinel se desvencilhou tão rápido quanto pôde, antes que o vizinho pudesse enumerar cronologicamente todas as conquistas de Carlos Magno e discorrer sobre seu legado histórico-cultural, e correu para o casamento do amigo de infância.

A alegria de Peixoto com a chegada de Cruvinel foi tão grande que parecia que ele era a noiva. O nosso camisa 9, porém, não demonstrou a mesma reação do amigo ao perceber que a igreja estava quase vazia. Nem homens nem mulheres haviam atendido aos convites dos noivos e aparentemente todos preferiram conferir Brasil e Croácia. Perguntou a Peixoto se haveria pelo menos uma madrinha para entrar com ele no templo. O Peixoto então apontou para sua acompanhante na solenidade, Sulamita.

O nome diferente, por si só, já provocava curiosidade e interesse imediato por sua origem, sua exoticidade. Porém, a formosura da moça, indecorosamente exibida em seu vestido longo colado ao corpo, fez Cruvinel sorrir e pedir, mais que depressa, pro Peixoto levantar a ficha da beldade. “Uma gata, Cruvinel! Gatíssima!Prima da Anita,mas não sei se rola nada. apesar de ser um convite ao pecado que fala, anda e sorri ameaçadoramente, é evangélica fanática. Acho melhor você aproveitar a entrada de bracinhos dados e pronto.” O pobre amigo achava realmente que aquilo fosse possível. Que nada! Aquela seria a estreia de Cruvinel em mais uma Copa e ele partiria pra cima do adversário com raça em busca dos 3 pontos.

– Olá. Você deve ser a Sulamita. Nós vamos entrar juntos no casamento. Sou o padrinho que forma par com você.

– Glória a Deus! Para sempre seja louvado. Eu já pensava que o padrinho também ia faltar para assistir aquela celebração pagã cheia de pecado.

– Qual?

– O jogo, Jesus que me perdoe. Deixar de presenciar a união sagrada de minha prima, diante do altar do Senhor, louvado seja o seu nome pra ver um bando de pecadores correndo atrás de uma bola.

– Não, irmã. Você pode estar enganada. Nem todos são assim não. O Quaresma, um pecador amigo meu, disse que o Kaká é evangélico fervoroso.

– Glória a Deus que um deles leve a palavra do altíssimo para aquele antro de tentações mundanas, valores superficiais e prazeres frívolos.

– Amém, irmã. Inclusive, que tal orarmos abraçados pelas almas dos jogadores?

– Abraçado? Quais são os seus métodos? De que igreja você é?

– Er, Igreja Pentecostal… da Croácia.

­– Croácia? Nunca ouvi falar.

– Somos poucos, mas fieis.

– Abençoado seja, irmão. Hoje em dia há cada vez menos de nós, que aceitamos Jesus. Vamos que a cerimônia já vai começar.

O casamento foi breve. O pastor celebrou com a dicção de um locutor esportivo de rádio. Não sei se ele quis abreviar o constragimento dos noivos diante de um templo vazio ou se ele queria correr pra casa a fim de ver o segundo tempo. Cruvinel, provando que, assim como no futebol, não existia mais bobo no mundo dos casamentos, fez marcação cerrada na madrinha e sentou na mesma mesa na recepção.

– Sabe o Kaká que eu te falei?

– O que tem?

– O que tem ele?

– O meu amigo pagão, materialista e ateu, o Quaresma, acaba de me enviar uma mensagem dizendo que o Brasil venceu o jogo com gol dele. Eu achei que poderíamos tomar essas taças de vinho para comemorar.

– Ah, não, irmão. Eu não bebo. É pecado grave se entregar assim à devassidão do álcool e de celebrações vazias da presença de Deus.

– Em absoluto, irmã! Nunca diga isso de Deus estar ausente de algum lugar. Nosso Senhor é onipresente e onisciente. Ele está em todos os rincões do universo. E naquele golaço do Kaká hoje, foi o Altíssimo que levou a bola a morrer no fundo das redes. Foi um tento que pode propagar pelo mundo a vitória dos cristãos sobre os pagãos. Um gol abençoado, maravilhoso, sagrado, evangelizador! Beba um golinho de vinho em celebração, irmã. Tenho certeza que Deus ficará feliz!

Sulamita bebeu sua taça, assim como diversas outras, impelida pela cada vez mais fervorosa retórica de Cruvinel. Ele parecia possesso, um verdadeiro pastor no exercício de sua pregação. Tinha fé que conseguiria levar a moça dali para casa. O próprio Cruvinel também emborcava uma taça depois da outra para aompanhar a garota.

No dia seguinte, a cabeça de Cruvinel parecia que ia explodir. Não se lembrava de muitos detalhes da noite anterior, mas logo Quaresma telefonara para contar tudo o que havia acontecido segundo soube, através de uma amiga de uma tia da noiva. Cruvinel e Sulamita, completamente bêbados, começaram a dançar frenéticos e ensandecidos no meio do salão, apesar de ainda estar tocando uma lenta valsa. Tomavam vinho e gritavam “Sangue de Cristo tem poder! Sangue de Cristo tem poder!” Em dado momento, a garota fez um inesperado striptease e seu pai, o pastor Joacy, atravessou o salão e arrastou a filha pecadora pra casa. Cruvinel continuou dançando já com a gravata enrolada na testa até que caiu inconsciente e o próprio Peixoto, o anfitrião, teve a bondade de levá-lo em casa.

Após ouvir o relato de Quaresma que, a propósito, não gostara nada da estreia da seleção, Cruvinel se viu preenchido com  mais terrível ressaca moral. Depois, pôs a mão na cabeça que doía bastante, graças ao efeito devastador da grande quantidade de vinho que havia tomado e falou resignado: “Ai, sangue de Cristo tem poder. Ai.”