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Convocação – Direto do Fundo do Baú

maio 12, 2010

No longínquo ano de 2002, tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e que, aliás, linguiça se escrevia com hífen, escrevi um texto que acabou entrando no meu primeiro livro, “Verão Veraneio” (Jovens Escribas, 2004). O texto se chamava “Convocação” e tratava da lista do Felipão. Publico aqui para que vocês (e eu também) possam(os) lembrar. Mais uma “atualização” diretamente do Fundo do Baú.

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Convocação

Concentração do São Gonçalo, altas horas da madrugada. Dali a algumas horas o touro enfrentaria o América. O jogo valeria pela fase decisiva do estadual e o time precisava repousar. Por isso o técnico da equipe ficou uma fera quando tocou o telefone da concentração. Quem poderia ser uma hora daquelas? Era bom que fosse urgente ou alguém do outro lado da linha ouviria um invejável repertório de impropérios construído em anos de futebol profissional.

Renato Peixe dormia o sono dos justos. Acordou com os toques do telefone, é verdade, mas voltara a dormir. O professor mandou descansar e esta não era uma das ordens mais difíceis de cumprir.

O treinador atendeu ao telefone e, depois de alguns minutos de aparente silêncio, bateu à porta do Renato Peixe.

Treinador: – Renato! Telefone pra você.

Renato Peixe: – Pra mim? Quem é, professor? É alguma urgência?

T: – É melhor você ir.

RP: – Aconteceu alguma coisa lá em casa?

T.: – É de Ulsan, na Coréia.

RP.: – Hein?!

Renato não entendeu nada. Ursão da Coréia. Ele não conhecia ninguém com esse apelido. Tinha um amigo que morava na favela do Japão, mas nem sequer conhecia uma favela da Coréia. No caminho do quarto até o orelhão da concentração foi pensando sobre o crescimento desordenado da cidade e das poucas oportunidades dadas aos menos favorecidos que resultavam na multiplicação das favelas como a do Japão e agora … a da Coréia. Antes que pudesse prosseguir com seus devaneios chegou ao telefone. Do outro lado ouviu uma voz firme com sotaque gaúcho.

–          Renato Peixe? Aqui é o Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira de futebol. Desculpes o horário. É que aqui já são 4 da tarde.

–          Isso é alguma brincadeira?

–          Tu achas que eu ia ficar de brincadeira na véspera de uma Copa do Mundo?

–          O que o senhor quer?

–          Te convocar, Tchê! O Rivaldo não está bem. Amanhã quero anunciar o corte junto com a tua convocação. Já ouvi maravilhas a teu respeito. Sei que tu tens feito um excelente campeonato potiguar e que o teu time é líder.

–          O que é isso Felipão? Você não pode estar raciocinando direito. Eu sou jogador de um time pequeno num campeonato inexpressivo. O que eu poderia fazer numa Copa do Mundo?

–          Tu não subestimes meus conhecimentos. Já vi teipes de teus jogos e estou convicto de que tu és o homem certo para substituir o Rivaldo. O próprio jogador já está sabendo que não tem mais condições e disse que será uma honra ceder seu lugar para um atleta como o Renato Peixe.

–          ..Er… Veja bem. Eu só estou pedindo que você pense bem, analise direitinho… Jogar numa Copa do Mundo é muita responsabilidade. Você deveria chamar alguém de clube grande, um jogador mais experiente e tarimbado. Será que não tem outro meia esquerda? Sei lá, o Djalminha, o Zé Roberto.

–          Barbaridade, Guri! Tu és mais teimoso que eu. Quer dizer: tu és mais teimoso do que dizem que eu sou.

–          Eu só estou falando pro bem da seleção. Eu torço pelo Brasil e acho que não acrescentaria muito. Desculpe, Felipão, mas não vai dar.

–          Bem, se tu queres tanto não ir. Vou pensar em outro nome. Alguém que possa substituir o Rivaldo a altura.

–          Mas, lembre-se: tem que ser algum jogador experiente.

–          Podes apostar que será.

–          E de time grande?

–          Certamente que sim. Tchau, sucesso pra ti.

–          Tchau, Felipão.

Renato Peixe foi dormir com a consciência tranqüila. Sentia como se tivesse acabado de cumprir um dever cívico. Aquela renúncia, aparentemente insana, foi uma sábia decisão que poderia decidir as chances do Brasil na Copa. E Felipão refletiria mais sobre o melhor a se fazer. Ele veria a tolice que quase cometera e convocaria um jogador de time grande.

No dia seguinte Felipão, de fato, cortou Rivaldo e convocou… Da Silva do Corítians de Caicó!

Da Silva tornou-se o primeiro jogador de um clube potiguar a atuar numa Copa do Mundo. Renato Peixe não se conformou com a decisão do treinador. Cadê o craque de time grande? E o Jogador experiente e tarimbado? Ele sentiu-se traído, um legítimo César apunhalado. Sabia que poderia ter sido ele. Ficou tão injuriado que decidiu não torcer mais pela seleção. Mas como tinha o coração brasileiro, não abandonou completamente o Brasil na Copa. Pelo menos torceu pro Simon apitar bem.

Na mesa com Marçal – Direto do fundo do bau

outubro 20, 2009

Mais uma crônica retirada do fundo do bau, escrita em 2007, narra um pouco da noite em que conheci o escritor Marçal Aquino, na ocasião do lançamento dos livros dos Jovens Escribas em São Paulo. Divirtam-se.

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Marçal, Antonio Prata e Daniel Galera.

Marçal, Antonio Prata e Daniel Galera.

Você percebe que um ser humano é fora do normal quando começa a notar que ele é o ídolo dos seus próprios ídolos. Foi dessa forma que conheci a obra de Jorge Luís Borges. Sou fã dos textos do gaúcho Luís Fernando Veríssimo, do carioca Arthur Dapieve e do paulista Antonio Prata. Prata faz diversas referências a Borges em seus divertidíssimos contos; Dapieve considera o autor como o melhor escritor do Século XX; Veríssimo vai além e define Borges como o melhor escritor da história. E olhe que falamos de três autores brasileiros apaixonados por futebol, o que deve pesar um pouco em se tratando de um autor argentino elogiado tão efusivamente por eles. Em todo caso, fui conferir a obra do hermano e descobri que ele tem todos os méritos em ser ídolo dos ídolos. Tanta imaginação a serviço da literatura fez de Borges um escritor universal, estudado, cultuado, admirado e, claro, lido no mundo inteiro.

Quando cheguei em São Paulo, junto com outros 4 colegas escritores potiguares para lançarmos nossos livros e o Projeto Jovens Escribas, logo percebi que Marçal Aquino é o cara. Era uma fria noite paulistana e os convidados começavam a chegar à Mercearia São Pedro.  Vários deles, escritores residentes na capital paulista, lidos e admirados por alguns de nós. O primeiro foi André Laurentino, autor de “A Paixão de Amâncio Amaro”, um romance considerado como um dos melhores publicados no Brasil em 2005. Autor revelação da Festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro. Entre os presentes também estavam Daniel Galera e o já citado Antonio Prata, além de um outro ilustre, mas não-escritor, Nando Reis. Mas foi Laurentino que apontou com indisfarçável admiração: “O Marçal chegou.” Eu, sem ligar o nome ao escriba, perguntei: “Quem?” “Marçal Aquino. Você não conhece? Olha ele ali. Você precisa conhecer!”

Daniel Galera, autor bem-sucedido da geração 00, adaptado para o cinema e teatro, o homem por trás da editora Livros do Mal, também passou boa parte da noite conversando e absorvendo o que o grande Marçal tem a dizer. Antonio Prata também fez o mesmo. E Nando Reis, ao conhecê-lo pessoalmente, disse sem a menor cerimônia: “Seu livro mudou minha vida!” Isso deveria significar alguma coisa. 

A noite foi passando e, em dado momento, tive eu também o privilégio de sentar à mesa com o Marçal. Numa roda de bate-papo bem aquilatada, todos só tinham olhos e ouvidos para ele e suas histórias. Eu aproveitei o momento o quanto pude. Deliciei-me com alguns ótimos “causos” da vida real vividos por ele.

“Um amigo meu transou com uma hermafrodita!”, declarou. “Tava lá, metendo na buceta dela, dele, sei lá, quando a hermafrodita começou a fica de pau duro. Não riam ainda não que a história não acabou. Não é que a porra da hermafrodita ficou excitada e gozou no meu amigo?! Olha, eu não sei vocês, mas eu não gosto de ter algo entre mim e a parceira não. Prefiro o tradicional mesmo.”, decretou.

“Um dia eu cheguei pra um amigo e disse: pô, tô a fim de dar umas porradas. Aí ele disse que tinha um clube sadomasoquista que ele freqüentava em que várias mulheres iam lá pra apanhar voluntariamente. Eu fui. Cheguei lá, peguei um chicotinho e comecei a espancar com força uma mulher que gemia a cada porrada. Lá pras tantas, ela disse: ‘Isso é o melhor que você consegue fazer? Pode bater com força, meu!’ Aí, eu desci a porrada e ela gozou de tanto apanhar. É estranha a sensação.”

Lá pras tantas, uma mulher muito bêbada, estilo mala-sem-alça, senta à mesa e diz: “Uma cartomante disse que eu vou morrer.” O sábio Marçal de bate e pronto: “Eu digo a mesma coisa. Essa é a única certeza, minha filha. Não precisa ser cartomante pra saber disso.” “Mas você não está entendendo. Ela disse que eu só tenho 15 anos de vida.” “Ela disse isso? Imagina! Você não chega a isso tudo não!” A mulher saiu horrorizada da mesa. Antes de ir embora perguntou como era o nome daquele homem de afirmações tão terríveis: “Marcelino. Meu nome é Marcelino Freire.”

Marçal tem muitas outras histórias pra contar. E as melhores a gente não acha em mesas de bar, mas em prateleiras de vídeo-locadoras ou livrarias. Agora, uma coisa é certa: tomar uma cerveja com ele, mesmo que por um breve (apesar de memorável) espaço de tempo, ajuda a entender de onde ele tira personagens tão elaborados. Em muitos casos, são os personagens que buscam o escritor.

O mar e o marasmo – Direto do fundo do bau

outubro 19, 2009

Encontrei esse texto aqui no meu bau eletrônico. É bestinha e foi escrito em 2007. Achei legal postar aqui pra voltar a atualizar. Aliás, vou subir outros posts ainda hoje e tentar atualizar todos os dias até sexta.

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Um professor citou certa vez uma passagem de Marcel Proust no seu “Em busca do tempo perdido”. Ele dizia que o protagonista se sentia, com relação a seu amor por Albertine, como uma criança diante das ondas do mar. Corre delas quando se aproximam e corre atrás delas quando se afastam. Não me recordo da citação na íntegra, mas essa é a idéia geral.

Nos últimos tempos, tenho me sentido assim com relação aos romances que falam do mar. Há alguns momentos na literatura universal em que você deve correr de encontro às ondas, mas outros em que se deve correr delas e buscar desesperadamente abrigo em terra firme. Obras que contam aventuras pelos sete mares constituem um dos gêneros mais populares há séculos. O oceano é um dos cenários mais misteriosos e fascinantes do planeta e, vale lembrar, que ele ocupa 75% de sua superfície. Se levarmos em consideração esse dado, é de admirar que não se façam mais romances marítimos.

Entre os livros que li e me senti navegando em águas seguras, cito “Moby Dick” e “20 mil Léguas Submarinas”. Dois clássicos. O primeiro, do nova-iorquino Herman Melville, narra a caçada pelos oceanos do mundo ao monstro marinho gigantesco, a baleia branca que devorou a perna do Capitão Ahab. Curioso é notar que numa época pré-correção política e quando o Discovery Channel não chegava a muitos lares (1851), as baleias podiam ser caracterizadas como aberrações da natureza que saíam por aí, afundando embarcações e devorando pernas e braços a esmo. O autor se refere às baleias de uma forma geral como monstros marinhos, e não só à astuciosa e temível Moby Dick do título.

“20 mil léguas submarinas” é uma típica aventura, ao melhor estilo Júlio Verne. Um escritor de notável imaginação e que explorava o desconhecido para criar universos próprios e sedutores. Explorou o espaço (Da terra à Lua), a terra firme e o céu (Volta ao mundo em 80 dias), o interior do planeta (Viagem ao Centro da Terra) e, claro, o mar. O Nautillus, submarino secreto, sem pátria, com idioma próprio, comandado pelo lunático Capitão Nemo, desbrava o mundo por baixo d’água, protegendo os oceanos da nociva ação dos seres humanos. Como? Afundando os navios, ora. Como se fosse uma Moby Dick motorizada. Pelo caminho, uma lula gigante, tubarões na caça submarina, muitos perigos e intrigas. Júlio Verne era tão visionário que previu a invenção da lâmpada elétrica que já funcionava no Nautillus e também do próprio submarino que não existia em 1870 quando o livro foi publicado. “20 mil léguas submarinas” é, até hoje, a única adaptação decente para o cinema de um livro de Júlio Verne.

Dos autores atuais e mais, digamos, moderninhos, vale destacar “A Praia” que tornou o inglês Alex Garland famoso e célebre em todo o mundo. Esqueçam a adaptação desastrosa para a tela grande com Leonardo di Caprio. Leiam o livro e fujam do filme como faria se visse uma Tsunami.

Fujam também de qualquer livro do Amyr Klink. Que o cara atravesse o Atlântico num barco a remo, tudo bem. Louve-se esse grande feito. Mas querer que se leia “100 dias entre o céu e o mar” é nos afogar em um oceano de tédio e pasmaceira comparável às mais terríveis calmarias de que se tem notícia. Um livro em que as partes mais emocionantes ocorrem quando uma tartaruga roça o casco no fundo do barco ou quando o autor/aventureiro cai no sono, não é, convenhamos, muito empolgante.

E pra cometer um sacrilégio literário antes de encerrar, devo confessar, não sem constrangimento, que detestei “O velho e o mar”. Arrastei-me com certa dificuldade e desânimo pelas páginas (não muitas) da obra clássica de Hemingway. Sinceramente, esperava mais dessa história de pescador. O Hemingway certamente foi um grande escritor e eventualmente pode ter sido um bom pescador. Porém, as duas habilidades não foram bem combinadas. Em todo caso, aconselho que leia a obra e tire suas próprias conclusões. Mas, para mim, “O velho e o mar” é peixe pequeno perto de “Moby Dick” e “20 mil léguas submarinas.”