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Coluna do Novo Jornal – 089 – É a festa da torcida campeã – 12.05.2012

junho 29, 2013

É a festa da torcida campeã

Bolada

O futebol exerce sobre nós um indescritível fascínio. Apaixona, encanta, incute o mais profundo sentimento de arrebatamento, um transe esportivo, a lobotomia da bola, transformando-nos em arremedos dos indivíduos cotidianos que tentamos ser em nossas rotinas diárias. O centenário esporte bretão tem o poder de metamorfosear o mais inteligente e racional dos homens num bárbaro, inconsequente ou completo idiota. É a vitória (de goleada) do coração sobre o cérebro, fazendo os mais autênticos gênios perderem completamente a razão. É uma máquina de converter homens bestiais em bestas.

Exemplos não faltam. O resoluto intelectual Luiz Gonzaga Beluzzo, economista renomado, procurado para dar entrevistas e prestar consultorias a cada novo sinal de turbulência que a economia demonstra, conhecido por seus maneirismos cordiais e temperamento equilibrado, sujeito tido como educado e bem relacionado, não só fez uma administração economicamente desastrosa à frente do Palmeiras, como deu indícios do monstro que habita o seu âmago, um verdadeiro “Mr. Hyde”, boquirroto e destemperado, apontando para todas as direções seu canhão de intempéries e cometendo todo um conjunto das mais tresloucadas e irrefletidas atitudes à guisa de uma gestão.

Nos outros grandes de São Paulo, a situação não se difere muito. O Corínthians é gerido por bravateiros que se utilizam de sua enorme torcida como massa de manobra, manipulando-os para manter-se no poder. Têm funcionado. Grupos políticos costumam perdurar por muitos anos à frente do Timão. No São Paulo, apesar de uma certa altivez forçada e regada nos Jardins, Morumbi e demais bairros nobres da capital econômica do país, o comportamento não difere em nada dos coirmãos do Parque São Jorge. As mesmas bravatas e estilo administrativo percebido nos alvinegros paulistanos podem ser observados nos tricolores. Tais características acabam por beneficiar o dirigente santista, Luís Álvaro, dirigente acima da média, mas superestimado porque a média é muito baixa. É o caso típico do rei caolho, soberano de uma terra de cegos, destaque absoluto e líder disparado de uma terra onde grassa a pasmaceira, incompetência e a mediocridade.

No Rio, falemos do Flamengo. Aliás, não falemos. É tanta desordem, mandos, desmandos e atropelos nesta administração micárlica de Patrícia Amorim que seriam necessários vários espaços como este no jornal para que citássemos tudo de errado que ocorrer na Gávea. Mesmo que nos utilizássemos de resumos e tópicos não daria. E o pior é que, no rubro-negro, oposição e situação trabalham juntas, unindo esforços no ininterrupto e acelerado processo de falência e desgraça completas do clube. Até um esquema contra o maior ídolo do clube, envolvendo um empresário de jogadores (financiador da campanha da presidente) e um ex-líder de torcida organizada (e hoje presidente do conselho deliberativo) ela aprontou para afugentar uma voz dissonante da sua, mesmo que esta voz fosse a do galinho Zico.

Aí, desembarcamos em Natal, terra boa, povo cordial, receptivo, capital de um Estado que desenvolveu a indústria do turismo, não só em razão das belezas naturais, mas também pela vocação para receber bem de um povo acolhedor e amável. Porém, quando se trata do ludopédio, nada nos difere das duas mais ricas unidades federativas. O que se presenciou neste campeonato estadual, tendo como clímax o dia da final, foi estarrecedor, de perder a fé no ser humano. Dirigentes alienados, inconscientes das consequências de seus atos e palavras, incapazes de perceber o quão nocivas podem ser suas atitudes e alheios ao poder multiplicador de suas declarações viscerais. Pensam com o fígado e agem como torcedores.

E não aceito a argumentação de alguns de que, antes de serem dirigentes, estes homens já eram torcedores apaixonados pelas cores das agremiações cujas gestões assumiram com espírito de entrega e abnegados cumpridores de um dever quase cívico, incutido pela paixão clubística. Tudo bem, vá lá, entendo, MAAAAS… É preciso assumir, junto com o cargo, certas liturgias que a função exige. Uma delas nos diz que “dirigente não é (ou não deve ser) torcedor”. A referência jocosa ao adversário, as brincadeiras, gozações inerentes ao dia-a-dia da disputa esportiva podem até ser artifícios utilizados por este ou aquele cartola mais irreverente. Porém, o que não precisa ter limites na voz da multidão ganha certas amarras ditadas pelo respeito ao próximo e o bom senso quando se trata dos gestores dos clubes. Quem quer liderar precisa ter a postura de um líder. Mesmo que finja ser o líder que efetivamente não seja.

No último domingo, ouvi relatos dando conta de dirigentes que impediram uma das torcidas de entrar no estádio, retiraram cadeiras do vestiário para que o time adversário não tivesse onde sentar, um senhor que mandou desligar arbitrariamente a energia de uma equipe de TV que transmitiria a partida, declarações coléricas e inflamadas daqueles que são vistos por suas torcidas como os administradores dos objetos de suas paixões e, como tal, de certa forma, líderes e modelos a serem seguidos. É a estupidez sendo disseminada de cima pra baixo, como sói ocorrer neste Brasil varonil, novo rico de um mundo em crise.

Em seu livro “A dança dos deuses – Futebol, sociedade e cultura”, o professor da USP Hilário Franco Júnior analisa o comportamento dos torcedores futebolísticos, mediante um fenômeno psicanalítico que o Dr. Freud chamava de “narcisismo das pequenas diferenças”. Os torcedores tendem a ver os adversários como inimigos, pois enxergam neles enormes diferenças, terríveis, irreconciliáveis, abissais. Quando, na verdade, os torcedores de quase todos os times apresentam enormes semelhanças nas constituições demográficas de suas torcidas. Não há mais grandes diferenças como havia no início. As torcidas diferem em quantidade, mas não em características. Porém, essa mania de enxergar pequenas diferenças como sendo enormes faz surgir toda a hostilidade de um torcedor com relação ao adversário. E como os dirigentes locais estão muito mais para torcedores fanáticos do que para gestores de fato, veem uns aos outros como inimigos e não como adversários.

Os relatos de violência antes, durante e, sobretudo, após a partida, para mim, decorrem em grande parte do comportamento destes homens de camisas polo e calças sociais que vociferam impropérios uns contra os outros, alimentando os bélicos e “organizados” fãs de ambos os times. Se houve tiros e, dizem, até mortes durante as comemorações, bem que eles poderiam ser co-responsabilizados. Como da última vez que fui a um clássico local e um morteiro explodiu a um metro do meu rosto. Um torcedor do outro time apontou um rojão em direção à multidão que escolheu cores distintas das suas. Fiquei imaginando o que poderia ter ocorrido se o petardo me atingisse e também no que pode ter levado aquele cara que nunca me viu, não me conhece, querer me matar ou me machucar seriamente. Só porque eu escolhi apoiar um time que não o seu? Para mim, não é o bastante.

Nunca mais fui a um clássico e sugiro aos torcedores dos dois times mais tradicionais de Natal que prestem bem atenção na próxima vez que um dirigente destilar seu repertório de ódio e intolerância contra os “inimigos”. Na verdade, aquelas palavras também são destinadas a você. E, se você sofrer uma violência,  elas podem ser a causa. Independente do seu time ou do dele. Toda ação gera uma reação. Desde Newton todo mundo sabe disso. Quer dizer, quase todo mundo, né? Os diretores de clubes ainda não descobriram.

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Coluna do Novo Jornal – 063 – A queda do gigante – 05.11.2011

fevereiro 6, 2012

O Machadão caiu. Mas quando esta crônica saiu, ele ainda estava de pé (pelo menos em parte).

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A queda do gigante.

Todos os dias, ao subir de carro o viaduto do 4º centenário, vejo um filme, produzido em quadro a quadro, que mostra a queda de um gigante. Tal qual o personagem “Funes, o memorioso” de Jorge Luís Borges, as imagens que vislumbro a cada nova manhã de dia útil se eternizam desde a retina até o setor de arquivos imagéticos do cérebro. O “poema de concreto armado”, como eu costumava ouvir de Hélio Câmara, míngua como a lua e teima em desaparecer de nossa visão, prometendo dar lugar a uma estrutura muito maior, mais moderna e preparada para nos oferecer os espetáculos de qualidade que esta nascente metrópole com alma de província merece em sua trajetória de nova rica deslumbrada. Além, claro, de sub-sediar uma Copa do Mundo.

Não sou um saudosista inveterado, em que pese seja canceriano. No entanto, guardo com muito carinho os bons momentos vividos. E é em nome desses bons momentos que sinto uma estranha e indefinível sensação a cada pedaço que vejo faltar em minhas passagens diárias pelo Machadão. Trata-se de uma espécie de saudades do que não vou mais viver.

Minha primeira vez no estádio foi quando criança. Meu pai e irmão tentavam me converter para um dos grandes times de Natal. Eu não gostava de ir ali. Era meio rebelde e nada social. Queria ficar em casa com minhas revistas em quadrinhos e brincadeiras ensimesmadas e solitárias (Comandos em Ação, carrinhos de ferro, Playmobis, soldadinhos coloridos de plástico). Achava aquela história toda de sair de nossa casa no Alecrim para ir a um lugar distante (sim, jovens. Creiam-me: Lagoa Nova era distante.), cheio de adultos chatos e que ainda me pegavam de repente e me erguiam contra a minha vontade na hora dos gols. Era uma urgência, uma histeria, uma alegria inconsciente que eu não compreendia em absoluto. “Meu Deus, me tirem daqui! Levem-me de volta aos meus brinquedos!”, pensava comigo. Enfim, eu não estava preparado para me apaixonar pelo futebol, assim como os adolescentes não estão preparados para ler Machado de Assis aos 15. Tudo a seu tempo.

Os anos passaram e descobri-me rubro-negro. Meu padrinho, Zé Augusto, e meu irmão, Marcos Fialho, foram mais eficazes que meu pai, Zé Arruda, vascaíno. Sorte minha. Aí, um dia, voltei ao Machadão. Dessa vez, por vontade própria. Em 1993, o Flamengo Pentacampeão brasileiro vinha a Natal, jogar contra o América campeão estadual. 42 mil pessoas lotaram o estádio e viram um jogão. Um 2×2 lá e cá, com o Flamengo empatando apenas no fim. Eu tinha então, 13 anos de idade e, em vez de ficar chateado com a água que o time potiguar havia despejado no chope do Mengão, resolvi torcer por ele em âmbito local, tornando-me o que os fanáticos das torcidas organizadas locais que se agridem e matam mutuamente mais odeiam: um “misto”.

Em 1996, ano histórico, dois momentos importantes. Um título potiguar que embalou o time rumo ao vice-campeonato da série B. Eu, que estudava para o vestibular, faltei todos os aulões possíveis para acompanhar a campanha do América. O time que tinha Gito na zaga, Carioca, Moura e Biro-Biro no meio campo, contava ainda com uma trinca de centroavantes estrelados. Wanderley, “o artilheiro dos descontos”, sempre salvava no fim; Zé Ivaldo era o rei dos gols impossíveis; e o mossoroense Cícero Ramalho, quando entrava, decidia. Um gol que Zé Ivaldo fez contra o Náutico estará para sempre tatuado em nossas consciências rubras. Foi aos 36 do segundo e o goleiro pernambucano não defenderia aquela nem se pulasse dois dias antes com um cabo de vassoura na mão.

No ano seguinte, a permanência na primeira divisão também teve peso de título. Time redondinho armado por Júlio César Leal fez bonito e, contra tudo e todos, não caiu. Lembro dos gols de Gito, do jogo com o Cruzeiro em que a vitória veio de virada e com toda a torcida sacudindo suas latas de cerveja, provocando uma chuva digna de uma “São Saruê” etílica. O empate em 3×3 com o Grêmio também teve contornos épicos.

Aí veio 1998. A mesma base que jogava junta havia 2 anos, recebeu reforços como Paulinho Kobayashi e o centroavante Leonardo. O resultado foi o título do Nordeste com direito a vitórias sobre Ceará, Santa Cruz, Náutico, Vitória e um inesquecível 4×0 sobre o ABC. Lembro bem da manchete do Diário de Natal no dia seguinte: “Kobayashow!” Na mesma semana, num jogo pelo estadual que não valia nada, mais uma vitória em clássico, com direito a gol do meio de campo do camisa 10 nipônico e pé-quente.

Nos anos 2000, vieram tempos de altos (subidas da C pra B e depois pra A) e baixos (quedas da A pra B e depois pra C). Mas se o time não era sólido ou confiável, as idas ao Machadão se mantinham firmes e fortes. Programa de domingo (ou sábado à noite) junto a alguns bons amigos, como os irmãos Guanabara, Rodrigo Santos (o menino de Racine) e o Dr. Joélio de Oliveira.

Espero que esses momentos passados, importantes para minha formação como torcedor, inspirem muitos outros que virão na anunciada Arena das Dunas. Nesta segunda subirei o viaduto de novo e mais um pedaço do estádio haverá ruído, revelando um campo cheio de destroços de guerras ancestrais, desfraldando o espaço que dará lugar a um novo palco de batalhas esportivas, nesta esplêndida representação da ludopédica vida que é o bom e velho esporte bretão.

Porque se o Machadão some pouco a pouco, suas lembranças permanecerão conosco para sempre.

A PRAGA DOS ABNEGADOS por Adriano de Sousa

maio 13, 2011

Adriano de Sousa escreveu uma coluna irrepreensível no @NovoJornalRN esta semana. Na ocasião, ele analisa com muita propriedade a atuação dos senhores Alex Padang, Eduardo Rocha, Roberto Bezerra e Paulinho Freire à frente do clube. Uma relação parasitária que certamente foi muito proveitosa para todos eles, mas extremamente predatória para o clube. Sem mais, leiam o preciso e precioso texto de Adriano.

Adriano de Sousa ladeado por Mário Ivo e Giovanni Sérgio.

A PRAGA DOS ABNEGADOS

 Por Adriano de Sousa

A crise crônica do América não se resolve com a renúncia de Clóvis Emídio e com o retorno dos “abnegados” auto-escalados como salvadores da pátria. Ela passa ao estado de suspensão, mais conveniente ao grupo, que depende dela para manter o clube dependente dele. É a regra de ouro para perpetuar o poder, num ciclo perverso que impede o América de se estruturar profissionalmente e de estabelecer fontes regulares de receita para custear o futebol. Assim, estará sempre subjugado à bolsa e ao ego dos profissionais da abnegação. 

O modelo predatório baseado nos tais “abnegados” não é privilégio do América nem foi inventado agora, para resolver crises pontuais. Ele corrói indistintamente todos os clubes, resiste ao verniz retórico de modernização entoado como mantra de Ponta Negra a Pau dos Ferros e é tão anacrônico quanto o vocábulo que originou o termo, emprestado da religião. Etimologicamente, “abnegação” é a renúncia da própria vontade e o desapego de tudo o que não diz respeito a Deus. Em linguagem mundana, seu equivalente mais vulgar seria “altruísmo”, ou a capacidade de sobrepor aos nossos desejos as necessidades do outro.

Ao que sabe nesta aldeia de muros baixos, não há caso de abnegado que tenha deixado de retirar o que botou no caixa do clube (América ou qualquer outro). O que varia é a forma – em dinheiro vivo, em parte dos direitos federativos de algum jovem promissor, em projeção social ou carreira política. Se fossem mesmo os abnegados que dizem ser – e que a crônica esportiva referenda acriticamente, sabe-se lá a que preço – os cardeais já teriam transferido ao América não o seu rico dinheirinho, mas algo mais sólido e eficaz para os destinos do clube: a extraordinária competência gerencial que eles demonstram nos seus negócios privados.

Imaginem aí a pujança econômica do América se esses abnegados implantassem no clube os métodos e processos que fizeram do Carnatal uma inexaurível mina de ouro, que resiste até à pior das ameaças (a troca de guarda no poder) para quem desconhece fronteiras entre o público e o privado. Ou que transformaram franquias medíocres do forró de plástico em saco de bondades onde cabem helicópteros e outros brinquedinhos de luxo. Talvez o clube já tivesse – se não uma aeronave – ao menos um ônibus para transportar o elenco nos safáris ludopédicos pelos sertões do Estadual e da Série C.

A questão poderia estar em pauta se Clóvis Emídio houvesse individualizado as críticas, que eram o melhor da sua carta de renúncia. A mágoa e o amargor escancarados no documento não bastaram para nomear as vacas sagradas que, segundo ele, boicotaram sua gestão e a do antecessor. A conveniência política ou algum insondável senso de lealdade ao clube em crise deve ter pesado na opção por sonegar essas informações e por agir como carapuceiro. É uma pena, porque assim se perde a rara oportunidade de discutir a sério na mídia, sem eufemismos e sem jabá, a praga da abnegação e seus efeitos nefastos para o nosso futebol mendicante.

4 Imagens

maio 10, 2011

IMAGEM 1

Amigos, esta é a mais nova blusa dos Jovens Escribas, a última da coleção Primavera Verão. Custa R$ 35,00 e quem comprar duas, ganhará o livro de Pablo Capistrano que sairá dentro em pouco pela Jovens Escribas.

IMAGEM 2

Abaixo podemos ver eu e o professor Caio Vitoriano em momento de grande tensão no aniversário de nossa amiga em comum, Carolina Carvalho. Ninguém se machucou durante a produção desta foto.

IMAGEM 3

Time do Comitê / Rits em formação. Craques do futsal.

IMAGEM 4

Aqui podemos ver os 3 melhores jogadores do Comitê / Rits em ação. Thiago e Fialho super ligados no jogo e Pedro Victor cantando o hino nacional com 2 horas de delay.

Coluna da Digi # 105 – Copa de 2014. E o principal?

fevereiro 14, 2011

 

Esta foi mais uma crônica da sequência de textos sobre a Copa de 2014. Aborda a eterna fixação pelo secundário dos natalenses, deixando de lado itens muito mais essenciais para o nosso desenvolvimento. Espero que sirva de reflexão para todos.

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Copa de 2014 – E o principal?

A Copa do Mundo é nossa. Ou deles, sei lá. Do Ricardo Texeira, dos governos federal e estadual, da prefeitura, da Globo, dos patrocinadores e suas isenções fiscais absurdas e imorais. Mas, a despeito de toda essa turma que monopoliza o filé e retém para si os principais dividendos, manejando enormes quantias de dinheiro, alguma mínima parte do montante acaba por beneficiar os moradores locais. Benefícios que vem através de investimentos em infraestrutura, transporte público, turismo e formação profissional para receber turistas. Sem falar nas divisas que ingressam na cidade durante o evento, aquecendo a economia informal.

Essas são algumas vantagens de sediar o evento. E muita gente tem opinado sobre tais aspectos, seja cobrando providências, apontando soluções ou promovendo palestras e debates. Todos os dias vemos autoridades nos jornais explanando sobre o tema. São governantes, candidatos, dirigentes de entidades diversas e representantes das mais variadas categorias. Ninguém quer ficar de fora do foco de todas as atenções. Até o termo “político copa do mundo” foi reinventado, ganhando uma conotação positiva.

No entanto, nenhuma dessas autoridades ou os jornalistas que abordam o assunto diariamente na imprensa tocaram num ponto importantíssimo do processo. Ninguém parece ter enxergado que a realização da Copa no Brasil, tendo Natal como sub-sede, pode significar uma oportunidade única para promover uma ampla, profunda e permanente transformação social. É claro que isso não me surpreende, já que uma das nossas maiores características é a falta de visão periférica dos detentores da informação (empresários, jornalistas, intelectuais, políticos e universitários). Parecemos (os natalenses) incapazes de elaborar raciocínios minimamente complexos, envolvendo planejamento, ações de longo prazo e benefícios mais abrangentes, ocupados demais que estamos com interesses individuais e imediatos.

A alternativa que ninguém viu até o momento é a chance de deixar um legado verdadeiro para a população local. Que tal um projeto de transformação social por meio da prática esportiva de alto nível associada à educação de excelência?

Poderíamos aproveitar a força do evento para criar algo positivo e sem precedentes na nossa história. O impacto psicológico no imaginário coletivo levaria as pessoas a abraçarem causas nobres com maior facilidade. Inclusive, uma que só gere frutos após alguns anos, desde que se deixe claro que mudará nossa cidade para melhor.

Um trabalho como este resultaria em um legado realmente duradouro para a nossa cidade. E ainda nos salvaria do ridículo de construir um estádio moderno e caríssimo sem ter atletas preparados para atuar lá. Pois como disse o neurocientista Miguel Nicolelis recentemente, não podemos ficar eternamente dependendo do turismo. “Turismo é migalha”, declarou. Pesquisa, ciência e educação são riquezas muito mais duráveis e valiosas.

Mas nós não percebemos a importância do esporte e da educação para a transformação das pessoas humildes. É que o natalense é antes de tudo um míope. Um míope social. Somos insensíveis aos problemas dos outros e de um desleixo tão torpe que organizamos um evento de grande porte há 20 anos (o Carnatal) e ele nunca serviu para mudar a vida das pessoas pobres da cidade. E olhe que elas se envolvem de corpo e alma com o evento devido a seu apelo popular. No fim, e como sempre, os ganhos reais ficam nas mãos de meia dúzia de empresários e políticos.

Por isso, mesmo acreditando que a infraestrutura é essencial, a segurança e o transporte são necessários, defendo que o principal valor dessa cidade será mais uma vez negligenciado por nós. O mais importante não é a Arena das Dunas, as obras do Centro Administrativo ou as milhares de vagas de estacionamento. O principal é o povo. São as pessoas. Quando a Copa passar, elas continuarão aqui. Mesmo que nós sigamos fingindo que não existem nos canteiros e sinais.

Faço o alerta neste espaço, mas não chego a me iludir de que alguma coisa vá mudar. Até porque o raciocínio dessa gente é simples: “se a opinião pública se contenta com migalhas, imaginem o povão”. Principalmente o povão.

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Quem quiser ler as crônica anteriores sobre o tema, pode clicar nos seguintes atalhos:

A roubalheira vai começar.

A conta é nossa.

Minhas razões

Bombas de efeito imoral.

Coluna da Digi # 103 – Papa essa, Brasil!

fevereiro 8, 2011

Ah, a Copa de 90! Que celebraçãpo do futebol arte, não foi mesmo? Este texto foi concebido a partir da ideia do autor Thiago de Góes (“Contos Bregas”, “Lobas, Deusas e Ninfetas”) de escrever contos sobre os anos 80. Brinquei com o fato de que o ano de 1990 faz parte da década de 80, apesar de as pessoas em geral não considerarem isso. Foi então que resolvi escrever um texto cheio de ironia a respeito da pior Copa do Mundo de todos os tempos.

Abraços.

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Papa essa, Brasil!

Eu acho que agora vai! Depois de 20 anos chegou a hora de a gente papar essa Copa do mundo. E olhe que eu tenho uma intuição muito boa, boa mesmo. O Collor, por exemplo, começou mal, com essas medidas impopulares, mas pra fazer as coisas darem certo no Brasil, com esses tantos problemas, tem que ser radical mesmo. Um remédio, pra ser bom, tem que ser amargo. Senão remédio seria pizza, né não? Meu pai é que quase teve um treco quando tomaram a poupança dele, mas depois se recuperou, ou quase, e tirando os remédios pra pressão alta e depressão, está levando uma vida próxima do normal.

Mas, fanado de coisas boas, a seleção vai ganhar a Copa sim. Eu tenho fé nisso. Veja a Copa América do ano passado. Demos um baile, jogando bonito, vencendo os rivais. Inclusive a Argentina que vinha com toda aquela banca de campeã mundial. Dançaram bonito no Maracanã. O Lazaroni é aquela coisa, né? Estrategista, com boas peças na mão. Na defesa tem o Taffarel, o Jorginho, o Branco, Mozzer. Na frente tem o Careca, o Muller e ainda Bebeto, Romário e Renato no banco. Só não gosto muito do Dunga, sabe? Não acho que esse aí vá a lugar nenhum. Mas, enfim, se a gente for campeão, ele também vai estar na foto do tetra. Aliás, voltando ao Lazaroni, vocês viram como ele está bem como ator naquela propaganda da Fiat? Hehehe. Muito engraçado.

E vamos que vamos, ao ritmo da Lambada, conquistar a Itália. Por falar nisso, minha irmã virou professora de Lambada. Aquela ali está feita. Vai se dar muito bem na vida, pois não dou 5 anos para o ritmo paraense desbancar o samba como símbolo da música brasileira no mundo. Com certeza, não nenhuma moda. É uma profunda mudança de costumes e valores culturais. A Lambada veio pra ficar. Pode confiar.

E podem confiar em meus palpites futebolísticos também. A Holanda é a campeã europeia. Por isso acho que vai bem longe. Certamente vai fazer a final contra o Brasil. Não acredito nas outras seleções. Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental e Argentina não vão chegar longe dessa vez. E olhe que os donos da casa têm pinta de favoritos. Argentina e Alemanha também porque foram finalistas no México, mas nenhum deles vai ficar de pé se cruzar com Brasil ou Holanda.

Sabe qual é uma equipe que pode surpreender? O Uruguai. Em 86 Francescoli já deu um show e acredito que agora eles também vão arrebentar. É capaz de pintar numa semifinal. Outro time sul-americano que pode ser uma zebra é a Colômbia. Aquelas saídas do Higuita para driblar fora da área irritam os adversários a ponto de deixá-los sem ação. Ele ainda vai aprontar uma das suas nessa Copa. Alguns acham que é irresponsabilidade, mas eu e minha intuição sabemos que não vai acontecer nada de errado com os colombianos por causa daquilo. É capaz que, em uma dessas jogadas, ele dê início a uma jogada de gol na Colômbia.

O que ainda é triste é o fato de as equipes asiáticas e principalmente as africanas serem enormes sacos de pancada, meros coadjuvantes para que europeus e sul-americanos exibam seu talento. Já na abertura a gente vai ver. A Argentina vai dar uma surra em Camarões e vão se achar os favoritos absolutos. Ouvi dizer que Camarões tem um centroavante de 38 anos de idade. O nome dele é Roger Milla. Minha Nossa Senhora! O que é que esse senhor vai fazer numa Copa do Mundo? Tá na cara que vieram passar vergonha.

E aposto no artilheiro também. Vai ser o Van Basten. Seguro que vai. Ou talvez o Lineker ou algum brasileiro. Da Itália é que não vai ser. Aquele futebol feio, amarrado, sem criatividade. O pessoal tá dizendo que o Brasil está querendo jogar à italiana, mas… que nada! O Brasil vai testar esse esquema de 3 zagueiros, mas logo vai mostrar sua categoria, malemolência, futebol moleque e, esquemas italianos à parte, vamos vencer uma linda final contra a Holanda.

Enfim, quem quiser pode anotar o que eu estou dizendo. Sou muito bom em previsões e tudo o que eu disse vai acontecer. O Brasil vai ganhar a Copa de 90 depois de 20 anos, o Collor vai ser um grande presidente, a Lambada vai ser o ritmo essencialmente brasileiro, tomando o lugar do Samba e muitas outras coisas que a minha intuição está me dizendo. Podem confiar. Eu sou infalível!

Nos blogues dos caras – Rica Perrone e Émerson Gonçalves

outubro 18, 2010

Hoje, vou indicar dois blogues do Globo Esporte ponto com.

Ambos são originários da blogosfera e acabaram sendo convidados a se hospedarem no portal justamente pela excelente qualidade do conteúdo. Desde que os li pela primeira vez, virei freguês. Nunca deixei de dar uma passadinha nas bodegas de um e de outro para conferir se tem novidades. Se vocês gostam de futebol, informação de qualidade e uma boa leitura, sugiro que façam o mesmo. Vale a pena.

 Olhar Crônico Esportivo – http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/

 

Émerson Gonçalves é especialista em marketing esportivo, em particular no que se refere ao futebol. Em seu blogue, aborda o grande negócio que se tornou o mundo da bola nos dias de hoje, explicando estratégias adotadas por clubes, confederações e organizações e$portivas em geral. Divulga informações referentes a patrocínios, valores de marcas, investimentos e retornos obtidos, analisa balanços, apontando possíveis erros ou acertos, lucros e prejuízos. Fala de valores e dá nomes aos bois, não se preocupando em poupar empresa A ou B, dirigente X ou Y, na hora de revelar cagadas cometidas com o dinheiro alheio. Os ativos e passivos de nossos times de futebol, os contratos com as televisões e a inacreditável situação de atraso gerencial que assola 90% de nossas amadoras e corruptas instituições futebolísticas são temas recorrentes neste espaço virtual.

Isso sem falar que Émerson escreve muitíssimo bem, coisa rara nesse mundo do marketing. Eu nunca havia lido um especialista em negócios (seja de que área for) se expressar com tanta clareza, objetividade e, ao mesmo tempo, com vasto vocabulário, português correto e sem anglicismos. Enfim, com domínio total do assunto ao qual se refere.

Acessem e aprendam bastante, como eu já venho fazendo há mais de 2 anos.

Blog do Rica Perrone – http://www.ricaperrone.com.br/

 

Tive contato com os textos do Rica Perrone através do Urublog, do Arthur Muhlemberg, de quem sou leitor e fã confesso, já o tendo definido como dono de um dos melhores textos de humor do Brasil. O Rica é paulistano e produz o podcast do Urublog junto com o Arthur. Em seu sítio próprio, porém, o assunto não se restringe exclusivamente ao Flamengo, expandindo-se a temas menos importantes como outros clubes, seleção brasileira e futebol tupiniquim.

Suas análises, reflexões e visões do que ocorre no mundo da bola brasilis são de uma sensatez que é muito difícil de encontrar em meio à pressa, o sensacionalismo e a touperice do jornalismo esportivo brasileiro. É muito bom poder ler alguém capaz de tecer uma linha de raciocínio coerente, embasada em situações ocorridas no passado e que se utiliza de pesquisa e apuração de informações e não apenas em boatos e certas “fontes” que poderiam muito bem ser um blogue apócrifo de veracidade duvidosa. Rica Perrone se sobressai nessa geleia geral de dados desencontrados que é o mundo virtual. Seu sítio internético evidencia um jornalista sério, apaixonado pelo seu ofício e responsável nas postagens que publica ou nos podcasts que grava. De vez em quando, derrapa, expondo também alguma contradição, como a sua recusa crônica em não reconhecer os pontos corridos como a melhor fórmula de disputa para o Brasileirão. Mas, pô! Algum defeito o cara tinha que ter, né não?

Boa leitura e ótimos acessos.

Coluna da Digi # 62 – Copa 2014 – Bombas de Efeito Imoral

setembro 13, 2010

Esta foi a 4ª crônica que escrevi e publiquei na Digi a respeito da Copa de 14. Foi publicada em 31 de maio de 2009 e hoje republico aqui. Boa leitura.

***

Em uma das cenas do filme “A Queda – As últimas horas de Hitler”, Eva Braun, mulher do ditador, organiza uma festa num salão enquanto Berlim está sendo bombardeada pelos aliados. Ela queria passar para as pessoas a falsa impressão de que tudo estava indo muito bem a despeito das explosões que se ouviam. Até que uma bomba caiu no salão e todas aquelas pessoas perceberam que viviam uma grande mentira.

Ultimamente tenho lembrado constantemente desta cena como alegoria da candidatura de Natal a uma das sub-sedes da Copa de 2014. Candidatura vencedora, aliás, conforme foi anuncado ontem.

É claro que nós queremos participar da festa, usufruir dos investimentos público-privados que beneficiarão a cidade, viver um clima de Copa do Mundo aqui mesmo na terrinha, mas por que precisam mentir tanto pra gente? Por que precisam nos fazer palhaços com tanta frequência? Por que não admitir que as bombas caem lá fora enquanto dançamos ao som de Banda Grafith aqui dentro do salão?

Sexta retrasada fui ao Machadão. O mesmo que será demolido para a construção da Arena das Dunas. O que eu vi mais uma vez? Um estádio que atravessa décadas de descaso e obras de maquiagem. Sempre que vou ao estádio, fico procurando os R$ 17 milhões investidos pelo então prefeito Carlos Eduardo e sinto extrema dificuldade em encontrá-los. Foram investimentos na infraestrutura, me explicam pessoas mais esclarescidas, obras necessárias para que o estádio não caia, como aconteceu com a Fonte Nova em Salvador. Tudo bem, explicações dadas. Mas, vem cá: não dava pra ter estruturado minimamente os banheiros para que o torcedor não tenha seus pés embebidos em xixi a cada vez que precise usar o banheiro?

E a nova Prefeita que promete fazer das tripas coração, mover mundos e fundos, dar tudo de si, para que Natal esteja pronta, e não é capaz de solicitar um placar para o estádio. E nem precisa ser eletrônico não, porque nós torcedores, que estamos em petição de miséria, nos contentamos com um placar manual, a manivela, enfim, qualquer um que a FENAT tenha a boa vontade de conseguir para nós.

Um exemplo de como o poder público zomba de todos nós foi o que fizeram com o arquiteto Moacyr Gomes da Costa. Ele foi convidado para apresentar na CBF um estudo de adaptação do Machadão a todas as normas exigidas pela FIFA para a realização de um jogo internacional. Vale lembrar que a Alemanha só precisou construir dois estádios para realizar sua Copa e que a França só ergueu uma única arena em 98. É claro que as estruturas deles são mais bem cuidadas, em virtude do zelo que eles têm pelo seu patrimônio, o mesmo zelo que justifica a não demolição/reconstrução da maior parte de seus estádios.

O fato é que, enquanto o arquiteto potiguar apresentava seu projeto de adaptação do Macahadão, que custaria muito menos aos nossos bolsos de contribuintes e seria suficiente para que tivéssemos uma praça de esportes decente e de sentir orgulho, o Governo do Estado encomendou um outro projeto que custou R$ 3,6 milhões a uma empresa norte-americana que contempla a demolição e reconstrução de uma nova arena. Em suma: mentiram descaradamente para o arquiteto potiguar e o usaram, enquanto ganhavam tempo para terem uma outra carta na manga muito mais dispendiosa e, sabe-se lá Deus se necessária.

Mentiram para o senhor Moacyr assim como mentem para todos nós, mas a maior distorção dessa história toda é que eu não vi nenhuma declaração de político, seja a governadora, a prefeita ou o deputado micareteiro que, cada vez mais, tem certeza de que somos um bando de otários, que falasse em promover o ESPORTE DA CIDADE, em transformar Natal em uma referência em formação de atletas, em inclusão social através da prática de atividades. Nossos projetos têm o objetivo de construir estruturas, mas cadê os projetos para construir cidadãos? Querem erguer um complexo esportivo de primeiro mundo, mas vão colocar QUEM pra jogar lá? A nossa letargia e insensibilidade é tão gritante que os políticos nem cogitaram essa hipótese. Não seria natural que aproveitássemos o “efeito Copa” em benefício real dos nossos cidadãos e da sociedade em geral?

Enquanto isso, as bombas caem lá fora. A bomba dos remédios estragados, a bomba da insegurança pública e dos problemas viários, a bomba da educação que parece sem solução possível. Elas vão explodindo e nós, como bons natalenses que somos, vamos repetindo o nosso mantra: “Me engana que eu gosto!”

Coluna da Digi #58 – Copa 2014 – Minhas razões.

setembro 3, 2010

No dia 20 de abril de 2009, resolvi escrever mais uma crônica abordando a Copa de 14. Eu queria explicar melhor minhas opiniões para que não ficasse a impressão de que eu estava sendo contrário ao evento. Não se trata disso. Na verdade, eu me posiciono contrário à maracutaia, à roubalheira, ao superfaturamento. E acredito que consegui explicar bem nessa crônica. Nem sei se ela continua atual, mas republico aqui sem alterações.

Boa leitura!

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Copa 2014 – Minhas razões

Uma das coisas que eu menos gosto nessa vida é a crítica parnasiana, sem embasamento, aquela que existe pelo simples motivo de falar mal dos outros, configurando-se, portanto, como injusta. Acredito que seja preciso mostrar um certo embasamento para alicerçar as palavars com argumentos concretos que justifiquem uma posição contrária ao objeto da crítica.

Para não incorrer neste equívoco, tão comum entre os meus colegas blogueiros locais, faço uso da coluna de hoje para expor alguns argumentos referentes à candidatura de Natal a uma das sub-sedes da Copa do Mundo de 2014. Para pautar o texto segundo os interesses do público, utilizarei algumas perguntas e provocações recebidas nos comentários desta coluna ou no meu blogue (blogdofialho.wordpress.com). Dessa forma, a crônica de hoje será como uma daquelas seções de sítios de empresas, onde se lê “Perguntas Mais Frequentes”.

“Se a Copa já vai ser no Brasil, por que Natal não merece ser uma sede?” O leitor tem razão. O que é um peido pra quem está todo cagado?

É claro que, uma vez que o Brasil será sede de uma Copa do Mundo, Natal na condição de um dos principais destinos turísticos do país, merece receber alguns jogos, nem que seja entre Coreia do Sul e Togo, ou Costa Rica e Ucrânia. Eu torço para que Natal seja escolhida e também acho que o Brasil, por méritos futebolísticos absolutos, merece receber a mais popular competição esportiva do mundo. No entanto, isso não me impede de alertar os meus leitores para tudo de errado que acontece no processo pelo qual passamos e que culminará com a realização da Copa no Brasil.

Sou amante do futebol, fanático pelo esporte, curioso do assunto e frequentador do Machadão. E é exatamente por gostar demais de bola que levanto minha voz indignada ante os que fazem uso do nobre esporte bretão para fins escusos. A verdade é a seguinte: o futebol no Brasil existe para atender os interesses de uma única pessoa, o presidente da CBF, Ricardo Texeira. Este senhor utilizou a confederação para enriquecer e engendrou um esquema para perpetuar-se no poder, envolvendo todos os presidente de federações estaduais.

Com isso, não existe punição para qualquer ato de corrupção do dono da nossa paixão. Todos os anos ele aprova as contas deficitárias da entidade com prejuízos vultosos, mesmo contando com fontes de renda milionárias como contratos de patrocínio, licenciamento de produtos e cotas altíssimas para realizar amistosos com a seleção. Como um conselho fiscal pode aprovar as contas deficitárias mesmo com tantas e ótimas receitas? Simples: a votação é feita pelos presidentes de federações estaduais. Em troca da aprovação, eles mantém campeonatos estaduais deficitários, preservando o seu poder local e embolsando dinheiro de rendas de jogos, conseguindo eles próprios aumentar seu patrimônio pessoal em cumplicidade dos cartolas de clubes que, por sua vez, votam para que eles se mantenham no comando.

Aqui no Rio Grande do Norte, ganhou espaço até na mídia nacional o célebre caso dos R$ 200 mil que sumiram da renda do jogo entre Baraúnas e Vasco pela Copa do Brasil.

Um outro comentário que foi feito dizia: “As obras no Machadão e no Centro Administrativo vão permanecer como legado para a cidade.” ou “A maior parte do dinheiro virá de investidores privados”. Isso é ótimo. O que os políticos estão prometendo é muito bom mesmo. Eu concordo com tudo que possa melhorar a vida dos cidadãos. Se é para Natal ganhar um estádio moderno, com amplo estacionamento e onde eu não precise embeber meus pés em urina a cada ida ao banheiro, sendo parte de uma estrutura maior, que inclui centro de compras, restaurantes, cinemas, edifícios comerciais e ainda o centro administrativo e ainda por cima que tudo isso seja financiado por uma parceria público-privada, eu sou inteiramente a favor!

A questão é que gato escaldado tem medo de água fria e no país do PAN 2007, em que um estádio foi orçado em R$ 300 mil e custou quase R$ 1 bilhão pagos com o dinheiro do Governo Federal, a gente não pode esperar boa coisa desses estádios todos que vão construir em todo o país. Isso sem falar que o Rio Grande do Norte é o Estado da Ponte de Todos, superfaturada até o talo e do Foliaduto que desviou mais dinheiro público do que você pode imaginar e deixou a Fundação José Augusto tão desorientada que ela perdeu o prumo de vez. Esses exemplos tão vivos e pulsantes em nossa memória depõem contra os políticos e não me permitem ter muita fé na lisura com que será erguido o nosso Estádio das Dunas.

Por fim, menciono também o estatuto paralelo do torcedor em vigor em todo o Brasil que permite uma ação desenfreada de cambistas, muitas vezes patrocinadas por dirigentes de clubes, e dá o direito de sofrer bordoadas da cavalaria da Polícia Militar cada vez que é preciso organizar uma fila.

Essas são as minhas razões para me posicionar, não contra a vida da Copa para Natal, mas a favor de que tudo ocorra com honestidade e transparência. O problema é que os nossos políticos, apesar de não gostarem muito de futebol, adoram levar uma bola pra casa. Com trocadilho, faz favor.

Coluna da Digi # 53 – Copa 2014 – A conta é nossa.

agosto 5, 2010

No dia 19 de janeiro de 2009, publiquei uma coluna chamada “Eles fazem. E nós?”, divulgando um comercial da Liga Norte-riograndense contra o Câncer, criada pelo Deus supremo da propaganda potiguar, Fábio Carvalho. Porém, não julguei pertinente republicá-la aqui hoje. Prefiro pular pra coluna de número 53, “Copa 2014 – A festa é nossa e a conta também.”, a segunda que abordava o evento (a primeira havia sido publicada em 29 de outubro de 2007 e se chamava “Copa 2014 – A roubalheira vai começar.” Aliás, ela também pode ser encontrada aqui no blogue, basta procurar na etiqueta “Copa 2014” aí do lado.).

Boa leitura.

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Copa 2014. A festa é nossa… e a conta também.

Deixa ver se eu entendi. Vão demolir o Machadão, o Machadinho, o Centro Administrativo, contruir uma arena esportiva de primeiro mundo, cumprindo todas as exigências da Fifa e seus padrões suiços de qualidade, transformar Natal em Dubai e tudo isso só vai custar R$ 300 milhões? E querem que a gente acredite que, se forem dar cabo dessa idéia quixotesca, não vão gastar pelo menos o triplo desse montante? Isso em plena crise econômica mundial, quando todo mundo só fala em contenção de gastos e a Prefeita recém empossada acaba de anunciar um rombo de R$ 116 milhões nos cofres públicos? Devo estar doidão, pois eu li isso nos jornais locais essa semana! Acho que foi a água com nitrato que deu algum revestrés e provocou esses delírios.

Se isso for verdade, fico imaginando como vamos explicar pra população mais pobre que temos esse montante de dinheiro para construir um estádio com tanta grana enquanto a saúde local encontra-se em situação desesperadora.

Querem trazer pra cá uma sub-sede de Copa do Mundo? Um Estado que não consegue evitar a poluição das praias, coibir o turismo sexual e conter a escalada da violência? Já foram mais de 80 mortes desde as festas do fim de ano e todos os dias surgem novos relatos de assaltos: na Prudente de Morais, em pleno coração da cidade, ou em praias por todo o litoral em que famílias inteiras vêm sendo feitas reféns por bandidos armados.

Vão promover um dos eventos mais bem organizados do mundo na terra que não conseguiu enviar ajuda para as vítimas das enchentes no interior e deixou toneladas de alimentos paradas em galpões na capital?

Isso sem falar que na cidade do sol, basta cair uma chuvinha que alaga tudo, as famílias perdem os bens e os turistas vão ter que ir pros jogos da Copa de helicóptero. E sabem como eles tentam resolver os problemas de drenagem da cidade? Desmatando mais de 1000 árvores em Capim Macio.

O problema é que o pensamento megalomaníaco das autoridades as deixa inebriadas com a capacidade empreendedora de nossas “otoridades”. Certamente, o vice-prefeito micareteiro e micarleteiro já deve ter convencido as pessoas em seu redor que uma cidade que organiza o Carnatal pode realizar “qualquer evento”.

E a Governadora que demorou a vida de Matusalém pra construir uma ponte que consumiu tubos de dinheiro? Será que ergueria o estádio a tempo da Copa… de 2034?! E o evento seria organizado com a mesma transparência e probidade do Carnaval de 2005 (o do Foliaduto)? Será que eles contratariam a Banda Mel pra tocar no intervalo dos jogos?

Ah, e eu não posso esquecer do nosso Deputado das Estrelas! Esse aí Faria o maior sucesso como secretário-chefe do comitê organizador do Camarote da Copa! Cheio de celebridades gostosas e famosos “nãoseiquemzinhos” do país inteiro. Enfim, um luxo! Não se fala de outra coisa na redação da Caras.

Mas o pior vem agora: lembra daqueles R$ 300 milhões (que se transformarão em R$ 1 bilhão quando as obras se iniciarem)? Pois é. Seremos nós (você, eu e aquelas pessoas enfermas e sem atendimento médico que enchem os corredores do Walfredo) que vamos pagar. Mas como diz o jargão político-futebolístico: “É bola pra frente!”

A volta de Cruvinel

junho 15, 2010

Em 2002, durante a Copa do Japão e da Coreia, criei o personagem Cruvinel. Trata-se de um cara que não entende nada de futebol, mas entende menos ainda de paquera. Por isso, aproveita os jogos do Brasil na Copa como uma oportunidade especial para puxar assunto com as gatinhas, uma vez que neste período todas as pessoas estão subitamente interessadas em futebol.

O divertido do personagem é que, por não entender nada de bola, as tentativas de aprender rapidamente sobre o esporte bretão a fim de não cometer muitas trapalhadas com as moçoilas resultam por demais desastrosas. Ainda mais porque o melhor amigo do Cruvinel, um extrovertido fanático por futebol e pela seleção chamado Quaresma, atrai o amigo para as maiores roubadas.

O personagem seguiu tendo suas histórias relatadas no mundial da Alemanha em 2006 e, agora em 2010, vou escrever mais textos com suas desventuras, tendo como temática a copa de 2010. Hoje é a estreia do Brasil e já estou programando o que o Cruvinel vai aprontar. Talvez uma ida ao “Forró da Coréia”, onde, como todos sabem, “só tem véia”.

Aguardem.

🙂

Comerciais da Copa

maio 31, 2010

A Copa está chegando e, com ela, toda uma série de propagandas temáticas, utilizando-se da paixão pelo futebol para vender seus produtos. A Nike lançou sua superprodução, utilizando seus astros milionários e matou a pau com seu “Write the future”.

Mas uma empresa que sabe emocionar quando fala de futebol é a Quilmes, cerveja argentina que hoje pertence à InBev. O comercial de 2010 ficou lindo, mas nada se compara ao “Bendito sea” de 2006. Maravilhoso! Assistam e tentem não se emocionar.

Quilmes – 2010 – “Dios”

Quilmes – 2006 – “Bendito sea”

Boleiros do Novo Jornal

maio 13, 2010

Estreou esta semana a seção “Boleiros” do Novo Jornal. Serão crônicas curtinhas às quintas e domingos a respeito da Copa do Mundo. Escrevem na página os jornalistas Carlos Magno e Rafael Duarte, o escritor e editor Adriano de Sousa, além de mim. Quem toma conta do projeto é o editor de esportes do Novo, Marcos Bezerra.

Domingo sai a segunda fornada e prometo mais um textinho curto e pretensamente divertido. Por hora, vamos ficando com algumas imagens da convocação do Dunga pra Copa do mês que vem.

O treinador anunciou sua lista solenemente.

 

Enano, Josué, Kleberson, Júlio Baptista, Felipe Melo e Gilberto Silva exibiram seu enorme futebol ao lado do comandante.

 

"Eu vou, eu vou, pra concentração, eu vou."

 

Petkovic (no centro, de braços cruzados) levou seu apoio aos homens de Dunga.

 

Para compensar a ausência dos meninos da vila, os convocados garantiram que não vai faltar alegria nem dança. O time, aliás, foi montado com exatamente o objetivo de dançar logo na primeira fase. Mas atenção, torcida: nada de sair gritando piadas infames como "o time de totó entrou em campo!", pois estas configurariam gracinhas de baixos nível e estatura.

Colunas da Digi #5 e #6 – Quem você quer ser?

novembro 19, 2009

A minha 5ª coluna na Diginet, publicada em 17 de setembro de 2007, foi uma crônica chamada 4 elementos e falava das manobras em torno da votação do plano diretor da cidade que os vereadores queriam aprovar segundo os interesses das construtoras em troca de suborno que recebiam dos empresários. A Polícia Federal depois desbaratou o esquema através da “Operação Impacto”. Como essa crônica se relaciona estritamente com fatos da época, não a republicarei aqui. Publicarei então o texto “Quem você quer ser?”, uma história leve e sobre crianças jogando futebol que foi a sexta coluna publicada no dia 24 de setembro de 2007.

***

Quem você quer ser?

Uma pelada no campinho do bairro. Tava todo mundo lá. O Lero-lero, o Brasilgás, o Múcio e todos os outros que não vou dizer o nome, pois a única função deles nessa história é fazer figuração e deixar claro que tínhamos dois times formados, incluindo dois bons goleiros.

A gente só tem 9 anos. Quer dizer, menos o Lero-lero que é um ano mais velho e já está na quarta série. Como ele tem mais experiência que a gente, joga melhor. Já não corre tanto quanto nós, mas por ter muito mais idade, conhece os atalhos do campo e mostra toda a categoria adquirida em não-sei-nem-dizer-quanto-tempo de pelada.

E começamos tirando os times e botando a bola no meio e já íamos começar quando o Brasilgás gritou lá do gol: “Eu sou o Rogério!” Nossa, como é que eu ia esquecendo disso? Antes de cada pelada, a gente tem que deixar bem claro quem quer ser. O Brasilgás é o nosso goleiro oficial. No início, ele foi pro gol porque é gordinho e não tinha disposição pra jogar em outras posições. Mas com o tempo, ele tomou gosto pelo gol e acabou virando muito bom debaixo dos paus. E o ídolo dele era Rogério. Claro que era Rogério, era o goleiro da moda naquele verão.

Eu, que estava com o pé direito em cima da bola pronto para dar a saída, também levantei pro alto meu dedo e disse, antes que outro jogador fizesse, com a pose de dono da bola, conseqüentemente, chefe da pelada: “Eu sou Romário!” E só podia ser Romário mesmo. Sou baixinho, abusado, fico lá na frente esperando a bola e quem achar ruim mando embora da pelada na maior. Tá pensando o quê? Moro nesse bairro desde que nasci!

O Lero-lero também disse logo quem ele queria ser. Era o Zidane, camisa 10. Tem tudo a ver com ele. Um cara experiente, organizador de jogadas e que dá olé nos mais moços. E depois dele, todos os outros começaram a dizer que queriam ser o Kaká, o Ronaldinho Gaúcho, o Cristiano Ronaldo, o Nesta, o Gamarra. Mas faltava um. O Múcio não disse quem ele queria ser. Múcio gostava de jogar no meio, chegando na frente. Se bem que no nosso jogo isso não fazia muita diferença, pois todo mundo vai atrás da bola onde quer que ela vá. Até o seu Damião, pipoqueiro do parque de diversões que há mais de 2 anos, ou seja, mais de uma década, está no bairro é atropelado às vezes. É que ele fica lá na beira do campinho, olhando e quando a bola vai pros lados dele não tem jeito. Sai todo mundo atrás. Quer dizer, todo mundo menos os goleiros e eu, né? Eu sou o Romário. Meu lugar é na área, mesmo que o nosso campinho não tenha área, nem grama, na verdade. Aliás, é difícil dizer quando a bola sai ou não.

Mas como eu ia dizendo, o Múcio não tinha falado nada ainda. Todo mundo olhou pra ele. Uns já meio bravos, pois só faltava ele se identificar pra gente começar a jogar. Eu vi que ele tava ficando nervoso, suando frio, não ia dizer e perguntei: “Como é, Múcio? Diz logo quem você quer ser!” Ele, todo encabulado, disse bem baixinho: “Marzzzzzt…”. “Fala alto, pô!”, gritou alguém. Eu, do alto de minha “otoridade”, respondi: “Cala boca! Quem manda aqui sou eu!” E disse pra ele: “Fala alto, pô!” O Lero-lero também já tava perdendo a paciência: “Quem você quer ser, Múcio?” E o Múcio finalmente falou: “A Marta.”

Silêncio.

Mas como assim, a Marta?! “Que Marta, Múcio?” “Marta! Marta! A jogadora Marta! Da seleção feminina. Eu quero ser a Marta e pronto!”

Impasse. Eu, mesmo sendo a maior “otoridade” presente não sabia o que fazer nessa situação. A gente começava a pelada ou não? Se o Múcio queria ser a Marta, a gente tinha que decidir se podiam jogar juntos meninos e meninas. Porque daí poderiam vir a minha irmã chata pra chuchu e exigir: “Se a Marta pode, eu também posso!” Já pensou como iam ficar nossos joguinhos. Já ia pedir ajuda ao Lero-lero, quando ele falou: “Eu sou a Roseli!” E lá de trás teve um zagueiro que gritou: “E eu sou a Tânia!” E cada um que dissesse um nome de jogadora diferente. Pela primeira vez, eu ia jogar com a Mya Ham, a Cristiane, a Yasmin… Até o Brasilgás escolheu uma: “Eu sou a Milene!” Mas aí todo mundo protestou: “A Milene não, Brasilgás!” “Ela nem pega no gol!” Ele encolheu os ombros e decretou: “É a ex-senhora fenômeno. Alguma coisa ela deve ter aprendido.”

“Pronto, já podemos começar.”, eu disse e já ia rolar a bola. “Ainda não. Tá faltando você.” “Faltando o que?” “Quem você quer ser?” “Eu já falei. Eu sou o Romário!” “Não. Fala a verdade pra gente. Quem VOCÊ QUER ser?” “Tá bom. Eu sou a Pretinha.” E então a pelada finalmente começou. Foi a melhor pelada que já jogamos. Todo mundo estava muito solto. Foi legal. O Múcio não tem jogado mais bola com a gente. Resolveu praticar um esporte na escola. Entrou pro balé, parece. Nem sei se ele ainda quer ser a Marta. Mas eu já decidi. Não quero ser mais a Pretinha, nem o Romário. Quero ser astronauta ou bombeiro. Um dos dois. 

Campeonato Brasileiro do Nordeste

novembro 16, 2009

22 - mapa_nordeste

Esta temporada não está sendo nada boa para o futebol do Nordeste em âmbito nacional. Um ano que começou com o Sport fazendo bonito na Libertadores e o Fortaleza avançando longe na Copa do Brasil acaba com um festival de equipes rebaixadas na região. Da série A para a B, caem dois dos três nordestinos que disputam o torneio. Da segundona para a Série C a situação é ainda pior, com possibilidades reais de que os quatro degolados sejam da terrinha.

Mesmo com o ASA de Alagoas e o Icasa do Ceará subindo da C para a B, ou com o Ceará cotadíssimo para voltar à elite em 2010, a diminuição no já inexistente protagonismo nordestino no futebol brasileiro é claríssima e progressiva. Os únicos campeonatos que podem ser vencidos pelas nossas equipes são os deficitários estaduais, cada vez mais esvaziados e deixados de lado pelo público. Esses torneios, inchados e desprestigiados, só dão despesas aos clubes com suas arquibancadas vazias e, a não ser nos clássicos, provocm algum interesse nos torcedores.

É que aquele axioma repetido exaustivamente de que “não existe mais bobo no futebol” pode ser aplicado ao torcedor moderno sem nehum retoque. O povo não é burro, diz a sabedoria popular. Ele sabe que a maioria dos jogos dos torneios domésticos não vale absolutamente nada, que os dirigentes enchem linguiça em disputas irrelevantes e que apenas as partidas entre as equipes mais fortes e tradicionais, salvo exceções, decidem alguma coisa. Daí, acaba se resguardando para as fases decisivas.

O sucesso no Brasil do campeonato dos pontos corridos é uma prova dessa inteligência da massa. Quando percebeu que a coisa era séria, organizada e que havia uma continuidade, o público respondeu, enchendo os estádios. Agora, todos os clubes da série A se mantém ativos até o final do torneio e a disputa se espalhou para várias partes da tábua de classificação. Tem briga lá embaixo para não cair, briga no meio para tentar ir à Sul-Americana e, claro, lá em cima para ver quem leva a taça. As pessoas sabem valorizar a emoção que o campeonato transmite, aprendeu com a continuidade e a criação de uma “cultura dos pontos corridos” que agora todos os jogos valem.

Um outro exemplo singelo é que hoje em dia não existem mais invasões de campo ou objetos jogados com a profusão que havia antes. Pelo simples fato de que, hoje, a torcida que jogar algo em campo é punida com a perda de mando de campo do seu time. Eu já presenciei nas arquibancadas, alguém tentar jogar uma garrafa de plástico no gramado e ser hostilizado por dezenas de torcedores em volta. Isso é o resultado de uma regra clara e sua aplicação prática. E também um exemplo de que a “massa ignara” não é tão desprovida de raciocínio como julgam alguns desinformados.

A verdade é que, na atual conjuntura do futebol brasileiro e diante da evolução gradativa e processo de organização por que passamos, os campeonatos estaduais não servem pra muita coisa a não ser para endividar os clubes e preencher as datas de um calendário que mantém as migalhas de poder nas mãos das federações estaduais, cujos presidentes não passam de meros fantoches da CBF. Os campeonatos dos estados poderiam muito bem ter um mês a menos que não faria nenhuma falta, além de podermos ter mais datas para o brasileirão, libertadores, copa do brasil e sul americana. Enfim, mais racionalidade no calendário.

Então, se a situação está tão ruim na região, por que não mudar? Mas uma mudança profunda, importante, no sentido de desenvolver os clubes, forçá-los a se organizarem, motivar seus torcedores e afirmar o nordeste como uma referência no futebol, pois o nosso povo também gosta de lotar os estádios. Uma alteração de rumo como essas, evidentemente, teria que descontentar alguns e romper com o sistema vigente, mas seria por uma boa causa. A ideia que lanço para discussão é a disputa de um “Campeonato Brasileiro do Nordeste”.

Seria assim: 16 clubes de todos os Estados na série A e mais 16 clubes na série B jogariam em turno e returno no sistema de pontos corridos. Para dar maior dinamismo e emoção, cairiam e subiriam quatro equipes, ou seja, 25% dos disputantes mudaria de série a cada ano. Paralelamente, havera a disputa da “Copa do Nordeste”, nos moldes da Copa do Brasil, com as 32 equipes das duas séries em disputas eliminatórias de ida e volta.

O período de realização poderia se iniciar no início do ano, onde continuaria ocorrendo os estaduais, mas disputados por equipes que não entrassem nas séries A e B. Já a duração poderia ser o ano inteiro, com jogos nos fins de semana pelo Campeonato do Nordeste e nos meios de semana para a Copa do Nordeste, num calendário racional, planejado e formado por jogos que valeriam sempre.

Campeonatos assim seriam emocionantes, com equipes tradicionais como Bahia, Sport, Ceará, América, Vitória, Náutico, Santa Cruz e por aí vai. Teríamos os estádios sempre cheios, os clubes seriam os donos da Liga e negociariam os direitos de televisionamento. Uma nova era de organização, equilíbrio nas finanças e prosperidade se anunciaria.

É claro que todos estariam sujeitos às sanções da CBF, que os clubes do Nordeste cairiam na ilegalidade, que não poderiam ceder jogadores à seleção, que haveria pressão política pesada por parte de Ricardo Texeira e os presidentes de federações desesperados com a perda do poder, que alguns clubes resistiriam a aderir num primeiro momento…, mas qual a mudança profunda que não cause alguns transtornos e muitos incômodos? Qual revolução não se faz com sacrifícios?

 A criação desta Liga do Nordeste e de dois campeonatos como o “Campeonato do Nordeste” e a “Copa do Nordeste” seriam benéficos para todo o país, uma vez que gerariam mais empregos para profissionais do futebol como técnicos e jogadores, por exemplo. É que as vagas deixadas pelos clubes do Nordeste no Campeonato Brasileiro seriam, naturalmente preenchidas por outros times e a organização dos novos torneios terminaria por gerar rceitas como a procura pelos produtos licenciados dos clubes, provocados por uma torcida motivada e feliz com o êxito da competição. Com campeonatos e clubes organizados, empresas se interessariam em patrocinar as equipes e seguramente as TVs cobririam os jogos.

É uma utopia essa ideia? É uma situação quase impossível de acontecer? Sim, talvez. Mas eu acho que seria uma grande (R)evolução para o futebol da região. Uma declaração de independência de nossos clubes. Sustento que a saída para o Nordeste está em si mesmo e não lá fora. Está lançada a discussão. O fato é que precisamos mudar de rumo. Essa queda em massa de nossos times e a ausência de luz no fim do túnel é que não é nem um pouco saudável.