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Coluna do Novo Jornal – 115 – 17.11.2012 – Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

julho 25, 2014

Em 2010, criei os personagens Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”. A ideia era fazer uma sátira ao universo do Direito e a uma certa tendência ao tecnicismo que leva muitos advogados e juristas a desenvolverem a arte de “falar, falar e não dizer nada”. Na época em que publiquei esta crônica, houve até quem se ofendesse, um senhor que me seguia no Twitter, de nome Carlos Lineu, quis rodar a baiana, promovendo um mini-escândalo em 140 caracteres, mas sua meia dúzia de seguidores não lhe deu ouvidos.

Até porque, o escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” veio pra ficar, construindo uma história bem sucedida de êxitos jurídicos (quer dizer, nem tanto, mas pelo menos eles disfarçam para manter a boa reputação).

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Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

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Caiu como uma bomba no meio jurídico a notícia de que Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”, os mais destacados e brilhantes advogados da cidade formariam uma chapa a fim de pleitear a presidência da OAB. Mesmo com outros dois grupos na disputa, já formados há tempos, com suas candidaturas consolidadas e estratégias em progresso, eles resolveram arriscar, afinal de contas, a presidência da entidade confere a seu ocupante um status de autoridade na sociedade civil, alguém a ser consultado, ouvido e muito respeitado pelos cidadãos. Faz bem à imagem projetada junto ao público externo e também à imprensa, massageia o ego, atrai atenções e olhares, pode gerar novos negócios e muitas oportunidades. Ah, e tem também o fato de fazer bem aos demais, lutar pelos direitos e prezar pelo cumprimento das leis e tal e coisa. Aliás, pelo que andam dizendo, foi mais por essa parte de praticar boas ações e beneficiar a sociedade que os bem sucedidos homens da lei decidiram abraçar mais essa causa. Nada a ver com todo esse lance de poder e vaidade.

A inscrição da candidatura foi feita com êxito. Chapa 3. O embate seria travado contra as de número 1 e 2 e o desafio seria convencer a maioria dos que contavam com registros na entidade a optar por eles. A tarefa não parecia tão árdua se levarmos em conta que os sócios são verdadeiramente admirados pelos inúmeros jovens advogados recém formados. É prudente dizer que o enorme contingente de egressos dos cursos de Direito da cidade, algo equivalente à metade da população universitária natalense, votaria em peso nos doutores Giovanni e Adriano. Afinal, existe praticamente uma faculdade de Direito por esquina, pelo menos nos principais bairros ou nos cruzamentos mais movimentados. Cada uma delas com centenas de alunos encantados pelo charme e capacidade destes autênticos ídolos profissionais.

No entanto, os prolixos e abnegados candidatos não contariam com esta consagradora adesão eleitoral, já que pouquíssimos daqueles formandos conseguiam a aprovação no exame da ordem, que concede o direito a votar nas eleições da entidade. A saída, portanto, seria persuadir os advogados mais experientes a optar por eles e não por nenhuma das chapas cujas campanhas já se encontravam a todo vapor em articulações de bastidores e conversas reservadas nos muitos escritórios e antessalas, nas comarcas, nos corredores dos tribunais e, é claro: nas varas.

Mais uma vez, nossos destemidos protagonistas tinham diante de si um árduo desafio e contavam com sua mais mordaz habilidade para superá-lo: a retórica. Gastariam saliva para reverter situação tão desfavorável, mas estavam prontos e dispostos para enfrentar a difícil caminhada rumo à consagradora vitória final. Na entrevista em que anunciou ser candidato, o Dr. Pinto, com o Dr. Rêgo à sua retaguarda, declarou: “A fim de que não imperem as iniquidades e que não se perpetuem as nulidades vis e abjetas, não me resta outra opção que não seja negar-me a permanecer em estado de negação, inércia e comodismo extremos, enquanto a necessidade premente de minha classe clama por ação e iniciativa da parte daqueles em cuja confiança deve ser depositada, não obstante os imensuráveis muros que se erguem pelo caminho, convertendo-se em quase intransponíveis obstáculos contra os que lutam sem cessar pela justiça e exercício pleno da cidadania junto à coletividade e à comunidade advocatícia, provocando, no entanto, nada mais que o irrefreável ânimo dos que lutam por um ideal, conservam evoluído espírito público e aceitam de bom grado travar o justo combate, ontem, hoje e sempre. Data vênia!”

O jornalista Carlos Viktor Duarte Assunção escolheu como título para a matéria: “Datíssima Vênia!” No texto da matéria, cheio de picardia e a malemolência do jornalismo moleque brasileiro, escreveu que o postulante a presidente “não disse nada, mas falou bonito.” Muitos advogados que leram as páginas do jornal riram do pobre periodista que não contava com suficiente envergadura intelectual para alcançar o elevado vocabulário do reputado jurista nem conhecimento que bastasse para compreender em toda sua amplitude a levemente complexa e bem articulada linguagem utilizada pelo colega Giovanni. O que os homens e mulheres das leis evitavam comentar entre si, por pura vergonha, era que eles próprios não haviam entendido nada das palavras do candidato, mas ficava feio admitir. Alguns se sentiam, inclusive, inclinados a votarem na Chapa 3 com medo de, caso não o fizessem, as pessoas pensassem que eles não haviam compreendido a declaração, mesmo o voto sendo secreto.

Para dar conta da campanha, uma boa assessoria de imprensa e reconhecida agência de propaganda foram contratadas. Não havia jornal sem anúncio da Chapa 3, nem colunista sem notas (com duplo sentido, faz favor) a registrar ou blogueiro sem postagem positiva e elogiosa. A cidade também foi amplamente ornada com adesivos que ocupavam os vidros traseiros de ônibus e carros. As redes sociais, como Twitter e Facebook, também entraram no clima de campanha, com os usuários (muitos alunos das faculdades onde eles lecionavam e estagiários do escritório) divulgando os enormes dotes de Pinto e a impenetrável firmeza de Rêgo.

A estratégia de discurso seguia duas linhas distintas e complementares: além de alardear aos eleitores suas muitas e evidentes qualidades, que lhes conferiam (ou deveriam) inegáveis vantagens, uma tática que se fez usual foi o ataque aos adversários diretos, no caso, os componentes das outras chapas. Valia tudo. Se alguém descobrisse que o candidato a diretor de recreação de uma das outras chapas nunca havia logrado êxito em promover festas e que, numa malfadada despedida de solteiro que organizara para um amigo de infância, a coisa mais gostosa que os convidados comeram foi uma pizza de calabresa do Habib’s, já pipocavam as denúncias “anônimas” por e-mail e as postagens maliciosas nas redes virtuais e blogue$ amigo$. O raciocínio era de que uma pequena sujeira na imagem dos adversários funcionariam como uma mão de cera extra em suas já brilhantes e irretocáveis reputações.

O clima anda quente entre os profissionais da área. A data do pleito se aproxima e este é aguardado com grande ansiedade por toda a classe. É verdade que eles imaginam que tal expectativa contagia toda a cidade, mas sabe-se que, entre as pessoas comuns, que não cursaram Direito nem vivem o dia a dia da mais chata e insípida das carreiras, os advogados valem tanto quanto qualquer outro cidadão. Com ou sem repercussão, no entanto, a eleição se aproxima e, segundo os mais confiáveis institutos de pesquisa da capital, a Chapa 3 desponta como uma das favoritas (no mínimo, fica em terceiro). É esperar para ver. Comenta-se que eles negociam acordos de bastidores para retirar a candidatura na véspera da votação em favor de uma das outras duas concorrentes. Mas “tudo dentro da mais estrita legalidade e total lisura, imbuídos de genuíno espírito cívico, democrático e republicano.”, disse o candidato a vice, Adriano Sérgio Rêgo. Para depois concluir: “Data máxima vênia!”

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Coluna do Novo Jornal – 113 – 03.11.2012 – O chato

julho 21, 2014

No dia 03 de novembro, publiquei uma releitura de um texto antigo, no qual eu traçava um perfil de um chato fictício, mas bastante plausível, pois todos nós temos os nossos demônios em versões de amigos que cruzam nossos caminhos e são, convenhamos, chatos pra caralho. Alguns podem ter notado a omissão da coluna de número 112, publicada em 27 de outubro de 2012, mas como o tema era política, preferi não republicar para evitar que ratos e moscas sectários venham ao blog deixar seus fétidos e estúpidos comentários. Pois estes sim, são chatos de verdade!

Agora, divirtam-se com o chato.

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O chato

pentelho

Você conhece o chato. Na verdade, você é íntimo dele. Ele lhe acompanhou em todos os momentos de sua vida, desde a mais tenra infância até a decrepitude que vem com a idade. Foi ele que deu aquela ideia idiota de se inscrever na quadrilha do jardim 2 mesmo sem que vocês soubessem dançar. Aí você foi, passou aquela vergonha na frente de todo o colégio, dos seus familiares, das meninas do jardim da infância (mesmo que naquela época você não ligasse pra elas) e depois ainda tentou minimizar o caso dizendo “Veja bem…” O chato sempre começa suas explicações com um “Veja bem”. E como demoram as explicações do chato.

Aliás, se você deixar o chato começar a falar, é melhor sair correndo imediatamente. Quando ele começa, não para. Nunca. Além de tratar de assuntos totalmente irrelevantes para qualquer ser humano com cérebro maior que o de um calango, eles costumam ser muito abertos ao monólogo. Se eles começam a falar da nova temporada da série mais bestalhona da TV ou do último vídeo game que acabou de sair, despeça-se do seu bom-humor por aquela noite. E mesmo que você tente dar sinais de que não é muito adepto daquele assunto ou está pouco à vontade com aquele papo, ele vai continuar exibindo todo o seu conhecimento sobre a musicografia da Madona. E nem adianta olhar no relógio a cada 5 segundos. O chato não entende indiretas.

Inconveniente ao extremo, ele chega sempre na hora errada. Sabe naqueles domingos em que você quer ficar em casa sem encontrar viv’alma? Aqueles feriados em que só pretende descansar e se preparar para o próximo encontro com os demais seres humanos? Pois é. Precisamente neste dia, ele aparece para fazer uma visita surpresa e, pior, cheio de novidades pra contar! Quando você está com sua namorada ou amigos ou mãe, e ele surge do nada, como um ninja em meio à fumaça, num restaurante, ou barzinho, ou supermercado, diz coisas constrangedoras a seu respeito, revela um apelido oculto, estraga o seu dia como só o chato sabe e é capaz de fazer.

A inconveniência do chato está ligada à ausência de desconfiômetro de que ele sofre. O chato não se liga, não se toca, não toma semancol. Ele fala de assuntos desagradáveis sobre os quais você não quer ouvir, como a eliminação do seu time, ou lembra o quanto você está gorda. Aliás, ele não só cita esses assuntos, como insiste no tema. Discorre longamente sobre sua calvície ou de como você precisa de uma plástica no nariz urgentemente.

O chato discorda de você em todos os assuntos. Ele tem opiniões fortes sobre tudo e, claro, são todas estúpidas, absurdas, inconcebíveis. Mas não adianta tentar discutir com ele. É inútil. O chato de verdade não lhe deixa completar seus raciocínios, exibir seus argumentos. Aliás, é impossível sequer conversar com ele. O chato adora interromper.

Ele sempre tenta se passar por sério, brinca de ser importante, insiste em ser adulto, mesmo que só tenha 11 anos de idade. É aquele que lhe encontra nos lugares e, sempre que há testemunhas, lhe diz: “Cara, precisamos conversar!” Se um dia você o pressionar e tentar saber dele o que tanto ele tem pra conversar com você, não vai descobrir nada. Ou então ele vai passar a destilar uma teoria tão difusa e tangente, desprovida tanto de sentido como de pertinência que você se arrependerá de ter perguntado por 8 gerações.

Quando um chato DDD (que vem de outro Estado ou cidade) se hospeda em sua casa, tenha a certeza de que vai viver os piores dias da sua vida. Dia desses recebi um destes e posso assegurar-lhes que vivi as 36 horas, 12 minutos e 23 segundos, mais longas de toda a história da humanidade. É que o meu amigo chato tinha o poder de transformar instantes em intermináveis sucessões de constrangimentos.

Pra começar, ele usava o banheiro 4 vezes por dia para fazer na privada aquela outra necessidade fisiológica que não é o xixi. E deixava o banheiro completamente empestado a cada nova utilização de uma forma que o Potengi ia parecer perfume francês. Outra peculiaridade dele era sua idolatria por Hilda Hist. Até aí, tudo bem, o problema era fazer questão de dividir sua devoção com o mundo, declamando de cor textos inteiros, por mais longos que fossem. Mas o pior era que essa não era uma exclusividade de Hilda Hist não. Esquetes da TV Pirata, aulas do programa Vestibulando sobre índices pluviométricos, músicas do Rolling Stones. Tudo, ele sabia de memória e citava sempre que podia. E não adiantava dizer um trecho só não. Tinha que ser tudo!

E mesmo com tanto conhecimento profundo a respeito de tudo isso, o chato é incapaz de executar as tarefas mais simples como ligar o computador da sua casa ou abrir a mala do carro. E é para ajudá-lo com tais ações que ele decide lhe acordar às 6 da manhã de um domingo, sem fazer a menor ideia de que está incomodando.

O chato não come verdura, mas só lhe avisa depois que você, cheio de boa vontade e ótimas intenções, serviu o seu prato. Ele olha contrariado para aqueles pedaços de tomate, cebola e pimentão, com um suplicante olhar de vítima e diz condescendente: “Não tem nada não. Pode deixar que eu tiro as verduras”, fazendo você se sentir culpado como se fosse mais terrível que Hitler, Paulo Queixada e Micarla juntos! Então ele retira as verduras e mastiga ruidosamente de boca aberta. Durante a refeição ele faz questão de conversar sobre os seus problemas de furúnculos, a cirurgia de redução de estômago de sua namorada e um conto do Rubem Fonseca chamado “compromancia”.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o chato não é um cara antipático. Ele é animado e alegre. Até demais. Ri alto e de qualquer besteira. E ri das próprias piadas também, muito, mesmo que elas não tenham a menor graça e nem façam nenhum sentido. E é exatamente assim que elas sempre são. A simpatia do chato é irritante. Faz você querer esganá-lo ou beber veneno, o que estiver mais ao alcance para o momento.

No entanto, você não pode matar o chato. Na verdade, você não consegue sequer ser grosseiro com ele. É que você é refém dele. O chato é, apesar de tudo, o cara mais prestativo do mundo e você deve, no mínimo, um grande favor a ele. Foi o chato que passou 2 dias na fila, tomando chuva, sereno e sol na moleira para comprar os 2 últimos ingressos do show da sua banda preferida. E é nesse episódio de um passado remoto que você pensa antes de partir a cabeça dele com um machado. É no ingresso, no sacrifício, no favor que você pensa sempre que vai empurrá-lo de uma sacada alta ou mandá-lo calar a boca. É aquele favor que ninguém mais no mundo quis fazer por você que lhe mantém irremediavelmente ligado ao chato e que o faz ter certeza de que ele vai lhe acompanhar até o ocaso da vida. É difícil admitir, mas essa é a verdade. Por mais chato que isso seja pra você.

Coluna do Novo Jornal – 111– 20.10.2012– É comigo?

julho 17, 2014

Vamos pular a coluna de número 110, pois ela tem um viés político que iria certamente atrair olhares contaminados pelo chorume partidário que já ronda nossas TLs neste ano eleitoral. Passemos então à coluna de número 111, publicada em 20 de outubro de 2012.  Na crônica “É comigo?”, brinco com a dificuldade que os homens têm em entender indiretas. Gosto dela. Ficou leve e divertida.

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É comigo?

Nesta foto, podemos observar uma expressão típica da incapacidade masculina de compreender uma indireta.

Nesta foto, podemos observar a típica expressão de um homem incapaz de compreender uma indireta.

Com a popularização da Internet e o advento das redes sociais, diversos dos nossos hábitos migraram das relações face a face para o ambiente virtual disseminado em lares e escritórios por detrás de telas de cristal líquido e mediante teclados físicos ou projetados em superfícies sensíveis. Porém, apesar de os novos instrumentos funcionarem como catalisadores de relações, acelerando sobremaneira o ritmo com que espalhamos as informações, o comportamento não mudou tanto assim. Nossos jovens e adultos conectados ainda paqueram, conversam, trocam ideias, fazem piadas, ofendem-se, chateiam-se, pedem perdão, fazem as pazes e têm as mesmíssimas sensações dos últimos 10 mil anos, quando deixamos as cavernas e decidimos que não haveria mais fronteiras entre nós e o tão vasto mundo a nossa espera. Das pinturas rupestres para o iPad 3 foi um salto e a verdade é que, tirando o tamanho da tela, pouca coisa mudou.

Um bom exemplo disso é o ancestral costume de dizermos indiretas uns para os outros. Sempre que um grupo de seres humanos se reúne em um ritual, qualquer que seja, de animados churrascos a malogradas reuniões, ela surge do nada, provocando uma reviravolta no ambiente, mandando o clima de aparente normalidade para o espaço e sacudindo o ânimo dos presentes com a força de um furacão de nome exótico. É verdade que muitas são positivas, como elogios enviesados ou cantadas dissimuladas que se utilizam de discrição para conferir maior charme à abordagem amorosa.

Entretanto, as grandes indiretas que abalam estruturas, que roubam nosso chão, que derrubam queixos e reputações, não tem jeito, são agressivas, cáusticas, críticas, venenosas, ferinas e impactantes. São elas que mudam a história da humanidade, destroem relações, acirram disputas entre concorrentes, transformam simples adversários em inimigos mortais, criam frases de efeito capazes de entrar nos anais do imaginário popular ou habitar nosso inconsciente coletivo. Geralmente, elas são melhor proferidas por gente com talento para a atuação. Uma boa indireta que se preze, para alcançar o efeito desejado, deve ser dita ou escrita com os olhos semicerrados, um leve sorriso malicioso no canto dos lábios e uma das sobrancelhas levemente arqueada. Todo cuidado é pouco, pois há os que dosam mal o tom e, em vez de soltar uma boa indireta, acabam por acertar um direto no queixo retórico no receptor desprevenido.

O fenômeno que podemos perceber nos sítios de relacionamento internéticos é que, devido ao voluntarismo de tais endereços eletrônicos e a espontaneidade estimulada pelo espírito do compartilhar, curtir, expressar-se e revelar ao mundo uma persona autêntica e descolada, a prática geral e irrestrita das indiretas virtuais pululam na rede mundial de computadores, tablets, smartphones e afins. Hoje em dia, basta acessar um Facebook e Twitter da vida para ler coisas como: “há empresas que cumprem o que prometem, enquanto outras demoram a entregar a compra, não é mesmo, Ponto Frio?” Quando leio algo assim, posso até imaginar a pessoa do outro lado dando uma rabissaca (é assim que se escreve rabissaca?).

Alguns utilizam os sites para dar recados sinuosos para desafetos, colegas de trabalho, familiares e amigos com quem estejam brigados. São as clássicas frases que contém a expressão “certas pessoas…” Podem prestar atenção. É batata! Tão lugar-comum quanto entrevistas de Carnatal, aqueles cujas perguntas sempre começam com “E aí?”, enquanto as respostas principiam em “Com certeza!” É mais ou menos assim: “Tem certas pessoas que ficam enrolando o dia todo no trabalho enquanto poderiam render mais para a empresa.” Ou ainda: “Eu ajudo a organizar a festa de Natal da família, ao contrário de certas pessoas…”.

As indiretas amorosas também estão em alta nesses loucos tempos de autoafirmação. Reparem que basta um casal se separar para ambos os lados iniciarem a postagem indiscriminada de fotos felizes, tentando transmitir ao mundo como eles estão bem, quando, na verdade, tudo não passa de um expediente barato para mostrar ao ex que está melhor sem ele.

Outro dia vi um conhecido soltar os cachorros contra um inimigo oculto. Ele dizia, colérico, sem revelar o destinatário da missiva bombástica: “Parabéns, seu sabichão! Você que sabe de tudo mais que todo mundo! Desculpe não dominar tão profundamente todo o conhecimento do mundo como você que é dono da verdade e senhor da razão!” Imediatamente, pus-me a pensar que as indiretas em redes sociais atingem todas as pessoas do mundo menos o verdadeiro alvo do petardo. Se considerarmos que metade dos usuários da rede são do sexo masculino, a situação é ainda pior, uma vez que está provado cientificamente que os homens não dispõem de um gene que identifica indiretas. Homem, simplesmente não entende recados cifrados. Nunca! Não adianta! Sem chance!

Eu próprio sofro bastante ao tentar interpretar as mensagens indiretas que aparecem em minhas linhas do tempo, protagonizando verdadeiros contorcionismos faciais para ver se consigo interpretar o que leio. Minha vontade é perguntar para todos os emissores de alfinetadas: “É comigo?” Diante da impossibilidade de descobrir, relaxo e tento me convencer que o remetente está se referindo a outra pessoa. Tenho, inclusive, pensado seriamente em responder todas as indiretas com as quais me deparar daqui por diante de uma maneira mais explícita. Não vou nem perguntar se é comigo. Mando logo pra PQP e pergunto: “Que porra é essa?! Quer brigar?!”

Coluna do Novo Jornal – 106– 15.09.2012 – Nostalgia, aqui me tens em protesto

março 11, 2014

Nostalgia, aqui me tens em protesto.

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Muito antes da atual geração de jovens engajados pegar em cartolinas e sair bradando pelas ruas em prol da coletividade usuária de coletivos, houve grandes ícones da contracultura natalense abraçando causas tão justas quanto as atuais, verdadeiros heróis da contestação local que protagonizaram ótimas histórias de coragem e destemor ao impor-se diante do sistema, de poderosas corporações e dos mais escusos interesses. Homens e mulheres que tinham muito pouco além de um ideal, perfis libertários e disposição para ir à luta. Naquele tempo, não havia tantos moços e moças dispostos a desfraldarem uma bandeira pelas ruas. Os que se arriscavam precisavam conviver com a sempre implacável solidão, esta cruel inibidora de revoluções.

Contarei aqui três breves episódios verídicos de uma época em que os protestos estavam restritos aos mais românticos e incorrigíveis agentes sociais. Poucos e bons que ousavam transmitir ao mundo suas mensagens de amor, compaixão, generosidade e seu clamor por liberdade. Gente desprendida e abnegada que nadava contra a inclemente correnteza de frieza e impiedosa falta de compreensão a que chamamos cotidianamente de civilização.

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O primeiro deles ocorreu em um circo que se instalara em Natal, na área onde outrora havia o Machadão e hoje é o canteiro de obras da Arena das Dunas. Aquela região da cidade, no lado exterior do estádio, sempre serviu de picadeiro para diversas modalidades do entretenimento como parques, rodeios e até mesmo um carnaval fora de época que ocorria na cidade.

O circo, além dos tradicionais números que encantam o respeitável público, como as estripulias dos palhaços, os trapezistas, malabaristas e outras atrações, também oferecia números com animais treinados. Um belo dia, alguns garotos, militantes dos direitos dos animais, foram ao local para manifestar insatisfação contra a presença dos bichos e a forma como eram mantidos em cativeiro e levados pelo país em condições tão diferentes de seus locais de origem. Os meninos estavam lá, expondo suas razões para que não houvesse mais animais selvagens sendo explorados daquela maneira, ante o visível incômodo dos funcionários da companhia que tentavam enxotá-los de lá. Chamaram, inclusive, a polícia para retirar na marra os rapazes.

Quando o policial chegou, passava por acaso pelo local, um legítimo defensor das liberdades civis, um lendário militante de notável conhecimento político que chamaremos simplesmente de “José”. Por ser mais experiente e bem articulado que a molecada, mesmo sem ter nada a ver com a organização daquele tímido movimento, tomou a frente das negociações com o PM e chamou para si o papel de porta voz dos garotos. Discursou que aquela manifestação não era contrária aos empregos de ninguém e, mesmo que fosse, nada poderia ser feito contra uma ação pacífica como aquela, uma vez que o próprio circo estava instalado em local público. O Zé foi tão eloquente em sua retórica que o policial não podia fazer outra coisa que não acolher seus argumentos. Comunicou aos empregados circenses que não poderia prender o grupo ou sequer mandá-los embora, a não ser que eles agredissem alguém ou atentassem contra a propriedade alheia.

Inconformado com a situação, um tratador de elefantes mais exaltado apontou o dedo para os que protestavam e acusou: “Seus maconheiros vagabundos!”, ao que o agora líder, José, respondeu na lata: “Ei! Vagabundo não!”

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Outro importante guerreiro pouco reconhecido em nossa cidade é um pequeno grande homem de nome Daniel. Este indivíduo multitalentoso sustenta uma firmeza de caráter que só encontra paralelo na clareza de raciocínio exibida por ele. Hoje, profissional bem sucedido na capital, em seu tempo de garotão participou de muitas articulações contrárias ao status quo reinante que massacra os mais humildes em favor de uns poucos privilegiados. Tocava em concertos de rock na defesa de causas que lhes parecessem justas. Fazia parte de uma banda chamada “Doutor Fossa” que tinha entre suas músicas o hit “Luiz Almir”. Lembro que o refrão dizia algo como “Pegue essa ambulância e soque no…” Esqueci como continuava, mas sei que era uma bela canção, verdadeira, advinda do fundo daquele coração inconformado.

Certa vez, Daniel protestava em frente ao McDonalds contra o Capitalismo, seus excessos e todas as injustiças cometidas em nome da mais valia. Esteve lá, acompanhado de alguns companheiros de luta, entre eles o bravo, já citado anteriormente, José. Após algumas horas de manifestação, palavras de ordem entoadas em coro, flagrantes demonstrações de repúdio às desigualdades oriundas do mais desumano dos sistemas econômicos, os dois amigos foram tomados por uma natural e inevitável sensação: a boa e velha fome. Por uma questão prática, resolveram não ir longe para não se afastarem por muito tempo do movimento. Preferiram entrar na lanchonete dos arcos amarelos, pedir duas promoções grandes, matar quem estava lhes matando e voltar para o protesto com ânimo renovado a base das mais saborosas iguarias do império. Depois disso, arrotar “abaixo o capitalismo” ficou bem mais fácil, até porque as duas Cocas que eles tomaram foram de 500 ml.

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Por fim, uma história de duas décadas atrás da qual participaram o combativo escritor Pablo Capistrano, recentemente uma pedra no sapato da Presidenta Dilma na questão das greves das Instituições Federais, e o filho de um brilhante jornalista, que também é repórter e que vou chamar, hipoteticamente, de Alex. Na ocasião, provavelmente 1995, eles não estavam participando exatamente de um protesto, mas de certa forma, de um movimento de resistência, pois decidiram pegar um trem até Ceará-Mirim para assistir uma das primeiras edições do, hoje clássico, Tributo a Raul. Isso, numa cidade-estado completamente dominada pela monocultura opressiva do forró-pagode-axé.

Ao desembarcarem no aprazível município do evento, vestidos de pouco usuais camisas de flanela xadrezes (eram os tempos áureos do Movimento Grunge), foram interpelados por um dos organizadores do evento: “Vocês são de Vanguarda?”. Ao que o lépido Alex respondeu de chofre: “Não, não. A gente é de Natal mesmo.”

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E assim estes 3 revolucionários, contemporâneos meus, entraram para a história de Natal. Podem perguntar por aí. É tudo a mais absoluta verdade.

Coluna do Novo Jornal – 105– 08.09.2012 – Mano Celo – Ele protesta

março 7, 2014

No dia 1º de setembro de 2012, publiquei no Novo Jornal, uma coluna chamada “Eu protesto” na qual exaltava a parcela da juventude que havia saído às ruas em Natal para protestar contra a gestão de Micarla de Sousa. A razão do elogio foi pela negação do fato de que nossos estudantes e jovens eram completamente alheios a tudo, analfabetos políticos e comodistas incorrigíveis. Isso já não se sustentava como verdade, pelo menos não no que dizia respeito aos que saíram às ruas para protestar.

Como considero aquele texto “Eu protesto” um tanto datado, pulo para a próxima coluna, a de número 105, na qual eu conto sobre o desempenho do Mano Celo no movimento e quais teriam sido suas consequências.

Divirtam-se!

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Mano Celo: ele protesta.

Ilustração de Rafael Coutinho

Ilustração de Rafael Coutinho

Nos protestos contrários à majoração das passagens de ônibus, senti falta de um personagem comum nesse tipo de manifestação em Natal, um tipo tão peculiar quanto improvável a participar de tais eventos com toda a sua vitalidade, sempre sensível a injustiças diversas e disposto a lutar contra o padecimento coletivo de comunidades mais vulneráveis às impiedosas espoliações impostas por nossos políticos e classes dominantes. Este jovem, a que me refiro (batizado Marcelo, mas conhecido pela alcunha de Mano Celo) saiu de cena no fim do ano passado e desempenhou importante papel em várias lutas recentes, sendo protagonista, inclusive do movimento #ForaMicarla que redundou com a renúncia da prefeita de Natal no segundo semestre de 2011. Pelo menos, foi alguns imaginaram. Aos que desconhecem o ocorrido, contarei com prazer como se deu tão pitoresco e deleitoso episódio.

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Natal, 2011 D.C.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton é um rapaz de classe alta, mas que tenta estreitar suas ações com os mais necessitados, pregando justiça social numa cidade tão marcada pela desigualdade como esta capital dos Magos comissionados. Todas as suas tentativas de espalhar a mensagem de igualdade entre classes foram, desafortunadamente, frustradas pelos mais elementares equívocos, pela dificuldade da plateia em compreender as letras do seu rap politizado e pela interpretação errônea do público que sempre confundiu sua arte com escracho e humor.

As duas tentativas mais recentes de participar dos protestos organizados na cidade, a marcha da maconha de 2010 e o #CombustívelMaisBaratoJá de 2011, caíram no ridículo e no descrédito. O Mano Celo, como era conhecido artisticamente, sofria com isso. Ele achava que tinha uma missão, um papel muito importante a desempenhar na mudança social em curso na cidade. Sentia-se o porta-voz da retirada do poder das mãos das elites e sua entrega ao legítimo dono da cidade, o povo.

Sua frustração era grandiosa e a vontade de ser levado a sério parecia vislumbrar mais uma oportunidade. A insatisfação da população de Natal com a prefeita Micarla de Sousa gerou mais um movimento de protesto: o #ForaMicarla! Mano Celo, desta vez, não esperou ser convidado. Procurou os organizadores disposto a contribuir com os trabalhos organizados pelos líderes. Sabedores que eles eram da trajetória recente do rapaz, fizeram uma exigência. Ele poderia participar, mas estava proibido de rimar qualquer palavra que fosse ou mesmo de se aproximar de um microfone. Injuriado, puto da vida, extremamente contrariado, o Mano topou colaborar mesmo assim. Tudo em nome de uma boa causa.

Nosso herói participou da grande movimentação no cruzamento da Bernardo Vieira com a Salgado Filho. Agiu discretamente. Ficou quietinho o tempo todo, no máximo engrossando o coro e entoando palavras de ordem puxadas por outros manifestantes e que, para o bem geral dos presentes, não eram de sua autoria. Na passeata organizada na semana seguinte para a Avenida Roberto Freire, foi ainda mais radical, entrando mudo e saindo calado. Resistiu bravamente. Aí veio a ocupação da Câmara dos Vereadores. Era preciso arregimentar voluntários que aceitassem acampar no pátio. Como o Mano Celo é um rapaz bravo e destemido, entrou de cabeça no movimento. Comprou uma barraca toda invocada na Centauro. A barraca tinha ar-condicionado, sala, dois quartos, varanda ampla e um pequeno gerador de energia.

Logo, as assembleias do movimento passaram a ser realizadas dentro da barraca do Mano. Até vereadores simpatizantes da causa dos jovens foram conferir a suntuosa estrutura da barraca. Os jornais, os blogues, as redes sociais só falavam da mansão armada no pátio da câmara dos vereadores. Não demorou para começarem as especulações a respeito da origem do dinheiro que financiou aquela estrutura. Uns disseram que se tratava de financiamento de políticos oposicionistas e o movimento passou a ser seriamente questionado, especialmente por uma conhecida blogueira tuiteira picareta cujo blogue contava com patrocínio da Prefeitura e um certo jornalista decano das colunas impressas e porta-voz dos reaças de província. A descoberta da origem abastada e tradicional do Mano também forneceu toda a munição necessária para que a “imprensa oficial” chafurdasse na lama das falsas acusações.

Com a repercussão negativa, a agressividade com que o #ForaMicarla vinha sendo tratado pelos meios de comunicação, fazia-se necessário que a barraca do Mano fosse retirada do local. Os organizadores marcaram então uma entrevista coletiva para anunciar a retirada da barraca da discórdia e explicar que ela havia sido comprada com a mesada do Marcelo Dutton. Na coletiva, o Mano tomou a palavra e começou:

Eu sou Mano Celo,

o dono da barraca.

Um jovem muito sério,

sempre do lado da massa.

 

Comprei esse acessório

Com a grana do meu pai

Por um preço muito jóia

É mole ou quer mais?

 

Não sejamos caretas

De crer nessas mentiras

De blogueiras picaretas

Que adoram intrigas.

As centenas de pessoas presentes no pátio da Câmara explodiram em vibração incontida. As rimas, ainda que péssimas, do Mano Celo tiveram seu momento de redenção, havendo se revelado muitíssimo importantes para que o movimento #ForaMicarla ganhasse força e importância até que a prefeita, pobrezinha, fosse defenestrada do cargo. Muitos atribuem sua queda às declamações públicas do Mano Celo que começaram naquele episódio da barraca e se seguiram semanalmente pelos meses seguintes.

Alguns especularam que o Mano seria candidato a vereador no atual pleito. Propostas não faltaram, mas ele negou. Disse para quem quisesse ouvir que sua missão já fora cumprida.

Mano Celo, ele protesta.

Coluna do Novo Jornal – 099 – 21.07.2012 – O assessor segura bolsa

fevereiro 19, 2014

A gestão Micarla de Sousa foi um período pra lá de fértil para os cronistas da cidade. Tantos e tamanhos eram os absurdos cometidos dia após dia que nunca faltou assunto para os articulistas locais. Everton Dantas, Rafael Duarte, Patrício Jr. e Pablo Capistrano produziram textos muito bons sobre a “Era Micarla” que tiveram em Ivan Cabral o seu chargista oficial.

“O assessor segura bolsa” foi mais um texto inspirado nestes dias sombrios que tanto afligiram Natal e seus habitantes.

Riam. Para não chorarem!

***

O assessor segura bolsa

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Muito me entristece ver o que alguns colegas da imprensa costumam escrever sobre o assessor segura-bolsa. É de uma vileza, um sarcasmo desmedido que, ao mesmo tempo, me chocam e fazem refletir. Por que essa sanha cruel, essa vontade de expor e humilhar um ser humano tão bom, amável e generoso para com seus pares? Um rapaz lutador e que, por vezes é mal interpretado, pois seu excesso de voluntarismo, que nada mais é além de fruto de sua paixão pelos ideais românticos que abraçou e essa mania de viver intensamente, é constantemente confundido com truculência ou agressividade. Outro dia, vejam vocês, ele foi acusado de agredir uma mulher, só porque ela é casada com um desafeto de sua assessorada. Tive acessos de raiva quando li a notícia. Não pela atitude do jovem que, certamente, foi uma reação compreensivel de um ser humano sob pressão, provocada pelas circunstâncias extremas que vivia naquele dado momento. Minha indignação era direcionada aos repórteres que, munidos de uma boa dose de má vontade e do espírito de perseguição que os reveste e contamina, escreviam toda sorte de absurdos contra o inocente personagem, vítima de uma conspiração sem precedentes na história desta cidade habitada por invejosos.

Os maiores algozes de gente boa como o pobre assessor são os vis e impiedosos jornalistas deste veículo para o qual colaboro. Só posso dizer que gente da laia de Carlos Magno, Viktor Vidal, Rafael Duarte, Everton Dantas e seus comparsas, além de outros como os desprezíveis Alex de Souza e Dinarte Assunção, já sujaram essas páginas mais do que a tinta das rotativas. Como podem essas pessoas denegrirem a imagem de seus conterrâneos com tantas insinuações e as mais venais afirmações? Não sei vocês, mas eu fico pra morrer de tanta contrariedade.

Certamente, meus companheiros de veículo sofrem do mal da ignorância em relação ao assessor segura-bolsa, um dos mais fieis escudeiros da terra de Cascudo ao lado de um certo assessor-xeleléu que terá que ficar pra outra coluna. Pois farei um favor a estas criaturas do breu para que, nessa escala a caminho do Inferno que eles chamam de vida, possam inteirar-se a tempo sobre a trajetória de muito esforço e conquistas do injustiçado segurador de bolsas. Muita coisa aconteceu nessa escalada de glórias antes de atingir o Zênite. Nosso herói teve que carregar muita bolsa vagabunda antes de chegar às Guccis e Louis Vittons originais que ostenta hoje a tiracolo. Prestem bem atenção, coleguinhas, pois só vou escrever uma vez.

Conheci o assessor segura-bolsa ainda na fase embrionária de sua carreira, quando ele segurava com avidez de aprendiz e ambição de jovem as pastas de trabalho de chefes de redação ou diretoras de repartições. A maneira como ele se entregava à função, agarrava-se aos porta-moedas com a dedicação de quem carrega consigo o futuro da empresa (ou o seu futuro na empresa) sempre me comoveu a ponto de tornar-me secretamente seu admirador.  Sempre de semblante sério, passava aos demais a falsa sensação de que era antipático. Logo que foi promovido a carregador de artigos de couro legítimo, nacionais, mas de boas marcas, além de ganhar o cargo de “consultor” o que lhe conferia o direito de soprar os mais apaixonados elogios nos ouvidos da chefia. Quando alcançou este patamar na carreira passou a levar fama de arrogante, mais uma vez de forma descabida, só porque seu profissionalismo irrefreável o levava a tomar decisões firmes que desagradavam sobremaneira os subalternos, essa gente regida pelo signo da indisciplina com ascendente na indolência e a lua na preguiça desavergonhada. 

Ainda que avançando a passos largos para uma carreira promissora e cada vez mais próspera, o assessor tinha que se virar. Nas horas vagas, tocava um trompete aqui, cantava “Sweet Child of mine” em falsete acolá e perseguia o sucesso como um dos grandes intérpretes que esta cidade já viu surgir, superado apenas pelo grande Marlos Apyus na habilidade vocal e carisma natural sobre o palco.

Porém, seus dias de tenor pop frustrado pareciam estar acabando. O astuto profissional da bajulação ganhou notoriedade e foi alçado à condição de “assessor especial” de uma famosa empresária e jornalista, filha de pai político, que muito se identificava com os maneirismos do rapaz e com o seu talento em puxar o saco de seus assessorados, dizendo sempre o que queriam ouvir, além de defender a honra e os interesses deles ante os demais como um verdadeiro pitbull, enfrentando qualquer pessoa, encarando todos os obstáculos. Logo, graças a seu espírito guerreiro e muita força de vontade, desenvolveu a aptidão de utilizar as bolsas que manejava tão bem como armas letais. Em suas mãos, uma Tommy Hilfiger virava um verdadeiro nunchaku ninja, perigosas para quem atravessasse os tortuosos caminhos de sua patroa. Dizem que a sorte da mulher do vereador foi que ele não segurava nenhuma bolsa no momento da discussão.

Felizmente, após anos de abnegada entrega, a sorte grande lhe sorriu. Sua chefinha foi escolhida para um importante cargo político e levou consigo seu melhor funcionário que tanto a alegrou nos anos anteriores. Hoje, ele está lá: evitando que ela seja fotografada comendo bolo, partindo pra cima de mulheres, crianças e quem mais for louco de dizer um tantinho assim de ruim a respeito de sua contratante. Não admite nem mesmo que olhem torto pra ela. Costuma ameaçar as pessoas dizendo: “Cuidado! Se você olhar, você vai ver só!” Ele nasceu pra isso. Impressionante!

A verdade é que o assessor segura-bolsa subiu na vida. É mais um exemplo de brasileiro que viu, veio e venceu, e ainda sambou na cara de quem não acreditava nele. Arrasou! Dizem até que está sendo sondado para fazer propaganda da Nextel. Tornou-se poderoso, absoluto, vitaminado, lindo e, claro, invejado. Como por esses desqualificados do Novo Jornal que se aproveitam da visibilidade que alguém que brilha e acontece como ele é capaz de conferir aos seus inexplicáveis petardos. Felizmente, há pessoas de bom senso (  >>> EU <<<  ) escrevendo por aqui. Por isso, gostaria de dar um recado do bem ao nobre assessor: segura a onda, amigão. Mas sem largar a bolsa.

 

Coluna do Novo Jornal – 098 – 14.07.2012 – O Raqueiro

fevereiro 17, 2014

O Raqueiro é uma crônica da série “personagens natalenses”. A figura do agroboy conterrâneo, que fala de forma engraçada, trocando o “v” pelo “r”, de comportamento expansivo, machista e materialista, dotado de enorme autoconfiança, agressividade e dado ao exibicionismo, causou grande repercussão em função da identificação imediata deste personagem no cotidiano dos leitores que conheceram a crônica por meio da coluna do Novo.

Quem já conhece, espero que gostem da releitura. Aos que nunca leram este texto, divirtam-se!

***

O Raqueiro

Raqueiros 

Ele tem um notável problema de dicção. Como um Cebolinha mal programado troca o “V” pelo “R” sem a menor cerimônia. Isso não o atormenta. Diz ser coisa do sotaque interiorano, pois cresceu no campo, em meio a criações de gado e safras das mais diversas. E foi precisamente no saudável ambiente interiorano, de pessoas humildes e trabalhadoras, mas também rudes e pouco intruídas, onde cresceu e apreendeu valores que permeiam sua vida inteira. Porém, acabou por se identificar muito mais com a rudeza e ignorância do que com a humildade e o trabalho que enobrece o homem e lhe atribui caráter.

É que o Raqueiro autêntico, que gosta de raquejada, de Carraleiros do Forró e de se mostrar pro porro, nunca precisou dar um prego numa barra de sabão. O pai já trabalhou por ele. É fazendeiro rico, criador de gado, produtor de muitas toneladas de grãos, dono de terras e dos mais modernos equipamentos de otimização da produção, desde ordenhadores computadorizados a tratores de último tipo.

Com tanto dinheiro sobrando e já havendo outro trabalhado por ele, só resta ao Raqueiro curtir uma vida boa, andar pelos interiores do RN, tal qual um Ojuara sem nenhum caráter, na sua suntuosa picape de novo rico e gastar a polpuda mesada que nunca falta. É verdade que ele também costuma vir ao litoral e à nossa capital (que, aliás, é uma cidade do interior à beira-mar) e se sente em casa por aqui. Ainda mais no período do veraneio, quando pode ir de Pirangi a Muriu, ver concertos dos mais variados repertórios (os Aviões, os Solteirões, os Raparigueiros, os Plays, Rictor & Léo) e atolar seu 4×4 em areias, recebendo socorro de veranistas desavisados e bem-intencionados. Tenho a impressão que atolar seu veículo é um momento de glória, pois dá a ele a oportunidade de exibir sua condição de vida confortável para toda uma turba de pessoas que se amontoam como moscas em redor do seu possante.

Nas vaquejadas, chega a um bar e paga cinquentinha ao sanfoneiro para não parar de tocar um instante, mais cinquentinha ao garçom pra não arredar do seu lado e pede todo tipo de bebida pra não faltar nada nem pra ele nem pro seu séquito de bajuladores e marias-botinas que mantém o seu ego inflado com elogios incessantes, além de darem ouvidos a suas incríveis peripécias e violentas pelejas em que dera cabo de 3 ou 4 no braço e puxara uma arma para outros tantos.

O Raqueiro, por ter tido sempre tudo nas mãos, acabou por não se habituar a ser contrariado, tendo, portanto, desenvolvido no âmago do seu ser uma natureza deveras violenta. Traduzindo para uma linguagem que até ele entenda: é um valentão sem cérebro doido por uma briga. Vive provocando intriga e contando seus causos cheios de exageros e inverdades em que enfrentou não-sei-quantos e atirou em não-sei-quem. O Raqueiro anda armado e em bando. É capaz de partir para cima de um pobre rapaz solitário e espancá-lo com a ajuda de 5 comparsas e depois sair bradando por aí que estava quieto, na dele, e foi atacado em sua honra.

Aliás, honra para ele, é algo exclusivamente masculino. O Raqueiro é representante de toda uma cultura coronelista e machista nordestina. Coisa muito nossa. Logo, por uma questão de conservação da moral e dos bons costumes, todo Raqueiro que se preze deve tratar as mulheres como lixo. Sobretudo as namoradas. Muitas vezes chama as mulheres de vacas. E pra combinar com a saborosa ruminante, ainda orna sua cabeça com belos pares de chifres. Sai escondido, trai todas as semanas e dá em cima até das amigas da namorada. Tudo isso além de gritar, humilhar, diminuir e destratar sua “querida” sempre que possível. Dirige-se a ela sem qualquer cortesia e é incapaz do menor gesto de carinho (beijar em público é feio!). E assim segue sua vida e arranjando garotas subservientes que se submetem aos seus caprichos de menino mimado e ignorante de olho nas posses, no sobrenome da família e nos hectares da fazenda.

Cortesia e gentileza são atributos desconhecidos do Raqueiro, assim como são muitas as fontes de sua completa jumentice. Por favor e Obrigado, por exemplo, nunca fizeram parte do seu vocabulário de pouco mais de 100 palavras.

É fácil reconhecer um Raqueiro. Fala alto como se a cidade inteira precisasse saber quanto custou o carralo de raça que adquiriu na última Festa do Boi. Conta vantagens sem parar de coisas que fez, surras que deu e mulheres que comeu. Sai ciscando por aí e cantando pneu com sua caminhonete cabine dupla importada. Chama os amigos alternadamente de “major” ou “meu patrão”, uma vez que desconhece quaisquer outras formas de se referir às pessoas.

Se você encontrar um tipo assim por aí (e acredite: você vai encontrar), corra como se estivesse fugindo da doença da vaca louca ou de uma manada de zebus enfurecidos. Porque se ele lhe pegar pra prosear, major, num rai ser muito bom não, visse? 

Coluna do Novo Jornal – 095 – Fale agora ou cale-se para sempre – 23.06.2012

julho 9, 2013

Esta crônica, eu havia escrito originalmente para a Revista do Versailles. Porém, percebi nela um ótimo potencial para que pudesse ser ampliada. E assim surgiu esta nova versão publicada no Novo Jornal. Divirtam-se!

***

Fale agora ou cale-se para sempre – Versão Novo Jornal

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Outro dia, durante uma cerimônia de casamento, ao chegar o crucial momento em que o celebrante determina aos presentes que “falem agora ou calem-se para sempre”, procurei me concentrar ao máximo, e de imediato, direcionei os ouvidos para o público, arregalei bem os para que pudesse captar o menor sinal de reação da plateia. Nada. Nem prestando toda a atenção do mundo pude notar o menor indício de contrariedade em seus rostos. Fiquei aguardando que acontecesse como nas novelas das 21h ou nos filmes americanos. Alguém poderia (ou deveria) gritar lá do fundo da igreja, dedo apontado para um dos anfitriões e, aos prantos, desaguar em nós toda a verdade oculta embaixo do véu de pureza ou da sóbria elegância.

Qualquer coisa serviria. “Esse homem está casando com ela, mas ele me ama!”; “Essa mulher não ama esse homem!”; “Essa mulher é um homem!”; “Esse homem é uma mulher!”; “Essa mulher curte homem e mulher!”; “Esse homem votou em Micarla, que não é homem, mas é mãe e é mulher!” Fosse lá o que se dissesse, funcionaria muito bem. O simples uivo indignado de um amor traído, o rumor de um coração partido, o burburinho dos convidados, criando a trilha de fundo perfeita para um acontecimento épico: a inesperada interrupção da mais importante das festas ocidentais que é o casamento cristão. Sempre que vou a uma união na igreja, espero com a avidez de menino buchudo que aguarda o Papai Noel pelo ser humano redentor que, recolhendo no chão os últimos cacos de dignidade, ergue-se em meio a uma assembleia homogênea, desafia o destino e, imbuído de coragem e completa falta de noção, recusa-se a calar para todo sempre, dizendo um sonoro e iconoclasta: “EU… tenho algo a dizer para impedir este matrimônio!”

Só que não, né? Por mais que eu buscasse nos mais diversos semblantes, estava claro que ali ninguém teria nada a dizer contra aquele acontecimento, nada de desabonador que pusesse em xeque a reputação do noivo, nenhum segredo de alcova da noiva que nos provocasse a mais absoluta estupefação. Zero de emoção. Suspenso o suspense. O evento seguiu normalmente sem maiores turbulências.

É impressionante como as pessoas não se atêm ao fato de que aquele é o momento mais importante de uma celebração religiosa de casamento. Não é o “sim”, nem tampouco a entrada da noiva na igreja. Nada disso. A hora do “fale agora ou cale-se para sempre” é o mais forte em significâncias e possibilidades que o casamento pode nos proporcionar. É a única hora em que algo de diferente pode invadir nossas vidas repletas de prolongadas monotonias cotidianas e chatices corriqueiras. Uma atitude desafiadora ao limite como esta seria capaz de arrancar-nos de nossas zonas de conforto, sacolejar nossas cabeças e mostrar que ainda existem os bravos, os rebeldes, os destemidos. Seria uma descarga elétrica na multidão inerte, um golpe inesperado, um convite à improvisação no roteiro mais manjado de todos, uma fuga de emergência do protocolo.

Acredito que as pessoas enxergam certos aspectos de um casamento de maneira a supervalorizá-los. É tudo muito previsível, um script irretocável que raramente sai dos eixos. O momento do “sim”, por exemplo, tão tocante a ponto de fazer jorrar lágrimas nos mais sensíveis. Pelo amor de Deus, gente! Vocês têm dúvida de que os dois chegaram até ali para dizer algo que não seja um “sim”? Ou alguém já ouviu um diálogo do tipo: “Você aceita Fulana de Tal como sua legítima esposa?” “Ah, seu Padre. Tem certeza que eu preciso responder agora? Não dá pra tomar uma Kaiser antes?” Não. Isso não acontece na vida Real. O suspense no casamento se resume a alguma música que um dos dois tenha escolhido para homenagear o outro e constranger o público. A verdade é que, num casamento, o máximo de inesperado que sói ocorrer na hora em a noiva joga o buquê e várias mulheres se postam para tentar pegá-lo. Ali sim, é um momento de verdadeira tensão, sobretudo para os homens que costumam torcer para que suas namoradas NÃO peguem as flores. No meu casamento, rolou até um duplo salto mortal de uma das convidadas que alcançou o ramalhete e caiu no chão logo em seguida. Saiu com ferimentos leves, mas muito feliz pelo êxito alcançado.

Porém, nada disso se compara ao que seria uma revolucionária resposta ao momento do “fale agora ou cale-se para sempre”. O inconformismo de alguém contra os desígnios da vida e remando no sentido contrário de um universo em expansão que, aparentemente, não o incluiu em seus planos. Anseio pelo dia em que aquela longa espera de poucos segundos será quebrada pelo berro desesperado de um homem ou mulher que ama… ou odeia. Alguém que recusa-se a aceitar o que lhe ordenam, que não se adapta bem a certas regras, que questiona sempre e que, acima de tudo, prefere falar agora a calar-se para sempre.

Coluna do Novo Jornal – 093 – O louco de palestra – 09.06.2012

julho 4, 2013

O louco de palestra

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Ele nunca falha. Basta você anunciar uma palestra ou bate-papo aberto ao público, seja o local uma livraria, uma sala de aula ou um amplo auditório, não importando a natureza dos assuntos tratados, podendo ser literatura, ciência, política ou qualquer academicismo rebuscado. Em meio ao respeitável público, estará ele, o ator principal da noite, agente de uma eventual tertúlia, inquiridor do palestrante: o Louco de Palestra!

O evento pode ser para tratar de aspectos geológicos complexos, como a composição calcária do solo da região do Seridó, comandado pelo maios especialista no assunto da UFRN. Não interessa. O Louco de Palestra pedirá o microfone e, após uma extensa exposição acerca dos seus conhecimentos (!) sobre o tema, fará uma pergunta tão longa que já conterá a resposta em si própria, confrontando tudo o que o professor convidado terá dito até então, baseando seus argumentos desafiadores em pesquisas feitas no Wikipedia poucos minutos antes daquele evento.

A plateia incrédula olhará intrigada para o improvável personagem, estupefatos com o seu atrevimento e mais ainda pela sua completa falta de noção. O desconforto geral e constrangimento coletivo serão irradiados pelo ambiente, provocando um forte e acentuado incômodo nos mais sensíveis, acanhados e nos que sofrem de vergonha alheia. Rostos ruborizados, sorrisos amarelos, cenhos franzidos, queixos caídos, risos nervosos: nenhuma reação espontânea do público em sua volta será capaz de contê-lo em seu irrefreável ímpeto. Sua retórica esquizofrênica é uma arma poderosíssima, daquelas que tiram totalmente o público de sua zona de conforto e abate a tiros o palestrante, derrubando-o sem direito a apelação do seu pedestal.

Mais impactado que os espectadores, aliás, só mesmo o pobre do palestrante. Sempre que abrem para perguntas, paira no ar um suspense hitchcockiano, os olhos do convidado percorrem o público à procura do voluntário que se prontificará a fazer a pergunta inaugural da conversa que sucederá a fala do especialista. É um tempo curto segundo os frios números dos relógios, porém, uma eternidade para o homem ou mulher que aguarda pela arguição pública, tenso, suando frio, rogando aos céus para que o destino lhe seja brando e não ponha um lunático curioso em seu caminho. Quando, por fim, alguém mais desinibido que os demais aponta o indicador para o alto, o palestrante tenta avaliar o perigo, analisando as feições do indivíduo como se fosse perito em fisionomias, buscando em sua expressão, talvez no olhar, qualquer traço de desequilíbrio ou insanidade que possam provocar uma situação perigosa para sua reputação ou constrangedora diante do público presente.

É muito comum que o Louco, antes de formular a pergunta, apresente-se a todos, na tentativa de fazer-se conhecer, aproveitando o microfone para viver seus breves momentos de fama, os quais tenta espichar o máximo possível: “Olá, meu nome é Fulano de Tal, sou um astrônomo das artes autodidata (os loucos de palestra são sempre autodidatas em alguma coisa), estudioso de Matemática Aquática, Direito Nuclear, Química dos Sólidos, com especialização em Letras Apagadas e pós-graduação em Línguas Futuras, minha atuação na área que o senhor expôs fez de mim um dos 3 maiores especialistas mundiais no assunto. Venho de uma família humilde (nesse ponto, ele conta toda a sua vida com riqueza de detalhes) e passei a me interessar pelo assunto ainda na faculdade (aqui ele faz um relato de toda a sua experiência acadêmica), o que me leva a perguntar o seguinte: (na hora de fazer um questionamento, ele formula uma pergunta bastante extensa, cheia de observações embutidas e em cujo enunciado já aparece a resposta), dito isto, o que o senhor tem a dizer a respeito destas minhas conclusões científicas?” Com a palavra, o palestrante que, não raro, bebe um copo d’água antes de responder, como que ganhando tempo ou evitando um acesso de tosse, ante tão desafiadora questão.

Há os Loucos de Palestra que perdem completamente o senso da realidade. Recordo-me de dois em especial. Certa vez, numa palestra do escritor Mario Prata, um senhor se levantou e perguntou: “O que você pode fazer pela Cidade da Esperança?” Pego de surpresa, como se fora surpreendido por um triceratóps de terno e gravata oferecendo-lhe um café, o escritor pediu que o interlocutor fosse mais claro em sua pergunta: “Fale-me um pouco mais sobre a “Vila Esperança”. É um bairro de Natal? O que podemos fazer por ela?” Após uma explanação que abrangia desde a ausência do poder público, passando pela insegurança e carências básicas, até um discurso contra a demagogia política e corrupção dos governos, o homem desabafou e mostrou-se desesperado. O veterano cronista, experiente e certamente profundo conhecedor do tipo, consolou o homem, disse que através da educação e da leitura se pode reverter um quadro tão desfavorável em longo prazo e que esperava ver a “Vila Esperança” em melhor situação num futuro próximo.

Outra ocasião em que testemunhei a sanha de uma louca de palestra foi no lançamento do livro de poesia da psiquiatra Cínthya Verri, “Constantina”. Num breve bate-papo antes do início da sessão de autógrafos, a autora expunha os motivos que a inspiraram a escrever a obra, narrando episódios da infância e explicando aos demais como imagens tristes que povoam suas lembranças a ajudaram a construir os versos que acabaram por compor o livro. Foi então que uma senhora, com um botton da Marcha da Maconha, questionou toda a teoria da autora e revelou a todos que ela estava completamente equivocada. A poeta ainda tentou se justificar, apelando ao seu conhecimento psicanalítico, demonstrando que as crianças levam traumas consigo que as acompanham até a vida adulta, mas não foi suficiente. Para cada argumento, uma rebatida enfática; para cada resposta, uma implacável contrarresposta. Até que alguém na plateia pediu a palavra e desviou o foco da discussão. Alívio geral e irrestrito.

Eles nunca falham. Os Loucos de Palestra são verdadeiros buracos negros, sugando para si, todas as atenções, atraindo os olhares, magnéticos e arrasadores. Cuidado. Você ainda vai precisar enfrentar um.

Coluna do Novo Jornal – 091 – O Maconheiro Militante 2 – 26.05.2012

junho 30, 2013

O Maconheiro Militante 2

Como vocês devem ter notado, pulei uma coluna. Publiquei anteriormente a de número 89 e agora pulei para a 91. Não foi por acaso. É que a de número 90 estava muito ruim. Por isso, resolvi poupá-los do suplício de ler um texto tão sofrível.

Já este “O Maconheiro Militante 2”, segundo episódio de uma feliz trilogia de crônicas, pode agradar a muitos de vocês.

Divirtam-se!

 

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Naquele dia, o maconheiro militante típico acordou cedo, por volta do meio dia, tomou banho com seu sabonete de ervas verdes e o xampu de cannabis. Em seguida calçou o tênis de cânhamo, a bermuda de surfista e a camiseta do Capitão Presença. Fumou um baseado pra abrir o apetite e comeu 2 sanduíches de ovo frito com salsicha. Depois comeu mais 2. Aí, comeu mais 4. Por fim, resolveu tirar um cochilo ante de sair de casa.

Era uma sexta-feira especial para o movimento natalense para a libertação dos pintas. Finalmente os militantes do THC na cidade teriam voz e vez. Havia chegado o momento há muito esperado de levantar-se ante a tirania conservadora de ultradireita que vilipendiava os direitos dos amantes da fumaça que leva a paz. A partir daquele dia, eles poderiam reagir contra aquela nefasta manobra de forças ocultas poderosíssimas, dominadas por interesses escusos e idealizada pelo capital financeiro internacional, a indústria armamentista, os capos e traficantes, a rede Globo, os juízes e promotores, o presidente (aliás, todos os presidentes), os petroleiros, o Edir Macêdo e o Papa.

Os principais argumentos já estavam muito bem articulados. A erva da paz curava doenças (insônia, glaucoma, ansiedade, câncer, AIDS, dor de cabeça, timidez e falta de apetite.), movimentava a economia (tabacarias, lojas de colchão, lanchonetes, skates e pranchas de surf), proliferava a paz ao sufocar pressões sociais prestes a explodir e desenvolvia nos jovens o interesse por diversas áreas do conhecimento, desde a jardinagem (para o cultivo caseiro) até a culinária (ao se estudar maneiras mais eficazes e rápidas de saciar a fome), passando pela literatura (os fumantes costumam comprar livros baratos com papel fininho que possa substituir a seda.) e pela religiosidade (é muito comum ver os usuários acendendo velas com claros sinais de sagrada devoção). É claro que existiam alguns efeitos colaterais como a promoção de shows de reggae nos lugares onde a popularidade da erva já atingiu as massas. Mas deixa esse assunto pra oposição que o papel dos organizadores do movimento era promover unicamente os benefícios.

Seria o início de algo maior. Era preciso dar continuidade àquela luta e desfraldar a bandeira da descriminalização (mas sem dar muita bandeira, claro). Os idealizadores do evento teriam que se empenhar ao máximo, a causa deveria ser permanente, sem relaxar um só minuto. Quer dizer, uma meia horinha de morgação depois de fumar tá liberado. Mas apenas isso.

O nome do protesto organizado seria o mesmo utilizado em todas as cidades do Brasil em que havia sido realizado até então: “Marcha da Maconha”. O cenário seria o sempre democrático campus da UFRN e os líderes do movimento reivindicatório esperavam reunir algumas centenas de adeptos e simpatizantes da causa verde.

O perfil para ser um autêntico recruta engajado na revolução natural que tomava conta do planeta, do país e, finalmente, de Natal, era constituído de um incondicional comprometimento com os ideais cannábicos e um amor sincero pela plantinha relaxante. A folhinha de 5 pontas tinha que ser o seu pavilhão nacional, estar no escudo do seu time de coração, ser a logo de sua banda preferida, a representação sagrada de sua fé (in Jah we smoke). O maconheiro homem comum não deveria ir à passeata se quisesse manter em sigilo sua identidade secreta de cidadão acima de qualquer suspeita. Para protestar com vigor e comovente paixão, os participantes não poderiam ter vergonha de ser malhados.

Os insurgentes que integrassem esta relevante parada cívica, divisora de águas na história de lutas e conquistas dos direitos civis da cidade deveriam ser iniciados na arte de apontar o THC como solução de todos os males, como tábua de salvação para uma sociedade careta e corrompida. Deveriam evocar os grandes vultos históricos que já deram um tapinha, de Bill Clinton a Che Guevara, de Maurício de Nassau a, sei lá, Ronaldo Fenômeno. Também poderiam alegar o apego às raízes do nosso Estado na produção e consumo de camarão como justificativa plausível e tentativa de convencimento dos mais tradicionais. A história da maconha também não deveria ser desprezada enquanto retórica, uma vez que sua matéria prima esteve presente em momentos significativos da história, servindo para confeccionar pergaminhos, tintas para pinturas de guerra tribais e princípio ativo que proporcionou a evolução da escultura em durepoxi. Enfim, era um desafio para profissionais, usuários cultos e estudiosos da erva. Um dos líderes declarou enfático: “Qualquer um pode ter os olhos vermelhos e os dedos amarelos, mas só alguns poucos tem um coração puro, os pulmões verdes e o cérebro em intensa atividade sináptica. Por isso, nada de amadores.”

Por isso, foi elaborado um processo seletivo, mediante uma entrevista presencial numa rodinha de fumo. Quem viajasse com mais fluência e continuasse argumentando bem (ou falando qualquer coisa que fizesse algum sentido) depois de alguns charas estava aprovado. Quem embaçasse a conversa e tivesse passado superbonder nos dedos, estava eliminado. Afinal, a causa era essencialmente coletiva e não haveria lugar para usuários fominhas que não passavam a bola para os companheiros. Esses acabavam queimados pelos demais. E não no bom sentido.

Ainda assim, com um rigoroso critério de seleção, na hora e local marcados, 500 pessoas prestigiaram a 1ª Marcha da Maconha de Natal. Todas munidas de argumentos fortes, cartazes impactantes e uma desculpa pra faltar aula. A imprensa deu ampla cobertura, a sociedade discutiu durante toda a semana seguinte e os mais conservadores fizeram firme oposição ao movimento subversivo. Inclusive, preocupados com a possibilidade de o evento dispersar-se como fumaça no ar, os organizadores prepararam uma carta aberta com as 10 principais reivindicações do público carburante, que estavam associadas à descriminalização da maconha e beneficiavam enormemente todos os setores da sociedade local. O problema é que ninguém encontrou a carta, pois como havia sido escrita num papel fininho, a turma acabou usando pra enrolar um chara. E como ninguém conseguiu lembrar o conteúdo depois de terem “dado um 2”, deixaram pra lá. Só depois, quando puxaram muito pela memória, alguém lembrou que liberar a maconha estava no meio.

– E as outras 9, braw?

– Pô, as outras eu não lembro.

– Sóóóó.

– Podcrê.

Coluna do Novo Jornal – 087 – Manicaca Fashion Week – 28.04.2012

maio 8, 2013

Crônica bem legal que fiz sobre, er, tipo, moda. 🙂 Divirtam-se!

***

Manicaca Fashion Week

Manicaca Fashion Week

Escolher roupa nunca havia sido um problema. Bastava pegar uma calça que servisse, uma camiseta bonitona e calçar os tênis. Pronto. Agora era só partir pra guerra. Eu pensava cá com minha teimosia de jovem cabeça dura, burro como uma porta e preconceituoso até a última célula, enfim, um natalense como qualquer outro, que essa história de moda não passava da boa e velha frescura disfarçada de sofisticação e estilo. Até que um dia Ela me mostrou toda a verdade, abrindo minha cabecinha limitada para o significado que está por trás das meras tendências.

Eu imaginava a mim mesmo como um autêntico herói da resistência pacífica, recusando submeter-me às convenções sociais mais fúteis e pueris. Uma espécie de Gandhi insurgindo-se contra o consumismo exacerbado das marcas que dominam nosso imaginário de província pobre e sem cultura perdida nos recônditos deste país capitalista emergente. Não gostava de marcas caras. Pra mim, uma bolsa era uma bolsa. Uma calça era uma calça. E uma simples camisa não poderia conferir um título de nobreza simplesmente por conter um emblema de um jacaré, um homem a cavalo ou um número ridiculamente grande. Era meu dever cívico de rapaz politizado nadar contra a correnteza, conscientizar a massa ignara, pregando valores positivos como a justiça, a parcimônia e tudo aquilo que não está a venda nos centros de compras do meio do caminho. O caráter, senhoras e senhores, não estará em oferta na “Liquida Natal”.

Mas Ela sabia como desconstruir todos os meus argumentos, fazendo cair por terra as mais arraigadas convicções e incontestáveis certezas. Apontou minhas mais que evidentes contradições. Mostrou que, ao seguir símbolos da contracultura, ao frequentar a Ribeira em detrimento dos camarotes VIP, ao optar pelo Dusouto em vez de Bel, eu estava apenas cultuando outros ídolos em meu sagrado altar de consumo particular. Ela escancarou que eu, assim como todos a minha volta, fazia tipo, seguia um padrão de comportamento que poderia diferir na aparência, mas não no essencial. A imagem que eu fazia de mim mesmo estava longe de ser uma forma de apaziguar minha consciência, de fazer-me sentir bem. Eu queria, na verdade, que os outros percebessem minha “atitude” e (podem rir) “autenticidade”.

No fundo, eu estava tentando ser percebido pelos outros de uma maneira idealizada. Eu, assim como Ela, o Padre Fábio de Melo, a Amy Winehouse e vocês, sou um personagem de mim mesmo. Eu me inventei de acordo com o que gostaria de ser. Represento o papel que eu mesmo escrevi. E já que era pra ser melhor percebido, por que não me comportar de maneira mais elegante de acordo com a ocasião? Que mania era essa de querer causar? Eu tinha que respeitar certos grupos que eu frequentasse eventualmente, precisava sim usar terno em casamentos e saber que a roupa de ir ao shopping não deveria ser a mesma de uma reunião de trabalho.

Ela me mostrou que eu não tinha o mais remoto senso estético, que o meu ideal de beleza no que se referia ao vestir era o mesmo de um letrista de axé com relação à métrica. Eu não sabia combinar camisa com calça. Camisa, calça e tênis então, jamais. E, grave, muitas vezes eu errava até na seleção do par de meias. Fui sumariamente proibido de comparecer a eventos públicos (qualquer aglomeração maior que 3 pessoas) sem que ela escolhesse minha indumentária. Tentei me esquivar, mas sucumbi aos primeiros elogios. Logo, cansada de exercitar a criatividade diante de um guarda-roupa quase tão parco em opções quanto o do Cebolinha, Ela me levou para fazer compras.

Apresentou-me às lojas legais, às marcas que importam, conheci as tão alardeadas “últimas tendências” e soube que as novas coleções trazem consigo todo um passado de minuciosas pesquisas, trabalho hercúleo e evolução constante. A Primavera Verão 2012, por exemplo, não difere tanto das escolas literárias que se baseavam na negação da geração anterior. A única diferença é que com as roupas acontece de 6 em 6 meses. Hoje, sou um homem mudado. Tenho um estilo novo, o Manicaca Style, que não posso definir como próprio por razões mais que evidentes. Sempre que vou a uma festa, um jantar, uma balada, Ela pergunta: “vai vestir o que?”, para depois zombar de minha resposta e determinar como eu realmente devo ir. Alguns podem achar essa situação meio embaraçosa, mas acredito que seja mais comum do que se pensa. Quando existe amor, respeito e consideração pelo outro, nos preocupamos com todos os aspectos relativos a ele. Daí os fraternos e sinceros cuidados das mulheres em nos vestir quase na mesma medida em que tentamos despi-las.  É a vida. É bom e, nesses tempos mudernos, ser manicaca tá na última moda. E, convenhamos, mesmo que você não tenha tendência, não tem nada demais em seguir algumas.

Coluna do Novo Jornal – 086 – Algumas verdades sobre Alex Nascimento – 21.04.2012

maio 5, 2013

Algumas verdades sobre Alex Nascimento

2012_05_22 Jovens Escribas Sinhá Casa da Ribeira Noite-162

Alex é o do centro ou, para facilitar a identificação, o mais bonito dos 3.

Em 2005, o fotógrafo Giovanni Sérgio, um dos homens mais cultos de sua geração, perguntou-me de chofre: “Você já leu Alex Nascimento?” Diante de minha negativa, arrebatou rápido e preciso, como se empunhasse uma objetiva e a apontasse para mim: “Ali sim é um escritor.” Jovem e petulante que era, ainda acometido da arrogância natural dos que pouco conhecem, interpretei a preciosa dica literária de Giovanni como mais uma de suas mordazes pilhérias, tão comuns a este pícaro e pictórico profissional das lentes, mago das imagens estáticas, príncipe da Rua Chile. Entretanto, anos mais tarde, tive a oportunidade de conhecer o texto de Alex Nascimento. Depois, assisti à peça do coletivo “Atores à deriva” baseada no livro “Recomendações a todos”. Por fim, li a lendária obra que originou a peça em que Alex discorre com especial sarcasmo e a dose certa de ironia a Natal de 1982, sua sociedade, seus hábitos, costumes e peculiaridades. Obviamente, encantei-me pelo texto e a sagacidade do autor.

Desde que me deparei com tal obra, com tamanha qualidade e estilo inigualável, decidi que quero escrever o mais parecido possível com o meu novo ídolo das letras. Sei que é impossível, mas, diante das circunstâncias, contento-me em ser uma imitação barata e oportunista. A partir desta formidável descoberta compreendi que o bom Giovanni Sérgio nunca quis desmerecer por oposição minhas surradas frases. Na verdade, sua intenção, como a de um tutor, era me orientar no sentido de uma das melhores leituras que a cena contemporânea de autores natalenses viu surgir.

Passado mais algum tempo, conheci também o autor. Gente finíssima, que carrega consigo um permanente e contagiante bom humor cultivado por seu inabalável espírito jovial. Do pouco que convivi com ele até agora (para minha sorte, segundo me confidenciaram alguns dos amigos da mais íntima seara), pude reunir alguns episódios da mais autêntica veracidade que tenho a honra de compartilhar com vocês:

– Existem dois grupos de mulheres em Natal: as apaixonadas por Alex Nascimento e as que não o conhecem.

– Um dia Alex Nascimento foi convidado a ser padrinho de casamento de um amigo. Pediu para fazer um discurso saudando os noivos e declarou: “Todo mundo tem direito a ser feliz. Casa porque quer.”

–  Costuma pegar no pau dos amigos, mas sem viadagem. Trata-se apenas de uma inspeção rotineira, pura conferência preventiva, para averiguar se o seu continua sendo o maior membro da cidade. Após a constatação de que continua tudo como antes e a bandeira do seu mastro segue tremulando mais alto que as outras, respira aliviado e sorri satisfeito.

– Ele esteve internado na enfermaria de um manicômio e lembra de tudo com a nitidez de um Cartier-Bresson.

– Se Alex Nascimento pudesse encontrar-se frente a frente com Freud dizer-lhe-ia umas verdades, pois o ‘pai da psicanálise’ deu ao mundo “muito cabimento e poucas condições”.

– É um homem acima da média e, como tal, incapaz de fazer média com ninguém, pois média, até mesmo em matemática, sempre lhe cheirou a “acordo de partes”.

– Trata-se de um iconoclasta atrevido, um quebrador de paradigmas incorrigível. Para ele, é uma idiotice aquela história de que um homem tem que plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho.

– Aliás, Alex sempre considerou que a melhor parte da fabricação de um filho é o contato do operário com a fábrica.

– Na enfermaria do manicômio onde esteve internado, Alex conheceu um homem que se imaginava presidente da república. Seu maior medo era ser derrubado do cargo enquanto fosse ao banheiro. Por isso, costumava se cagar e mijar todo. Conclusão do autor: “O medo de perder o poder leva o poder leva o homem às mais descabidas sujeiras”.

– As pretensões acadêmicas do genial escritor residem em entrar lentamente para a Academia de Letras para que de lá seja expulso rapidamente.

– Alex Nascimento, ainda bebê, quis saber dos filmes de Visconti, das obras de Michelângelo, do disco novo de Oscar Peterson, dos rumos políticos de sua terra, dos pensamentos de Millôr e de outras coisas que as boutiques não vendiam. Obviamente, não obteve êxito. Nasceu em Natal o pobrezinho.

– Uma madame olhou para o bebê Alex e, com afetação de analista formada na escola mundana de maledicência diagnosticou: “o menino tinha cara de chato, pretensioso, arrogante e intelectual”. O infante autor respondeu de bate e pronto: “Chato é camelo de deserto pubiano, pretensioso é economista que trabalha pro governo, arrogante é irmão de gente famosa, e intelectual é a puta que a pariu!”

– Alex Nascimento acha que Natal está cheia de ricos se fazendo de bestas e bestas se fazendo de ricos.

– É possível, e até provável, que o escritor esteja fungando no seu cangote neste exato momento em que você lê este texto.

– Se você olhar pra trás, ele vai perguntar: “Foi bom pra você, querido?”

Essa, e apenas essa, é A VERDADE SOBRE ALEX NASCIMENTO! Quem quiser que invente outra. Seguirei buscando me aprofundar (com o devido respeito) mais na obra do autor. Certamente, depois do sucesso da nova edição de “Recomendação…” haverá outros lançamentos. E o que não sair de novo, buscarei nos sebos. Recomendo que façam o mesmo. Recomendo a todos.

 

Coluna do Novo Jornal – 085 – As desventuras de uma ex-gostosa – Quero ser vice. – 14.04.2012

maio 2, 2013

As desventuras de uma ex-gostosa

Carla Ubarana

Sempre tive especial predileção pela leitura. Se não fosse por ela, não estaria aqui, com fotinha no topo da página, nomezinho impresso e a oportunidade de grafar umas besteiras pra vocês num jornal de respeito e boa circulação. Nos tempos antigos da minha adolescência, só havia 3 carreiras possíveis: medicina, direito e engenharia. Havia poucas concessões para odontologia e arquitetura. Na provinciana Natal daquela época (ainda mais do que hoje) quem não se enquadrasse nessa cartilha, era precocemente taxado de “sem-futuro” ou fracassado. Eram tempos de poucas alternativas e parcas perspectivas.

Era de se esperar, portanto, que um rapaz tão dedicado a leituras como eu, seguisse o caminho do Direito. Quando manifestei publicamente o interesse em cursar comunicação, o choque foi grande. Alguns parentes chegavam para minha mãe, afirmando que eu passaria fome. Na escola, professores não entendiam como “um menino tão bom” desperdiçaria a chance de optar por alguma profissão digna.

Segui em frente, cursei comunicação na UFRN (Jornalismo) e UnP (Publicidade), depois fiz especialização, comecei a trabalhar, tive o trabalho reconhecido, ganhei algum dinheiro e, hoje, tenho uma vida estável. Como tudo ocorreu de forma natural até agora e as conquistas se deram de forma gradual e crescente, nunca compreendi bem porque as pessoas diziam que a única escolha possível para um estudante com o meu perfil seria cursar Direito, frequentar tribunais, conviver com todos aqueles artigos, leis, liminares, linguagem jurídica. Aí, esse caso dos precatórios do TJ me abriu os olhos.

Quando as pessoas falavam em uma carreira bem sucedida no Direito, era isso que eles queriam dizer! Percebi que as possibilidades da profissão não se limitavam a advogados, promotores, juízes e escrivães. Havia também os grandes empreendedores como a Carla Ubarana, a personagem da semana na cidade. Os escritos jurídicos também não se limitavam às peças que exercitam a arte de falar, falar e não dizer praticamente nada. Tem também os livros contábeis que distribuem riquezas entre desembargadores e operadores de esquemas como o dos precatórios. E eu aqui, descascando batatas no porão de uma empresa de comunicação.

Soube que a Carla Ubarana era uma bela e voluptuosa jovem. Estudou no mesmo colégio que eu, mas em outra época. Era craque no vôlei e muitos rapazes eram apaixonados por ela. Pus-me a pensar em como a vida foi cruel com a moça. Acredito que o desfalque que ela deu no dinheiro dos precatórios possa ter sido uma tentativa de vingar-se dos muitos revezes que o destino aprontou para si. Foi uma reação desesperada e tardia às brincadeiras de mau gosto do tempo, esse carrasco que é capaz de transformar a garota mais bonita da escola numa notória baranga cantada e decantada em prosa e verso nas capas dos jornais.

Só posso crer que seja essa a razão para que ela aprontasse o que aprontou. Seria justo por parte da Providência Divina que lhe pudesse agraciar com um pouco de generosidade ante tudo que lhe foi tirado. E agora que ela foi pega com a mão na cumbuca, talvez tenha percebido que tudo o que vem fácil, vai fácil. Perdeu toda a fortuna que nos roubou, assim como perdeu a formosura de outrora e hoje é apenas uma ex-gostosa falida e mal falada. A vida dá voltas e nem sempre é de Mercedes.

***

Quero ser vice.

Deixando um pouco de lado esse caso do TJ, tenho outra sugestão de carreira que esse ano está em forte evidência. Trata-se de um emprego que paga bem, traz certo status e, o melhor de tudo, não lhe faz correr riscos, pois é inteiramente lícito. Eu mesmo já penso em postular uma vaga para mim. Estou falando da profissão de “VICE”. Em outubro tem eleição eu descobri que é isso que quero da vida: eu quero ser vice! Eu nasci pra isso. Eu sempre fui vice! Sou o melhor nome para este cargo.

Sigam o meu raciocínio, mas não com muito interesse, já que nós, vices, não nascemos pra liderar. No máximo, para vice-liderar. E olhe lá! O que eu quero dizer é que sempre fui um aluno nota 7, nunca fui o melhor nos esportes, tinha um desempenho médio nas conquistas amorosas escolares(nem a garota mais desejada da sala nem a canhão da Jussara que nos dava balas Sete Belo, senão a gente nem cumprimentava). Eu ficava mais na minha, quieto, sem ser notado.

Fui crescendo, mas não muito, para não ficar mais alto que a média, e mantive a regularidade. Pois é isso que nós vices natos temos que ser: regulares. Se fôssemos bons ou ótimos, não serviríamos para o cargo. Nós vices não somos dignos de destaque. Aliás, nós geralmente somos lembrados pelo que não somos e nunca pelo que fomos ou somos. A única coisa que podemos dizer que somos é vice-isso, vice-aquilo.

Os vices não são nem altos, nem baixos, nem gordos, nem magros, nem fortes, nem fracos, nem disputa pelo título nem zona do rebaixamento. Um pobre não consegue ser vice, assim como um vice não fica milionário. Vice é tudo classe média.

Uma coisa boa sobre os vices é que você nunca vai encontrar um vice contando vantagem que fez isso, que fez aquilo, que faz e acontece. Um vice não faz e se orgulha por não ter feito. O vice é desleixado, relaxado, descansado e relapso. O vice adora uma rede e, de tão preguiçoso, faz o mais indolente dos veranistas natalenses parecer um novaiorquino yuppie da Bolsa.

Imaginem como seria um debate na televisão entre vices. Obviamente jamais poderia passar numa TV líder em audiência. Em vez de dizermos o que iríamos fazer como os candidatos principais, diríamos tudo o que não faríamos quando fôssemos eleitos. Quem mostrasse maior vocação para a vagabundagem levaria o cargo. Ou melhor: vice-cargo.

Eu poderia dizer algo como: “Eu prometo não trabalhar por vocês nem um diazinho sequer nos próximos quatro anos! É um compromisso que assumo de público. Comigo é assim: quando eu prometo, não cumpro mesmo!” E a platéia iria ao delírio, certa de que eu seria o seu vice-candidato.

Em todas as eleições eu fico fascinado com os vices. A inutilidade charmosa, a falta de função orgulhosa, a condição de simples acessório carregada de simbologia, o adorno eleitoral que anda (sem rumo definido) e fala (nunca coisa com coisa). Tanta admiração me despertou este sentimento sincero e obstinado de querer meu lugar à sombra, no cantinho das atenções. Tenho certeza que, se eu não fizer nada, como estou disposto a não fazer, chegarei a lugar nenhum, que é onde um vice almeja permanecer. Conto com o seu voto e só não prometo que serei o melhor dos vices porque se eu for inventar de ser melhor em alguma coisa, estaria sendo um péssimo vice.

 

Coluna do Novo Jornal – 083 – Secretário Mano Celo – 24.03.2012

abril 22, 2013

Secretário Mano Celo

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Mano Celo por Rafael Coutinho

 

Quando a nova prefeita assumiu, decidiu dar uma sacudida geral na administração municipal. Fazia-se necessário preparar o terreno para uma nova era de eficiência na gestão e maior identificação da população com o poder público municipal. A ordem era criar um conceito mais leve de governo, capaz de cativar as pessoas, assim como havia feito a então candidata nos meses anteriores.

Para por em prática tal estratégia, era preciso também apagar o passado recente das memórias dos natalenses. Todas as realizações dos últimos 6 anos deveriam ser encobertas. Os projetos iniciados seriam descontinuados ou rebatizados, ganhando novas embalagens e logomarcas muito bem boladas pelo marketing da prefeitura e relançados com o status de novos e revolucionários programas elaborados para melhorar a qualidade de vida da população.

Uma das iniciativas em pauta era a reformulação das secretarias do município. Seria preciso extinguir algumas, criar outras, fundir várias e, as que permanecessem, mudariam de nome. Os meses foram se passando, depois 1 ano, 2 anos e nada da tão falada eficiência ou modelo de gestão. Para tentar corrigir o rumo da administração, cabeças voaram nas secretarias, nomes eram trocados todos os meses. Os secretários eram demitidos e outros eram chamados para ocupar seus lugares. A prefeita já se aproximava do seu último ano de gestão quando veio a ideia, sempre oportuna, de algum aspone de plantão, de criar a “Secretaria da Juventude”, que funcionaria como uma ponte entre a prefeita e os jovens natalenses, além de servir como instrumento de marketing, uma vez que a novidade deveria atrair a atenção da imprensa, da população e gerar ótimas chamadas publicitárias para rádio e TV. Uma prefeita que se preocupa com os habitantes de menos idade, na verdade, está pensando no futuro do município.

A questão era: qual o melhor nome para ocupar tal cargo? Quem reuniria os requisitos necessários para ocupar o posto? Que jovem teria coragem, talento, desenvoltura, articulação e popularidade para desempenhar o papel? Tal pessoa deveria também, importantíssimo!, atender a uma conveniência política e econômica.

Foi então que alguém lembrou do filho do empresário Maurício Dutton, um dos maiores financiadores da campanha da Prefeita. A indicação do filho para secretário da juventude acalmaria um pouco os ânimos do homem de negócios que, segundo se comentava, não andava muito satisfeito com o retorno obtido dos investimentos realizados na campanha eleitoral. Para ele, a prefeita e sua equipe não haviam se mostrado agradecidos com sua valiosa ajuda durante o pleito passado. Ou seja, aquela seria uma solução para vários problemas de uma vez. Uma oportunidade de matar dois coelhos com uma caixa d’água só. Que chamassem o filho do Sr. Maurício.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton parecia ser o nome perfeito para o cargo. Não só pela ascendência nobre, mas também por sua militância social e artística local. Após decidido o nome a ocupar a cadeira de secretário, era preciso elaborar as atribuições institucionais da nova pasta. E também um nome que chamasse a atenção das pessoas para a seriedade da empreitada. Afinal, só porque se tratava de uma ação identificada com o público jovem, não precisava chamar-se pura e simplesmente “Secretaria da Juventude”. Um nome mais composto, formado por uma sigla nova, daria o equilíbrio necessário entre o despojamento juvenil da secretaria e o profissionalismo exigido por uma administração que se dá ao respeito. Com isso, o nome da Secretaria da Juventude seria: “Secretaria Especial Futuro Unificado Da Educação Urbana”. A sigla seria SEFUDEU.

No dia seguinte, pela manhã, já estavam lá na sede da prefeitura, para uma reunião com o secretário chefe da casa civil. Definiu-se que o discurso a ser ensaiado e comunicado à imprensa e população era que o secretário Mano Celo seria responsável pela realização de programas voltados para a inserção dos jovens no mercado de trabalho por meio da arte, do esporte e da capacitação laboral. O Mano, que havia resistido até o último momento, em participar daquele encontro, começou a gostar muito daquela história toda de ajudar os outros e dar aos jovens a oportunidade de vencer na vida.

No seu primeiro dia de expediente à frente da SEFUDEU, procurou reunir sua equipe a fim de conhecer seus colegas de trabalho, expor ideias e traçar os planos de atuação. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que, dos 134 servidores lotados na secretaria, nomeados pelo Diário Oficial do Município, apenas 2 trabalhavam efetivamente no prédio: a secretária que atendia aos telefonemas e a copeira que trazia café e água para as visitas. O Mano pegou a lista de funcionários que, supostamente, estariam a sua disposição e logo estranhou vários sobrenomes conhecidos. Eram parentes de vereadores, deputados estaduais e empresários que, assim como o seu pai, ajudaram a prefeita a se eleger.

O Mano não desanimou. Imaginou que, assim como ele, a maioria daqueles nomes havia sido nomeada por politicagem, mas que sentiriam autêntica satisfação em trabalhar pelo bem das pessoas que mais precisam, realizando um grande trabalho em prol da sua cidade. De posse da lista, pediu à secretária que ligasse para todos, convocando para uma reunião de trabalho, na qual seriam divididas as funções de cada um e elaboradas as metas da secretaria. Era preciso deixar claro a todos que o trabalho realizado por eles seria muito importante para o bem da juventude natalense e essencial para a população mais.

Na manhã seguinte, o Mano Celo já estava na sala de reuniões, aguardando os servidores para que pudessem iniciar os trabalhos da Secretaria da Juventude (SEFUDEU). No entanto, ninguém apareceu. Em vez dos funcionários, quem entrou na sala foi a secretária com um documento que ordenava a exoneração do secretário. A chamada que ele deu nos filhos de políticos e empresários para que eles efetivamente trabalhassem, exercendo os empregos concedidos a eles, foi tomada como um insulto, uma afronta, ofensa das mais graves e indesculpáveis. Todos eles reclamaram aos seus padrinhos políticos que transmitiram suas insatisfações à prefeita. O resultado foi a demissão do Secretário Mano Celo, mais uma vítima da permanente reforma do secretariado da prefeitura. Em seu lugar, entraria uma garota que havia ganho notoriedade na cidade como “rainha do Twitter” e cuja trajetória se resumia ao mais autêntico puxa-saquismo virtual nas redes sociais.

O trabalho do Mano Celo como secretário da prefeitura durou exatas 24 horas e, mesmo assim, foi considerado como um dos melhores daquela desastrada gestão.

 

Coluna do Novo Jornal – 079 – Pinto e Rêgo Advogados Associados – Grandes casos recentes – 25.02.2012

março 6, 2012

O melhor e mais aclamado escritório de advocacia da cidade nos contou a respeito dos seus mais recentes trabalhos.

Boa leitura.

***

Pinto & Rêgo Advogados Associados – Grandes casos recentes.

Alguns leitores mais atentos devem se lembrar do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” do qual falei em crônica anteriormente. Trata-se da sede onde atuam os mais requisitados defensores da cidade, Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo. Pois bem, desde o ano passado o escritório de tão destacados homens da lei tem recebido diversos novos casos e clientes graças à postura atuante do Ministério Público, especialmente dos workaholics promotores do patrimônio.

Todo esse trabalho extra e os dividendos gerados levaram até mesmo a cogitar-se o envio de um cartão de “Boas Festas” aos promotores, parabenizando pela proatividade e profícuo trabalho, mas tal ideia foi logo abandonada para evitar equívocos de interpretação em relação às reais intenções dos advogados por parte dos promotores.

A razão porquê o renomado escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” tem sido procurado por diversos novos clientes implicados em denúncias de corrupção é a reputação de bons oradores e excelentes redatores de peças jurídicas que a dupla construiu em anos de atuação na área, além do que, como bons adeptos da consagrada prática jurídica de “falar, falar e não dizer porra nenhuma”, eles levam vantagem sobre outros escritórios, uma vez que conseguem enrolar com pleno êxito juízes, imprensa e opinião pública.

Vejam o caso de um rapaz que os procurou, pobrezinho. Escorraçado de um órgão público por seus conceitos modernos e dinâmicos de administração, está agora sendo acusado de ter subtraído milhões de Reais do erário em benefício próprio, da mãe, irmão e até da namorada. O curioso é que o suposto esquema pareceu se revelar após o jovem ter sido visto lavando os pés com uísque a bordo de uma suntuosa lancha. Escrevi ao escritório para que os advogados pudessem esclarecer a situação de seu cliente. Segue a resposta:

Enquanto triunfarem as injustiças contra os nobres de espírito, haverá uma causa à qual abraçar para que a correta atitude da sociedade para com seus mais proeminentes agentes possa ser aplicada e, desta forma, sejam punidos os ímpios e semeadores de discórdia nestes férteis campos de maldade.

É público e notório que o nosso cliente apresenta largos serviços prestados em benfeitoria desta unidade federativa, seja como profissional respeitador da ordem ou como prestimoso gestor púbico que cedeu sua força de trabalho e bem sucedida experiência no setor privado à esfera pública, vem sofrendo com infundadas acusações embebidas no mortal veneno da inveja.

Acusam-no vulgarmente de usurpar o patrimônio público estadual. Ora, que falácia inclemente! O audacioso gestor nada mais fez do que evitar que a verba percorresse os perigosos e convencionais caminhos, tornando-a menos vulnerável às ações venais de criminosos sempre à espreita de grandes montantes. Ao manejar alguns milhões da conta do órgão que comandava, ele agiu de forma a protegê-los de eventuais pessoas mal intencionadas, transferindo-os para lugares seguros como sua própria conta-corrente, de seus parentes e namorada. Tomando tal medida, de muito boa fé, tencionou manter o dinheiro público longe das garras de gatunos astutos que sabidamente atuam nos órgãos governamentais, salvaguardando as reservas que devem prover o bem estar da população.

O investimento dos recursos em um supermercado, uma pizzaria e uma lancha apenas evidenciam o espírito bondoso de nosso cliente, bem como suas profundas preocupações sociais. O supermercado fornecia produtos alimentares a preços abaixo da tabela para a população carente graças aos subsídios conseguidos. A pizzaria atendia a outra camada da população, menos carente, mas que nem por isso, merecia sofrer discriminação. Já a lancha, ao ser equipada com um potente equipamento de som, pretendia irradiar entretenimento de qualidade a um sem número de conterrâneos dentro e fora d’água. Em nossa abalizada avaliação, se estes não são exemplos do uso justo e democrático do dinheiro público em prol de um numeroso extrato populacional, não sabemos mais que é.

Quanto às insinuações feitas de que o necessário hábito de lavar os pés com uísque mantido por nosso cliente denote um comportamento irresponsável e perdulário, temos o dever de informar que ele padece de um raro fungo que provoca um odor terrível nos seus artelhos inferiores. Para combatê-lo é preciso aplicar no local enzimas eficazes que são encontradas apenas nos mais puros maltes escoceses, promovendo assim uma justa equiparação entre os membros de seu corpo. Afinal, como nosso cliente sempre manteve as mãos limpas, é bom que faça o mesmo com os pés.

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo “Pinto&Rêgo Advogados Associados

Os argumentos dos dois grandes juristas são mesmo de impressionar o mais indiferente dos cidadãos, tanto é que o réu já está solto, podendo novamente cuidar dos problemas higiênicos de seus pés que só o puro néctar das highlands escocesas pode resolver.

Outro caso recente que muito me comoveu foi a defesa que os mais requisitados advogado da cidade fizeram de um colega que se envolveu mais do que devia em causas ambientais. Vejam vocês que o rapaz sonhava ver o RN  livre da poluição causada pela crescente frota de automóveis. Questionei sobre o episódio e eles prontamente me

responderam:

Muito nos apraz poder defender uma causa tão justa quanto a proteção ao meio-ambiente, algo que faz muitíssimo bem a toda a população de nosso dadivoso Estado. As boas intenções deste nosso cliente são tão certas quanto o ar que respiramos e tão puras quanto uma infante donzela temente a nosso bom Deus misericordioso.

O sonho deste justo homem de ver nossa atmosfera livre de tantas impurezas vem ao encontro da filosofia defendida por este escritório de que uma sociedade mais justa, limpa e transparente é possível. Por isso, e não pelos generosos honorários oferecidos, aceitamos o caso para proteger o pobre rapaz do linchamento popular que vem sofrendo graças à atuação daqueles que preferem ver o meio-ambiente destruído a mexerem ,um pouco que seja ,em suas rotinas, privilégios ou comodidades econômicas.

Pois foram estas pessoas que trabalharam para incriminar nosso cliente e impedir seu tão cuidadosamente elaborado projeto de inspeção veicular, inventando as mais absurdas histórias sobre ele e os seus sócios, pessoas da mais alta estirpe e de absoluta confiança neles depositada pelo próprio povo, já havendo todos prestado grandes serviços ao nosso Estado.

Como amantes da justiça e militantes do verde que somos (verde da natureza e não das notas de 100, que fique claro) trabalhamos bastante para que nosso cliente seja declarado inocente.

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo “Pinto&Rêgo Advogados Associados

Por fim, pedi ao prestigiado escritório que me ajudasse as razões de mais uma de suas clientes. O caso tem relação com precatórios e tribunais e o esbanjamento da corruptora foi tanto que, ao que parece, ela chegou a ser convidada para o programa “Mulheres Ricas” da Record.

Caríssimo, a senhora em questão tem sido vítima de uma síndrome perversa que costuma afligir as pessoas que percebem alguém próximo ascender socialmente. Este mal provoca desespero e gera acusações falsas como a que seus dois automóveis de 600 mil cada não poderiam ser adquiridos com seu salário de importante funcionária da justiça.

Aliás, toda a história que inventaram a seu respeito, tentando enredá-la numa trama de precatórios e desvio de verba pública é fruto da mais clamorosa calúnia. Estamos convictos de sua inocência e tão resolutos de que sairá ilesa deste pesadelo quanto a fortuna que foi depositada em nossa conta como pagamento de sua defesa.

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo “Pinto&Rêgo Advogados Associados

Após a leitura das mensagens do escritório em resposta a minhas arguições, fica fácil compreender porque os doutores Giovanni e Adriano são os advogados mais procurados da cidade. Não que sejam propriamente os maiores conhecedores das leis, mas certamente são os mais aplicados em descobrir atalhos e artimanhas que livrem seus clientes de maiores complicações. Tanto charme e astúcia encanta os réus mais desesperados e, com certeza, alguns juízes também.

Data máxima vênia.