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10 anos de JOVENS ESCRIBAS – Parte 01 – Verão Veraneio – O livro da estação.

março 18, 2014

1 Capa Verão Veraneio FECHADA

Verão Veraneio – O livro da estação.

Enquanto as conversas com os outros 3 autores caminhavam para o surgimento do selo Jovens Escribas, eu continuei escrevendo crônicas de humor para compor o meu primeiro livro. Já havia decidido qual nome dar à iminente publicação: “Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada”.

Fui reunindo textos e fazendo, empiricamente, o trabalho de auto-edição que, mal sabia eu, marcaria bastante minha vida dali pra frente. Quando Modrack Freire, diretor de arte que já havia concluído o logotipo do selo, se ofereceu para fazer o livro, começamos a imaginar como poderia ser a capa. Logo criamos uma imagem em nossa tempestade cerebral: a foto de um baldinho de criança à beira mar sendo utilizado para gelar cerveja, unindo a inocência presente na leveza das crônicas com a irreverência do humor também bastante característico nos textos. Na quarta capa, haveria outra foto: uma trave de “mirim” deixada de lado com o chão impecável em torno dela. Como se os jogadores não tivessem algo melhor para fazer naquele dia (beber, paquerar, curtir) do que jogar futebol. O fotógrafo convidado a fazer os cliques foi Giovanni Sérgio, mago das lentes, ídolo de longa data.

O fotógrafo Giovanni Sérgio - lindo e competente.

O fotógrafo Giovanni Sérgio – lindo e competente.

Com a direção de arte, diagramação e fotos garantidas, precisava batalhar agora um nome relevante que topasse assinar as orelhas da obra. Tinha que ser alguém reconhecido na literatura, de forma que o livro chegasse às pessoas com algum respaldo importante. Meu pai, em conversa com François Silvestre, chegou à conclusão que eu poderia procurar Nei Leandro de Castro, uma vez que eram muito amigos desde os tempos em que a Ditadura Militar os perseguira e prendera algumas décadas antes. Procuramos Nei que, num primeiro contato por e-mail, disse-me com sinceridade que só escreveria se gostasse do que lesse. Fiquei muito animado com a possibilidade e lhe entreguei o material impresso e encadernado em mãos, numa de suas vindas a Natal, naquele ano de 2003.

Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro

Menos de uma semana depois, Nei Leandro me escreveu. Sua mensagem veio repleta de elogios e terminava com sua concordância em escrever a orelha. Em mais alguns dias, o texto estava em minha caixa de entrada de e-mail. Em alguns trechos mais lisonjeiros, Nei dizia o seguinte:

Carlos Fialho me surpreende. Primeiro, por sua precocidade. Segundo, porque as suas crônicas são bem escritas, docemente sacanas, inteligentes, e nos dá a certeza de um escritor, que não há de ficar nos limites da crônica.

Os textos deste livro têm a idade e a linguagem  de um garotão bem resolvido com ele mesmo. Os temas  – gírias regionais, porres, rock, vídeo-game, paqueras, Natal, cinema, carnatais, carnavais, etc. – são tratados com graça e ironia, leveza e fino senso de humor.

Carlos Fialho, cronista, precoce, publicitário, devorador de livros, autor das crônicas deliciosas deste Verão veraneio, vai chegar lá. Esse garoto vai longe.

Além de Nei, procurei um autor adequado para o prefácio. Não precisava ser famoso, mas que tivesse um estilo mordaz e bom humor, de forma a combinar com o conteúdo do livro. Escolhi meu ex-colega de faculdade, George Wilde, que fez um texto preciso, de acordo com o que eu pretendia. Destaco uma pequena parte:

Ao ler o livro, descobri que dentro de Fialho existe algo grandioso: a sua percepção em relação ao nosso dia-a-dia. Afinal, poucas pessoas conseguem sair do círculo da rotina para perceber o verdadeiro circo em que vivemos.”

George Wilde - o homem do prefácio

George Wilde – o homem do prefácio

A campanha publicitária foi elaborada com alguns títulos bem humorados, bem ao estilo do livro.

anuncio verissimo

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

 

A assessoria de imprensa contou com indicações de colegas do curso de Jornalismo da UFRN. Minha primeira entrevista foi concedida a Marcílio Amorim (Jornal de Hoje) e a segunda a Hayssa Pachêco do Diário de Natal.

2004 - VV - JH1

Mas a maior responsável pela divulgação do meu primeiro lançamento não era a imprensa nem a publicidade. Quem promoveu o evento a ponto de transformá-lo em sucesso foi minha mãe, Lurdete. Quando percebeu que era sério mesmo “essa história de livro”, arregaçou as mangas e telefonou pra cada parente, cada amiga, cada conhecido, reforçando bastante a frequência de presentes na noite de Verão Veraneio. O local escolhido foi a AS Livros do Praia Shopping, uma livraria acolhedora que tinha como gerente Cícero, um cara que dava bastante espaço a autores locais. O saldo da noite foi um estrondoso sucesso (163 livros vendidos) num ambiente preenchido de amigos, parentes e colegas de trabalho. Só a partir do segundo livro, essa frequência seria reforçada por leitores.

Quanta gente veio ver!

Quanta gente veio ver!

A noite foi tão agradável que Patrício Jr., que escrevia um blog, publicou uma postagem falando de como fora legal o evento (a qual reproduzo no fim desta publicação). Foi um belo cartão de visitas, indicativo do que estaria por vir num futuro não tão distante e também das possibilidades de crescimento e expansão que o então selo editorial acabaria por aproveitar com o passar dos anos.

“Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada” trazia 5 capítulos. No primeiro, “Galado e outras palavras”, havia temáticas mais gerais. Entre elas, alguns textos merecem destaque como “Galado” que me notabilizou em muitos rincões da Internet e “A Loja de Inconveniência” que até hoje se mantém como um dos meus preferidos. No segundo capítulo, “Cruvinel – o bom de bola”, apresento um personagem que me acompanhou com o passar dos anos e que, mês que vem, ganhará livro próprio. No terceiro, “Mano Celo”, nascia o protagonista do meu livro mais vendido até hoje e que, ano que vem, ganhará mais uma publicação caprichada com todas as suas histórias reescritas. Em seguida, vinha “Vi e gostei” com crônicas sobre cinema. Para fechar, o capítulo mais legal do livro: “Aconteceu no verão” com as histórias pertinentes ao tal “Verão Veraneio” que dá título ao livro.

E assim foi dado o pontapé inicial para a, hoje decana, editora JOVENS ESCRIBAS. Continuem acompanhando aqui nossa história. Detalhe: o livro esgotou sua primeira tiragem em apenas 4 meses. 

NO PRÓXIMO TEXTO: LÍTIO – PATRÍCIO À FLOR DA PELE

***

BÔNUS: POST DE PATRÍCIO NO SEU BLOG PESSOAL – O PLOG

06/02/2004 

há vida inteligente
no mercado publicitário

Quem trabalha com publicidade sabe: de tempos em tempos, tem uma “festa do mercado”. Tais eventos, sempre patrocinados por veículos, fornecedores, clientes ou ambos, têm por maior finalidade embebedar todo mundo, calar a boca de quem está perscrutando que o ano foi ruim e, por residual, reunir profissionais para um bate-papo informal. Pois é, parece um paraíso, mas tais “festas do mercado” haviam se tornado um verdadeiro transtorno. Passo o dia todo numa sala falando/fazendo/refazendo/desfazendo/tentando fazer publicidade. A última coisa de que preciso é estender esta missão ao meu happy-hour. Como prova de que nem tudo está perdido, houve esta semana o lançamento do livro de Fialho, “Verão Veraneio”, que não pretendia ser uma “festa de mercado”, mas acabou sendo por reunir exatamente as mesmas carinhas de sempre. O que me surpreendeu foram os temas das conversas. Ninguém, por exemplo, me perguntou “Como é que está la’?”. Ok, tudo bem, uma pessoas me perguntou isto, mas o assunto morreu quando eu respondi “Lá onde?”. Uma pessoa a noite inteira. Nada mal. Em outras “festas de mercado”, a famigerada pergunta “Como é que está lá?” é dita antes mesmo do “Tudo bem, broder?”. Já é, praticamente, sinônimo de oi. No lançamento de “Verão Veraneio”, porém, tudo foi diferente. Fialho conseguiu a façanha de reunir as mesmas pessoas de sempre fazendo, no entanto, com que todas soassem inéditas. Não sei se foi o fato de estarmos todos na AS Livros, rodeados de Dickens e Saramago e Proust e Pessoa e Machado e Camus. Birita? Claro que teve. Buffet? Sim, impecável. Bêbados chatos? Uh, nossa, e como! Mas estava tudo agradabilíssimo, tudo soando como um lançamento deve soar. Os temas conversados iam de autores consagrados a bandas de rock obscuras, sempre com tiradas inteligentes, observações pertinentes, risos na medida certa. Um éden para amantes do bom e velho papo construtivo como eu. Nunca gostei tanto das “pessoas do mercado”. O livro, graças aos céus, vendeu bem. Fialho, coitado, deve estar cheio de bolhas nos dedos de tantas dedicatórias escritas. E eu, exemplar autografado na mão, cheio de riso a caminho do estacionamento, concluí que a melhor das “festas do mercado” que eu já fui na minha vida foi o lançamento do livro do meu bróder. Mesmo que não tenha sido uma “festa de mercado”.

 

Coluna do Novo Jornal – 105– 08.09.2012 – Mano Celo – Ele protesta

março 7, 2014

No dia 1º de setembro de 2012, publiquei no Novo Jornal, uma coluna chamada “Eu protesto” na qual exaltava a parcela da juventude que havia saído às ruas em Natal para protestar contra a gestão de Micarla de Sousa. A razão do elogio foi pela negação do fato de que nossos estudantes e jovens eram completamente alheios a tudo, analfabetos políticos e comodistas incorrigíveis. Isso já não se sustentava como verdade, pelo menos não no que dizia respeito aos que saíram às ruas para protestar.

Como considero aquele texto “Eu protesto” um tanto datado, pulo para a próxima coluna, a de número 105, na qual eu conto sobre o desempenho do Mano Celo no movimento e quais teriam sido suas consequências.

Divirtam-se!

***

Mano Celo: ele protesta.

Ilustração de Rafael Coutinho

Ilustração de Rafael Coutinho

Nos protestos contrários à majoração das passagens de ônibus, senti falta de um personagem comum nesse tipo de manifestação em Natal, um tipo tão peculiar quanto improvável a participar de tais eventos com toda a sua vitalidade, sempre sensível a injustiças diversas e disposto a lutar contra o padecimento coletivo de comunidades mais vulneráveis às impiedosas espoliações impostas por nossos políticos e classes dominantes. Este jovem, a que me refiro (batizado Marcelo, mas conhecido pela alcunha de Mano Celo) saiu de cena no fim do ano passado e desempenhou importante papel em várias lutas recentes, sendo protagonista, inclusive do movimento #ForaMicarla que redundou com a renúncia da prefeita de Natal no segundo semestre de 2011. Pelo menos, foi alguns imaginaram. Aos que desconhecem o ocorrido, contarei com prazer como se deu tão pitoresco e deleitoso episódio.

***

Natal, 2011 D.C.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton é um rapaz de classe alta, mas que tenta estreitar suas ações com os mais necessitados, pregando justiça social numa cidade tão marcada pela desigualdade como esta capital dos Magos comissionados. Todas as suas tentativas de espalhar a mensagem de igualdade entre classes foram, desafortunadamente, frustradas pelos mais elementares equívocos, pela dificuldade da plateia em compreender as letras do seu rap politizado e pela interpretação errônea do público que sempre confundiu sua arte com escracho e humor.

As duas tentativas mais recentes de participar dos protestos organizados na cidade, a marcha da maconha de 2010 e o #CombustívelMaisBaratoJá de 2011, caíram no ridículo e no descrédito. O Mano Celo, como era conhecido artisticamente, sofria com isso. Ele achava que tinha uma missão, um papel muito importante a desempenhar na mudança social em curso na cidade. Sentia-se o porta-voz da retirada do poder das mãos das elites e sua entrega ao legítimo dono da cidade, o povo.

Sua frustração era grandiosa e a vontade de ser levado a sério parecia vislumbrar mais uma oportunidade. A insatisfação da população de Natal com a prefeita Micarla de Sousa gerou mais um movimento de protesto: o #ForaMicarla! Mano Celo, desta vez, não esperou ser convidado. Procurou os organizadores disposto a contribuir com os trabalhos organizados pelos líderes. Sabedores que eles eram da trajetória recente do rapaz, fizeram uma exigência. Ele poderia participar, mas estava proibido de rimar qualquer palavra que fosse ou mesmo de se aproximar de um microfone. Injuriado, puto da vida, extremamente contrariado, o Mano topou colaborar mesmo assim. Tudo em nome de uma boa causa.

Nosso herói participou da grande movimentação no cruzamento da Bernardo Vieira com a Salgado Filho. Agiu discretamente. Ficou quietinho o tempo todo, no máximo engrossando o coro e entoando palavras de ordem puxadas por outros manifestantes e que, para o bem geral dos presentes, não eram de sua autoria. Na passeata organizada na semana seguinte para a Avenida Roberto Freire, foi ainda mais radical, entrando mudo e saindo calado. Resistiu bravamente. Aí veio a ocupação da Câmara dos Vereadores. Era preciso arregimentar voluntários que aceitassem acampar no pátio. Como o Mano Celo é um rapaz bravo e destemido, entrou de cabeça no movimento. Comprou uma barraca toda invocada na Centauro. A barraca tinha ar-condicionado, sala, dois quartos, varanda ampla e um pequeno gerador de energia.

Logo, as assembleias do movimento passaram a ser realizadas dentro da barraca do Mano. Até vereadores simpatizantes da causa dos jovens foram conferir a suntuosa estrutura da barraca. Os jornais, os blogues, as redes sociais só falavam da mansão armada no pátio da câmara dos vereadores. Não demorou para começarem as especulações a respeito da origem do dinheiro que financiou aquela estrutura. Uns disseram que se tratava de financiamento de políticos oposicionistas e o movimento passou a ser seriamente questionado, especialmente por uma conhecida blogueira tuiteira picareta cujo blogue contava com patrocínio da Prefeitura e um certo jornalista decano das colunas impressas e porta-voz dos reaças de província. A descoberta da origem abastada e tradicional do Mano também forneceu toda a munição necessária para que a “imprensa oficial” chafurdasse na lama das falsas acusações.

Com a repercussão negativa, a agressividade com que o #ForaMicarla vinha sendo tratado pelos meios de comunicação, fazia-se necessário que a barraca do Mano fosse retirada do local. Os organizadores marcaram então uma entrevista coletiva para anunciar a retirada da barraca da discórdia e explicar que ela havia sido comprada com a mesada do Marcelo Dutton. Na coletiva, o Mano tomou a palavra e começou:

Eu sou Mano Celo,

o dono da barraca.

Um jovem muito sério,

sempre do lado da massa.

 

Comprei esse acessório

Com a grana do meu pai

Por um preço muito jóia

É mole ou quer mais?

 

Não sejamos caretas

De crer nessas mentiras

De blogueiras picaretas

Que adoram intrigas.

As centenas de pessoas presentes no pátio da Câmara explodiram em vibração incontida. As rimas, ainda que péssimas, do Mano Celo tiveram seu momento de redenção, havendo se revelado muitíssimo importantes para que o movimento #ForaMicarla ganhasse força e importância até que a prefeita, pobrezinha, fosse defenestrada do cargo. Muitos atribuem sua queda às declamações públicas do Mano Celo que começaram naquele episódio da barraca e se seguiram semanalmente pelos meses seguintes.

Alguns especularam que o Mano seria candidato a vereador no atual pleito. Propostas não faltaram, mas ele negou. Disse para quem quisesse ouvir que sua missão já fora cumprida.

Mano Celo, ele protesta.

Coluna do Novo Jornal – 083 – Secretário Mano Celo – 24.03.2012

abril 22, 2013

Secretário Mano Celo

MANO_CELO_3

Mano Celo por Rafael Coutinho

 

Quando a nova prefeita assumiu, decidiu dar uma sacudida geral na administração municipal. Fazia-se necessário preparar o terreno para uma nova era de eficiência na gestão e maior identificação da população com o poder público municipal. A ordem era criar um conceito mais leve de governo, capaz de cativar as pessoas, assim como havia feito a então candidata nos meses anteriores.

Para por em prática tal estratégia, era preciso também apagar o passado recente das memórias dos natalenses. Todas as realizações dos últimos 6 anos deveriam ser encobertas. Os projetos iniciados seriam descontinuados ou rebatizados, ganhando novas embalagens e logomarcas muito bem boladas pelo marketing da prefeitura e relançados com o status de novos e revolucionários programas elaborados para melhorar a qualidade de vida da população.

Uma das iniciativas em pauta era a reformulação das secretarias do município. Seria preciso extinguir algumas, criar outras, fundir várias e, as que permanecessem, mudariam de nome. Os meses foram se passando, depois 1 ano, 2 anos e nada da tão falada eficiência ou modelo de gestão. Para tentar corrigir o rumo da administração, cabeças voaram nas secretarias, nomes eram trocados todos os meses. Os secretários eram demitidos e outros eram chamados para ocupar seus lugares. A prefeita já se aproximava do seu último ano de gestão quando veio a ideia, sempre oportuna, de algum aspone de plantão, de criar a “Secretaria da Juventude”, que funcionaria como uma ponte entre a prefeita e os jovens natalenses, além de servir como instrumento de marketing, uma vez que a novidade deveria atrair a atenção da imprensa, da população e gerar ótimas chamadas publicitárias para rádio e TV. Uma prefeita que se preocupa com os habitantes de menos idade, na verdade, está pensando no futuro do município.

A questão era: qual o melhor nome para ocupar tal cargo? Quem reuniria os requisitos necessários para ocupar o posto? Que jovem teria coragem, talento, desenvoltura, articulação e popularidade para desempenhar o papel? Tal pessoa deveria também, importantíssimo!, atender a uma conveniência política e econômica.

Foi então que alguém lembrou do filho do empresário Maurício Dutton, um dos maiores financiadores da campanha da Prefeita. A indicação do filho para secretário da juventude acalmaria um pouco os ânimos do homem de negócios que, segundo se comentava, não andava muito satisfeito com o retorno obtido dos investimentos realizados na campanha eleitoral. Para ele, a prefeita e sua equipe não haviam se mostrado agradecidos com sua valiosa ajuda durante o pleito passado. Ou seja, aquela seria uma solução para vários problemas de uma vez. Uma oportunidade de matar dois coelhos com uma caixa d’água só. Que chamassem o filho do Sr. Maurício.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton parecia ser o nome perfeito para o cargo. Não só pela ascendência nobre, mas também por sua militância social e artística local. Após decidido o nome a ocupar a cadeira de secretário, era preciso elaborar as atribuições institucionais da nova pasta. E também um nome que chamasse a atenção das pessoas para a seriedade da empreitada. Afinal, só porque se tratava de uma ação identificada com o público jovem, não precisava chamar-se pura e simplesmente “Secretaria da Juventude”. Um nome mais composto, formado por uma sigla nova, daria o equilíbrio necessário entre o despojamento juvenil da secretaria e o profissionalismo exigido por uma administração que se dá ao respeito. Com isso, o nome da Secretaria da Juventude seria: “Secretaria Especial Futuro Unificado Da Educação Urbana”. A sigla seria SEFUDEU.

No dia seguinte, pela manhã, já estavam lá na sede da prefeitura, para uma reunião com o secretário chefe da casa civil. Definiu-se que o discurso a ser ensaiado e comunicado à imprensa e população era que o secretário Mano Celo seria responsável pela realização de programas voltados para a inserção dos jovens no mercado de trabalho por meio da arte, do esporte e da capacitação laboral. O Mano, que havia resistido até o último momento, em participar daquele encontro, começou a gostar muito daquela história toda de ajudar os outros e dar aos jovens a oportunidade de vencer na vida.

No seu primeiro dia de expediente à frente da SEFUDEU, procurou reunir sua equipe a fim de conhecer seus colegas de trabalho, expor ideias e traçar os planos de atuação. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que, dos 134 servidores lotados na secretaria, nomeados pelo Diário Oficial do Município, apenas 2 trabalhavam efetivamente no prédio: a secretária que atendia aos telefonemas e a copeira que trazia café e água para as visitas. O Mano pegou a lista de funcionários que, supostamente, estariam a sua disposição e logo estranhou vários sobrenomes conhecidos. Eram parentes de vereadores, deputados estaduais e empresários que, assim como o seu pai, ajudaram a prefeita a se eleger.

O Mano não desanimou. Imaginou que, assim como ele, a maioria daqueles nomes havia sido nomeada por politicagem, mas que sentiriam autêntica satisfação em trabalhar pelo bem das pessoas que mais precisam, realizando um grande trabalho em prol da sua cidade. De posse da lista, pediu à secretária que ligasse para todos, convocando para uma reunião de trabalho, na qual seriam divididas as funções de cada um e elaboradas as metas da secretaria. Era preciso deixar claro a todos que o trabalho realizado por eles seria muito importante para o bem da juventude natalense e essencial para a população mais.

Na manhã seguinte, o Mano Celo já estava na sala de reuniões, aguardando os servidores para que pudessem iniciar os trabalhos da Secretaria da Juventude (SEFUDEU). No entanto, ninguém apareceu. Em vez dos funcionários, quem entrou na sala foi a secretária com um documento que ordenava a exoneração do secretário. A chamada que ele deu nos filhos de políticos e empresários para que eles efetivamente trabalhassem, exercendo os empregos concedidos a eles, foi tomada como um insulto, uma afronta, ofensa das mais graves e indesculpáveis. Todos eles reclamaram aos seus padrinhos políticos que transmitiram suas insatisfações à prefeita. O resultado foi a demissão do Secretário Mano Celo, mais uma vítima da permanente reforma do secretariado da prefeitura. Em seu lugar, entraria uma garota que havia ganho notoriedade na cidade como “rainha do Twitter” e cuja trajetória se resumia ao mais autêntico puxa-saquismo virtual nas redes sociais.

O trabalho do Mano Celo como secretário da prefeitura durou exatas 24 horas e, mesmo assim, foi considerado como um dos melhores daquela desastrada gestão.

 

Lançamento de “Uns contos de Natal”

dezembro 7, 2011

3 Fialhos incomodam muito mais.

 

 

 

Olá, eu por aqui?

novembro 27, 2011

Faz tempo que não atualizo o blogue, né? Desculpem por isso. É que esse fim de ano tem sido bem corrido pra mim. Em outubro, realizamos a Ação Potiguar de Incentivo à Leitura e a coisa foi tão sensacional e intensa que, ao final, eu estava exausto e num nível de realização tão grande que precisava de um tempo para respirar e retomar as atividades blogueiras. Mas aí, veio a maratona de fim de ano do Comitê Criativo. Mil campanhas para ir ao ar e um volume imenso de trabalho na agência me mantiveram beeeeem ocupado nesses últimos 40 dias que, aliás, passaram voando.

Por isso, já retorno aqui com mais uma novidade: LANÇO LIVROS NOVOS NO DIA 08 DE DEZEMBRO E QUEM NÃO FOR PRO LANÇAMENTO É MULHER DO PADRE!

Serão os livros “Uns contos de Natal” e “Mano Celo de Bolso” (com histórias inéditas). Ambos serão vendidos juntos por apenas R$ 30. Super em conta, hein? 2 LIVROS POR 30 PILAS. Feitos especialmente para serem presenteados nas festinhas de fim de ano e nos amigos secretos mil.

As capas dos danados são essas aí embaixo:

 

A reunião de amigos será no Solar Bela Vista e todos os livros dos Jovens Escribas estarão em promoção especial. Todos por R$ 20. E ainda haverá descontos ainda maiores para quem comprar vários.

A partir desta segunda-feira, voltarei aqui constantemente para falar do lançamento dos livros.

***

Também recomeça essa semana a publicação das crônicas do Novo Jornal. Nesta segunda, publico a coluna de número 34, “#GasolinaMaisBarataJá #Será?”

Depois, de terça até sexta tem mais. E será assim até o fim deste ano. De segunda a sexta haverá uma nova crônica publicada no Novo Jornal para a leitura de vocês, seus lindos!

***

Aliás, preciso muito agradecer todos vocês, pois enquanto estive ausente, o Blogue alcançou a marca de 100.000 acessos. Muito bom! Mas isso merece uma postagem de agradecimento exclusiva. Ou seja, voltarei ao assunto.

FUI!

FUIALHO!

 

Coluna da Digi # 64 – Mano Celo Prefeito

setembro 17, 2010

Em 17 de junho de 2009, eu havia lançado o livro “Mano Celo – O rapper natalense” havia menos de 1 mês. Por isso, resolvi publicar parte do conteúdo na coluna da Digi. Dessa forma, poderia promover o livro, despertando a curiosidade dos leitores da Digi. Acho que deu certo. O livro praticamente esgotou. 🙂 No texto, eu brinco com a história dos filhos de políticos concorrerem a cargos públicos para sucederem seus pais.

Divirtam-se!

***

Mano Celo Prefeito

O pleito daquele ano foi muito bom para alguns amigos pessoais do Sr. Maurício Dutton. Políticos experientes e tarimbados, velhos caciques, como diz o povo, ou representantes das antigas oligarquias, para os analistas, conseguiram eleger seus filhos deputados. Meninos de ouro, educados no sudeste, empresários de sucesso precoce, incompetentes, é bem verdade, mas paradoxalmente de sucesso. Por mais que seus conhecimentos de contabilidade não chegassem à tabuada de 7 e a noção de gestão não sirva nem pra administrar as mesadas recebidas dos painhos (gordas, polpudas e estribadas, diga-se de passagem, ao contrário dos desnutridos, pobres e famintos que os elegeram), as empresas que eles herdaram ou ganharam de presente, prosperavam exponencialmente conforme seus nobres genitores se mantinham na crista da onda, ou seja, no poder.

Logo, cogitou-se então, no embalo do sucesso dos meninos, um novo prefeito para Natal, alguém de pouca idade, que passasse para os eleitores a imagem da renovação, o viço da juventude e a disposição para o trabalho que ele cosmética-publicitaria-marqueteira-espertamente pareceria ter. Os garotos prodígios recém-eleitos deputados não se animaram muito com a idéia. Deixar de ficar em Brasília, propondo um projetinho aqui, outro acolá, participando de uma votaçãozinha de vez em quando, negociando uma ou outra benesse, vantagem, favorecimento, lendo uns discursozinhos redigidos por algum assessor letrado e, nas horas vagas (que seriam muitas), poderiam torrar a verba de gabinete em festas nababescas, cheias de mulheres, bofes, banquetes e o que mais se pudesse consumir, ingerir, beber ou cheirar, enfim, não parecia lá uma grande idéia ter que voltar a Natal pra trabalhar.

Então a solução seria radicalizar de vez. Propor um nome realmente novo no cenário político. Alguém que embarcasse na onda da renovação rumo à vitória nas próximas eleições municipais. Um candidato que respondesse aos anseios da população por mudanças.

Porém, a radicalização não poderia fugir ao controle dos líderes políticos. Seria uma passagem de bastão supervisionada, promovida, financiada, endossada e patrocinada pelos velhos nomes do tabuleiro do poder local. Em resumo, o novo nome não passaria disso: um nome. Novo, mas só um nome. O real comando da cidade ficaria a cargo dos velhos protagonistas, atores de enredos arcaicos e sem finais felizes, a não ser para eles.

Nesse ambiente favorável de efervescência eleitoral, logo surgiu o nome da família Dutton. O Sr. Maurício, empresário bem sucedido nos ramos de exportação e importação, educação e construção civil, figurinha fácil das colunas sociais, com bom trânsito nos diversos setores da sociedade, cunhado de um ilustre investidor do setor hoteleiro, irmão de um deputado estadual bem-avaliado, que quase nunca se envolvia em escândalos. E, como que por encomenda, o Sr. Maurício tinha um primogênito em idade perfeita para assumir o papel que seria conveniente a todos. Um paladino da mudança, baluarte da renovação, agente da transformação, herói dos novos tempos, príncipe de uma nova era: Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Gadelha Dutton, o Mano Celo, irmão dos desvalidos, irmão dos humilhados, irmão dos oprimidos e irmão da Marcinha, aquela puta!

***

–          Marcelo, eu já disse mais de mil vezes que esse negócio de rap não tem futuro, rapaz!

–          Isso é arte, pai. E justiça social, tá ligado? É futuro sim. Futuro e opção pra muita gente carente.

–          Ah, quer dizer que você está engajado em projeto de assistência a comunidades carentes? Isso é bom, Marcelo. Pode render muitos votos e…

–          Votos?! Que é que há, Sr. Maurício? Que história de votos é essa?

–          A oposição quer que você seja o candidato a Prefeito de Natal.

–          Eu? Político? Sai fora, mano!

O pai tentou explicar que a cidade precisava de um novo nome para comandar seus destinos. Alguém jovem e cheio de energia. Um candidato cujos ideais pudessem trazer valores positivos para a gestão municipal e que significasse um sopro de novidade e dignidade para o povo. Sr. Maurício disse estar convencido de que esse nome era o de Marcelo. Desconfiado, o Mano Celo perguntou quem mais achava isso. E os nomes de políticos tradicionais, amigos de seu pai, não agradaram nada. Ficou claro para ele que não é nem um pouco bobo, que uma vez vitorioso, ele passaria a ser apenas um testa de ferro de grupos tradicionais.

Em todo caso, ficou de pensar e foi dormir.

***

–          Acorda. Acorda Dr. Marcelo.

–          O que houve? Mano Fuinha?! O que você tá fazendo todo alinhado? E que lugar é esse?

–          Eu sou seu chefe de gabinete. Não lembra? O senhor é o Prefeito da cidade.

–          Prefeito?

–          É. Prefeito. Acho que o senhor adormeceu na sua mesa e acordou meio desorientado. Tem um grupo de vereadores aí fora. Eles têm hora marcada com o senhor. É sobre um projeto imobiliário.

Entram os vereadores. Eles vêm tratar de um projeto que será votado no dia seguinte na câmara a respeito de uma área de preservação ambiental, na região conhecida por “Lagoazinha”, que será liberada para construção de edifícios residenciais. Já estava tudo certo para a aprovação. Até os vereadores “verdes”, antes radicalmente contrários à iniciativa, de repente mudaram de posição após reuniões com os donos das construtoras em hotéis de luxo no litoral, que duraram fins de semana inteiros. Para o Mano Prefeito, até que aquilo não pareceu tão incoerente. Eles continuavam amando o verde, mas o verde das notas de Real que receberam pra apoiar o projeto. Os vereadores falaram da necessidade de o Prefeito sancionar a lei, assim que aprovada, pois dessa forma seria “melhor pra todo mundo”. Quando o Mano ia contra-argumentar e enxotar de lá os vereadores desonestos, sua voz não saía e ele não conseguia. O principal representante dos vereadores entendeu o silêncio do prefeito como uma concordância. Piscou um olho, apertou sua mão e saiu.

Mal eles saíram e Mano Fuinha anunciou:

–          Dr. Marcelo. Os donos das empresas de ônibus que operam na cidade estão à espera.

Os donos das empresas queriam uma autorização para aumentar os preços das passagens e precisavam da autorização da Prefeitura para tal. A margem de lucro já não era a mesma de antes um aumento naquele momento poderia trazer um resto de ano muito mais gordo para todos eles, “inclusive o senhor, prefeito”, fez questão de ressaltar um deles e após essa afirmação caíram todos na risada. O Mano Celo já se preparava para declamar rimando todos os desaforos conhecidos e desconhecidos, quando percebeu que não conseguia emitir nenhum som. Os empresários saíram da reunião bastante agradecidos e disseram que iriam reajustar as passagens imediatamente.

–          Dr. Marcelo – entrou novamente na sala o Mano Fuinha, ou melhor,  Sr. Abelardo, chefe de gabinete – o vice-prefeito está aí.

E entrou o vice-prefeito, um conhecido e veterano ex-deputado federal. Ele vinha acompanhado do secretário de finanças para falar das contas irregulares da Prefeitura. O secretário conseguiu uma forma de camuflar os gastos excessivos e conseguir notas frias de shows supostamente realizados no carnaval anterior. O dinheiro teria ido para promover o lazer e a folia da população. Ninguém jamais descobriria nada. Um trabalho de gênio. Mas para que eles fizessem isso, precisavam do aval do prefeito. O que ele tinha a dizer? Nada. O prefeito não disse nada. “Ótimo! Pode mandar bala, Aristides.”, disparou o vice-prefeito para o secretário que saiu como um raio para pôr em prática o plano desonesto.

O vice olhou para o Mano Celo com sincera admiração. Afirmou que chegou mesmo a desconfiar de sua capacidade de administrar “corretamente” uma cidade como Natal e que, agora enxergava nele um brilhante futuro como político, uma verdadeira liderança, um homem público por excelência. E arrematou: “Parabéns, Prefeito!” ouviu-se novamente a voz de Fuinha: “Prefeito!”

E a voz do seu pai: “Prefeito!” E a da sua mãe “Prefeito!” E a da sua irmã, que agora não precisava sair dando para os políticos jovens da cidade, pois o irmão dela era um dos mais importantes. Ela agora escolhia modelos a quem dar a boceta: “Prefeito!” E novamente seu pai: “Prefeito!” E repetidas vezes: “Prefeito! Prefeito! Prefeito!”

Quando despertou do susto estava todo suado em sua cama. Ouvia ainda os gritos do pai lá embaixo. “Fulaninho vai ser o prefeito! Não! Ele prefeito não!” Um dos deputados-mirins havia aceitado o desafio e disputaria o cargo de prefeito de Natal. Com isso acabavam-se as esperanças do Sr. Maurício. Mano Celo chegara mesmo a pensar em ser um bom administrador. Fazer um bom trabalho junto às comunidades carentes, prover educação, saúde, cultura e melhores oportunidades para quem precisa. Pura ilusão! Nada como um sonho pra fazer a gente cair na real. 

 

Mano Celo e a marcha da maconha.

agosto 4, 2010

O fuzuê começou no Twitter. Parecia ser apenas viagem da rapaziada com uma ponta de subversão, mas o assunto foi ganhando força devagar, fazendo a cabeça da juventude e se espalhando feito fumaça no ar. Natal seria sede da reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e os apreciadores da cannabis sativa articularam uma movimentação pacífica pela descriminalização da erva que faz os mais carolas tremer nas bases. O evento, uma passeata dentro do campus da UFRN, seria a primeira “marcha da maconha” realizada no Rio Grande do Norte, na esteira do que já vinha ocorrendo em várias cidades brasileiras. Uma manifestação democrática de reivindicação por parte de uma parcela da população que almeja um ajuste nas leis brasileiras, uma evolução da sociedade em direção à tolerância de opiniões dissonantes e à aceitação do diferente.

Episódio promissor para contar com a participação da maior expressão do Rap de Tirol, Petrópolis e região. Mano Celo, o rapper mais contestado e contestador do Plano Palumbo ficou eufórico. Ele, que é o terror das patricinhas, odiado pela juventude carnatalesca, barrado na Academia Cosmética, perseguido pela nata da high-society, queria tomar parte do acontecimento, plantando sementes de sabedoria nas mentes mais fechadas e reacionárias. Logo ele, que não fuma nem traga (“para não atrapalhar o permanente estado de consciência social”), que não bebe álcool (“pra não confundir as ideias”) e que não toma nem remédio sem receita, iria participar do movimento como um autêntico militante da causa “natural”?

Claro que sim. Apesar de não gostar do termo “marcha”, militar demais pro seu gosto, colocou-se a disposição da luta alheia. Pois, em que pese sua caretice assumida e a pouquíssima intimidade com psicotrópicos de qualquer natureza, o jovem artista é um incorrigível batalhador em defesa das minorias, sempre dando voz aos protestos que exijam mudanças e avanços civilizatórios em benefício de grupos sociais discriminados. E como o Mano sempre sustentou, era preciso uma reação enérgica contra o preconceito, ainda que os alvos estejam um pouco chapados pra reagir com essa energia toda.

No entanto, era preciso planejar a melhor maneira de contribuir com a causa verde coordenada pelos jovens universitários. E nenhuma ajuda seria mais valiosa que a sua arte. Mano Celo iria compor algumas rimas e entoá-las no microfone do carro de som que acompanharia a procissão dos universitários malhados. Ligou pro Mano Fuinha pra saber se ele poderia acompanhá-lo na marcha pra fazer a capela. “Marchar pela maconha, mano? Numa sexta-feira às 4 da tarde? Pô, eu vou trabalhando nessa hora.”, respondeu o amigo, explicando que era sujeira faltar ao trampo, alegando uma desculpa qualquer, para ir a um evento coberto pela imprensa. Era muita bandeira.

Mas o primogênito da família Dutton não iria cair nessa morgação. Ele iria de todo jeito. Seria mais uma voz a se levantar ante a repressão conservadora que recai sobre essa gente lombrada de olhos vermelhos e pontas dos dedos amarelos. Prepararia rimas que alertassem para suas propriedades medicinais e recreativas, que denunciassem as elites dominantes movidas por interesses escusos e serviçais do capital financeiro internacional.

A certeza de que causaria um grande e positivo impacto sobre as centenas de participantes da marcha, convencendo também as muitas pessoas que estivessem nas proximidades do percurso a aderirem à causa maconheira, graças aos argumentos racionais contidos nas estrofes bem construídas, deixava o Mano Celo exultante. Por isso, ele produziu diversas rimas com muito esmero e dedicação. Não restava dúvida: sua participação seria fundamental, imprescindível, prioritária.

Ensaiou durante vários dias. Cuidou da métrica, reparou na sonoridade das frases e escolheu meticulosamente cada palavra com atenção para significantes e significados, profundidade e impacto. Ao concluir a música, estava convicto de ter criado uma obra prima. Aquele poderia ser a representação do seu trabalho e a sua performance diante do público universitário tinha tudo para ser épica, uma consagração artística como Natal jamais haveria testemunhado.

Na data marcada, antes de ir ao evento, decidiu sair mais cedo e passar na casa de uns amigos simpatizantes da causa, na verdade, entusiastas e adeptos de toda a filosofia hemp que cultuavam com fervor religiosa. Inclusive acendendo muitas velas em virtude de tal devoção. Quando chegou ao apartamento da turma, eles estavam dispostos em círculo no chão da sala, compenetrados numa típica sessão de consumo da planta de 5 folhas. “Aê, Mano Celo. Você devia fumar unzinho com a gente pra entrar no clima, tá ligado? Só não vai segurar demais a parada. Nada de superbonder no dedo. Essa parada que a gente arrumou é massa da boa.” Julgando procedentes os argumentos do amigo, decidiu dar uma ou duas tragadas pra relaxar um pouco. Até porque estava nervoso diante da expectativa de se apresentar para um público tão qualificado, tão politizado. Acabou se empolgando um pouco e fumou um baseado inteiro daquela erva que, segundo seus amigos explicaram, se chamava “Jota Quest” (pois era quase um Skank).

Às 4 da tarde, centenas de pessoas atenderam à convocação. Alguns seguravam cartazes com dizeres como “O pior cego é o que não quer verde.” ou “Tá nervoso? Vá fumar ”. Algumas palavras de ordem também foram entusiasticamente gritadas pelos participantes: “Do solto ou do prensado. Seja um cidadão chapado”, “1, 2, 3, 4, 5 mil. Queremos o D2 presidente do Brasil” ou ainda “Libera os camarão. No Estado é tradição”.

No carro de som que guiava a marcha, o Mano Celo, meio cambaleante, pediu o microfone. O líder do movimento, um rapaz barbudo com camisa do Che Guevara e um boné do New York Yankees, olhou desconfiado para o rapper, mas acabou cedendo o instrumento, tão íntimo do artista, para que ele manifestasse seu apoio. Afinal, outras celebridades locais, como os integrantes da banda Dusolto e o segundo guitarrista dos Bugs já haviam falado para a multidão.

Aproveitando a oportunidade e tentando organizar os pensamentos, o Mano Celo começou:

É uma erva natural / Rica por sua história / Só não conto pra geral / Porque me falha a memória

 Os governos são caretas / E também a sociedade / Para resolver a treta / Precisamos da verdade

 Erva não é violência / Pois acalma de montão / É preciso consciência / E um espaço no colchão

 Fume que não faz mal / Depois a fome é o que fica / Porque o efeito colateral / É a danada da larica

A verdade é que toda a letra declamada pelo Mano Celo foi improvisada na hora, pois as estrofes elaboradas com antecedência, que esbanjavam criatividade, se perderam em meio às baforadas de algumas horas antes. A reação do público foi o clássico e constrangedor silêncio a que já estava habituado o artista, esse gênio incompreendido. Talvez tão incompreendido quanto os usuários de cannabis Sativa. Aliás, por falar nos usuários, os líderes do movimento não querem ver o Mano Celo de jeito nenhum, nem enrolado em papel de seda. É que depois do evento, ele acabou meio queimado.

Coluna da Digi # 45 – A Patricinha Cultural – Parte 2

julho 1, 2010

Na semana seguinte à coluna da “Patricinha Cultural”, publiquei uma crônica sobre o sadismo midiático e insaciável da imprensa em torno do caso Nardoni, dançando sobre o cadáver da menina Isabela. Julgo inadequado republicá-la agora, pois se trata de um assunto datado. Mas aí, no dia 10.11.2008, postei na Digi a coluna “A Patricinha Cultural – Parte 2”, abordando mais alguns aspectos inerentes a essa personagem tão popular de nossa cidade.

Jovens, com vocês, mais uma vez, a Patricinha Cultural!

***

A Patricinha Cultural – Parte 2

Já alertamos aqui a população masculina da cidade a respeito dessa ameaça de saias longas e estampadas que é a nefasta figura da patricinha cultural. É necessário, porém, fazer um novo alerta aos desatentos e indefesos homens natalenses, vulneráveis às ações venais dessas dissimuladas e cínicas mulheres, sempre de olho em vítimas potenciais. Como um vírus em constante mutação, as paty-cults já passaram a apresentar diversas variáveis e escudar-se delas se torna mais difícil a cada dia.

Uma outra categoria que tem despontado ultimamente é a da patricinha pseudo-interessante ou a “eclética”. Ela banca a alternativa para as amigas patricinhas, pois faz parte de sua persona cuidadosamente construída parecer uma típica “paty loquita”. É a forma que ela encontra de se destacar em meio a um mundo pasteurizado, medíocre e todo igualzinho, cheio de futilidades, consumismo e, aparentemente, culto. Para as amigas e amebas que freqüentam o seu círculo social, habituadas aos mesmos lugares da moda que ela, tem uma frase feita na ponta da língua: “Mulher, seja eclética!” É assim que ela justifica sua “estranha” mania em ouvir um som “muito louco”, como O Rappa ou Capital Inicial. Vez por outra, chegam com uma novidade: “Mulher, acabo de descobrir uma super novidade. É o Mundo Livre. É tudo na vida ponto com ponto bê erre!”

É nessa atuação meio canastrona que ela pode acabar enganando-o, meu amigo. Se você estiver distraído, acaba realmente acreditando que a moça parece ser paty, mas até que é interessante. Não se engane. Esse fingimento é a isca, e você, a presa.

O que você precisa saber é que ela apenas faz gênero. O que ela gosta mesmo é de freqüentar camarotes. Adoram a Ivete, o Biquíni, o Chiclete e amam camisetas VIPs e pulseirinhas de acesso a camarotes. Aliás, elas amam camarotes. Até em festivais de rock, elas vão a camarotes. Camisetas VIP e pulseirinhas exclusivas dão a elas uma sensação de poder e realização que nunca alcançarão por méritos próprios, pelo talento ou pela proeminência intelectual. Os camarotes exclusivos são o mais longe que elas podem chegar. São os limites de seu mundinho. Currais cheios de rostinhos conhecidos (sempre os mesmos), sorrisos falsos e roupas de marca. Freqüentar currais, aliás, é bem apropriado para aquela classe ruminante de status, guiada pela moda, feito gado. São tangidas rumo às “últimas tendências”. É o rebanho da mediocridade.

Agora andam numa de eletrônica. É rave em Parnamirim, rave em Macaíba, rave em Pipa. É bate-estaca até não poder mais. De vez em quando, arriscam uma idazinha à Nalva e se acham muito loucas por freqüentarem o Sargent Peppers, UHUUUU!!!

Elas não têm escrúpulos em dizer que gostam de tudo, de qualquer ritmo, do pop mais safado ao axé mais rasteiro, do eletrônico mais cosmopolita ao sertanejo mais interiorano. Mix é a palavra da vez entre elas. “Viva a diferença!”, repetem sem parar. Nesse momento, você até concorda e dá graças a Deus por ser diferente delas. Seja eclético, mas não medíocre.

Não ligue se você passar por mal-humorado. Você não é obrigado a se divertir numa festa que toca Tati-quebra-barraco e Asa de águia. Tudo bem se você acha o carnatal uma bosta e tem vontade de vomitar cada vez que ouve pagode romântico. Não há nada de errado com você se não gostar dessas bandas de forró que deixam um único empresário babaca milionário às custas do trabalho escravo dos músicos e operários. Está tudo bem. Eu conheço várias pessoas que são como você.

Ser eclético para as patricinhas culturais é justificar a falta de personalidade. Quem diz que gosta de tudo, na verdade, não gosta de nada. E a maior manifestação do nada em toda sua falta de elementos pode ser observada no oco de suas cabecinhas.

Coluna da Digi # 30 – O Candidato que diz a verdade.

março 22, 2010

A coluna que republico hoje foi postada originalmente no dia 22 de abril de 2008. É  de número 30 na Digi. Eu pulei a 29 porque tratava do filme “Cheiro do ralo”, baseado na obra do Lourenço Mutarelli e achei que estivesse por demais datada. Acredito, inclusive que a atual se encaixe mais ao espírito de sátira que paira sobre meus espaços virtuais desde a semana passada com mais um caso de texto viral que produzi com “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!” Boa leitura e ótimas risadas.

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O Candidato que diz a Verdade.

Leitores da Digi e povo potiguar, eu gostaria de lançar oficialmente minha candidatura para Deputado Federal. Meu objetivo como parlamentar, ou minha plataforma de campanha, como dizem os políticos, será pegar o máximo de atrizes globais gatíssimas e celebridades gostosas que eu puder. E para conseguir tal feito, conto com a sua ajuda e, claro, o seu voto. Não pretendo legislar, apresentar projetos de lei, correr atrás de verbas que não sejam para mim mesmo nem participar de nenhuma CPI. Na verdade, vou passar mais tempo no Rio de Janeiro, gastando o dinheiro de vocês do que em Brasília trabalhando.
Serei visto toda semana com uma beldade diferente: na praia com a Piovanni, no restaurante com a Aline Morais, na quadra da escola de samba com a Juliana Paes, no rodízio de massas com a Preta Gil. Quando chegar a época do Carnatal, eu vou pegar todas as modelos de fora que aportem por aqui, mandar buscá-las no hotel com direito a escolta de batedores da PM e trazê-las direto para o meu camarote.

Ora, pelo menos seria uma campanha sincera e um mandato transparente. Meus eleitores vão poder acompanhar cada passo que eu der. Não pela Hora do Brasil ou Diário Oficial, mas pela Caras, pelos sites de fofoca, pela Contigo. Eu não vou ficar dando bobeira no plenário. Vou estar sempre numa balada, numa festa VIP, num camarote de cervejaria.
Também exibirei toda a minha paquidérmica burrice, descomunal futilidade e abjeta ignorância em entrevistas constrangedoras para veículos sérios, que o bom senso me recomendaria recusar, mas minha vaidade desmedida e deslumbre de novo-político não permitirá.

Não vou dar a mínima pelota pra secas, enchentes, fome ou miséria! Do povo, eu só quero duas coisas: voto e distância. É que a minha alma mesquinha, individualista, dominada por interesses vis e torpes, faz com que eu seja incapaz de fazer qualquer coisa que seja pelo bem de outras pessoas. A cada dia que passa, me preocupo menos com os outros, sobretudo nos que precisam de assistência. Não gosto de pessoas humildes, mas adoro mulheres bonitas, gostosas e famosas. Adoraria ser eleito Deputado Federal.

A verdade é que eu sou um nome mais que adequado para ocupar um cargo público de tal magnitude, preencho todos os requisitos necessários para ser um bom parlamentar do novo milênio e, chego a dizer, sou um protótipo perfeito de um político potiguar. Avaliem por si mesmos: sou egoísta, insensível, ganancioso e mulherengo. Quem, em sã consciência, não votaria em mim?

Encerro este texto, fazendo o último apelo. Na hora de escolher seu candidato a Deputado, vote naquele que não vai fazer porra nenhuma por você. Sendo mais específico, vote em mim. Pelo menos, você terá a certeza de que eu estou dizendo a verdade.

Coluna da Digi # 23 – Eu vi o amor.

janeiro 15, 2010

Essa foi uma das minhas crônicas que mais agradou a muitas pessoas. Fiquei feliz, pois trata de um tema mais sensível e intimista que acertou em cheio a uma categoria de leitores mais qualificada que muitos dos histéricos que acompanham as coluna da Digi ávidos por uma nova polêmica para fazer o circo pegar fogo. Gostei também porque me senti bem em ter escrito algo que indica uma certa versatilidade criativa. Esta crônica foi publicada no dia 11 de fevereiro de 2008, dias depois de eu ter presenciado de verdade a cena descrita. Ela também acabou entrando no livro “Mano Celo – O Rapper Natalense”.

Espero que gostem!

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Eu vi o amor.

Eu vi o amor. Aliás, tenho visto o amor todas as manhãs. Não reconheci de início, é verdade. já faz meses que cruzo com ele, mas só um dia desses me dei conta. É que o amor é assim mesmo: dissimulado. Anda por aí sempre fingindo não ser, disfarçando-se, misturando-se à multidão. Aí, quando você se dá conta, eles está lá, bem diante de seus olhos.

Encontrei o amor por acaso e no lugar mais inusitado possível. Estava pedalando na Rota do Sol. Sim, sim, tenho essa mania estranha de acordar de madrugada e sair por aí avançando uma perna após a outra em movimentos circulares, até considerar já ter vertido suficiente sudorese a ponto de me considerar um atleta amador médio de desempenho minimamente aceitável. Pedalando e suando e seguindo a canção vou me deparando com outros ciclistas e corredores da alvorada. E foi em meio a estes tipos madrugadores e umedecidos por glândulas sudoríparas em plena atividade que encontrei o amor. Por essa eu não esperava. Mas o amor é assim mesmo: surpreendente. Se você espera, ele não vem.

O amor que vi se apresentou na forma de um casal por volta dos 40. Ele, sempre correndo. Ela, sempre ao seu lado, pedalando numa bicicleta com cestinha. Todos os dias, eles cumprem a mesma rotina esportiva. Ele corre num bom ritmo e a regularidade com que o faz deve render uma dose extra de saúde e disposição para encarar o dia-a-dia. Talvez o faça por recomendação médica, ou por amor ao esporte, dependência de endorfina, ou por qualquer outra razão. Mas, apesar de seu trote ininterrupto, mostra-se sempre preocupado com sua consorte, para que ela esteja sempre protegida de veículos e desviando de outros ciclistas. Ela pedala devagar, muito lentamente mesmo. Para poder acompanhar uma pessoa a pé, o ciclista precisa moderar o ritmo a um nível quase inercial. Em suma, ela não se exercita de fato. Seu passeio diário tem o mesmo efeito sobre seu corpo que teria ficar dormindo por mais uma hora. Fica claro que o que a faz levantar mais cedo todas as manhãs é ele.

Porém, não foi essa demonstração diária de afeto mútuo que me fez ver o amor naquele casal. Um dia, quando eu pedalava, estava nublado e já nos últimos quilômetros o céu resolveu que não tinha nada melhor para fazer naquele momento que não fosse cair em nossas cabeças e assim o fez. Em meio ao caos, encharcado por um dilúvio que faria Noé botar as barbas de molho e tremer na arca, apressei o ritmo para chegar logo em casa, quando vi, do outro lado da pista, o casal, caminhando lentamente de mãos dadas. Ele conduzia a bicicleta com uma das mãos, enquanto segurava a dela com a outra. Ela, já no chão, o acompanhava sorridente rumo ao ponto final de seu trajeto. O amor é assim: adora andar de mãos dadas na chuva.

Naquele momento compreendi o que minha percepção capenga havia negligenciado por todos os meses passados. Ao ver os dois caminhando calmamente no aguaceiro que caía, de mãos dadas, sem se abalar, transmitindo uma sensação boa de calor no coração, contrastando com a frieza da chuva.

Amanhã cedo eles vão estar lá de novo. Ele, desprendendo-se de alguns ml de suor em troca de um suprimento extra de saúde e vigor físico, dispensando a ela toda a atenção. Ela, sempre ali, apoiando com sua companhia, numa pedalada inócua. Porque o amor é assim: rotineiro, sem nunca ser chato. Faça chuva ou faça sol.

Coluna da Digi # 20 – O Maconheiro Militante

janeiro 10, 2010

Mais uma crônica que teve enorme êxito nos acessos e acabou entrando no livro do “Mano Celo”. “O Maconheiro Militante” foi publicada no dia 14 de janeiro de 2008 e até hoje recebe eventuais comentários de leitores´que tomam conhecimento de sua existência.

***

O Maconheiro Militante

Ele chega pra você e diz: “Você sabia que existem medicamentos cicatrizantes feitos de cânhamo?” Inocentemente, você responde que não e mostra-se levemente curioso a respeito do assunto. Pronto. Já basta. Você acaba de cair nas garras de um maconheiro militante e ele passará as próximas horas tentando convencê-lo que o THC é a substância redentora da humanidade, que fumar maconha é a coisa mais legal que alguém pode fazer sobre a face da Terra e que os rumos do planeta estão intimamente ligados à folhinha de cinco pontas.

Se você der corda, ele se sairá com um discurso tão panfletário quanto possível, dizendo mais ou menos o seguinte: “A canabis apresenta propriedades anestésicas e regenerativas bastante atuantes. Os medicamentos cicatrizantes de cânhamo foram desenvolvidos no Egito antigo onde, aliás, a erva era utilizada para produzir de tudo, de papiros a bandagens para múmias. Os cremes e bálsamos feitos da erva foram muito usados por Antônio Conselheiro durante a Guerra de Canudos para tratar dos ferimentos de seus homens. Inclusive, há registros de que o próprio conselheiro era usuário de marijuana. Isso talvez explique o grande senso de justiça do homem. Você sabia?”

Para essas pessoas a erva é a razão principal de sua existência. Tudo o que eles fazem é baseado (com ironia, faz favor.) nesta singela plantinha. Para eles, maconha é religião, é o clube de coração, o partido político, a banda favorita, a tábua de salvação. Só a fumaça salva! Não são da Herbalife, mas se dedicam à Ervalife com o mesmo fervor messiânico. Gostam de reggae, de surfe e do verde que te quero fumo.

Os maconheiros militantes são verdadeiros advogados da marofa. Nunca perdem uma oportunidade de apresentar argumentos comprobatórios definitivos que ilustram a superioridade do THC sobre todos os elementos, constantes ou não na tabela periódica. Sua retórica encontra sustentação em três alicerces básicos:

1)      O Bombril Natural;

2)      Importância História;

3)      As legítimas que se fumam.

A teoria do Bombril Natural defende que a maconha tem mil e uma utilidades, sendo a erva mais versátil que jogador coringa, daqueles que batem escanteio e correm pra cabecear. Segundo os partidários, a versatilidade canábica é ilimitada, servindo para produzir roupas, calçados, papel, alimentos, tinturas, medicamentos, biocombustível, brinquedos, material de construção, condutores energéticos, maçanetas de porta, guarda-chuvas, baterias para celular, absorventes íntimos, escafandros e lancheiras do Bob Esponja. O aproveitamento da planta é total. Das sementes se faz tempero, das folhas se produz um delicioso chá para os nervos, do caule se confecciona móveis artesanais muito maneiros, bicho. Sacou? Só! Pode crer!

Não é raro, um militante chegar para afirmar toda a sorte de produtos derivados da erva. São verdadeiros catálogos mentais. E olhe que a memória deles já não é lá essas coisas. “Você sabia que existe sorvete de maconha? Você sabia que existe gravata feita de fibras de canabis? Você sabia que existe papel higiênico de cânhamo? Você sabia que nos países desenvolvidos (para dar um maior peso a sua argumentação e provar que só mesmo num país de terceiro mundo como este para que a droga seja proibida) são receitados baseados no tratamento do glaucoma/câncer/aids/gripe/insônia/falta de apetite?” Procure um maconheiro militante próximo de sua casa e ouça hoje mesmo a sua pergunta clichê “você sabia”.

Outro argumento que ganha força entre os militantes verdes é o da importância histórica da erva. Os fiéis do cânhamo estão convictos da inquestionável participação da maconha em todos os grandes momentos protagonizados pelos homens. Eles afirmam categoricamente que na Grécia, não eram galhos de arruda que ornamentavam as cabeças dos atletas vencedores dos jogos olímpicos. Eram, na verdade, galhos de canabis. A guerra de Secessão estadosunidense não teve nada a ver com algodão. Era tudo por causa das plantações de maconha dos estados do sul.

Eles defendem ainda que as cruzadas medievais também não eram bem como se diz nos nossos livros de história. Os cavaleiros partiram sim em busca do Santo Graal, mas o que todos ignoram é que tal termo era sinônimo para “Camarão Sagrado” numa clara referência à erva bendita. Amém! E aquela fumacinha que sai do Vaticano sempre que a igreja escolhe um novo Papa? Como é que vocês acham que aqueles cardeais todos mantêm a paz de espírito? A Segunda Guerra também não podia ficar de fora. Dizem que ela só terminou depois que alguns pracinhas brasileiros originais de Cabrobró, Pernambuco, levaram certos cigarros misteriosos que impregnaram a Europa com uma repentina cortina de fumaça e uma irrefreável sensação de bem-estar, além de um sono danado. Daí, todos acharam melhor promover a paz de uma vez por todas, pois guerrear dava um trabalho danado.

Ou seja, para os maconheiros militantes, o papel da erva na história humana é muito maior do que se pensa e sua relevância deveria ser mais destacada nos livros escolares. Principalmente se a página for impressa naquele papel fininho, quase um guardanapo de lanchonete que tem muito mais a ver com o contexto. O resto é estória.

O terceiro grande sustentáculo dos discursos politizados proclamados pelos maconheiros militantes é o das “legítimas que se fumam”. É que eles acham que a maconha é como as sandálias Havaianas: todo mundo usa! Basta algum nome ilustre surgir na pauta de alguma conversa para eles afirmarem cheios de orgulho que o referido era um “zé fumaça” de marca maior. Não escapa ninguém. De Shakespearre a Machado de Assis, passando por todos os líderes políticos mundiais, estadistas históricos, figuras religiosas, cosmonautas russos, grandes atores, atrizes, músicos e que tais.

“Bill Clinton? Fumou e aposto que tragou! Marylin Monroe? Comia com farinha! Gandhi? De onde você acha que ele tirou essa história de resistência pacífica? O Salsicha do Scooby Doo? Fala sério! Já fumei um com ele!” Segundo a teoria das “Legítimas que se fumam”, todo mundo que alcançou algum grau de projeção ou que apareceu na mídia de forma positiva é usuário de maconha. É exatamente como o slogan das Havaianas. E a maconha, assim como as sandálias, também não estica nem solta as tiras. Já quanto à questão do cheiro, eles não podem se gabar muito.

Os maconheiros militantes são dedicados, engajados e incansáveis em sua luta por um maior reconhecimento da erva pela sociedade careta e conservadora, dominada por pensamentos retrógrados e arcaicos. “Uma sociedade chapada é possível.”, dizem os ideólogos do movimento, sonhando com um mundo melhor onde todos se amem, se respeitem e não fiquem segurando o chara tempo demais nas rodinhas de baseado. Mas não é a sociedade a maior opositora política dos partidários da canabis. Essa até que tem engolido alguns metros cúbicos de fumaça com menos relutância ultimamente. O problema é a ferrenha oposição do chamado Comando Delta, um inimigo invisível, uma mega-corporação formado por políticos, exército, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Municipal, Polícia dos condomínios, seguranças de shopping, as mães dos usuários, a máfia chinesa e a Igreja Universal que se utiliza de todas as forças disponíveis para impedir o triunfo dos heróis da erva.

Mas nada os impedirá de prosseguir em sua pregação, seus discursos inflamados, sua paixão indomável, sua militância maconheira. Suas idéias se espalharão como fumaça e nenhuma estratégia nefasta da oposição, nenhuma manobra covarde e traiçoeira será capaz de arrefecer o ímpeto dos apaixonados militantes. Ninguém será capaz de cortar esse barato. Caso tentem, serão surpreendidos por uma bem articulada retórica, além de um discurso muitíssimas vezes ensaiado. Essa é a tônica. Esse é o sentimento. E eles vão à luta!

Mas só amanhã, porque hoje vai rolar uma “sessão” do bom lá no comitê do partido.

Coluna da Digi # 1 – Fabão e Maryeva

novembro 11, 2009

Estou me aproximando da coluna número 100 da Diginet. Em razão disso, vou fazer aqui uma retrospectiva de todos (ou quase todos, porque alguns são bem ruinzinhos) os textos publicados. Começo pelo princípio. O primeiro, postado a 20 de agosto de 2007, “Fabão e Maryeva” que revelou à cidade essa celebridade instantânea que é o modelo Fábio Lima. Repercutiu bastante entre os leitores e me agradou tanto que acabou entrando no livro “Mano Celo – O Rapper Natalense”.

***

Fabão e Maryeva

Ele conseguiu! Meninos e meninas, senhoras e senhores, ele conseguiu! Numa cidade como a nossa, tão carente de ídolos, ele é o nome da vez. Astro de todas as colunas sociais potiguares nas últimas semanas. Todos os flashes são para ele. Um conterrâneo nosso, natalense de coração, corpo e alma, é digno de nossa admiração e merece todas as homenagens. Dêem-lhe a chave da cidade, autoridades! Organizem uma sessão solene na Câmara Municipal em sua honra, assim como já fizeram para o Ricardo Chaves, nobre artista da MPB popular brasileira.

O personagem em questão é o Fabão, que ficou com a Maryeva! Sim, sim, ela mesma. A modelo, ex do Guga, a da gotinha , da propaganda da Brahma, da Playboy. Não, não é o Fabão que você está pensando! É o Fábio Lima, estudante de direito, que nem precisou ser rico ou ser eleito deputado para realizar tal façanha. Chegou chegando, na moral, na lábia, só no sapatinho. Nada de “sabe-com-quem-você-está-falando?”. Fabão nos prestou um grande serviço, elevou a nossa auto-estima, provou por A mais B que SIM NÓS PODEMOS! Acabou com nosso complexo de vira-latas, disse a que viemos ao mundo. Agora já podemos sair por aí e dizer nossa origem para colecionar olhares de admiração Brasil afora.

– Mas de Natal? Natal mesmo? Capital do Rio Grande do Norte?

– Exatamente. Nasci e me criei lá.

– Terra do Fabão?

– Isso.

– É verdade que ele…?

– É. Eu mesmo vi!

– OOOOOH!

Pode parecer que eu estou delirando, que sou um ufanista, exaltado, essas coisas, mas não é nada disso! Sou um revolucionário e conclamo todos os meus conterrâneos que saiamos por aí abordando as gatas do Brasil! É possível, senhores! Elas estão a fim! Fabão acaba de nos mostrar! Os homens desse país não estão tratando as mulheres como elas merecem e Natal se tornou um refúgio, um oásis nacional dos bons machos da espécie, testosterona tipo exportação. Você, meu patrício, é uma preciosidade cobiçada pelas gatas dessa Terra da Vera Cruz. Ela já sabe tudo a seu respeito. E vem aqui te buscar.

Por isso, pense bem. Quem povoa seus mais íntimos sonhos? Aline Morais? Gisele Bünchen? Juliana Paes? Você pode! Você chega lá! Ou ela chega cá. Vai inventar um pretexto, é claro. Convidada de bloco X, vai desfilar pra loja Y, mas, você sabe, eu sei, todo mundo já caiu na real. Ela vem aqui é por sua causa, meu garoto!

Sugiro, por ter sido o desbravador, o pioneiro, o primeiro de nós realizar o sonho da modelo própria, que prestemos a Fabão uma homenagem à altura de seu feito. Seria uma mostra de nossa gratidão. Um registro do ponto de mutação, da reviravolta na história proporcionada por ele. Porque, não tenham dúvidas, Natal é outra depois do advento Fabão e Maryeva. Hoje, somos ciosos de nosso pleno potencial e vamos conquistar todos os Estados do país com nossa ilimitada capacidade sedutora. Estamos por cima da carne seca, com a moral mais elevada que taxa de juros, “tâmu que tâmu”, ao infinito e além!

Por isso, sugiro, mudar o nome da Praça Cívica, no centro de Natal, para Praça Fabão e Maryeva. É pouco, mas já seria um gesto bonito, uma lembrança deste marco na trajetória da cidade. Poderia ter uma estátua dos dois e todo dia 12 de junho, na data em homenagem aos namorados, iremos prestar nossa homenagem e expressar nossa gratidão, certamente acompanhados das Alines, Giseles e Julianas que cada um conquistar. Vai juntar mais gente na praça que o 7 de setembro. Má! Muito mais!

Hoje à noite vou ligar pro Fabão. Vou descobrir o que a cidade inteira quer saber. Na bucha, assim que ele atender, antes de dizer alô, antes de dar boa noite, antes de qualquer coisa, vou perguntar na lata: E aí, comeu?

Mano Celo – Imagens – R S T V W

agosto 10, 2009
Regina e Cordélia

Regina e Cordélia

 

Doutora Renatinha no centro das atenções. :-)

Doutora Renatinha no centro das atenções. 🙂

 

Rodrigo Rossiter: ilustre, amigo e sempre presente.

Rodrigo Rossiter: ilustre, amigo e sempre presente.

Paulo Sarkis, o grande ídolo da juventude e Nalva, que faz a cabeça da rapaziada há 15 anos.

Paulo Sarkis, o grande ídolo da juventude e Nalva, que faz a cabeça da rapaziada há 15 anos.

Sérgio (primo) e Zé Augusto (tio e padrinho)

Sérgio (primo) e Zé Augusto (tio e padrinho)

Sérgio, Zé Augusto, Ana Cláudia (prima), Robinson (primo) e José Arruda (meu pai).

Sérgio, Zé Augusto, Ana Cláudia (prima), Robinson (primo) e José Arruda (meu pai).

Sílvia Louise, minha irmã.

Sílvia Louise, minha irmã.

Sílvio, o Haole dos haoles!

Sílvio, o Haole dos haoles!

Sr. Wilson, o pai do Gringo!

Sr. Wilson, o pai do Gringo!

Thaisinha, Sílvio, Élton e Lorena.

Thaisinha, Sílvio, Élton e Lorena.

Thales e Dr. Audi

Thales e Dr. Audi

Thiago Lago

Thiago Lago

Tia Josy e Tio Salim

Tia Josy e Tio Salim

Tia Marlene

Tia Marlene

Tia Ítala e o primo Flávio

Tia Ítala e o primo Flávio

Vivis, essencial em todo o lançamento.

Vivis, essencial em todo o lançamento.

Wesley

Wesley

Will Souto

Will Souto

Mano Celo entre os mais vendidos! Em Lisboa!

agosto 3, 2009

 

Notícias chegam de Lisboa, dando conta de que o “Mano Celo” está entre os destaques da FNAC de Portugal! A foto abaixo prova isso. Gostaria também de dizer aos que afirmam que algum amigo meu levou o livro para a livraria e o pôs na prateleira só pra tirar a foto, que esse é uma hipótese apenas remota.

Em todo caso, o importante é dizer que o meu livro foi fotografado na prateleira de “Destaques” da FNAC de Lisboa, que é tipo uma Siciliano, só que os vendedores são menos simpáticos.

Mano Celo em Lisboa_reduzida

Mano Celo – Imagens – Letra P

agosto 3, 2009
Meu Pai e minhas irmãs Sílvia Louise e Ana Cristina

Meu Pai e minhas irmãs Sílvia Louise e Ana Cristina

 

Patrícia e Cleyton

Patrícia e Cleyton

 

Patrício, Kayonara e Professora Tânia Mendes

Patrício, Kayonara e Professora Tânia Mendes

 

Paulinha, Thiago e Iuri. O Comitê marcando presença.

Paulinha, Thiago e Iuri. O Comitê marcando presença.

 

Primo César, o primeirão na fila.

Primo César, o primeirão na fila.

 

Professoras Célia, Ana Santana e Conceição.

Professoras Célia, Ana Santana e Conceição.