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Coluna da Digi # 90 – Cinema Top 5 2009

janeiro 25, 2011

Todos os anos, desde 2008, eu fazia uma breve lista de melhores do ano. Em 2010, falhei, é verdade. Foi um ano corrido e, confesso, vi poucos filmes. 😦 Porém, 2009 não foi assim. Naquele ano, havia frequentado muitas salas escuras e pude fazer uma boa lista. Republico aqui a coluna da Digi publicada em 28 de dezembro de 2009.

Bom texto pra vocês e ótimos filmes, caso ainda não os tenha visto.

***

Top 5 2009 – Cinema

Este 2009 foi animador em se tratando de bons filmes assistidos. Mesmo com todos os problemas, embargos, crise econômica, queda de arrecadações, pirataria e tudo mais, foi difícil fazer a lista de 5 mais, não pela escassez, mas pela profusão de boas opções a indicar. Sem mais milongas, vamos à lista:

Os eleitos

05 – Na natureza selvagem

Este filme de Sean Penn é um sensível manifesto à vida simples, ao respeito à individualidade, ao idealismo, ao idealismo e à heróica atitude de negar-se a ter mais do que precisa ter. É um libelo contra as pressões sociais que nos impõem valores como o consumismo, a aparência, o sucesso e os posiciona acima das pessoas, da amizade, da natureza e da beleza das pequenas coisas. O filme é também uma bonita homenagem à solidão voluntária, à opção pelo silêncio, pelo sossego, pelo autoconhecimento. A trilha sonora a cargo do Eddie Vedder do Pearl Jam também é primorosa e se integra perfeitamente à história. Destaque para a excelente canção “Society” que traz o trecho “Sociedade, espero que você não se sinta sozinha sem mim”. O filme, que é baseado em uma história real, é de 2007, mas como eu só vi esse ano, acabou entrando na lista.

04 – Se a coisa funciona

Uma vez o Saramago disse numa entrevista que iria escrever o máximo de livros que pudesse dali pra frente, pois sabia que estava perto de morrer e publicar seus livros seria o seu legado. Bem, acredito que Woody Allen chegou à mesma conclusão e entrou nesse ritmo meio Roberto Carlos de um lançamento por calendário. Tem gente que torce o nariz, que acusa a queda de qualidade, que transborda de saudosismo em declarações como “eu preferia os filmes de antigamente” ou “já não é o mesmo”. Bobagem. “Match Point”, “Scoop” e “Vicky Cristina Barcelona” são sim bons filmes. E ainda por cima nos trazem Scarlett Johanson no papel principal. Porém, dessa vez, ele nos brindou com um roteiro de rara competência com diálogos divertidíssimos e uma divertida visão da America contemporânea e todas as suas ideologias falidas, sentimentos reptimidos e hipocrisias extremistas. Se a coisa funciona? Pra mim, funcionou às maravilhas.

03 – UP

A Pixar é um estúdio de animação que elevou suas produções ao mais alto grau de perfeição. Não se pode definir o trabalho da empresa sem utilizar superlativos ou elogios grandiloquentes. Sou fã de primeira hora e colecionador dos DVDs. Acredito que eles são os que melhor sabem combinar os conceitos de arte e entretenimento no mundo. Para 2010, já estou ansioso para ver “Toy Story 3”, ler o livro “A Magia da Pixar” e o documentário que conta a história da empresa. Quanto ao filme, “UP”, é sensacional. Uma ótima história, muitíssimo bem escrita e produzida com o esmero já característico do estúdio. Imperdível!

02 – Bastardos Inglorios

Estava ansioso para ver o novo Tarantino. A história parecia divertidíssima e as primeiras críticas que chegavam me enchiam de boas expectativas. Fosse pelo equilíbrio perfeito entre uma boa história e entretenimento, fosse pelos diálogos tarantinescos, ou ainda pelas atuações inspiradas dos atores, especialmente o austríaco Cristoph Waltz que acumulou prêmios de melhor ator. Vi o filme e não me decepcionei. É o melhor Tarantino. Superou, para mim, os já clássicos “Cães de Aluguel” e “Pulp Ficction”. É muitíssimo melhor que os bonzinhos “Jackie Brown” e “Death Proof” (gostei mais da metade do Robert Rodriguez da “Grindhouse”). E, por fim, não vou nem falar dos “Kill Bill”, pois eu detestei aquilo lá. “Bastardos Inglórios” é, talvez, e como defeiniu o próprio Tarantino, sua obra prima.

Na ocasião em que assisti ao filme, publiquei uma crônica aqui na Digi. Leiam aqui.

01 – The Watchmen

É difícil adaptar um objeto de culto. Por isso, Zack Snyder foi extremamente corajoso ao embarcar na produção de “The Watchmen”, que levaria ao cinema uma obra que figura em 9 de cada 10 listas de melhor história em quadrinhos de todos os tempos. Estava brincando com fogo e continuou caminhando na corda bamba ao peitar os executivos e insistir em fazer um filme o mais fiel possível ao original. Resultado: críticas dos não-iniciados, os ignorantes da história de Alan Moore e bilheterias muito aquém do que poder-se-ia projetar. O diretor conseguiu desagradar a muitos expectadores mundo afora, mas conseguiu algo muito mais importante: o respeito dos fãs e um lugar no céu da posteridade como um homem de colhões que enfrentou dificuldades hercúleas e fez uma entrega decente. O filme “The Watchmen” tem um destino certo e bem traçado. Foi combatido num primeiro momento, não obteve o êxito de arrecadação esperado, mas certamente será visto e admirado por gerações, convertendo-se num “cult”, assim como ocorreu com o Blade Runner do Ridley Scott há quase 30 anos. será justo, pois Alan Moore está à altura do K. Dick. Pela minha adoração à história em papel e pela satisfação em ver tudo passado para a telona sem traumas ou sacrilégios, este é o meu primeiro lugar no pódio.

Menção honrosa

Quem quer ser um milionário?

Valsa com Bashir (este tambémnão é uma produção lançada em 2009, mas como eu só vi este ano, tá valendo).

O pior

Transformers 2

Não vejam este filme por nada nesse mundo! Nem se lhe oferecerem o cachê do Padr Fábio! E tenho dito.

Coluna da Digi #55 – A história que mudou a história.

agosto 23, 2010

No dia 02 de março de 2009, publiquei uma crônica sobre a série em quadrinhos “The Watchmen“, de Alan Moore, por ocasião do lançamento do filme dirigido por Zack Snyder e baseado nas revistas. O lançamento do filme também gerou uma série de bons artigos de Pablo Capistrano, Alex de Souza, Milena Azevedo e Patrício Jr. e que podem ser lidos, clicando aqui: https://blogdofialho.wordpress.com/tag/the-watchmen/

Publico novamente o texto e espero que todos gostem.

Obrigado.

***

A história que mudou a história.

Os super-heróis habitam o imaginário popular há mais de meio século. Nesse tempo todo, as crianças (e os que ainda são crianças em seu íntimo) sempre devanearam a respeito de um mundo repleto de intrépidos mascarados, vestindo as cuecas por cima das calças, nos defendendo dos perigos, intervindo nos grandes problemas da humanidade, nos protegendo e reduzindo os índices de violência.

O que fariam os super-heróis na Faixa de Gaza? Como eles agiriam na disputa entre o Hamas e Israel? Eles atuariam em Natal? Fariam algo para impedir as centenas de assassinatos ocorridos no pior início de ano da história?

A resposta, não há como saber, mas pode-se supor. Os roteiristas procuram sempre contextualizar, trazendo os heróis para mais próximo de nós. O Homem-aranha ajudou a resgatar as vítimas no 11 de setembro de 2001 e já até teve um encontro com Obama na edição de janeiro que esgotou em poucas horas nos Estados Unidos.

Porém, nunca ninguém conseguiu imaginar um universo tão realista quanto o inglês Alan Moore em “The Watchmen”, a mais aclamada história em quadrinhos de todos os tempos, definida como o Don Quixote ou o Cidadão Kane dos romances gráficos. Tanto que foi o único quadrinho até hoje a vencer um prêmio Hugo, um dos mais importantes da literatura mundial.

Seguindo o gênero da história alternativa, inventado por Philip K Dick em “O homem do castelo alto” (essa eu aprendi com Alex de Souza), ele concebeu um mundo igualzinho ao nosso, só que habitado por justiceiros mascarados de verdade.

Alan Moore chegou à conclusão de que o mundo não seria necessariamente melhor com a intervenção dos heróis. Pelo contrário. Os Estados Unidos exerceriam um domínio sobre os mascarados e, com a ajuda deles, venceriam a Guerra do Vietnã. A União Soviética se recusaria a se desarmar e a tensão nuclear deixaria o mundo numa tensão insustentável. Com o governo estadosunidense levando vantagem na Guerra Fria, não haveria escândalo Watergate que desse jeito na popularidade de Nixon e do partido Republicano que se perpetuaria no poder.

Os heróis concebidos por Moore tinham falhas de caráter muito evidentes. Eram infiéis no casamento, violentos com suas vítimas, assassinos que se aproveitavam da imunidade diplomática concedida pelo governo para cometer as mais abjetas atrocidades. O Dr. Manhatam (único com superpoderes) transmite câncer para as pessoas próximas e o Coruja (sem poderes, mas cheio de engenho) chega até mesmo a brochar em uma das passagens mais improváveis das HQs mundiais.

A coluna de hoje serve para alimentar a expectativa da estreia mundial do filme que ocorrerá na próxima sexta-feira (6 de março). Fazia tempo que eu não aguardava um filme com tanta expectativa. Pelo que andei lendo e vendo na internet, o romance gráfico de Alan Moore, uma das criações mais geniais em que já pus as mãos, está sendo adaptado de forma tão magistral, cuidadosa e milimétrica pelo diretor Zack Snyder que arrisco dizer que será um dos grandes filmes de 2009. Agora é só aguradar a sexta-feira chegar e torcer para que os cinemas de Natal recebam o filme logo na estreia e não tenhamos que aguardar 2 meses para podermos conferir a produção, como ocorreu com Sin City no ano da graça de 2005. Se for o caso, vou precisar de uma super-paciência ou morrerei de ansiedade.

Quem vigia os vigilantes 5 – Pablo Capistrano

junho 2, 2009

O quadrinho definitivo II

 Publicado no www.pablocapistrano.com.br

"Faça como eu: bote uma meia na cabeça e enfie a porrada na bandidagem."

"Faça como eu: bote uma meia na cabeça e enfie a porrada na bandidagem."

Imagine que você faz parte de um romance de H. G. Wells. Um romance sobre, por exemplo, uma máquina do tempo. Imagine também, seguindo essa brincadeira, que essa máquina do tempo te transporte (de um modo que só as máquinas do tempo conseguem fazer), para a cidade de… quem sabe… Braunau am Inn! na Áustria, às margens do rio Inn, já na fronteira com a Baviera alemã.

O ano é 1889, e o fim do mês de Outubro, em pleno Outono europeu, já anuncia a chegada do vento gelado de mais um inverno. Imagine que você, com seu alemão sofrível, parado na frente de uma loja de doces, vê uma senhora saindo com um carrinho de bebê. A senhora parece que lembrou de alguma coisa. Talvez uma bolsa? Algum pacote? Ela fala algo incompreensível em algum dialeto desses de fronteira e retorna para dentro da loja de doces deixando aquele adorável bebê de seis ou sete meses adormecido em seu carrinho de ferro e madeira, com aquele design de fim de século XIX.

Você, que provavelmente gosta de crianças, se aproxima sem querer acordar aquele pequeno anjo do Senhor e, mergulhando seu olhar pelos detalhes internos do carrinho percebe escrito em uma pulseirinha metálica presa no braço direito da adorável criaturinha o nome: “Adolf Hitler”.

Um arrepio sobe pela sua coluna e, como em uma explosão instantânea de imagens, você vê no seu hipocampo mental (aquela janela da microsoft que se abre na mente quando a gente tenta visualizar alguma coisa) um desfile com as mais aterradoras, mais terríveis, escatológicas e desumanas imagens do século XX. Subitamente você se questiona com toda sinceridade: “Parto ou não parto a traquéia do bebê?”.

Esse dilema ético é muito semelhante à questão que opõe os personagens Ozymandias e Roschach em Watchmen. Se você não sabe, Ozymandias é (na HQ de Moore) um dos sujeitos mais ricos do planeta, e também um dos mais inteligentes. Ele consegue inclusive, com uma mistura de inteligência e grana, enganar o Dr, Manhatan (aquele ser quântico da primeira parte desse artigo).

Rorschach, por sua vez, é um homem pobre e atormentado por uma infância cercada de violência e descaso familiar. Criado em bairros suburbanos miseráveis, filho de uma prostituta que atendia os clientes em casa e objeto freqüente de humilhação e espancamento, Rorschach faz jus ao teste psicológico, criado pelo doutor Hermann Rorschach e usado, inclusive, para identificar a presença de núcleos psicóticos.
Na obra de Moore, Ozymandias e Rorschach são duplos.

São aspectos de um mesmo princípio, pontos opostos de uma mesma idéia. Enquanto Ozymandias surge sempre no alto de grandes arranha-céus iluminados, olhando a selva metropolitana por cima, como se pairasse sobre a miséria do mundo e observasse a tragédia do destino humano a partir de uma visão “global”, Rorschach é uma criatura dos becos sombrios. Ele vive ao nível do asfalto, observando no detalhe a sordidez da maldade dos homens. A inteligência de Ozymandias, e sua posição privilegiada na escala social, permite que ele perceba em um horizonte mais amplo o futuro da espécie, e possa pensar em uma ação global para evitar uma catástrofe humana. A condição miserável de Rorschach não permite que ele tenha essa visão de fundo e seu esforço é em fazer justiça no detalhe, matando e prendendo criminosos pelos becos da metrópole.

Esses dois sujeitos orbitam em torno de uma mesma idéia de bem e de justiça. Eles encarnam a tradição de nossa moralidade ocidental, que construiu um conceito de ?bondade? em oposição a um de “maldade” e impôs uma idéia de justiça em contraste com um conceito de iniqüidade. Rorschach e Ozymandias são filhos desse mundo. Eles buscam o bem. Eles procuram a justiça, mas se diferenciam fundamentalmente porque estão em campos opostos do embate intelectual sobre a natureza da “ética”.

Boa parte da história da ética moderna gira em torno da disputa entre correntes deontológicas (de Deon ? dever) e teleológicas (de telos ? finalidade). Se você segue uma ética deontologica (como Kant) vai acreditar que uma ação é boa ou má em si mesma. Ou seja, nenhuma injustiça praticada se justifica pela obtenção de resultados positivos. Essa é a ética dos santos ocidentais, daqueles que buscam intransigentemente a verdade e a pureza. Essa é a ética de Rorschach que não admite nada mais a não ser o expurgo do mal (mesmo que de forma confusa, entrecortada, na HQ de Moore, pelo surto psicótico do personagem).

Pessoas como J. S. Mill ou Jeremy Benthan, por sua vez, seguem uma ética teleológica, utilitarista, baseada na idéia de que a ação correta não é correta em si mesma. Ou seja, uma ação que produz uma maior quantidade de mal para um maior número de pessoas não se justifica. Justo é aquilo que traz uma maior quantidade de bem, para um maior número de pessoas.

Essa é a tese de Ozymandias. A moral utilitarista e pragmática, que seduz inclusive o Dr. Manhatan, e que produz a mais abjeta revolta em Rorschach. Uma ética como a de Ozymandias permite, por exemplo, que milhões de pessoas morram para que bilhões sejam salvas porque um mal menor se justifica diante de um bem maior. Watchmen, como toda grande obra de arte, aponta para esses mundos, esses dilemas e essas ansiedades que movem a cultura ocidental por séculos. Ela é uma obra vigorosa porque é Pop sem perder a dimensão do clássico, moderna, sem esquecer a sombra arcaica do velho mundo sobe o qual nossa herança cultural foi fincada e por sobre o qual esse mesmo mundo ameaça desabar.

Sentiu o drama?
E aí, já deu tempo para pensar no seu dilema ético particular?
Já correram nessas linhas as rotas sombrias de seus desejos e o peso torto de suas próprias crenças e valores?
Ótimo.

Então me diga sinceramente, você quebra ou não quebra a traquéia do bebê?

Quem vigia os vigilantes? 4 – Alex de Souza

maio 20, 2009

Coluna Bazar – www.nominuto.com.br

"Bogus? Não. Eu sou o Dr. Manhattan."

"Bogus? Não. Eu sou o Dr. Manhattan."

Se você tem carteirinha de nerd, deve estar ligado no falatório em torno do lançamento de Watchmen – o Filme, que esta semana completa mais ou menos um mês em cartaz. O burburinho foi tão grande que abafou a chegada às telas grandes de outra polêmica adaptação de um clássico dos quadrinhos – o assassinato do Spirit, de Eisner, cometido pelo falastrão do Frank Miller.

Não vou engrossar o coro dos contentes que aclamaram o longa-metragem como a última coca-cola do deserto, nem pretendo pichar o filme por considerá-lo inferior à série em quadrinhos na qual se baseou. Primeiro, porque, como filme, é pra lá de mediano. Segundo, porque é um disparate qualquer tipo de comparação entre mídias tão distintas, como literatura, quadrinhos ou cinema.

Se for para comparar Watchmen – O Filme com alguma coisa, que seja então com outras adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos. E aí, meu amigo, me vêm à mente dois ótimos filmes lançados no ano passado. O primeiro deles é a obra-prima Cavaleiro das Trevas; o outro, o empolgante Homem de Ferro.

Frente a esses dois títulos, Watchmen pode até ser uma aventura interessante, mas fica difícil de amarrar-lhes a chuteira.

Para quem viveu numa bolha de plástico por mais tempo que John Travolta e nunca ouviu falar em Watchmen, a história é a seguinte: num mundo em que super-heróis realmente surgiram, por volta da década de 40, a história mundial sofreu algumas mudanças significativas.

Em 1985, a Guerra Fria ainda está no auge, Nixon coleciona o quinto mandato presidencial e a tensão nuclear entre EUA e URSS (um doce pra quem ainda lembrar o que significa a sigla) atinge o ponto máximo com a iminente invasão soviética ao Afeganistão.

Neste cenário, o Comediante, um herói que trabalha clandestinamente para o governo, é assassinado, dando início a uma trama que envolve os antigos mascarados, a maioria deles já aposentados, e que pode culminar, literalmente, com o fim do mundo.

A série redefiniu, junto com Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, o estilo de contar histórias nos comics norte-americanos. É considerada por muitos a melhor história em quadrinhos já escrita. Pode ser exagero, mas dentro do gênero super-heróis é difícil algum material que possa superá-la. O mesmo não pode ser dito da adaptação para a telona: além de não ser ‘o maior filme de todos os tempos’, tampouco é ‘o melhor filme de super-heróis de todos os tempos’.

Um mérito da adaptação é não trair em demasia os fãs (exceto os mais xiitas) – por sinal, a sequência de abertura, no qual a história americana é recontextualizada a partir da presença dos supers é, digamos, antológica. No mais, é apenas divertido.

Agora, se vale como consolo, outro ponto positivo, ao menos para mim, foi que o filme me despertou a vontade de reler Watchmen (acho que pela 12ª vez, numa estimativa modesta). E aí, folheando novamente a primeira reimpressão brasileira, lançada em 12 volumes pela Abril, em 1999, é possível perceber porque Alan Moore e David Gibbons conseguiram ser cultuados por meio mundo. Além de uma história muito bem tramada, a maxissérie é um exagero formal nos aspectos linguístico e metalinguístico.

Estruturada de forma a conter sempre nove quadros por página, divididas em três fileiras de três quadros verticais, a narrativa ‘acostuma’ o leitor à estrutura fixa, que é quebrada apenas em momentos-chave que, apenas quando se chega ao final da história, é possível se entender o significado.

Além disso, os quadros são minuciosamente construídos com elementos nem um pouco aleatórios. Nada que aparece nas imagens, nos diálogos e nas narrativas em off é gratuito – são peças de um megapuzzle que apenas reiteradas leituras ou olhares bastante atentos podem se dar conta de montar.

Outro recurso (inclusive apontado por Milena Azevedo na resenha publicada no e-zine Asfixia) é alternância de cores quentes e frias nos quadros, sinalizando mudanças de tempo, de tom narrativo e mesmo de personalidade entre os personagens.

Sem falar na presença de uma segunda história dentro da história, um exercício metalinguístico no qual um garoto lê uma história de quadrinhos sobre piratas que passa a se integrar à narrativa, dialogando com a trama central e mesmo oferecendo mais pistas.

Além disso, há referência pop no quilo: os heróis de Watchmen são todos decalcados da finada Charlton Comics, editora de segunda linha que foi comprada pela DC Comics (de cabeça podemos citar: Rorscharch/Questão; Dr. Manhattan/Capitão Átomo; Coruja/Besouro Azul; Comediante/Pacificador); os quadrinhos de pirata, típicos dos anos 50, são homenageados de maneira belíssima, assim como a chamada Era de Ouro dos supers; a imprensa marrom recebe um retrato ácido e bem-humorado; Cole Porter, Sinatra, Dylan e todos os standards da música americana também são lembrados, e por aí vai…

Como se não bastasse, Moore, um místico inveterado, constrói uma crítica ao cientificismo que dominou o século 20 – como bem apontou o pesquisador Gian Danton, em Watchmen e a Teoria do Caos (Editora Marca de Fantasia, 84 páginas, R$ 12). Ou seja, é pano pra manga que não se acaba mais. E você, que leitura faria?

Alex de Souza

Quem vigia os Vigilantes 3 – Milena Azevedo

abril 27, 2009

 Botando um sorriso sob o capuz

ou como Snyder vigiou bem os Watchmen

por Milena Azevedo

 

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        Qualquer apreciador da nona arte sabe que Alan Moore é sinônimo de detalhe e preciosismo. Até quem nunca leu uma HQ na vida já ouviu falar de Watchmen e tem noção de que é uma história complexa. Um fã de Alan Moore tem consciência de que os roteiros do “brujo” foram sofrivelmente adaptados para as telas de cinema – faço uma ressalva quanto à V de Vingança, que ficou um filme mediano muito mais pela atuação de Hugo Weaving do que pelas mãos dos irmãos Wachowski –, por isso o temor que se abateu sobre a adaptação de Watchmen foi geral. Eu diria que chegou mesmo até a ser uma espécie de histeria coletiva. Depois, com notícias, imagens e teasers aparecendo em tudo quanto era buraco na internet, formaram-se dois grupos: os que torciam o nariz cada vez mais e os que apostavam no trabalho de Zack Snyder. Confesso que eu particularmente queria ver Watchmen no formato minissérie para TV – ficaria redondinho –, mas o diretor de 300 sempre teve o meu voto de confiança, mesmo anunciando que não iria incluir Os Contos do Cargueiro Negro – uma HQ inserida nas páginas de Watchmen, uma das primeiras experiências de metanarrativa na arte seqüencial – no corte final que iria ser exibido no cinema.    

        

Após uma espera tortuosa, com direito à pressão da FOX e tudo o mais, Watchmen – o filme estreia no mundo inteiro no dia 6 de março do presente ano. Eu esperei alguns dias para assistir ao filme devido a uma inflamação na garganta, aproveitando para reler a HQ nesse período. Porém, toda a espera foi recompensada, pois saí do cinema maravilhada – dentro do cinema, então, vocês nem imaginam qual era o meu estado –, novamente parabenizando “as mexidas” de Snyder, que soube fazer um apanhado quase perfeito da trama principal da história de Moore, alterando apenas algumas situações que apenas cabiam na mídia história em quadrinhos (como a questão de alternar cores quentes e cores frias nos requadros, como também cada início e final de capítulo serem simétricos).

 

         Vou começar falando sobre as escolhas dos atores, nenhum deles uma grande estrela da sétima arte, que souberam entrar de cabeça nos personagens: Billy Crudup/Dr. Manhattan, Jackie Earle Haley/Rorschach, Patrick Wilson/Coruja, Jeffrey Dean Morgan/Comediante e Malin Akerman/Spectral, ficando um desempenho mediano apenas para Matthew Goode/Ozymandias. Os Minutemen também foram muito bem caracterizados e protagonizaram uma sequência que já virou clássica, mostrando a passagem de tempo entre as décadas de 1940 e 1980, nos créditos iniciais, ao som de The Times They Are A-Changin´, de Bod Dylan (um dos compositores citados por Moore dentro da obra). Até o vilão Moloch, interpretado por Matt Frewer, e o psicólogo negro que cuida do seu caso na prisão, Dr. Malcolm Long – que teve uma participação bem mais enxuta do que nas HQs – estavam perfeitos. Outra bola na cesta foi o visual do Dr. Manhattan, que apareceu nuzinho pelado sem pudor algum, tal qual a versão desenhada por Dave Gibbons.

 

         Quanto à trilha sonora, muito bem escolhida, contendo inclusive algumas músicas mencionadas na HQ, como Unforgettable, de Nat King Cole (propaganda do perfume Nostalgia, de Adrien Veidt/Ozymandias) e You’re My Thrill, de Billie Holiday. Alguns fãs criticaram o fato de Snyder ter colocado Hallelujah, de Leonard Cohen, na cena de amor entre o Coruja e a Spectral, mas na minha opinião ficou perfeito, haja vista Laurie ter sido o amor platônico de Daniel, que finalmente conseguiu tê-la nos braços pra valer (inclusive, pela HQ, supõe-se até que ele era virgem). Outras escolhas certeiras foram as versões de duas músicas do Dylan: All Along The Watchtower, por Jimi Hendrix, e Desolation Row, pelo My Chemical Romance, fechando o filme com chave de ouro.

 

         Snyder foi deveras cuidadoso com o detalhismo de Moore, e mesmo omitindo algumas passagens, como a história completa de Rorschach (mostrando como ele encontrou o tecido com o qual elaborou a sua máscara), a relação entre o jornaleiro, o menino que lê Os Contos do Cargueiro Negro e a taxista lésbica Joey, o escritor Max Shea e outras personalidades desaparecidas na ilha de Veidt, a própria história de Veidt/Ozymandias e o monstro que destrói Nova York (que foi uma homenagem de Moore aos pulps e filmes de FC da década de 1950, uma vez que na HQ os letreiros do cinema anunciam o filme O dia em que a Terra parou), porque focou o filme numa trama bastante política – Nixon pedindo desculpas à União Soviética em rede nacional foi uma ótima tirada –, ainda assim estão lá diversas homenagens à HQ, como a questão da simetria, presente no capítulo 5.

 

                  Watchmen – o filme faturou 55,7 milhões de dólares em sua estreia nos EUA. O que é um bom começo.

 

                  Não sei se foi o filme que alguns fãs mais exaltados esperavam, mas foi o que Syner pode fazer e o que me deu um imenso prazer em assistir. Vou rever mais algumas vezes e esperar ansiosa pelo DVD.

Quem vigia os Vigilantes? 2 – Patrício Jr

abril 23, 2009

Watchmen – a resenha de quem leu a HQ.

www.patriciojr.com.br

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“Watchmen” é uma das revistas em quadrinhos mais celebradas entre os iniciados. A história se passa num mundo em que os super-heróis realmente existem. Mas não do jeito que conhecemos. Com excelentes atuações e efeitos especiais impressionantes, o filme tem o grande mérito de conseguir com que uma história de adultos em roupas de lycra soe plausível. E depois que você assiste a esse excelente filme, fica difícil engolir os padrões morais de Superman ou a aversão a armas de Batman.

 

A pergunta “o que vai ser dos filmes de super-heróis depois de ‘Watchmen’?” é totalmente pertinente. Dito isso, passemos aos comentários.

 

“Watchmen” é uma das revistas em quadrinhos mais celebradas entre os iniciados. Tem um enredo complexo, repleto de subtextos, histórias paralelas que se cruzam, dados complementares, personagens com vidas entrelaçados. Pra você ter idéia, o volume completo da história tem mais de 400 páginas. É muita coisa, principalmente quando se trata de uma trama de super-heróis. Escrita com Alan Moore na década de 80, carregou por anos a pecha de ser “infilmável”. Até 2009.

 

Zack Snyder, mesmo diretor da adaptação de “300”, fez mágica. Simplificou o enredo, cortou histórias paralelas, centrou-se nos personagens mais importantes da trama e fez um filmaço.

 

A história se passa num mundo em que os super-heróis realmente existem. Mas não do jeito que conhecemos. São, na verdade, pessoas comuns que passam a fantasiar-se com roupas coladas e coloridas para sair às ruas combatendo o crime. Em meio a este cenário, um assassino de heróis surge, matando de maneira engenhosa membros desse estranho grupo da sociedade. Paralelamente a isso, vemos a Guerra Fria entre EUA e URSS (fato histórico mais importante da década de 80) evoluir lentamente para um conflito nuclear que pode dizimar toda a humanidade. As duas tramas, apesar de díspares, podem estar diretamente relacionadas.

 

“Watchmen” (o filme) expõe para platéias mais amplas questionamentos que a HQ já vinha fazendo aos iniciados há algumas décadas. Já pensou se os super-heróis realmente existissem? Que usos os governos fariam desses combatentes altamente treinados? Que prejuízos morais causaria a interferência das empresas nesse mercado? Qual o impacto que essas figuras teriam sobre a cabeça das pessoas? Como a sociedade se comportaria diante de eventuais erros dos mascarados? Que participação a imprensa teria sobre a construção de ídolos e a subseqüente destruição da imagem deles? E o mais importante: sendo pessoas comuns, quem garantia que a moral deles seria completamente correta? Como se pergunta logo no início do filme: quem vigia os vigilantes?

 

Com excelentes atuações e efeitos especiais impressionantes, o filme tem o grande mérito de conseguir com que uma história de adultos em roupas de lycra tentando salvar o planeta soe plausível. Além disso, outro grande problema é solucionado com maestria: a ameaça de uma guerra nuclear entre URSS e EUA. Explico: a HQ foi publicada em plena Guerra Fria. Portanto, na época, a ameaça do conflito ideológico evoluir para uma guerra real era iminente. Hoje em dia, essa ameaça não existe mais. Mas o diretor tira proveito de tragédias reais para dar força ao seu conflito fictício. E faz isso de uma forma muito competente.

 

Outra boa notícia é que para os fãs ferrenhos, que leram a HQ, esperaram pela adaptação e sabem de cor cada uma das passagens do gibi, o filme não decepciona. Apesar dos cortes nas histórias paralelas, de certa forma todos os personagens estão ali. Claro, não vou estragar a surpresa. Mas pra quem leu a revistinha e ainda não viu o filme, um aviso: vale a pena, porque o final é diferente. Apesar de igual.

 

Por fim, só devo comentar que mordi minha língua quanto à classificação do filme. Cheguei a dizer que era um absurdo ser proibido para menores de 18. Errei. O diretor manteve todos os elementos do gibi (incluindo a violência explícita). Acertou. Pra quem lê gibi, dá nervoso ver que Wolverine, nas adaptações pro cinema de X-Men, quase nunca usa suas garras para matar os oponentes. Em “Watchmen”, nenhum dos heróis tem esse puritanismo. E tome sangue.

 

Depois que você assiste a esse excelente filme, fica difícil engolir os padrões morais de Superman ou a aversão a armas de Batman. “Watchmen” desglamouriza completamente o mundo dos super-heróis. Nada é heróico na história de Alan Moore. E a fidelidade com que foi adaptado à tela grande – com diversos diálogos diretamente transpostos da HQ pro roteiro de cinema – faz a gente pensar: e agora, super-heróis, como é que vocês vão conquistar nossa confiança depois de tudo que vimos? Ou, em outros termos: quem vigia os vigilantes?

Por Patrício Jr. – www.patriciojr.com.br

Quem vigia os vigilantes? 1 – Pablo Capistrano

abril 13, 2009

Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Já confessei aqui há algumas atualizações que sou fã de carteirinha de Watchmen. Quando li os quadrinhos, fui impactado pela profundidade e amplitude da história imaginada por Allan Moore. Tem um texto meu antigo, de 2005, acho, que escrevo sobre minha admiração por Moore.

 

Curti demais o filme. Considerei a fidelidade absoluta como um ato de respeito à obra original e aos fãs do maior romance gráfico de todos os tempos. Por isso, fiquei surpreso ao perceber que do grande público, QUASE NINGUÉM GOSTOU DO FILME. Cheguei a me perguntar se havia algo errado comigo. Mas aí comecei a saber das opiniões de outros leitores da HQ e de pessoas que gostam do trabalho de Moore. A tranquilidade e a certeza de que estamos diante de um filme que será cultuado como um dos mais importantes da história do cinema voltaram subitamente.

 

Hoje, publico as impressões do escritor e filósofo Pablo Capistrano. Por e-mail, ele disse “O filme é muito bom, às vezes eu achava que já havia visto aquelas imagens em algum lugar, era como se eu já houvesse visto aquilo. Depois eu notei que estava lembrando da HQ, incrível. Esse filme com certeza foi feito por um fã do Moore.”

 

Abaixo segue um texto de Pablo sobre a história de Watchmen. Em breve, publicarei mais.

 

CF

 

 

 

O quadrinho definitivo: Parte I.  

 

Pablo Capistrano.  

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Uma das passagens mais significativas de Watchmen, de Allan Moore (agora adaptada para o cinema) é a conversa entre o Dr. Manhattan e Laurie, a filha e sucessora da Espectral (uma heroína dos anos quarenta que fazia parte dos antigos minutemen).  Se você não é fã de quadrinhos ou viu o filme e não entendeu muita coisa, Dr. Manhattan é uma espécie de ser quântico. Uma consciência que se manifestou no mundo através daquilo que um dia foi Johnatan Osterman, um físico que trabalhava para o governo dos EUA e que foi literalmente desintegrado após um acidente em uma área de pesquisas nucleares. Há um aspecto curioso nesse personagem que o liga a algumas interpretações místicas e esotéricas de figura de Jesus-Cristo. Para correntes adocionistas e gnósticas, o homem Jesus não é o mesmo ser do cristo após o batismo, ou ressuscitado. Nessas leituras, Cristo é uma presença que aparece aos apóstolos, um vulto ou um fantasma, uma imagem que acompanha os homens e que se apropria da forma da Jesus para construir algum tipo de comunicação com os humanos. Jesus precisou morrer na cruz (ou ser batizado, que é um tipo de renascimento ritual), para que Deus pudesse falar diretamente aos homens através de sua forma, assim como John precisou ser desintegrado dentro daquele reator nuclear para que a consciência quântica do universo aparecesse entre os homens na forma do Dr. Manhattan.

 

Tecnicamente, de todos os personagens de Watchman, só o Dr. Manhattan tem algum tipo de “super-poder”. Na verdade ele só tem dois super-poderes: (1) ele aprende o tempo de forma quântica, ou seja, ele enxerga a simultaneidade de todos os eventos de modo que o presente, o passado e o futuro aparecem a ele juntos; (2) ele altera a estrutura atômica da matéria. Pouca coisa não é?

 

Na verdade esses dois atributos dão ao Dr. Manhanttan o poder de saber tudo e o poder de fazer qualquer coisa com a matéria. Ou seja, nosso amigo é onisciente e onipotente (e onipresente também, porque ele pode se desdobrar em infinitos lugares ao mesmo tempo). Esses são os clássicos três atributos de Deus na teologia cristã. Mas, apesar das influências claras às heresias místicas cristãs e gnósticas, há algo que afasta essa consciência quântica de qualquer doutrina cristã.

 

O personagem de Moore não é como pensavam os cristãos, um Ser sumamente Bom. Apesar de poder fazer qualquer coisa, poder estar em qualquer lugar ao mesmo tempo e saber de tudo que aconteceu, acontece e que vai acontecer, Dr. Manhatam a medida que a narrativa de Watchmen vai se desenrolando, se torna cada vez mais indiferente, cada vez mais distante das misérias e dos sofrimentos atrozes que os homens, com sua estupidez inerente, costumam a infligir a si mesmos.

 

Quando Laurie, sua namorada humana, tenta convence-lo a impedir uma guerra nuclear entre Soviéticos e Norte-americanos (lembrem que a história do quadrinho se passa em 1985) ele responde: “Não há, a rigor, nenhuma diferença entre matéria viva e matéria morta”. Vida e morte, presente, passado e futuro, dor e prazer, são aspetos de uma mesma totalidade sem costura da matéria que se interliga em um mesmo plano quântico. Somos todos poeira de estrelas (como diz o jargão da física moderna) e nossa existência está condicionada por uma quantidade tão incompreensível e infinita de eventos que não é possível pensar em um tratamento especial para o homem. Dr.. Manhattan, viajando por Marte, reflete com Laurie (humana demais para se relacionar com um ser como ele) qual a importância da vida em um universo como o nosso? Para alguém que percebe a simultaneidade do tempo e que conhece as chaves para a modificação da estrutura de base da matéria, as preocupações dos humanos com vida e morte não fazem absolutamente nenhum sentido. Apenas nós, seres tão limitados, confinados em uma percepção finita da vida trememos diante da morte e sofremos diante da idéia de um fim para a nossa espécie.

 

Do ponto de vista do Deus de Watchmen e do ponto de vista do universo, nossa ocorrência não tem nem mais nem menos dignidade do que o choque de um cometa em um planeta congelado nos confins de um sistema solar qualquer. O Deus de Watchmen nos observa, mas não interfere no que vê. Ele é real, existente, mas é absolutamente indiferente as nossas orações e as nossas ansiedades. O Ser quântico que está mergulhado na eternidade não tem motivos para sentir mais piedade de uma criança humana do que de um pedaço de rocha oxidada que se esfarela no solo marciano.

 

O homem criou uma auto-imagem que lhe confere uma importância fundamental na ordem natural. Ele pensou ser a jóia da coroa da criação de Deus, o ser mais perfeito e mais amado porque seria o ser mais semelhante àquela figura eterna, que tudo sabe, tudo pode e que está em todas as coisas.. O homem pensou um Deus que o ama e que o perdoa. Um Deus que o salva e que morre por ele. Moore pensou um Deus distante de nós, que apenas nos observa, com uma mistura de curiosidade e tédio, enquanto mantém sua mesma atenção pluralizada direcionada simultaneamente a todos os eventos no tempo e no espaço. Esse Deus nos deixa absolutamente livres, submetidos apenas a esse imenso e misterioso horizonte de eventos materiais. Esse caos multifacetado que constrói o cenário para os dramas dos homens, seus sofrimentos e suas alegrias. Watchman é o quadrinho definitivo e a peça central da oitava arte, porque sua base teológica nos ensina uma dolorosa lição: Deus nos deixa livres e nossa liberdade tem um preço pago ao infinito com o peso da nossa própria solidão.

 

 

Pablo Capistrano

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