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10 anos de JOVENS ESCRIBAS – Parte 01 – Verão Veraneio – O livro da estação.

março 18, 2014

1 Capa Verão Veraneio FECHADA

Verão Veraneio – O livro da estação.

Enquanto as conversas com os outros 3 autores caminhavam para o surgimento do selo Jovens Escribas, eu continuei escrevendo crônicas de humor para compor o meu primeiro livro. Já havia decidido qual nome dar à iminente publicação: “Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada”.

Fui reunindo textos e fazendo, empiricamente, o trabalho de auto-edição que, mal sabia eu, marcaria bastante minha vida dali pra frente. Quando Modrack Freire, diretor de arte que já havia concluído o logotipo do selo, se ofereceu para fazer o livro, começamos a imaginar como poderia ser a capa. Logo criamos uma imagem em nossa tempestade cerebral: a foto de um baldinho de criança à beira mar sendo utilizado para gelar cerveja, unindo a inocência presente na leveza das crônicas com a irreverência do humor também bastante característico nos textos. Na quarta capa, haveria outra foto: uma trave de “mirim” deixada de lado com o chão impecável em torno dela. Como se os jogadores não tivessem algo melhor para fazer naquele dia (beber, paquerar, curtir) do que jogar futebol. O fotógrafo convidado a fazer os cliques foi Giovanni Sérgio, mago das lentes, ídolo de longa data.

O fotógrafo Giovanni Sérgio - lindo e competente.

O fotógrafo Giovanni Sérgio – lindo e competente.

Com a direção de arte, diagramação e fotos garantidas, precisava batalhar agora um nome relevante que topasse assinar as orelhas da obra. Tinha que ser alguém reconhecido na literatura, de forma que o livro chegasse às pessoas com algum respaldo importante. Meu pai, em conversa com François Silvestre, chegou à conclusão que eu poderia procurar Nei Leandro de Castro, uma vez que eram muito amigos desde os tempos em que a Ditadura Militar os perseguira e prendera algumas décadas antes. Procuramos Nei que, num primeiro contato por e-mail, disse-me com sinceridade que só escreveria se gostasse do que lesse. Fiquei muito animado com a possibilidade e lhe entreguei o material impresso e encadernado em mãos, numa de suas vindas a Natal, naquele ano de 2003.

Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro

Menos de uma semana depois, Nei Leandro me escreveu. Sua mensagem veio repleta de elogios e terminava com sua concordância em escrever a orelha. Em mais alguns dias, o texto estava em minha caixa de entrada de e-mail. Em alguns trechos mais lisonjeiros, Nei dizia o seguinte:

Carlos Fialho me surpreende. Primeiro, por sua precocidade. Segundo, porque as suas crônicas são bem escritas, docemente sacanas, inteligentes, e nos dá a certeza de um escritor, que não há de ficar nos limites da crônica.

Os textos deste livro têm a idade e a linguagem  de um garotão bem resolvido com ele mesmo. Os temas  – gírias regionais, porres, rock, vídeo-game, paqueras, Natal, cinema, carnatais, carnavais, etc. – são tratados com graça e ironia, leveza e fino senso de humor.

Carlos Fialho, cronista, precoce, publicitário, devorador de livros, autor das crônicas deliciosas deste Verão veraneio, vai chegar lá. Esse garoto vai longe.

Além de Nei, procurei um autor adequado para o prefácio. Não precisava ser famoso, mas que tivesse um estilo mordaz e bom humor, de forma a combinar com o conteúdo do livro. Escolhi meu ex-colega de faculdade, George Wilde, que fez um texto preciso, de acordo com o que eu pretendia. Destaco uma pequena parte:

Ao ler o livro, descobri que dentro de Fialho existe algo grandioso: a sua percepção em relação ao nosso dia-a-dia. Afinal, poucas pessoas conseguem sair do círculo da rotina para perceber o verdadeiro circo em que vivemos.”

George Wilde - o homem do prefácio

George Wilde – o homem do prefácio

A campanha publicitária foi elaborada com alguns títulos bem humorados, bem ao estilo do livro.

anuncio verissimo

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

 

A assessoria de imprensa contou com indicações de colegas do curso de Jornalismo da UFRN. Minha primeira entrevista foi concedida a Marcílio Amorim (Jornal de Hoje) e a segunda a Hayssa Pachêco do Diário de Natal.

2004 - VV - JH1

Mas a maior responsável pela divulgação do meu primeiro lançamento não era a imprensa nem a publicidade. Quem promoveu o evento a ponto de transformá-lo em sucesso foi minha mãe, Lurdete. Quando percebeu que era sério mesmo “essa história de livro”, arregaçou as mangas e telefonou pra cada parente, cada amiga, cada conhecido, reforçando bastante a frequência de presentes na noite de Verão Veraneio. O local escolhido foi a AS Livros do Praia Shopping, uma livraria acolhedora que tinha como gerente Cícero, um cara que dava bastante espaço a autores locais. O saldo da noite foi um estrondoso sucesso (163 livros vendidos) num ambiente preenchido de amigos, parentes e colegas de trabalho. Só a partir do segundo livro, essa frequência seria reforçada por leitores.

Quanta gente veio ver!

Quanta gente veio ver!

A noite foi tão agradável que Patrício Jr., que escrevia um blog, publicou uma postagem falando de como fora legal o evento (a qual reproduzo no fim desta publicação). Foi um belo cartão de visitas, indicativo do que estaria por vir num futuro não tão distante e também das possibilidades de crescimento e expansão que o então selo editorial acabaria por aproveitar com o passar dos anos.

“Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada” trazia 5 capítulos. No primeiro, “Galado e outras palavras”, havia temáticas mais gerais. Entre elas, alguns textos merecem destaque como “Galado” que me notabilizou em muitos rincões da Internet e “A Loja de Inconveniência” que até hoje se mantém como um dos meus preferidos. No segundo capítulo, “Cruvinel – o bom de bola”, apresento um personagem que me acompanhou com o passar dos anos e que, mês que vem, ganhará livro próprio. No terceiro, “Mano Celo”, nascia o protagonista do meu livro mais vendido até hoje e que, ano que vem, ganhará mais uma publicação caprichada com todas as suas histórias reescritas. Em seguida, vinha “Vi e gostei” com crônicas sobre cinema. Para fechar, o capítulo mais legal do livro: “Aconteceu no verão” com as histórias pertinentes ao tal “Verão Veraneio” que dá título ao livro.

E assim foi dado o pontapé inicial para a, hoje decana, editora JOVENS ESCRIBAS. Continuem acompanhando aqui nossa história. Detalhe: o livro esgotou sua primeira tiragem em apenas 4 meses. 

NO PRÓXIMO TEXTO: LÍTIO – PATRÍCIO À FLOR DA PELE

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BÔNUS: POST DE PATRÍCIO NO SEU BLOG PESSOAL – O PLOG

06/02/2004 

há vida inteligente
no mercado publicitário

Quem trabalha com publicidade sabe: de tempos em tempos, tem uma “festa do mercado”. Tais eventos, sempre patrocinados por veículos, fornecedores, clientes ou ambos, têm por maior finalidade embebedar todo mundo, calar a boca de quem está perscrutando que o ano foi ruim e, por residual, reunir profissionais para um bate-papo informal. Pois é, parece um paraíso, mas tais “festas do mercado” haviam se tornado um verdadeiro transtorno. Passo o dia todo numa sala falando/fazendo/refazendo/desfazendo/tentando fazer publicidade. A última coisa de que preciso é estender esta missão ao meu happy-hour. Como prova de que nem tudo está perdido, houve esta semana o lançamento do livro de Fialho, “Verão Veraneio”, que não pretendia ser uma “festa de mercado”, mas acabou sendo por reunir exatamente as mesmas carinhas de sempre. O que me surpreendeu foram os temas das conversas. Ninguém, por exemplo, me perguntou “Como é que está la’?”. Ok, tudo bem, uma pessoas me perguntou isto, mas o assunto morreu quando eu respondi “Lá onde?”. Uma pessoa a noite inteira. Nada mal. Em outras “festas de mercado”, a famigerada pergunta “Como é que está lá?” é dita antes mesmo do “Tudo bem, broder?”. Já é, praticamente, sinônimo de oi. No lançamento de “Verão Veraneio”, porém, tudo foi diferente. Fialho conseguiu a façanha de reunir as mesmas pessoas de sempre fazendo, no entanto, com que todas soassem inéditas. Não sei se foi o fato de estarmos todos na AS Livros, rodeados de Dickens e Saramago e Proust e Pessoa e Machado e Camus. Birita? Claro que teve. Buffet? Sim, impecável. Bêbados chatos? Uh, nossa, e como! Mas estava tudo agradabilíssimo, tudo soando como um lançamento deve soar. Os temas conversados iam de autores consagrados a bandas de rock obscuras, sempre com tiradas inteligentes, observações pertinentes, risos na medida certa. Um éden para amantes do bom e velho papo construtivo como eu. Nunca gostei tanto das “pessoas do mercado”. O livro, graças aos céus, vendeu bem. Fialho, coitado, deve estar cheio de bolhas nos dedos de tantas dedicatórias escritas. E eu, exemplar autografado na mão, cheio de riso a caminho do estacionamento, concluí que a melhor das “festas do mercado” que eu já fui na minha vida foi o lançamento do livro do meu bróder. Mesmo que não tenha sido uma “festa de mercado”.

 

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Convocação – Direto do Fundo do Baú

maio 12, 2010

No longínquo ano de 2002, tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e que, aliás, linguiça se escrevia com hífen, escrevi um texto que acabou entrando no meu primeiro livro, “Verão Veraneio” (Jovens Escribas, 2004). O texto se chamava “Convocação” e tratava da lista do Felipão. Publico aqui para que vocês (e eu também) possam(os) lembrar. Mais uma “atualização” diretamente do Fundo do Baú.

***

 

Convocação

Concentração do São Gonçalo, altas horas da madrugada. Dali a algumas horas o touro enfrentaria o América. O jogo valeria pela fase decisiva do estadual e o time precisava repousar. Por isso o técnico da equipe ficou uma fera quando tocou o telefone da concentração. Quem poderia ser uma hora daquelas? Era bom que fosse urgente ou alguém do outro lado da linha ouviria um invejável repertório de impropérios construído em anos de futebol profissional.

Renato Peixe dormia o sono dos justos. Acordou com os toques do telefone, é verdade, mas voltara a dormir. O professor mandou descansar e esta não era uma das ordens mais difíceis de cumprir.

O treinador atendeu ao telefone e, depois de alguns minutos de aparente silêncio, bateu à porta do Renato Peixe.

Treinador: – Renato! Telefone pra você.

Renato Peixe: – Pra mim? Quem é, professor? É alguma urgência?

T: – É melhor você ir.

RP: – Aconteceu alguma coisa lá em casa?

T.: – É de Ulsan, na Coréia.

RP.: – Hein?!

Renato não entendeu nada. Ursão da Coréia. Ele não conhecia ninguém com esse apelido. Tinha um amigo que morava na favela do Japão, mas nem sequer conhecia uma favela da Coréia. No caminho do quarto até o orelhão da concentração foi pensando sobre o crescimento desordenado da cidade e das poucas oportunidades dadas aos menos favorecidos que resultavam na multiplicação das favelas como a do Japão e agora … a da Coréia. Antes que pudesse prosseguir com seus devaneios chegou ao telefone. Do outro lado ouviu uma voz firme com sotaque gaúcho.

–          Renato Peixe? Aqui é o Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira de futebol. Desculpes o horário. É que aqui já são 4 da tarde.

–          Isso é alguma brincadeira?

–          Tu achas que eu ia ficar de brincadeira na véspera de uma Copa do Mundo?

–          O que o senhor quer?

–          Te convocar, Tchê! O Rivaldo não está bem. Amanhã quero anunciar o corte junto com a tua convocação. Já ouvi maravilhas a teu respeito. Sei que tu tens feito um excelente campeonato potiguar e que o teu time é líder.

–          O que é isso Felipão? Você não pode estar raciocinando direito. Eu sou jogador de um time pequeno num campeonato inexpressivo. O que eu poderia fazer numa Copa do Mundo?

–          Tu não subestimes meus conhecimentos. Já vi teipes de teus jogos e estou convicto de que tu és o homem certo para substituir o Rivaldo. O próprio jogador já está sabendo que não tem mais condições e disse que será uma honra ceder seu lugar para um atleta como o Renato Peixe.

–          ..Er… Veja bem. Eu só estou pedindo que você pense bem, analise direitinho… Jogar numa Copa do Mundo é muita responsabilidade. Você deveria chamar alguém de clube grande, um jogador mais experiente e tarimbado. Será que não tem outro meia esquerda? Sei lá, o Djalminha, o Zé Roberto.

–          Barbaridade, Guri! Tu és mais teimoso que eu. Quer dizer: tu és mais teimoso do que dizem que eu sou.

–          Eu só estou falando pro bem da seleção. Eu torço pelo Brasil e acho que não acrescentaria muito. Desculpe, Felipão, mas não vai dar.

–          Bem, se tu queres tanto não ir. Vou pensar em outro nome. Alguém que possa substituir o Rivaldo a altura.

–          Mas, lembre-se: tem que ser algum jogador experiente.

–          Podes apostar que será.

–          E de time grande?

–          Certamente que sim. Tchau, sucesso pra ti.

–          Tchau, Felipão.

Renato Peixe foi dormir com a consciência tranqüila. Sentia como se tivesse acabado de cumprir um dever cívico. Aquela renúncia, aparentemente insana, foi uma sábia decisão que poderia decidir as chances do Brasil na Copa. E Felipão refletiria mais sobre o melhor a se fazer. Ele veria a tolice que quase cometera e convocaria um jogador de time grande.

No dia seguinte Felipão, de fato, cortou Rivaldo e convocou… Da Silva do Corítians de Caicó!

Da Silva tornou-se o primeiro jogador de um clube potiguar a atuar numa Copa do Mundo. Renato Peixe não se conformou com a decisão do treinador. Cadê o craque de time grande? E o Jogador experiente e tarimbado? Ele sentiu-se traído, um legítimo César apunhalado. Sabia que poderia ter sido ele. Ficou tão injuriado que decidiu não torcer mais pela seleção. Mas como tinha o coração brasileiro, não abandonou completamente o Brasil na Copa. Pelo menos torceu pro Simon apitar bem.

Mano Celo – Diário de um Lançamento 6 – Terceiro Anúncio

abril 20, 2009

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Mano Celo – Diário de um Lançamento – 5 – Segundo Anúncio

abril 15, 2009

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MANO CELO – DIÁRIO DE UM LANÇAMENTO 4 – Primeiro Anúncio

abril 12, 2009

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MANO CELO –DIÁRIO DE UM LANÇAMENTO 3 – Campanha.

abril 9, 2009

Segunda-feira, depois da Semana Santa começa a campanha de divulgação do lançamento de “Mano Celo – O Rapper Natalense”. Cartazes serão espalhados em pontos estratégicos da cidade, uma campanha virtual será veiculada na Diginet, juntamente com a volta da minha coluna no portal que passará a ser atualizada duas vezes por semana (segundas e quintas), material de PDV, ações no Orkut e nos blogues, além de anúncios a serem enviados por e-mail.

 

Este será o primeiro anúncio enviado ao mailling dos Jovens Escribas. Os anúncios foram criados pelo Comitê de Soluções Criativas, pelos profissionais Arnaldo Araújo e Fernando Liberatto.

01

  

Abaixo está o cartaz criado por Caio Vitoriano e finalizado por Larissa Azevedo. Bonitaço e deverá entrar na exposição que o artista fará em breve numa galeria perto de você.

 

Basic CMYK

A série de anúncios com depoimentos surgiu a partir do meu apurado senso de justiça. Fiz muitas críticas nas crônicas do livro, mesmo que de forma bem humorada, a coisas que considero ridículas e risíveis. Por isso, achei por bem dar espaço às pessoas que me criticaram para que haja igual oportunidade para ambos os lados. Legal isso, né?

Espero que gsotem da campanha e do lançamento e do livro.

Uma partida de WAR

março 3, 2009

Hoje eu decidi postar um texto longo. No meu primeiro livro, “Verão Veraneio”, uma das crônicas que fez mais sucesso foi “Uma partida de WAR” que narrava o desenrolar de uma tensa peleja sobre um bélico tabuleiro. Ano passado, divulguei o texto na comunidade do WAR no Orkut e o pessoal por lá gostou. Amanhã, vou colocar algumas novidades sobre o lançamento de “Mano Celo”. Hoje, quem tiver tempo e disposição de ler um texto que extrapola o limite de toques padrão da internet, boa leitura.

 

***

 

UMA PARTIDA DE WAR

 

O dia estava perfeito e todo mundo se divertia numa boa, “numa Nice”, sem stress. Aliás, em Pirangi no Verão, stress é decidir entre bater bola e paquerar. São poucas as praias como esta em que se pode ver um mar e mulheres deslumbrantes, disputar peladas e mulheres divertidíssimas, encontrar amigos e mulheres muito legais, comer pratos típicos e mulheres deliciosos.

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Mas como eu ia dizendo, o dia estava perfeito e a galera se divertia sem maiores preocupações. O Sol brilhara forte durante toda a manhã. O “terral” rolou e, conseqüentemente, a Prainha “craudiou” de surfistas. Quem não tem prancha vai de jacaré mesmo, do lado de cá das pedras. As gatinhas de biquíni exibiam suas formas esculpidas às custas de muita abstinência e suor derramado nas caras (caríssimas) e aristocráticas academias de ginástica. Os garotos também exibiam seu material para conferência. Músculos conquistados com doses de “estró” e “deca”. Nos corpos malhados (com trocadilho, por favor) sunguinhas “bad-boy”, bermudas floridas ou cuecas de fora. Depende da moda.

 

Á tarde, como por milagre, maré seca! É na baixa maré que as areias de Pirangi se convertem em verdadeiros tapetes para jogar futebol. A FIFA já classificou a praia como o melhor lugar para a prática de futebol de areia no mundo. É sério! Deu na Placar. No fim da tarde, Pirangi parece a imagem do paraíso. Casais apaixonados andam pela areia, grupos de banhistas aproveitam a água morna e as peladas duram até escurecer.

 

Quando chega a noite, todo mundo procura o que fazer. É preciso aproveitar cada minuto das férias. Alguns descem para beira mar, munidos de violões e segundas intenções, e improvisam luais e cantadas. Mas, se você preferiu ficar em casa com o seu pessoal, todo cuidado é pouco. Você está sujeito a uma das maiores ameaças do verão: “UMA PARTIDA DE WAR”!

war_1 

Sempre haverá alguém na turma disposto a estragar a sua noite, mesmo sem saber. Normalmente a pessoa que sugere uma inocente partida deste bélico jogo de tabuleiro tem boas intenções. O cara não tem noção do perigo que se esconde por trás do “brinquedo” e quer apenas divertir-se e divertir. Muitos deixam-se enganar pela cândida aparência e depois têm de arcar com as conseqüências. Lembrem-se: só porque uma coisa parece inofensiva não significa que realmente o seja. Quem acha que WAR é apenas um brinquedo deve ter usado cocaína como talco de bebê.

 

Por isso, resista se alguém sugerir uma partidinha. Disfarce, ignore, finja que não é com você, boceje. Faça-o entender que, se começarem a jogar, você vai ficar com sono e terão que interromper a disputa no meio. Mude de assunto: “Vocês viram a Susana Scoth fazendo top-less na praia?” Se não funcionar, tente algo mais alarmante: “W. Bush está atacando o Iraque! Salve-se quem puder!” Ou ainda: “Encontraram o corpo do Ulisses!”

 

Porém, sinto dizer que os jogadores de WAR são chatos e inconvenientes. Quando você perceber, o tabuleiro já vai estar montado (de cabeça pra baixo com relação a você) e os exércitos escolhidos (você ficou com as pecinhas amarelas, apesar de odiar essa cor). O número de jogadores? 6, lógico, para poder ser o mais sacal e demorado possível.

 

Entre os disputantes, há diversos tipos e figuras. Tem o cara zen, geralmente surfista, que não liga pra esse lance de competição e acha que essa parada de ficar discutindo por causa de um jogo… Pô, aí! Nada a ver! Tem também o principiante, aquele que nunca jogou. Não sabe o que são as trocas, os exércitos, os objetivos e muito menos onde ficam Dudinka, Vladvostok, Aral e Omsk. Com esse aí, não tem jeito. Você vai ter que ficar interrompendo sua estratégia para responder perguntas o tempo todo. “Por que tem umas pecinhas maiores que as outras?” “Eu posso atacar da Austrália pra Califórnia?” “Pra que servem essas cartas?” Outra figurinha fácil é o ladrão. Fique de olho nele. Ele vai tentar te passar a perna em todas as jogadas. Põe exércitos a mais no tabuleiro, puxa cartas fora de sua vez, rouba nos dados. Não se engane. Todo político jogou WAR na juventude. Também estão sempre entre os jogadores, um casal de namorados e, é claro, você, sua anta!

 

Os disputantes se preparam. Dividem os territórios, espalham os exércitos, decidem a ordem das jogadas (você é o último) e distribuem os objetivos. O principiante pergunta quem são os exércitos vermelhos e como faz para destruí-los. A namorada vai logo dizendo que é proibido armar complôs e que não se deve deixar fatores “extra-tabuleiro” interferirem na estratégia. O surfista concorda: “Pô, esse lance todo de complô, aí. Não tem nada a ver”. O principiante pergunta: “Como assim complô?” Você suspira. A noite vai ser longa.

 

Namorado: – Eu começo. Vamos lá, meu amor. Três contra um no México.

Namorada: – Contra mim?! Qual é a sua? Está querendo me destruir?

Namorado: – Não. Só estou seguindo minha estratégia…

Namorada: – Que é me destruir, não é?

Surfista: – Calma, gatation. Esse lance de stress, aí. Tem nada a ver.

 

Mas não adianta. A namorada já está convencida da premeditação do ataque sofrido e, por sua conta e risco, resolve mudar de objetivo. É óbvio que o namorado quer destruir seus exércitos. Ora, com mais 4 competidores à mesa, ele veio atacar justo os seus exércitos? A partir dali a sua função no jogo passa a ser destruir os exércitos azuis do namorado e, para que dê certo, arma uma terrível conspiração.

 

Principiante: – Me explica de novo. Os dados amarelos são pra atacar e os vermelhos pra defender?

Surfista: – Não, cara. Nada a ver.

Namorado: – Os vermelhos são pra atacar.

Principiante: – Então os amarelos são pra defender?

Namorado: – É.

Principiante: – Mas e se eu quiser, posso atacar usando os amarelos?

Você: (Não fala nada, mas revira os olhos de raiva).

 war_2

O ladrão começa a agir. A essa altura ele já vai na terceira troca, apesar de o jogo estar apenas na 4ª rodada. Quando você não estava olhando ele pôs uns exércitos a mais na China e até roubou um território sem que ninguém notasse.

 

Ladrão: – 3 contra 1 em Borneo (arremessa os dados que dão 3,1 e1).

O principiante arremessa os seus e obtém 3,2 e 2.

Ladrão: – Ganhei!

Namorado: – Como ganhou? Você perdeu os três.

Ladrão: – É, mas ele jogou os dados vermelhos em vez dos amarelos.

Principiante: – Mas os vermelhos não são pra defender?

Surfista: – Pó, cara, nada a ver.

Você sussurra um “Puta que pariu! Vá ser burro assim, lá na caixa prego!”

 

Alguém se distrai e deixa cair seus exércitos no chão. A caixa se espatifa e voam pecinhas verdes por toda varanda da casa. Todo mundo ajuda a juntar. O ladrão se aproveita e coloca 10 exércitos em Madagascar. Passadas várias horas de jogo a situação está tensa. O casal já não se fala há muitas rodadas. Todos os participantes estão cansados e mais longe dos seus objetivos do que quando o jogo começou. Apesar de suas artimanhas, o ladrão não tem tido sucesso nas conquistas e não está melhor que os outros.

 

Principiante: – Minha vez de jogar. 3 contra 1 nesse país aqui.

Namorado: – Aí não pode. Não faz fronteira.

Principiante: – Ah, é? Então nesse outro aqui (arremessa os dados amarelos por engano).

O Surfista, que já foi zen, perde a paciência e começa a esganar o principiante aos gritos.

Surfista: – Os dados amarelos são pra defender, entendeu?! Pra defender!

 

O casal também começa a discutir asperamente e ela joga na cara dele que já o traiu com o Beto e que não se arrepende. Ele fala que isso não é nada. Pior fez ele que a traiu com a Sílvia, a Tâmara e a Lúcia. Nesse momento o ladrão já mexeu tanto no tabuleiro que está quase conquistando o mundo. Você, puto, dá um bico na mesa e joga tabuleiro, cartas, peças e tudo mais pelos ares. A namorada (e anfitriã), aos prantos, expulsa todo mundo de sua casa. Você vai embora aliviado e feliz.

 

Alguns dias depois, você encontra o namorado da dona da casa. Ex-namorado, ele faz questão de esclarecer. Ele dá a notícia que o cachorrinho da ex-namorada, um poodle-toy, faleceu engasgado com uma peça de 10 exércitos no dia seguinte ao jogo. Vocês conversam sobre a partida disputada dias antes e prometem que nunca mais jogariam aquilo. “É uma guerra, meu amigo. Uma guerra”. Depois você fica pensando no cachorro falecido. Vítima civil de uma guerra que não era dele. Pois é, cada guerra tem as vítimas que merece.