UMA HISTÓRIA DA JOVENS ESCRIBAS – Parte 03 – É Tudo Mentira e os 40 leiautes!

 

6 Capa É Tudo Mentira FECHADA

Quando finalmente chegou a hora de publicar o segundo livro da coleção de 4 obras lançadas via lei de incentivo, eu já havia terminado de escrever um segundo volume de crônicas.

Só relembrando um pouco: a ideia original era que os livros de estreia de Patrício, Daniel Minchoni, Thiago de Góes e meu fossem lançados dentro de uma mesma coleção. Porém, devido à demora natural do processo de inscrição, aprovação, captação e execução do projeto, acabei bancando meu primeiro livro (“Verão Veraneio”) com investimento próprio e a coleção já saiu com meu segundo livro fazendo parte.

A coleção, então ficaria:

– Lítio – Patrício | – É Tudo Mentira – Carlos Fialho | – Contos Bregas – Thiago de Góes (falarei sobre no próximo texto) | – Escolha o título – Daniel Minchoni (falarei sobre em texto posterior)

O nome escolhido para o livro foi “É Tudo Mentira! – Histórias Inverídicas de um Autor Falso e Fingido”. Coloquei este título porque muita gente não havia entendido que as histórias narradas em “Verão Veraneio” eram ficção, acreditando tratar-se não só de causos reais como ainda por cima ocorridos comigo. Então, as pessoas chegavam pra mim perguntando com quem tinha ocorrido determinada história, qual amigo ou conhecido havia protagonizado tal episódio ou como eu reagi quando aconteceu dado infortúnio narrado nas crônicas. Em face disto, acreditei que nomeando o livro como “É Tudo Mentira!” já estaria resolvendo um problema na fonte.

Os textos que compunham o livro eram frutos da empolgação resultante do lançamento de “Verão Veraneio”. No período compreendido entre os dois lançamentos, de fevereiro de 2004 a fevereiro de 2006, mergulhei de cabeça na leitura e na descoberta de novas referências literárias, acabando por me sentir muitíssimo estimulado a escrever novas crônicas e contos. Para se ter uma ideia, no ano de 2005, li exatos 50 livros.

A leitura incessante é, sem sombra de dúvidas, o melhor combustível para um escritor. Se forem assimilados os conteúdos de bons livros, processados de acordo com a compreensão de cada um, os autores destas obras se tornam as maiores fontes de inspiração para um jovem autor produzir ele próprio suas narrativas curtas e longas. A boa leitura funciona como uma torneira aberta, enchendo fartamente nossas mentes de possibilidades de escrita. Se mantivermos o fluxo da água, em algum momento é inevitável que transborde, derramando sobre uma tela ou folha em branco tudo o que estava esperando para vir ao mundo.

Essa compulsão pela leitura de bons livros foi decisiva na melhoria da qualidade dos meus textos com relação ao livro de estreia. Podia até não transparecer, mas bebi muito em textos de escritores que conheci naquele intervalo de 2 anos. De Douglas Adams, passando por João Ubaldo Ribeiro, Monty Python e Rubem Fonseca, tudo o que eu absorvia acabava compondo os textos que produzia.

O resultado foi um livro que me dava orgulho de ter escrito: era divertido, sagaz, inventivo e repleto de personagens muito bem acabados. Não que eu já não gostasse de “Verão Veraneio”, mas eu me sentia feliz por perceber um avanço tão nítido. O primeiro era um bom livro de fundação da carreira e o segundo reunia o que de melhor eu era capaz de escrever à época.

Terminada a escrita, era preciso cuidar da capa. A ideia era representar o máximo de situações presentes nas crônicas em estilo cartoon como nos livros da série “Onde está Wally?”. O ilustrador escolhido foi um jovem publicitário e artista promissor que depois acabaria virando médico ortopedista: José Gercino Cabral. O trabalho ficou perfeito, primoroso até, exatamente como havia sido imaginado.

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Ilustração Original de Dr. José Gercino Cabral

A direção de arte do livro marcaria o início de uma parceria duradoura, ficando a cargo do designer Danilo Medeiros. E a revisão foi feita pela jornalista Mariana do Vale que acabaria se consagrando como fotógrafa. Enquanto Danilo e Mariana trabalhavam no livro, fui cuidar da campanha de divulgação. Eu havia pensando numa ação bastante ousada (e trabalhosa) que precisava ser colocada em prática imediatamente para ser executada.

Naquele tempo, eu havia me convertido em um dedicado profissional da área de criação publicitária. Trabalhava na Art&C e acumulava prêmios de criatividade, além do apreço dos meus colegas de profissão em função de uma série de competências essenciais que iam de trabalhar bem em equipe até conceber campanhas eficazes e entregues no prazo. A reputação gerou sondagens de outras empresas e até propostas para me tornar diretor de algumas delas, todas recusadas, uma vez que eu estava feliz no emprego que tinha. Trabalhava até tarde costumeiramente e fazia serão nos fins de semana sem reclamar. Fazia questão de participar de reuniões com clientes para ajudar na aprovação das campanhas, também ia pros sets de filmagem ver a produção dos comerciais ou nas produtoras de áudio para orientar as gravações de spots.

Eu gostava daquilo, respirava trabalho e queria fazer bem feito. A recompensa vinha não só através da remuneração, mas na oportunidade que a profissão de publicitário me deu para conhecer toda uma infinidade de pessoas multi-talentosas. Dentro de uma agência, você conhece pessoas que têm habilidade para se expressar (executivos de conta), conhecimento de números (departamento financeiro), estatísticas e dados (mídia), resolvedores de problemas (produção), artistas visuais (diretores de arte) e gente que sabe escrever bem (redatores). Sem falar nos terceirizados: músicos, diretores de filmes, atores, toda uma infinidade de pessoas interessantíssimas que lhe trazem novos aprendizados e tornam esta profissão em algo muitíssimo compensador.

E, no meu caso, trazia também muitas amizades e rede de contatos que seria imprescindível para que os lançamentos de livros bombassem. Como eu era solteiro, também costumava frequentar muitos eventos do mercado, aniversários de colegas, confraternizações de fornecedores, forjando laços mais fortes de amizades lubrificados com cerveja e reforçados com demonstrações de admiração mútua.

Aliás, posso dizer que tudo na minha rotina profissional influenciava a nova realidade de escritor. A atividade diária de redator tornava o ato de escrever muito natural e eu acabava por produzir textos em boa quantidade; o reconhecimento profissional por parte de colegas e chefes me davam autoconfiança que me levavam a perder o medo de expor minha obra, publicar livros, etc; e as muitas amizades adquiridas também seriam importantes para que houvesse leitores.

A tal da ideia ousada que tive para a campanha de lançamento de “É Tudo Mentira!” se prevalecia desta boa rede de relacionamentos estabelecida. Consistia basicamente em pedir favores a 40 amigos diretores de arte. Cada um deles receberia o trecho de uma crônica do livro e faria um leiaute que tivesse a informação: “É Tudo Mentira! – crônicas de Carlos Fialho – Lançamento em 10 de fevereiro de 2006”.

E assim foi feito. Todos os profissionais convidados aceitaram o pedido. Fiz um cronograma de envio das artes por e-mail para minha lista de contatos, além de postar nas embrionárias redes sociais de então. Para aproveitar todas as artes, tive que começar a divulgação uns 2 meses antes do lançamento. O buzz causado, sobretudo no mercado publicitário natalense foi ótimo para deixar o livro, o evento e o autor em evidência. Como se tratavam de artes assinadas por profissionais reconhecidos, as pessoas ficavam curiosas para saber quem seria o artista do dia seguinte. Vários destinatários colecionavam as artes e salvavam em pastas de seus discos rígidos. Era um dos assuntos mais legais das rodas de conversa, atraindo interessados pelo livro que seria lançado dali a algumas semanas.

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Arte de Daniel Duarte

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Arte de George Rodrigo

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Arte de Joca Soares

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Arte de Renato Quaresma

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Arte de Sílvio Augusto

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Arte de Simone Lagares

A meta era vender mais que os 163 exemplares comercializados na estreia, quando “Verão veraneio” atingiu tal índice. Com a repercussão da campanha, eu acreditava piamente na superação desta marca.

Deu certo.

Houve um pequeno aumento, mas suficiente para me deixar feliz: 170 livros vendidos.

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Mais um sucesso construído a muitas mãos, impulsionado pelas dezenas de diretores de arte que contribuíram e realizado pelos profissionais que tornaram o livro possível, além da Art&C e da Lei Djalma Maranhão que bancaram a brincadeira.

O “É Tudo Mentira!” abriu muitas portas para este autor. Foi lançado em Mossoró, São Paulo, Belo Horizonte e João Pessoa, além de responsável por convites para eventos literários como o Encontro Natalense de Escritores (RN), Fliporto (PE) e Balada Literária (SP).

O livro também foi muito bem aceito pelo público, aumentando minha base de leitores para além dos limites da amizade e parentesco, mudança que eu sentiria nitidamente no lançamento do meu livro posterior, 3 anos depois. Muitos jovens e adultos adoraram os textos.

Porém, a despeito do nome, o que mais aconteceu foi gente que chegou pra mim dizendo: “entendi sua jogada. O nome do livro, “É Tudo Mentira!”, é uma ironia porque o conteúdo que está lá é todo verdade, né?”

Eu não dizia nada. Respirava fundo e sorria. Fazer o quê?

NO PRÓXIMO TEXTO: CONTOS BREGAS – A MPB DE THIAGO DE GÓES

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