Coluna do Novo Jornal – 115 – 17.11.2012 – Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

julho 25, 2014

Em 2010, criei os personagens Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”. A ideia era fazer uma sátira ao universo do Direito e a uma certa tendência ao tecnicismo que leva muitos advogados e juristas a desenvolverem a arte de “falar, falar e não dizer nada”. Na época em que publiquei esta crônica, houve até quem se ofendesse, um senhor que me seguia no Twitter, de nome Carlos Lineu, quis rodar a baiana, promovendo um mini-escândalo em 140 caracteres, mas sua meia dúzia de seguidores não lhe deu ouvidos.

Até porque, o escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” veio pra ficar, construindo uma história bem sucedida de êxitos jurídicos (quer dizer, nem tanto, mas pelo menos eles disfarçam para manter a boa reputação).

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Pinto & Rêgo Advogados Associados: o pleito da OAB.

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Caiu como uma bomba no meio jurídico a notícia de que Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo, os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”, os mais destacados e brilhantes advogados da cidade formariam uma chapa a fim de pleitear a presidência da OAB. Mesmo com outros dois grupos na disputa, já formados há tempos, com suas candidaturas consolidadas e estratégias em progresso, eles resolveram arriscar, afinal de contas, a presidência da entidade confere a seu ocupante um status de autoridade na sociedade civil, alguém a ser consultado, ouvido e muito respeitado pelos cidadãos. Faz bem à imagem projetada junto ao público externo e também à imprensa, massageia o ego, atrai atenções e olhares, pode gerar novos negócios e muitas oportunidades. Ah, e tem também o fato de fazer bem aos demais, lutar pelos direitos e prezar pelo cumprimento das leis e tal e coisa. Aliás, pelo que andam dizendo, foi mais por essa parte de praticar boas ações e beneficiar a sociedade que os bem sucedidos homens da lei decidiram abraçar mais essa causa. Nada a ver com todo esse lance de poder e vaidade.

A inscrição da candidatura foi feita com êxito. Chapa 3. O embate seria travado contra as de número 1 e 2 e o desafio seria convencer a maioria dos que contavam com registros na entidade a optar por eles. A tarefa não parecia tão árdua se levarmos em conta que os sócios são verdadeiramente admirados pelos inúmeros jovens advogados recém formados. É prudente dizer que o enorme contingente de egressos dos cursos de Direito da cidade, algo equivalente à metade da população universitária natalense, votaria em peso nos doutores Giovanni e Adriano. Afinal, existe praticamente uma faculdade de Direito por esquina, pelo menos nos principais bairros ou nos cruzamentos mais movimentados. Cada uma delas com centenas de alunos encantados pelo charme e capacidade destes autênticos ídolos profissionais.

No entanto, os prolixos e abnegados candidatos não contariam com esta consagradora adesão eleitoral, já que pouquíssimos daqueles formandos conseguiam a aprovação no exame da ordem, que concede o direito a votar nas eleições da entidade. A saída, portanto, seria persuadir os advogados mais experientes a optar por eles e não por nenhuma das chapas cujas campanhas já se encontravam a todo vapor em articulações de bastidores e conversas reservadas nos muitos escritórios e antessalas, nas comarcas, nos corredores dos tribunais e, é claro: nas varas.

Mais uma vez, nossos destemidos protagonistas tinham diante de si um árduo desafio e contavam com sua mais mordaz habilidade para superá-lo: a retórica. Gastariam saliva para reverter situação tão desfavorável, mas estavam prontos e dispostos para enfrentar a difícil caminhada rumo à consagradora vitória final. Na entrevista em que anunciou ser candidato, o Dr. Pinto, com o Dr. Rêgo à sua retaguarda, declarou: “A fim de que não imperem as iniquidades e que não se perpetuem as nulidades vis e abjetas, não me resta outra opção que não seja negar-me a permanecer em estado de negação, inércia e comodismo extremos, enquanto a necessidade premente de minha classe clama por ação e iniciativa da parte daqueles em cuja confiança deve ser depositada, não obstante os imensuráveis muros que se erguem pelo caminho, convertendo-se em quase intransponíveis obstáculos contra os que lutam sem cessar pela justiça e exercício pleno da cidadania junto à coletividade e à comunidade advocatícia, provocando, no entanto, nada mais que o irrefreável ânimo dos que lutam por um ideal, conservam evoluído espírito público e aceitam de bom grado travar o justo combate, ontem, hoje e sempre. Data vênia!”

O jornalista Carlos Viktor Duarte Assunção escolheu como título para a matéria: “Datíssima Vênia!” No texto da matéria, cheio de picardia e a malemolência do jornalismo moleque brasileiro, escreveu que o postulante a presidente “não disse nada, mas falou bonito.” Muitos advogados que leram as páginas do jornal riram do pobre periodista que não contava com suficiente envergadura intelectual para alcançar o elevado vocabulário do reputado jurista nem conhecimento que bastasse para compreender em toda sua amplitude a levemente complexa e bem articulada linguagem utilizada pelo colega Giovanni. O que os homens e mulheres das leis evitavam comentar entre si, por pura vergonha, era que eles próprios não haviam entendido nada das palavras do candidato, mas ficava feio admitir. Alguns se sentiam, inclusive, inclinados a votarem na Chapa 3 com medo de, caso não o fizessem, as pessoas pensassem que eles não haviam compreendido a declaração, mesmo o voto sendo secreto.

Para dar conta da campanha, uma boa assessoria de imprensa e reconhecida agência de propaganda foram contratadas. Não havia jornal sem anúncio da Chapa 3, nem colunista sem notas (com duplo sentido, faz favor) a registrar ou blogueiro sem postagem positiva e elogiosa. A cidade também foi amplamente ornada com adesivos que ocupavam os vidros traseiros de ônibus e carros. As redes sociais, como Twitter e Facebook, também entraram no clima de campanha, com os usuários (muitos alunos das faculdades onde eles lecionavam e estagiários do escritório) divulgando os enormes dotes de Pinto e a impenetrável firmeza de Rêgo.

A estratégia de discurso seguia duas linhas distintas e complementares: além de alardear aos eleitores suas muitas e evidentes qualidades, que lhes conferiam (ou deveriam) inegáveis vantagens, uma tática que se fez usual foi o ataque aos adversários diretos, no caso, os componentes das outras chapas. Valia tudo. Se alguém descobrisse que o candidato a diretor de recreação de uma das outras chapas nunca havia logrado êxito em promover festas e que, numa malfadada despedida de solteiro que organizara para um amigo de infância, a coisa mais gostosa que os convidados comeram foi uma pizza de calabresa do Habib’s, já pipocavam as denúncias “anônimas” por e-mail e as postagens maliciosas nas redes virtuais e blogue$ amigo$. O raciocínio era de que uma pequena sujeira na imagem dos adversários funcionariam como uma mão de cera extra em suas já brilhantes e irretocáveis reputações.

O clima anda quente entre os profissionais da área. A data do pleito se aproxima e este é aguardado com grande ansiedade por toda a classe. É verdade que eles imaginam que tal expectativa contagia toda a cidade, mas sabe-se que, entre as pessoas comuns, que não cursaram Direito nem vivem o dia a dia da mais chata e insípida das carreiras, os advogados valem tanto quanto qualquer outro cidadão. Com ou sem repercussão, no entanto, a eleição se aproxima e, segundo os mais confiáveis institutos de pesquisa da capital, a Chapa 3 desponta como uma das favoritas (no mínimo, fica em terceiro). É esperar para ver. Comenta-se que eles negociam acordos de bastidores para retirar a candidatura na véspera da votação em favor de uma das outras duas concorrentes. Mas “tudo dentro da mais estrita legalidade e total lisura, imbuídos de genuíno espírito cívico, democrático e republicano.”, disse o candidato a vice, Adriano Sérgio Rêgo. Para depois concluir: “Data máxima vênia!”

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Coluna do Novo Jornal – 114 – 10.11.2012 – Foca, Ana e o Festival Dosol

julho 23, 2014

Esta é uma “crônica exaltação”, uma espécie de elogio em forma de texto que sempre faço a pessoas que realizam trabalhos edificantes e valiosos, ilhas de empreendedorismo cultural e humano em meio a todo um oceano de mediocridade que insiste em nos rodear e pilhar quaisquer indícios civilizatórios com um tsunami de chorume e burrice endêmica.

Ana e Foca não são assim.

ainda bem.

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Foca, Ana e o Festival Dosol

Ana e Foca

Foca e Ana na frente do Centro Cultural Dosol – foto Tribuna do Norte.

Hoje é um dia muito importante no meu calendário pessoal, cultural e de lazer. Terá início em Natal mais uma edição do Festival Dosol, celebração musical que vai além do mero entretenimento vazio de outros eventos anuais que recebem vultosos investimentos públicos sem oferecer à cidade seque ruma mísera fração do que o Dosol nos devolve em contrapartida a sua realização. Em dois dias de apresentações, dezenas de bandas, muitas delas locais, passarão pelos 2 palcos da Rua Chile.

Vários dos rapazes e moças munidos de guitarras, baquetas ou simplesmente de suas vozes foram doutrinados e tiveram suas bandas “incubadas” a partir da estrutura e estratégia montada pelo casal à frente do Dosol, Ana Morena Tavares e Ânderson Foca. A combinação selo musical, estúdio para ensaio e gravação, Centro Cultural para apresentações e um longevo e respeitado festival anual, promovendo intercâmbio com bandas de outros lugares, além da oportunidade de tocarem para uma plateia ampla, faz com que surjam novos grupos, gente tocando e compondo música autoral, dando vazão a todo um potencial criativo represado e que encontra no Dosol uma maneira de extravasar seus dotes artísticos de uma forma mais construtiva do que simplesmente pegando uma latinha e batendo uma na outra: tchá, tchá!

 

ATENÇÃO: INTERROMPEMOS ESTA COLUNA PARA UMA BREVE REFLEXÃO!

Aqui cabe uma reflexão que não me canso de propor. O trabalho colaborativo do Dosol tem beneficiado a cultura local ao promover a formação de público para a música autoral, dar a oportunidade de artistas amadurecerem e desenvolverem suas habilidades. Tudo isso numa região da cidade que permite não infernizar a vida de nenhum dos seus habitantes. Em resumo: os benefícios gerados são divididos entre muitos. Em contraponto, o que foi que o Carnatal gerou além do enriquecimento de alguns empresários como Paulinho Freire e os donos da Destaque? Alguém conhece uma banda local surgida a partir do evento festivo puxado por trios elétricos? E nem me venham com a história de que ele gera trabalho e renda, pois as migalhas que acabam caindo nas mãos do povo são pouco menos que uma mísera esmola diante dos milhões em dinheiro público embolsados pelas empresas promotoras. Isso num evento que cobra centenas de reais por cada dia de folia, altamente rentável e, certamente, autossustentável. Na boa, o maior legado dos 4 dias de folia é o cheiro de mijo que impregna nossos narizes na segunda pós-evento.

AGORA VOLTAMOS A NOSSA COLUNA NORMAL.

 

O grande mérito do festival ribeirinho é não sucumbir à armadilha fácil que captura 9 entre 10 natalenses, o lugar-comum do “se dar bem sozinho”, do “farinha pouca meu pirão primeiro” e do egoísmo de ocasião (qualquer ocasião) que impera na cidade. O voluntarismo da trupe roqueira não é exclusiva deles. Podemos perceber também em iniciativas admiráveis como a Casa da Ribeira, o Clowns de Shakespeare e diversas outras. É esse perfil generoso e colaborativo que está por trás do crescimento do evento e da expansão para Mossoró, Caicó e São Paulo de Piratininga. Obviamente, tudo é fruto de muito trabalho e de uma persistência quase obsessiva que percorreu os anos. Posso afirmar com conhecimento de causa, uma vez que fui testemunha ocular da história de Foca desde que ele era apenas um esforçado pegador de ondas vindo do Pará.

Conheci Ânderson através de dois amigos em comum, Caio Vitoriano e Leonardo Medeiros, em um dezembro qualquer dos anos 1990. Naquela estranha e derradeira década do milênio passado, ele era um dos caras que proporcionaram com que se pudesse sair por aí para ouvir algo além do ritmo preferido dos natalenses, o forró-pagode-axé. Eram anos estranhos e algumas válvulas de escape pop respondiam por “Banda Officina” e “Inácio Toca Trumpete” (de Karol Polsadski), além dos ótimos “Mad Dogs” dos ídolos supremos de várias gerações: Paulo Sarkis e Fernando Suassuna.

Quem também fazia parte da “Officina” era Ana Morena. Em meio a uma cidade monocultora por convicção, o casal e seus colegas de banda conseguiam viver de Pop-Rock com bons vencimentos a cada mês. Isso mostrava um lado empreendedor bastante apurado e uma firmeza de propósitos de quem realmente queria atingir seus objetivos. Em que pese eu acompanhar os shows como amigo dos vocalistas, o que me converteu em fã de ambos foi o trabalho árduo à frente do Dosol, iniciado anos depois. Foi ali que eles me convenceram da importância do que faziam, ganhando pontos e estrelas no boletim hipotético no qual emitimos notas mentais e julgamos todas as pessoas que conhecemos em nosso inconsciente.

Com a abnegação, sacrifícios e conquistas obtidas, Ana e Foca evoluíram na classificação de amigos para essas pessoas que a gente tem orgulho em conhecer. Subiram o elevador no meu conceito em virtude de um trabalho notável, colocando Natal entre as cidades onde acontecem coisas boas, que recebem bons concertos de cultura alternativa, por onde passam bandas legais que gostaríamos de ver ao vivo.

Todo mundo deve ter alguém com história semelhante. Um cara que se conhece há tempos e que prospera, vence, se destaca, faz e acontece, nos deixando felizes, como se também fizéssemos parte, de alguma forma, das façanhas empreendidas. Em mim, gera uma sensação boa, pois gosto de verdade de acompanhar o êxito dos amigos. Como fiquei em 2007, quando o festival perdeu o patrocínio devido às jogadas do Governo do Estado e da Fundação José Augusto e mesmo assim ele realizou o festival com mais de 50 bandas, muitas tocando de graça, na brodagem, pra ajudar diante da situação difícil. Vários grupos hospedados em casas de amigos.

E agora chegamos a 2012. Mais uma edição do Festival Dosol tem início. É hora de celebrar o fato de um trabalho persistente, bem feito, prospere e faça tão bem à cidade e sua cena cultural. Todas as iniciativas do Dosol representam uma vitória contra o marasmo, a mesmice, a mediocridade e a estagnação. O sucesso da dupla organizadora e de suas invenções é também uma prova que boas coisas nascem, crescem e prosperam nesta acéfala e ensolarada capital potiguar.

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Coluna do Novo Jornal – 113 – 03.11.2012 – O chato

julho 21, 2014

No dia 03 de novembro, publiquei uma releitura de um texto antigo, no qual eu traçava um perfil de um chato fictício, mas bastante plausível, pois todos nós temos os nossos demônios em versões de amigos que cruzam nossos caminhos e são, convenhamos, chatos pra caralho. Alguns podem ter notado a omissão da coluna de número 112, publicada em 27 de outubro de 2012, mas como o tema era política, preferi não republicar para evitar que ratos e moscas sectários venham ao blog deixar seus fétidos e estúpidos comentários. Pois estes sim, são chatos de verdade!

Agora, divirtam-se com o chato.

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O chato

pentelho

Você conhece o chato. Na verdade, você é íntimo dele. Ele lhe acompanhou em todos os momentos de sua vida, desde a mais tenra infância até a decrepitude que vem com a idade. Foi ele que deu aquela ideia idiota de se inscrever na quadrilha do jardim 2 mesmo sem que vocês soubessem dançar. Aí você foi, passou aquela vergonha na frente de todo o colégio, dos seus familiares, das meninas do jardim da infância (mesmo que naquela época você não ligasse pra elas) e depois ainda tentou minimizar o caso dizendo “Veja bem…” O chato sempre começa suas explicações com um “Veja bem”. E como demoram as explicações do chato.

Aliás, se você deixar o chato começar a falar, é melhor sair correndo imediatamente. Quando ele começa, não para. Nunca. Além de tratar de assuntos totalmente irrelevantes para qualquer ser humano com cérebro maior que o de um calango, eles costumam ser muito abertos ao monólogo. Se eles começam a falar da nova temporada da série mais bestalhona da TV ou do último vídeo game que acabou de sair, despeça-se do seu bom-humor por aquela noite. E mesmo que você tente dar sinais de que não é muito adepto daquele assunto ou está pouco à vontade com aquele papo, ele vai continuar exibindo todo o seu conhecimento sobre a musicografia da Madona. E nem adianta olhar no relógio a cada 5 segundos. O chato não entende indiretas.

Inconveniente ao extremo, ele chega sempre na hora errada. Sabe naqueles domingos em que você quer ficar em casa sem encontrar viv’alma? Aqueles feriados em que só pretende descansar e se preparar para o próximo encontro com os demais seres humanos? Pois é. Precisamente neste dia, ele aparece para fazer uma visita surpresa e, pior, cheio de novidades pra contar! Quando você está com sua namorada ou amigos ou mãe, e ele surge do nada, como um ninja em meio à fumaça, num restaurante, ou barzinho, ou supermercado, diz coisas constrangedoras a seu respeito, revela um apelido oculto, estraga o seu dia como só o chato sabe e é capaz de fazer.

A inconveniência do chato está ligada à ausência de desconfiômetro de que ele sofre. O chato não se liga, não se toca, não toma semancol. Ele fala de assuntos desagradáveis sobre os quais você não quer ouvir, como a eliminação do seu time, ou lembra o quanto você está gorda. Aliás, ele não só cita esses assuntos, como insiste no tema. Discorre longamente sobre sua calvície ou de como você precisa de uma plástica no nariz urgentemente.

O chato discorda de você em todos os assuntos. Ele tem opiniões fortes sobre tudo e, claro, são todas estúpidas, absurdas, inconcebíveis. Mas não adianta tentar discutir com ele. É inútil. O chato de verdade não lhe deixa completar seus raciocínios, exibir seus argumentos. Aliás, é impossível sequer conversar com ele. O chato adora interromper.

Ele sempre tenta se passar por sério, brinca de ser importante, insiste em ser adulto, mesmo que só tenha 11 anos de idade. É aquele que lhe encontra nos lugares e, sempre que há testemunhas, lhe diz: “Cara, precisamos conversar!” Se um dia você o pressionar e tentar saber dele o que tanto ele tem pra conversar com você, não vai descobrir nada. Ou então ele vai passar a destilar uma teoria tão difusa e tangente, desprovida tanto de sentido como de pertinência que você se arrependerá de ter perguntado por 8 gerações.

Quando um chato DDD (que vem de outro Estado ou cidade) se hospeda em sua casa, tenha a certeza de que vai viver os piores dias da sua vida. Dia desses recebi um destes e posso assegurar-lhes que vivi as 36 horas, 12 minutos e 23 segundos, mais longas de toda a história da humanidade. É que o meu amigo chato tinha o poder de transformar instantes em intermináveis sucessões de constrangimentos.

Pra começar, ele usava o banheiro 4 vezes por dia para fazer na privada aquela outra necessidade fisiológica que não é o xixi. E deixava o banheiro completamente empestado a cada nova utilização de uma forma que o Potengi ia parecer perfume francês. Outra peculiaridade dele era sua idolatria por Hilda Hist. Até aí, tudo bem, o problema era fazer questão de dividir sua devoção com o mundo, declamando de cor textos inteiros, por mais longos que fossem. Mas o pior era que essa não era uma exclusividade de Hilda Hist não. Esquetes da TV Pirata, aulas do programa Vestibulando sobre índices pluviométricos, músicas do Rolling Stones. Tudo, ele sabia de memória e citava sempre que podia. E não adiantava dizer um trecho só não. Tinha que ser tudo!

E mesmo com tanto conhecimento profundo a respeito de tudo isso, o chato é incapaz de executar as tarefas mais simples como ligar o computador da sua casa ou abrir a mala do carro. E é para ajudá-lo com tais ações que ele decide lhe acordar às 6 da manhã de um domingo, sem fazer a menor ideia de que está incomodando.

O chato não come verdura, mas só lhe avisa depois que você, cheio de boa vontade e ótimas intenções, serviu o seu prato. Ele olha contrariado para aqueles pedaços de tomate, cebola e pimentão, com um suplicante olhar de vítima e diz condescendente: “Não tem nada não. Pode deixar que eu tiro as verduras”, fazendo você se sentir culpado como se fosse mais terrível que Hitler, Paulo Queixada e Micarla juntos! Então ele retira as verduras e mastiga ruidosamente de boca aberta. Durante a refeição ele faz questão de conversar sobre os seus problemas de furúnculos, a cirurgia de redução de estômago de sua namorada e um conto do Rubem Fonseca chamado “compromancia”.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o chato não é um cara antipático. Ele é animado e alegre. Até demais. Ri alto e de qualquer besteira. E ri das próprias piadas também, muito, mesmo que elas não tenham a menor graça e nem façam nenhum sentido. E é exatamente assim que elas sempre são. A simpatia do chato é irritante. Faz você querer esganá-lo ou beber veneno, o que estiver mais ao alcance para o momento.

No entanto, você não pode matar o chato. Na verdade, você não consegue sequer ser grosseiro com ele. É que você é refém dele. O chato é, apesar de tudo, o cara mais prestativo do mundo e você deve, no mínimo, um grande favor a ele. Foi o chato que passou 2 dias na fila, tomando chuva, sereno e sol na moleira para comprar os 2 últimos ingressos do show da sua banda preferida. E é nesse episódio de um passado remoto que você pensa antes de partir a cabeça dele com um machado. É no ingresso, no sacrifício, no favor que você pensa sempre que vai empurrá-lo de uma sacada alta ou mandá-lo calar a boca. É aquele favor que ninguém mais no mundo quis fazer por você que lhe mantém irremediavelmente ligado ao chato e que o faz ter certeza de que ele vai lhe acompanhar até o ocaso da vida. É difícil admitir, mas essa é a verdade. Por mais chato que isso seja pra você.

Coluna do Novo Jornal – 111– 20.10.2012– É comigo?

julho 17, 2014

Vamos pular a coluna de número 110, pois ela tem um viés político que iria certamente atrair olhares contaminados pelo chorume partidário que já ronda nossas TLs neste ano eleitoral. Passemos então à coluna de número 111, publicada em 20 de outubro de 2012.  Na crônica “É comigo?”, brinco com a dificuldade que os homens têm em entender indiretas. Gosto dela. Ficou leve e divertida.

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É comigo?

Nesta foto, podemos observar uma expressão típica da incapacidade masculina de compreender uma indireta.

Nesta foto, podemos observar a típica expressão de um homem incapaz de compreender uma indireta.

Com a popularização da Internet e o advento das redes sociais, diversos dos nossos hábitos migraram das relações face a face para o ambiente virtual disseminado em lares e escritórios por detrás de telas de cristal líquido e mediante teclados físicos ou projetados em superfícies sensíveis. Porém, apesar de os novos instrumentos funcionarem como catalisadores de relações, acelerando sobremaneira o ritmo com que espalhamos as informações, o comportamento não mudou tanto assim. Nossos jovens e adultos conectados ainda paqueram, conversam, trocam ideias, fazem piadas, ofendem-se, chateiam-se, pedem perdão, fazem as pazes e têm as mesmíssimas sensações dos últimos 10 mil anos, quando deixamos as cavernas e decidimos que não haveria mais fronteiras entre nós e o tão vasto mundo a nossa espera. Das pinturas rupestres para o iPad 3 foi um salto e a verdade é que, tirando o tamanho da tela, pouca coisa mudou.

Um bom exemplo disso é o ancestral costume de dizermos indiretas uns para os outros. Sempre que um grupo de seres humanos se reúne em um ritual, qualquer que seja, de animados churrascos a malogradas reuniões, ela surge do nada, provocando uma reviravolta no ambiente, mandando o clima de aparente normalidade para o espaço e sacudindo o ânimo dos presentes com a força de um furacão de nome exótico. É verdade que muitas são positivas, como elogios enviesados ou cantadas dissimuladas que se utilizam de discrição para conferir maior charme à abordagem amorosa.

Entretanto, as grandes indiretas que abalam estruturas, que roubam nosso chão, que derrubam queixos e reputações, não tem jeito, são agressivas, cáusticas, críticas, venenosas, ferinas e impactantes. São elas que mudam a história da humanidade, destroem relações, acirram disputas entre concorrentes, transformam simples adversários em inimigos mortais, criam frases de efeito capazes de entrar nos anais do imaginário popular ou habitar nosso inconsciente coletivo. Geralmente, elas são melhor proferidas por gente com talento para a atuação. Uma boa indireta que se preze, para alcançar o efeito desejado, deve ser dita ou escrita com os olhos semicerrados, um leve sorriso malicioso no canto dos lábios e uma das sobrancelhas levemente arqueada. Todo cuidado é pouco, pois há os que dosam mal o tom e, em vez de soltar uma boa indireta, acabam por acertar um direto no queixo retórico no receptor desprevenido.

O fenômeno que podemos perceber nos sítios de relacionamento internéticos é que, devido ao voluntarismo de tais endereços eletrônicos e a espontaneidade estimulada pelo espírito do compartilhar, curtir, expressar-se e revelar ao mundo uma persona autêntica e descolada, a prática geral e irrestrita das indiretas virtuais pululam na rede mundial de computadores, tablets, smartphones e afins. Hoje em dia, basta acessar um Facebook e Twitter da vida para ler coisas como: “há empresas que cumprem o que prometem, enquanto outras demoram a entregar a compra, não é mesmo, Ponto Frio?” Quando leio algo assim, posso até imaginar a pessoa do outro lado dando uma rabissaca (é assim que se escreve rabissaca?).

Alguns utilizam os sites para dar recados sinuosos para desafetos, colegas de trabalho, familiares e amigos com quem estejam brigados. São as clássicas frases que contém a expressão “certas pessoas…” Podem prestar atenção. É batata! Tão lugar-comum quanto entrevistas de Carnatal, aqueles cujas perguntas sempre começam com “E aí?”, enquanto as respostas principiam em “Com certeza!” É mais ou menos assim: “Tem certas pessoas que ficam enrolando o dia todo no trabalho enquanto poderiam render mais para a empresa.” Ou ainda: “Eu ajudo a organizar a festa de Natal da família, ao contrário de certas pessoas…”.

As indiretas amorosas também estão em alta nesses loucos tempos de autoafirmação. Reparem que basta um casal se separar para ambos os lados iniciarem a postagem indiscriminada de fotos felizes, tentando transmitir ao mundo como eles estão bem, quando, na verdade, tudo não passa de um expediente barato para mostrar ao ex que está melhor sem ele.

Outro dia vi um conhecido soltar os cachorros contra um inimigo oculto. Ele dizia, colérico, sem revelar o destinatário da missiva bombástica: “Parabéns, seu sabichão! Você que sabe de tudo mais que todo mundo! Desculpe não dominar tão profundamente todo o conhecimento do mundo como você que é dono da verdade e senhor da razão!” Imediatamente, pus-me a pensar que as indiretas em redes sociais atingem todas as pessoas do mundo menos o verdadeiro alvo do petardo. Se considerarmos que metade dos usuários da rede são do sexo masculino, a situação é ainda pior, uma vez que está provado cientificamente que os homens não dispõem de um gene que identifica indiretas. Homem, simplesmente não entende recados cifrados. Nunca! Não adianta! Sem chance!

Eu próprio sofro bastante ao tentar interpretar as mensagens indiretas que aparecem em minhas linhas do tempo, protagonizando verdadeiros contorcionismos faciais para ver se consigo interpretar o que leio. Minha vontade é perguntar para todos os emissores de alfinetadas: “É comigo?” Diante da impossibilidade de descobrir, relaxo e tento me convencer que o remetente está se referindo a outra pessoa. Tenho, inclusive, pensado seriamente em responder todas as indiretas com as quais me deparar daqui por diante de uma maneira mais explícita. Não vou nem perguntar se é comigo. Mando logo pra PQP e pergunto: “Que porra é essa?! Quer brigar?!”

Coluna do Novo Jornal – 109 – 06.10.2012– O assessor xeleléu

julho 17, 2014

Continuando a sequência de republicações de colunas do Novo Jornal, esta é a de número 109. Tratou de um personagem que atuava nos bastidores da gestão municipal, um sujeito oculto, em elipse na gestão, que teve sua importância, seu valor, deu sua contribuição e quase sai de cena sem ter seus méritos devidamente reconhecidos. Ainda bem que pude reparar este erro e no dia 6 de outubro de 2012, prestei-lhe esta singela e sincera homenagem.

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O assessor Xeleléu

Charge de Ivan Cabral só pra ilustrar a postagem.

Charge de Ivan Cabral só pra ilustrar a postagem.

Com o fim de mais um mandato para prefeito e a despedida precoce (ou abandono puro e simples) daqueles que nunca atenderam ao chamado do povo em gerir a cidade, é chegado o momento de renovar a esperança em mais um pleito, oportunidade que bate à nossa porta a cada 4 anos. Porém, percebo que um personagem em especial corria o risco de ver o seu trabalho interrompido sem receber uma homenagem sequer. Refiro-me a alguém que, desde o período eleitoral de 2008, já atuava decisivamente para o “sucesso” das ações verdes. A coluna de hoje serve para reparar essa injustiça cometida por uma omissão imperdoável da imprensa. Aliás, só posso atribuir tal indiferença à inveja que os jornalistas devem sentir deste profissional abnegado e bem sucedido, que alcançou a enorme projeção tão sonhada por tantos deles.

Há quem afirme, do alto de sua arrogância repleta de preconceitos, que muitos dos acontecimentos de Natal em tempos recentes vão entrar para os anais de nossa história como episódios de uma tragicomédia que não serviria nem para passar no folhetim das 6. Comporiam um enredo mais tosco que aquela novela que misturava androides e dinossauros no interior do Brasil. Tais declarações, certamente fazem alusão a alguns assuntos que tratei aqui como “A secretaria da gambiarra”, ou mesmo a personagens cotidianos como a “Incrível mulher que asfaltou vidas” e o “Assessor segura-bolsa”. Porém, faltava ainda falarmos de um protagonista desprezado, um ser oculto em toda essa algazarra, que vive de sussurros e cochichos em meio à histeria e barulheira dos assistentes mais histriônicos e ridículos vereadores da base de apoio, que tenta manter a discrição e simular alguma dignidade ante a balbúrdia geral que se tornou a administração pública municipal em Natal.

Este personagem de si mesmo, até porque opta por um expediente típico dos humildes: o anonimato (os maldosos dizem tratar-se de covardia), demonstra especial predileção pelo jogo de bastidores, os negócios que não vêm a público, mas que acabam caindo no conhecimento de um e de outro e, com algum esforço e curiosidade, vindo falar aos ouvidos deste colunista verborrágico que clama pela vossa companhia todos os sábados.

Sua trajetória de êxitos começou quando ele criou uma página política que se pautava pelo humor (na falta de uma definição melhor). Segundo um leitor do veículo, “o blogueiro fazia uso de piadas infames, de péssimo gosto e completamente desprovidas de graça, tentando ridicularizar figuras da política estadual”. O internauta, cuja identidade será preservada, avaliou que o titular do endereço eletrônico pecava pela falta de habilidade cômica e também pela redundância, uma vez que os políticos que ele tentava expor ao ridículo já cumpriam esse papel sozinhos. O curioso do sítio era que os aliados de Micarla de Sousa, além dela própria, costumavam ser poupados das pilhérias do aloprado blogueiro desconhecido. O endereço eletrônico que se perdeu no tempo era conhecido como Blogue do Xeleléu e, nas eleições de 2008, foi a principal fonte de informação de muitos eleitores da classe mediana e da elite natalense.

Descobri que o “Xeleléu News” foi retirado do ar depois de ter sido denunciado e investigado pela Polícia Federal. Vejam vocês, mesmo os personagens inanimados têm medo, uma vez que a punição cairia sobre os criadores e não sobre a criatura. Procurei saber algo sobre o blogueiro misterioso para, quem sabe, desvendar sua verdadeira identidade. Consegui diversos relatos de gente que jura de pés juntos saber quem se escondia por trás da URL do Xeleléu. Como não possuo provas de que elas estejam corretas, descrevo algumas atitudes do suspeito para, quem sabe, vocês poderem saber de quem se trata e prestarem homenagens vocês também.

Um jornalista me disse que Xeleléu é um dos assessores mais fieis da atual prefeita, havendo resistido à constante evasão de secretários e assessores, contrariando a tese de que os ratos fogem do navio diante das primeiras dificuldades. Alguns afundam com a embarcação desde que tenham assegurado uma boa reserva de queijo. Um ex-fornecedor da Prefeitura me disse que chegou a trocar correspondências eletrônicas com ele. “Escreve tudo em caixa alta e com muitos erros de português. Não sei onde ele comprou aquele diploma de jornalismo. Só não é pior que a fixação que a própria prefeita tem pelo gerundismo!”, disse-me o rapaz, bastante exaltado.

Outro que me fez relatos sobre o blogueiro, um publicitário conhecido meu, afirmou que, nas reuniões, ele gosta de botar os pés sobre a mesa e que proibia o uso da palavra “problema” no material publicitário da prefeitura. “Não existe problema pra gente, só solução!” Pedi para este comunicólogo dar uma definição sucinta do assessor. Respondeu que o sujeito parece um “cafajeste de novela”. Também ouvi de um profissional de rádio que trabalhou para o assessor que ele não gosta de ser cobrado. “Uma vez, pedi para me pagarem um serviço que eu havia executado havia mais de 2 anos e ele mandou não me pagar pelo atrevimento de eu ter ido cobrar.”

Uma fonte ilustre a que tive acesso, contou-me que uma das maiores frustrações do Xeleléu foi quando uma política famosa recusou-se a cumprimentá-lo por ter sido informado que ele era o autor da página polêmica. Esta mesma pessoa disse também que ele é um dos poucos natalenses que acredita no sucesso da Copa do Mundo por aqui. Até porque, ele tem ótimo$ motivo$ para acreditar. Também soube que, entre várias manias estranhas, estão a confiança cega em juízes de futebol baianos (Eu, hein? Cada louco com sua mania.) e a compra de bens como imóveis e automóveis com valores muito superiores ao seu ordenado.

Amanhã, no dia 7 de outubro, será selado o fim de uma era. O Assessor Xeleléu deixará de existir. Seguirá seu caminho, atuando no mercado privado ou prestando vantajosas “consultorias”. Talvez aceite, inclusive, começar tudo de novo, criando uma página anônima com o fim de esculhambar conterrâneos e, mais uma vez, ascender na carreira da forma como melhor sabe fazer: rastejando.

Aqui, fica meu registro de sua partida e minha sincera homenagem.

Lançamento da JOVENS ESCRIBAS no Rio de Janeiro – 25.03.2014

março 24, 2014

Lanç RJ - Fialho

Amanhã (terça – 25 de março de 2014), a Editora Jovens Escribas vai lançar os livros de 3 autores no Rio de Janeiro. São Eles, Leonardo Panço, Nei Leandro de Castro e Carlos Fialho. O evento faz parte da nossa turnê pelo sudeste em comemoração aos 10 anos de atividades empreendidas por nossa editora e pelo coletivo de autores que arregimentamos em torno dela.

Após um bem sucedido evento em BH no sábado, agora é a vez dos leitores cariocas receberem nossa visita.

Serão levados ao Rio, os livros “Esporro” e “Caras dessa idade já não leem manuais” de Leonardo Panço; “As Dunas Vermelhas”, “Pássaro sem sono”, “O Dia das Moscas” e “50 anos de poesia” de Nei Leandro de Castro; “As maiores mentiras do verão” e “Não basta ser Playboy. Tem que ser DJ!” de Carlos Fialho.

Quem estiver no Rio nesta terça, dá uma passada lá no bar e restaurante DESACATO, no Leblon. Vários escritores e amigos da editora residentes na cidade estarão lá pra prestigiar.

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E quem quiser aproveitar, poderá adquirir os vários livros lançados e vendidos na noite por preços promocionais.

Lanç RJ - Panco Lanç RJ - Nei

 

Lançamento da JOVENS ESCRIBAS em Belo Horizonte – 22.03.2014

março 21, 2014

Atenção, BH! Neste sábado, haverá lançamento duplo da EDITORA JOVENS ESCRIBAS na cidade. Sérgio Fantini e Carlos Fialho estarão juntos lançando, respectivamente, “A ponto de explodir” e “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!”. O público leitor poderá ainda, encontrar todos os livros já publicados pela editora de Fantini, Fialho e de Ana Elisa Ribeiro, autora convidada a conduzir um papo e que também já lançou pela JE.

Apareçam, se forem de BH, ou divulguem para amigos de lá caso conheçam pessoas que gostem de literatura e residam na capital mineira.

O lançamento faz parte da primeira etapa da #JovensEscribasWorldTour que levará autores da editora para lançamentos em diversos estados brasileiros. Ainda neste mês de março, além de BH, eles estarão  no Rio e em São Paulo.

Lanç BH - Fialho Lanç BH - Fantini

Cartaz Promocional - BH - Reduzido

Coluna do Novo Jornal – 108– 29.09.2012 – Jonas Camarão

março 20, 2014

Em 2012, li um romance muito legal: “Cidade dos Reis” (FJA-2012) de Carlão de Souza. Gostei tanto que escrevi a respeito e publiquei em minha coluna no Novo Jornal.

Boa leitura! E, se puderem, leiam também o livro que é bom à beça.

***

Jonas Camarão

Carlão de Souza. Foto: Elisa Elsie

Carlão de Souza. Foto: Elisa Elsie

Por que somos do jeito que somos? Qual a razão de nos comportarmos desta ou daquela forma? Qual a explicação para reagirmos assim ou assado diante das mais variadas situações cotidianas que a vida nos prepara? Quando um de nós vai a um psicólogo em busca de respostas, as perguntas sobre nosso passado são pequenas pistas que o analista dispõe sobre a mesa do inconsciente para desvendar o grande mistério que vem a ser a nossa vida. O que ocorreu conosco durante o nosso crescimento, e mesmo em tempos recentes, pode explicar muito sobre nós. Os traumas, as escolhas, as experiências, influências mil que compõem a complexa personagem de cada um, protagonistas que somos de nossas infinitas narrativas em primeira pessoa.

Lendo o mais recente romance de Carlos de Souza, “Cidade dos Reis” (FJA-2012), concluí que este raciocínio poder ser aplicado também a uma cidade. Tudo porque Carlão resolveu nos contar a sua versão da história de Natal nos últimos 100 anos. Começando pelo 1º dia do século passado e concluindo a história na derradeira folha do calendário de 2000, a vida de Natal e mesmo do RN é revelada aos felizes leitores desta obra altamente recomendável a todos que tenham o mínimo de curiosidade a respeito do que aconteceu nesta metrópole com alma de província ou quer encontrar respostas de como viemos a ser como somos.

Jonas Camarão nasceu em 1º de janeiro de 1901. Era descendente direto do herói duvidoso Felipe Camarão, homem de caráter questionável a ilustrar os livros de história do nosso Estado. Jonas viveu exatamente um século e, como nunca saiu do RN, a não ser para umas tantas e rápidas idas a Recife a fim de fechar negócios, acompanhou de perto todos os acontecimentos políticos, sociais, econômicos e as transformações ocorridas em Natal e arredores. Viu as mudanças de governos, a evolução nos hábitos e costumes, a chegada do automóvel, as alterações urbanas da cidade (incluindo o plano Palumbo), a vinda (e depois partida) dos americanos entre tantos outros acontecimentos relevantes.

O protagonista, em que pese a origem humilde, devido ao grande esforço dos pais, estudou no Atheneu, acabando por se tornar um comerciante de sucesso. Ou, como ele próprio dizia: “Comerciante não. Negociante!” Tornou-se um típico cidadão da capital potiguar. Pacato, de índole dócil e conservador. Tanto que lhe causava profunda contrariedade a maneira como os empresários locais faziam questão de derrubar edificações clássicas para construir caixas horrendas em seus lugares, não importando a relevância do que se destruía. Sobre isso, o narrador declara: “Uma cidade se diminui quando elimina seu passado. Natal está sempre sujeita a sucumbir a qualquer ilusão de modernidade. Os poderosos, verdadeiros donos desta cidade, estão sempre dispostos a destruir qualquer bela construção para erguer algo novo no lugar. É uma cidade sem memória.”

Jonas também nunca se conformou com determinados traços flagrantes de miudeza da alma que faziam o povo potiguar se comportar de forma a voltar-se uns contra os outros. Indignava-se sobretudo com a maledicência do povo e a mania de maltratar os conterrâneos, principalmente os que ganham algum destaque, diminuindo seus méritos e desvalorizando seu trabalho, comportamento típico de gente invejosa, cujas janelas permanecem sempre abertas para a vida alheia. Em dado trecho, referindo-se a grandes artistas que não obtiveram o reconhecimento devido por essas plagas, o texto diz: “Aqui ninguém suporta o sucesso alheio. Esta é a cidade da inveja e do olho gordo. Se o vizinho comprar algum objeto de desejo, se alguém adquirir algo grandioso, se alguém se destacar, passa a ser motivo de ódio dos demais. O ditado diz que ninguém é profeta em sua terra. Isto, em Natal, ganha proporções desérticas… É uma cidade amordaçada. Seus filhos mais ilustres são como profetas que pregam no deserto para gafanhotos indiferentes.”

O próprio personagem principal se viu como vítima de fofocas: “Jonas percebia o olhar jocoso por trás das palavras falsamente respeitosas que lhe dirigiam. Fingia não dar atenção, mas por dentro estava nascendo um rancor tão refinado que poucos iriam perceber o quanto iria odiar as pessoas da sua cidade nos anos vindouros.”

Apesar de ter vividos os dissabores e decepções comuns à grande maioria de nós, Jonas prosperou como comerciante, desfrutando de uma vida plena e confortável. Tinha a sorte dos predestinados. Tudo lhe favorecia nos momentos em que mais precisava. Mesmo quando sofria um forte revés, logo o destino lhe presenteava com um golpe de sorte. Graças a isso, não passou grandes apertos com dinheiro. Os maiores sobressaltos vividos por ele se relacionavam ao contexto histórico vivido, fosse a 2ª Guerra Mundial ou a estúpida Ditadura Militar. Tanto que o narrador opta por eliminar a figura de um vilão central, antagonista do “herói”. Um dos personagens que apresentou potencial para ser esta encarnação do mal, que temperaria a trama e criaria conflito suficiente para dar uma maior complexidade à ficção, não se desenvolve para se converter neste malfeitor clássico. Esse expediente (de condicionar as ações do personagem a fatores externos) permitiu ao narrador dar maior enfoque à história de Natal sem maiores distrações.

Mesmo sendo um homem à moda antiga, como a grande maioria da população de Natal, o negociante, diferentemente de nossa elite empresarial e política, formada basicamente por ignorantes endinheirados, amava a literatura e devotava enorme admiração por Câmara Cascudo. Esta é outra tacada certeira do autor. Por meio dessa preferência do protagonista, o autor nos conduz pelas vidas e obras de Auta de Souza, Henrique Castriciano, Zila Mamede e Cascudo, entre outros, citando os livros lançados com o passar dos anos. Os lançamentos de Cascudo, por exemplo, são introduzidos na história com muita naturalidade, entremeando a narrativa marcada por sucessões de governos e a passagem do tempo para Jonas. Com isso, os leitores têm a oportunidade de compartilhar do conhecimento de Carlão acerca de nossos grandes autores.

Tal apreço de Jonas Camarão pela vida intelectual contrasta com muitos dos seus colegas empresários locais, tão indiferentes a todos os assuntos que não se relacionem a dinheiro. Sobre isso, o narrador se questiona: “Como seria a vida de alguém assim, cuja única diversão é ganhar dinheiro? Que tipo de vazio poderia ser preenchido apenas com o ato mecânico de faturar mais? Que almas abrigam espíritos tão embrutecidos?” Em certo momento, também relata um comportamento frequente entre a elite natalense: “Enquanto se é rico, todas as atenções lhe são prestadas. Quando se é pobre, todos viram as costas. Você vale o que possui.” A conclusão a que chega é que, em face à forma desumana com que os empregadores tratam seus funcionários, “Aqui, a revolução industrial chegou com atraso”.

O livro de Carlos de Souza é indispensável a todos aqueles que pretendem aprender sobre Natal, o Rio Grande do Norte e, por extensão, sobre si próprios. Recomendo. 

Marvel Comics: a história de quem fez história contando histórias

março 19, 2014

Marvel

Adquira já o seu nas melhores casas do ramo.

Li mês passado o livro “Marvel Comics – A História Secreta” do jornalista americano Sean Howe. Um livraço que conta em detalhes toda a trajetória da editora de quadrinhos mais popular do mundo desde a sua fundação até o estrondoso sucesso do Marvel Studios. Em muitos momentos, fã devoto que sou, senti-me como um religioso ao descobrir as (muitas) faltas daqueles que comandam os destinos de sua fé.

A Marvel foi desde sempre o lar de algumas das mentes mais brilhantes e produtivas de suas gerações, porém também viveu muitas controvérsias, foi palco de disputas agressivas e deu lugar a atitudes bastante questionáveis (para dizer o mínimo). Tantos foram os problemas enfrentados que é supreendente que tenha chegado tão longe e transformado suas histórias complexas e entrelaçadas (o chamado “Universo Marvel”) em um fenômeno de popularidade de escala mundial. Por outro lado, tantas (e acreditem: foram muitas) trapalhadas explicam o porquê de a empresa ter chegado tão tardiamente aos cinemas de maneira satisfatória.

O livro conta como empresários inescrupulosos que não davam a mínima para  quadrinhos, os personagens, a coerência criativa das histórias e, sobretudo, para os seus criadores contratados, comandaram a empresa durante décadas sucessivas, quase arruinando para sempre esta indústria cultural que ganhou dos fãs a carinhosa alcunha de “Casa das Ideias”. Também houve inúmeros editores egocêntricos, diretores arrogantes, artistas instáveis e brigas, muitas brigas. Nem o cânone Stan Lee escapa de graves acusações feitas por alguns dos seus principais parceiros (Jack Kirby e Steve Ditko), que criaram junto com ele heróis icônicos do imaginário pop atual.

Em meio a todos esses conflitos, nomes que fizeram (e fazem) a história das HQs pipocam na narrativa, contribuindo com toda a riqueza que fez da Marvel o que ela é hoje no inconsciente coletivo do mundo do entretenimento: John Byrne, Frank Miller, Chris Claremond, Jack (King) Kirby, Steve Ditko e, claro, Stan Lee.

Recomendo fortemente a leitura. Vale cada página, cada nota de rodapé. Destaque ainda para a tradução impecável do jornalista Érico Assis.

10 anos de JOVENS ESCRIBAS – Parte 01 – Verão Veraneio – O livro da estação.

março 18, 2014

1 Capa Verão Veraneio FECHADA

Verão Veraneio – O livro da estação.

Enquanto as conversas com os outros 3 autores caminhavam para o surgimento do selo Jovens Escribas, eu continuei escrevendo crônicas de humor para compor o meu primeiro livro. Já havia decidido qual nome dar à iminente publicação: “Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada”.

Fui reunindo textos e fazendo, empiricamente, o trabalho de auto-edição que, mal sabia eu, marcaria bastante minha vida dali pra frente. Quando Modrack Freire, diretor de arte que já havia concluído o logotipo do selo, se ofereceu para fazer o livro, começamos a imaginar como poderia ser a capa. Logo criamos uma imagem em nossa tempestade cerebral: a foto de um baldinho de criança à beira mar sendo utilizado para gelar cerveja, unindo a inocência presente na leveza das crônicas com a irreverência do humor também bastante característico nos textos. Na quarta capa, haveria outra foto: uma trave de “mirim” deixada de lado com o chão impecável em torno dela. Como se os jogadores não tivessem algo melhor para fazer naquele dia (beber, paquerar, curtir) do que jogar futebol. O fotógrafo convidado a fazer os cliques foi Giovanni Sérgio, mago das lentes, ídolo de longa data.

O fotógrafo Giovanni Sérgio - lindo e competente.

O fotógrafo Giovanni Sérgio – lindo e competente.

Com a direção de arte, diagramação e fotos garantidas, precisava batalhar agora um nome relevante que topasse assinar as orelhas da obra. Tinha que ser alguém reconhecido na literatura, de forma que o livro chegasse às pessoas com algum respaldo importante. Meu pai, em conversa com François Silvestre, chegou à conclusão que eu poderia procurar Nei Leandro de Castro, uma vez que eram muito amigos desde os tempos em que a Ditadura Militar os perseguira e prendera algumas décadas antes. Procuramos Nei que, num primeiro contato por e-mail, disse-me com sinceridade que só escreveria se gostasse do que lesse. Fiquei muito animado com a possibilidade e lhe entreguei o material impresso e encadernado em mãos, numa de suas vindas a Natal, naquele ano de 2003.

Nei Leandro de Castro

Nei Leandro de Castro

Menos de uma semana depois, Nei Leandro me escreveu. Sua mensagem veio repleta de elogios e terminava com sua concordância em escrever a orelha. Em mais alguns dias, o texto estava em minha caixa de entrada de e-mail. Em alguns trechos mais lisonjeiros, Nei dizia o seguinte:

Carlos Fialho me surpreende. Primeiro, por sua precocidade. Segundo, porque as suas crônicas são bem escritas, docemente sacanas, inteligentes, e nos dá a certeza de um escritor, que não há de ficar nos limites da crônica.

Os textos deste livro têm a idade e a linguagem  de um garotão bem resolvido com ele mesmo. Os temas  – gírias regionais, porres, rock, vídeo-game, paqueras, Natal, cinema, carnatais, carnavais, etc. – são tratados com graça e ironia, leveza e fino senso de humor.

Carlos Fialho, cronista, precoce, publicitário, devorador de livros, autor das crônicas deliciosas deste Verão veraneio, vai chegar lá. Esse garoto vai longe.

Além de Nei, procurei um autor adequado para o prefácio. Não precisava ser famoso, mas que tivesse um estilo mordaz e bom humor, de forma a combinar com o conteúdo do livro. Escolhi meu ex-colega de faculdade, George Wilde, que fez um texto preciso, de acordo com o que eu pretendia. Destaco uma pequena parte:

Ao ler o livro, descobri que dentro de Fialho existe algo grandioso: a sua percepção em relação ao nosso dia-a-dia. Afinal, poucas pessoas conseguem sair do círculo da rotina para perceber o verdadeiro circo em que vivemos.”

George Wilde - o homem do prefácio

George Wilde – o homem do prefácio

A campanha publicitária foi elaborada com alguns títulos bem humorados, bem ao estilo do livro.

anuncio verissimo

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

Anúncio que a Art&C, agência onde eu trabalhava, fez no dia do lançamento.

 

A assessoria de imprensa contou com indicações de colegas do curso de Jornalismo da UFRN. Minha primeira entrevista foi concedida a Marcílio Amorim (Jornal de Hoje) e a segunda a Hayssa Pachêco do Diário de Natal.

2004 - VV - JH1

Mas a maior responsável pela divulgação do meu primeiro lançamento não era a imprensa nem a publicidade. Quem promoveu o evento a ponto de transformá-lo em sucesso foi minha mãe, Lurdete. Quando percebeu que era sério mesmo “essa história de livro”, arregaçou as mangas e telefonou pra cada parente, cada amiga, cada conhecido, reforçando bastante a frequência de presentes na noite de Verão Veraneio. O local escolhido foi a AS Livros do Praia Shopping, uma livraria acolhedora que tinha como gerente Cícero, um cara que dava bastante espaço a autores locais. O saldo da noite foi um estrondoso sucesso (163 livros vendidos) num ambiente preenchido de amigos, parentes e colegas de trabalho. Só a partir do segundo livro, essa frequência seria reforçada por leitores.

Quanta gente veio ver!

Quanta gente veio ver!

A noite foi tão agradável que Patrício Jr., que escrevia um blog, publicou uma postagem falando de como fora legal o evento (a qual reproduzo no fim desta publicação). Foi um belo cartão de visitas, indicativo do que estaria por vir num futuro não tão distante e também das possibilidades de crescimento e expansão que o então selo editorial acabaria por aproveitar com o passar dos anos.

“Verão Veraneio – Crônicas de uma cidade ensolarada” trazia 5 capítulos. No primeiro, “Galado e outras palavras”, havia temáticas mais gerais. Entre elas, alguns textos merecem destaque como “Galado” que me notabilizou em muitos rincões da Internet e “A Loja de Inconveniência” que até hoje se mantém como um dos meus preferidos. No segundo capítulo, “Cruvinel – o bom de bola”, apresento um personagem que me acompanhou com o passar dos anos e que, mês que vem, ganhará livro próprio. No terceiro, “Mano Celo”, nascia o protagonista do meu livro mais vendido até hoje e que, ano que vem, ganhará mais uma publicação caprichada com todas as suas histórias reescritas. Em seguida, vinha “Vi e gostei” com crônicas sobre cinema. Para fechar, o capítulo mais legal do livro: “Aconteceu no verão” com as histórias pertinentes ao tal “Verão Veraneio” que dá título ao livro.

E assim foi dado o pontapé inicial para a, hoje decana, editora JOVENS ESCRIBAS. Continuem acompanhando aqui nossa história. Detalhe: o livro esgotou sua primeira tiragem em apenas 4 meses. 

NO PRÓXIMO TEXTO: LÍTIO – PATRÍCIO À FLOR DA PELE

***

BÔNUS: POST DE PATRÍCIO NO SEU BLOG PESSOAL – O PLOG

06/02/2004 

há vida inteligente
no mercado publicitário

Quem trabalha com publicidade sabe: de tempos em tempos, tem uma “festa do mercado”. Tais eventos, sempre patrocinados por veículos, fornecedores, clientes ou ambos, têm por maior finalidade embebedar todo mundo, calar a boca de quem está perscrutando que o ano foi ruim e, por residual, reunir profissionais para um bate-papo informal. Pois é, parece um paraíso, mas tais “festas do mercado” haviam se tornado um verdadeiro transtorno. Passo o dia todo numa sala falando/fazendo/refazendo/desfazendo/tentando fazer publicidade. A última coisa de que preciso é estender esta missão ao meu happy-hour. Como prova de que nem tudo está perdido, houve esta semana o lançamento do livro de Fialho, “Verão Veraneio”, que não pretendia ser uma “festa de mercado”, mas acabou sendo por reunir exatamente as mesmas carinhas de sempre. O que me surpreendeu foram os temas das conversas. Ninguém, por exemplo, me perguntou “Como é que está la’?”. Ok, tudo bem, uma pessoas me perguntou isto, mas o assunto morreu quando eu respondi “Lá onde?”. Uma pessoa a noite inteira. Nada mal. Em outras “festas de mercado”, a famigerada pergunta “Como é que está lá?” é dita antes mesmo do “Tudo bem, broder?”. Já é, praticamente, sinônimo de oi. No lançamento de “Verão Veraneio”, porém, tudo foi diferente. Fialho conseguiu a façanha de reunir as mesmas pessoas de sempre fazendo, no entanto, com que todas soassem inéditas. Não sei se foi o fato de estarmos todos na AS Livros, rodeados de Dickens e Saramago e Proust e Pessoa e Machado e Camus. Birita? Claro que teve. Buffet? Sim, impecável. Bêbados chatos? Uh, nossa, e como! Mas estava tudo agradabilíssimo, tudo soando como um lançamento deve soar. Os temas conversados iam de autores consagrados a bandas de rock obscuras, sempre com tiradas inteligentes, observações pertinentes, risos na medida certa. Um éden para amantes do bom e velho papo construtivo como eu. Nunca gostei tanto das “pessoas do mercado”. O livro, graças aos céus, vendeu bem. Fialho, coitado, deve estar cheio de bolhas nos dedos de tantas dedicatórias escritas. E eu, exemplar autografado na mão, cheio de riso a caminho do estacionamento, concluí que a melhor das “festas do mercado” que eu já fui na minha vida foi o lançamento do livro do meu bróder. Mesmo que não tenha sido uma “festa de mercado”.

 

Coluna do Novo Jornal – 107– 22.09.2012 – A incrível mulher que asfaltou vidas

março 17, 2014

Micarla era fantástica de tão patética. Comparo suas ações e palavras às de um bobo da corte com péssimo gosto ou, talvez, com vocação para o humor negro. Ela era tão atrapalhada que, por vezes, eu me perguntava se não estava fazendo aquilo de propósito, para chamar a atenção através do grotesco, atrair olhares por meio do ridículo, provocar risos nervosos e incrédulos de uma população que, abismada, via que a gestão da cidade estava nas mãos de alguém completamente alheia à realidade que a cercava. Uma de suas declarações mais emblemáticas, já no fim do mandato, originou a crônica que publico abaixo.

Boa leitura, apesar das péssimas lembranças.

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A incrível mulher que asfaltou vidas

Na eleição, Micarla teve apoios poderosos.

Na eleição, Micarla teve apoios poderosos.

Mas depois de pouco tempo, ela já não passava uma boa imagem pra ninguém.

Mas depois de pouco tempo, ela já não passava uma boa imagem pra ninguém.

A verdade é que vivemos numa terra que pouco ou nada valoriza os grandes feitos de notáveis conterrâneos, havemos de reconhecer isto. O caso da nossa magnânima ex-prefeita em exercício, Micarla de Sousa, que na semana passada auto-recebeu de si mesma uma nota 10 pela administração que ora encerra sem nunca ter iniciado de verdade. Nossa chefe do executivo municipal tem devotado todo o seu amor, dedicação e apreço pela cidade que abraçou e resolveu governar (para noooossa alegria?). O problema é que, em troca, ela só tem merecido o nosso fel, a zombaria deliberada de um povo desalmado que a enganou, dando-lhe 60% dos votos e a sensação de que era amada, para depois virar-lhe as costas sem a menor cerimônia, convertendo-lhe em vítima preferencial do achincalhe geral e irrestrito.

Não sou afeito a corroborar com um absurdo como estes. Como pode alguém ser alvo de tantas injustiças em sequência a ponto de ter recebido a humilhação pública dos atuais candidatos ao seu cargo. Conta-se por aí que, entre um cântico religioso e outro, ela tem entoado aos prantos: “Ninguém me ama / Ninguém me quer / Ninguém me chama / De meu amor”. Fico triste que as coisas tenham chegado a esse ponto e gostaria de aproveitar este espaço para promover a defesa pública de uma mãe e mulher que tem sofrido ataques sistemáticos de gente da laia de Everton Dantas, Rafael Duarte e Franklin Jorge. Tsc, tsc, tsc.

O mais recente objeto de piadas reproduzidas nas folhas, mesas de bar e espaços virtuais foi a declaração de voto ao seu ex-aliado e, atualmente, maior adversário, Carlos Eduardo Alves, primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para prefeito. O anúncio foi feito no Jornal de Hoje, na rádio 98 e depois confirmado por uma belíssima epístola, uma “carta aberta” endereçada ao candidato. Arrisco dizer que foi a mais significativa missiva da política nacional desde a carta-suicídio de Getúlio Vargas. Muitos, como de praxe, riram do seu conteúdo. Eu, não. Em verdade, confesso aqui que muito me comoveu o texto cheio de sentimento sincero, repleto de amor, tolerância e perdão. Coisa linda de Deus.

A verdade é que a cidade já não suporta mais tanto rancor. Toda essa negatividade que paira no ar, há pelo menos 6 anos, desde que os dois começaram a brigar irradia uma energia ruim que em muito contribui para que a cidade não evolua. Isso precisa parar. Pode perguntar lá na igreja dela. Essas coisas causam encosto, gente. É preciso que estes dois conterrâneos ilustres, que têm trocado farpas, provocações e, nos momentos de maior serenidade, insultos e xingamentos, esfriem a cabeça e cessem toda essa atitude agressiva para com outrem. Dito isto, acho mais do que louvável que nossa líder legítima (nunca é demais lembrar que ela foi escolhida pelo voto) tenha tomado a iniciativa.

No entanto, mais uma vez, a ela foram apontados os mesmos dedos acusadores de outras ocasiões. Quão cruéis ainda seremos capazes de ser com tão distinto ser humano? Não se sabe. Vejam que maldade! Alguns analistas (Salvai-nos, São Alex Nascimento) tiveram a ousadia de declarar que a revelação do voto da mulher foi orquestrada pela cúpula da campanha de Hermano Morais, que seria o verdadeiro candidato dela, para tentar transferir para Carlos Eduardo sua estratosférica rejeição de nada invejáveis 95%.

Não acredito nessas teorias da conspiração. Acho todas meio patéticas, frutos podres de um desespero vil. Será que ninguém percebe que a presidente estadual do PV resolveu passar uma borracha no passado de tanta descortesia mútua? Afinal, raiva demais envenena corações, tornando-se um fardo e nos fazendo perder a razão. A verdade é que foi imbuída das melhores intenções que Micarla declarou publicamente que votaria no candidato do PDT no atual pleito majoritário. Mesmo que alguns teimem em não enxergar tamanha obviedade.

Houve um articulista mais desumano que chegou mesmo a afirmar que, depois de ter abandonado a administração, a prefeita decidiu largar outras coisas, a começar pelo amor-próprio. Muitos foram os que acusaram o ridículo e inusitado da situação a que se expôs a pobre mulher. Alguns salientaram o fato de ela ter usado o próprio filho e até mesmo Deus como álibis para a suposta mentira. Na minha opinião, quem sustenta esse tipo de verdade é tão radical quanto os manifestantes que queimaram ônibus e ameaçam abertamente atentar contra o bigode de Augusto Maranhão do SETURN. Se querem continuar com essas opiniões extremas, por que não vão expressá-las lá na nossa Praça Tahrir, logo ali no cruzamento do Midway com a Bernardo Vieira?

Daqui a pouco vão inventar todo tipo de inverdades sobre Micarla, como se as pilhérias que já criaram não fossem o bastante para massacrar com uma pessoa tão sensível. É capaz de dizerem que essa história de conversão religiosa é um embuste, que as entrevistas concedidas por elas são cheias de uma interpretação melodramática cafona, ao estilo daqueles folhetins mexicanos que a emissora da sua família retransmite. Também dirão que ela abusa do gerundismo só porque de vez em quando ela diz coisas como: “eu vou estar votando em Carlos Eduardo; eu não vou estar apoiando Hermano.” Ora, qual o problema? Só porque é jornalista (sic) não pode cometer um deslizezinho a toa?  

Vejam pelo lado bom. É, isso mesmo. Lado bom. Porque as pessoas são assim. só veem o que tem de ruim. As virtudes, ninguém vê. Pois saibam que poderia ser pior. ela poderia, digamos, usar calça saruel em solenidades, botar um piercing no umbigo, andar de pochete pendurada na cintura e sandálias crocs nos pés. Ou, quem sabe?, ela poderia pintar o cabelo de uma cor exótica e desfilar no carnatal, dançando até o chão.

Além do quê, a maior obra dela ninguém repercute. Micarla vai entrar pra história como a prefeita que não calçou as ruas da cidade porque fez uma opção mais importante: “asfaltar vidas”. Percebam que imagem forte e poética. “A mulher que asfaltou vidas.” Na boa, depois de ter dito isso, ela não precisa fazer mais nada até o fim do mandato. Foi uma frase com jeitão de missão cumprida. Porque, se ela quis detonar a cidade, pelo menos nisto, ela foi competente.  

O Robocop de José Padilha

março 12, 2014

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Quando fui convidado para a coletânea “Como se não houvesse amanhã: 20 contos baseados na obra da Legião Urbana”, escolhi transformar em ficção, a música “Faroeste Caboclo”, canção que já trazia em si uma narrativa pronta, uma história contada por Renato Russo (e cantada incessantemente por uma geração saudosa), dando ao cantor ares de grande trovador. A surpresa de Henrique Rodrigues, organizador da antologia para a editora Record foi flagrante. Afirmou-me com admiração que eu era um autor corajoso, por mexer num “cânone estabelecido”, que seria mais fácil optar por alguma canção mais enigmática, com margem para interpretações diversas ou mais poética, repleta de figuras de linguagem e significantes que poderiam sugerir vários significados diferentes. O também autor presente na coletânea, Marcelo Moutinho foi da mesma opinião, afirmando que, de todos os convidados, eu estava assumindo os maiores riscos.

É verdade, mas como diria um outro ícone dos anos 80: “todos os meus movimentos foram friamente calculados”.

Escolhi correr os perigos de me expor em demasia aos fãs da banda porque, como toda aposta de alto risco, se desse certo, os ganhos seriam proporcionais ao desafio. E como eu tinha muito pouco a perder (eu era um dos autores menos conhecidos do livro), acredito que a estratégia tenha sido bem traçada. Até porque, semanas depois de lançado, quando a Época fez uma vasta reportagem com o nosso livro e outro semelhante, mas com textos baseados em canções do Chico Buarque, a reportagem escolheu destacar o meu conto. E isso foi bem bacana.

Fiz este preâmbulo imenso (desculpem por isso. Deve ser a abstinência de escrever) para poder embasar alguns comentários a respeito do novo Robocop, dirigido pelo brasileiro José Padilha. Ao diretor, foi dada a oportunidade de realizar um filme de grandes proporções, feito por um estúdio gigante norte-americano, e chances assim não devem ser recusadas. É o tipo da oferta à qual, primeiro dizemos “sim” e só depois pensamos nas implicações que a aceitação possa gerar. O fato de José Padilha ter tido a coragem de recriar um personagem tão icônico do cinema de ficção científica, com lugar cativo na memória afetiva de uma grande parte do público, ganha algum paralelo ao que disse logo acima sobre “correr riscos”, mexer em “cânones estabelecidos” e tal e coisa.

A primeira decisão que ele parece ter tomado, após dar início ao projeto foi a de fazer um filme novo, diferente do original, voltado para problemas distintos do que era mostrado na produção de 1987. A premissa de um policial estropiado que é colocado dentro de uma estrutura robótica para combater o crime se mantém, mas tirando isso, pouco se mantém se comparado com o filme de Paul Verhoeven.

Se os fãs compreenderem isso, poderão curtir um bom filme de ação, correto, acrescido de sub-tramas a respeito de corrupção policial, mercantilismo exacerbado e manipulação da informação pela mídia. A forma como os fatos são distorcidos pelo apresentador vivido por Samuel L. Jackson remetem muito fortemente aos recentes anos W. Bush e sua obsessiva “Guerra contra o Terror”. O Robocop de Padilha é um bom filme, o melhor possível dentro das premissas que tinha que seguir e das inúmeras regras impostas por um “filme de produtor”. De certa forma, foi como se ele tivesse feito o seu “Tropa de Elite”, mas com o Capitão Nascimento vestido de Power Ranger preto. Que venham mais filmes dele, tanto lá como cá. 

Coluna do Novo Jornal – 106– 15.09.2012 – Nostalgia, aqui me tens em protesto

março 11, 2014

Nostalgia, aqui me tens em protesto.

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Muito antes da atual geração de jovens engajados pegar em cartolinas e sair bradando pelas ruas em prol da coletividade usuária de coletivos, houve grandes ícones da contracultura natalense abraçando causas tão justas quanto as atuais, verdadeiros heróis da contestação local que protagonizaram ótimas histórias de coragem e destemor ao impor-se diante do sistema, de poderosas corporações e dos mais escusos interesses. Homens e mulheres que tinham muito pouco além de um ideal, perfis libertários e disposição para ir à luta. Naquele tempo, não havia tantos moços e moças dispostos a desfraldarem uma bandeira pelas ruas. Os que se arriscavam precisavam conviver com a sempre implacável solidão, esta cruel inibidora de revoluções.

Contarei aqui três breves episódios verídicos de uma época em que os protestos estavam restritos aos mais românticos e incorrigíveis agentes sociais. Poucos e bons que ousavam transmitir ao mundo suas mensagens de amor, compaixão, generosidade e seu clamor por liberdade. Gente desprendida e abnegada que nadava contra a inclemente correnteza de frieza e impiedosa falta de compreensão a que chamamos cotidianamente de civilização.

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O primeiro deles ocorreu em um circo que se instalara em Natal, na área onde outrora havia o Machadão e hoje é o canteiro de obras da Arena das Dunas. Aquela região da cidade, no lado exterior do estádio, sempre serviu de picadeiro para diversas modalidades do entretenimento como parques, rodeios e até mesmo um carnaval fora de época que ocorria na cidade.

O circo, além dos tradicionais números que encantam o respeitável público, como as estripulias dos palhaços, os trapezistas, malabaristas e outras atrações, também oferecia números com animais treinados. Um belo dia, alguns garotos, militantes dos direitos dos animais, foram ao local para manifestar insatisfação contra a presença dos bichos e a forma como eram mantidos em cativeiro e levados pelo país em condições tão diferentes de seus locais de origem. Os meninos estavam lá, expondo suas razões para que não houvesse mais animais selvagens sendo explorados daquela maneira, ante o visível incômodo dos funcionários da companhia que tentavam enxotá-los de lá. Chamaram, inclusive, a polícia para retirar na marra os rapazes.

Quando o policial chegou, passava por acaso pelo local, um legítimo defensor das liberdades civis, um lendário militante de notável conhecimento político que chamaremos simplesmente de “José”. Por ser mais experiente e bem articulado que a molecada, mesmo sem ter nada a ver com a organização daquele tímido movimento, tomou a frente das negociações com o PM e chamou para si o papel de porta voz dos garotos. Discursou que aquela manifestação não era contrária aos empregos de ninguém e, mesmo que fosse, nada poderia ser feito contra uma ação pacífica como aquela, uma vez que o próprio circo estava instalado em local público. O Zé foi tão eloquente em sua retórica que o policial não podia fazer outra coisa que não acolher seus argumentos. Comunicou aos empregados circenses que não poderia prender o grupo ou sequer mandá-los embora, a não ser que eles agredissem alguém ou atentassem contra a propriedade alheia.

Inconformado com a situação, um tratador de elefantes mais exaltado apontou o dedo para os que protestavam e acusou: “Seus maconheiros vagabundos!”, ao que o agora líder, José, respondeu na lata: “Ei! Vagabundo não!”

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Outro importante guerreiro pouco reconhecido em nossa cidade é um pequeno grande homem de nome Daniel. Este indivíduo multitalentoso sustenta uma firmeza de caráter que só encontra paralelo na clareza de raciocínio exibida por ele. Hoje, profissional bem sucedido na capital, em seu tempo de garotão participou de muitas articulações contrárias ao status quo reinante que massacra os mais humildes em favor de uns poucos privilegiados. Tocava em concertos de rock na defesa de causas que lhes parecessem justas. Fazia parte de uma banda chamada “Doutor Fossa” que tinha entre suas músicas o hit “Luiz Almir”. Lembro que o refrão dizia algo como “Pegue essa ambulância e soque no…” Esqueci como continuava, mas sei que era uma bela canção, verdadeira, advinda do fundo daquele coração inconformado.

Certa vez, Daniel protestava em frente ao McDonalds contra o Capitalismo, seus excessos e todas as injustiças cometidas em nome da mais valia. Esteve lá, acompanhado de alguns companheiros de luta, entre eles o bravo, já citado anteriormente, José. Após algumas horas de manifestação, palavras de ordem entoadas em coro, flagrantes demonstrações de repúdio às desigualdades oriundas do mais desumano dos sistemas econômicos, os dois amigos foram tomados por uma natural e inevitável sensação: a boa e velha fome. Por uma questão prática, resolveram não ir longe para não se afastarem por muito tempo do movimento. Preferiram entrar na lanchonete dos arcos amarelos, pedir duas promoções grandes, matar quem estava lhes matando e voltar para o protesto com ânimo renovado a base das mais saborosas iguarias do império. Depois disso, arrotar “abaixo o capitalismo” ficou bem mais fácil, até porque as duas Cocas que eles tomaram foram de 500 ml.

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Por fim, uma história de duas décadas atrás da qual participaram o combativo escritor Pablo Capistrano, recentemente uma pedra no sapato da Presidenta Dilma na questão das greves das Instituições Federais, e o filho de um brilhante jornalista, que também é repórter e que vou chamar, hipoteticamente, de Alex. Na ocasião, provavelmente 1995, eles não estavam participando exatamente de um protesto, mas de certa forma, de um movimento de resistência, pois decidiram pegar um trem até Ceará-Mirim para assistir uma das primeiras edições do, hoje clássico, Tributo a Raul. Isso, numa cidade-estado completamente dominada pela monocultura opressiva do forró-pagode-axé.

Ao desembarcarem no aprazível município do evento, vestidos de pouco usuais camisas de flanela xadrezes (eram os tempos áureos do Movimento Grunge), foram interpelados por um dos organizadores do evento: “Vocês são de Vanguarda?”. Ao que o lépido Alex respondeu de chofre: “Não, não. A gente é de Natal mesmo.”

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E assim estes 3 revolucionários, contemporâneos meus, entraram para a história de Natal. Podem perguntar por aí. É tudo a mais absoluta verdade.

Coluna do Novo Jornal – 105– 08.09.2012 – Mano Celo – Ele protesta

março 7, 2014

No dia 1º de setembro de 2012, publiquei no Novo Jornal, uma coluna chamada “Eu protesto” na qual exaltava a parcela da juventude que havia saído às ruas em Natal para protestar contra a gestão de Micarla de Sousa. A razão do elogio foi pela negação do fato de que nossos estudantes e jovens eram completamente alheios a tudo, analfabetos políticos e comodistas incorrigíveis. Isso já não se sustentava como verdade, pelo menos não no que dizia respeito aos que saíram às ruas para protestar.

Como considero aquele texto “Eu protesto” um tanto datado, pulo para a próxima coluna, a de número 105, na qual eu conto sobre o desempenho do Mano Celo no movimento e quais teriam sido suas consequências.

Divirtam-se!

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Mano Celo: ele protesta.

Ilustração de Rafael Coutinho

Ilustração de Rafael Coutinho

Nos protestos contrários à majoração das passagens de ônibus, senti falta de um personagem comum nesse tipo de manifestação em Natal, um tipo tão peculiar quanto improvável a participar de tais eventos com toda a sua vitalidade, sempre sensível a injustiças diversas e disposto a lutar contra o padecimento coletivo de comunidades mais vulneráveis às impiedosas espoliações impostas por nossos políticos e classes dominantes. Este jovem, a que me refiro (batizado Marcelo, mas conhecido pela alcunha de Mano Celo) saiu de cena no fim do ano passado e desempenhou importante papel em várias lutas recentes, sendo protagonista, inclusive do movimento #ForaMicarla que redundou com a renúncia da prefeita de Natal no segundo semestre de 2011. Pelo menos, foi alguns imaginaram. Aos que desconhecem o ocorrido, contarei com prazer como se deu tão pitoresco e deleitoso episódio.

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Natal, 2011 D.C.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton é um rapaz de classe alta, mas que tenta estreitar suas ações com os mais necessitados, pregando justiça social numa cidade tão marcada pela desigualdade como esta capital dos Magos comissionados. Todas as suas tentativas de espalhar a mensagem de igualdade entre classes foram, desafortunadamente, frustradas pelos mais elementares equívocos, pela dificuldade da plateia em compreender as letras do seu rap politizado e pela interpretação errônea do público que sempre confundiu sua arte com escracho e humor.

As duas tentativas mais recentes de participar dos protestos organizados na cidade, a marcha da maconha de 2010 e o #CombustívelMaisBaratoJá de 2011, caíram no ridículo e no descrédito. O Mano Celo, como era conhecido artisticamente, sofria com isso. Ele achava que tinha uma missão, um papel muito importante a desempenhar na mudança social em curso na cidade. Sentia-se o porta-voz da retirada do poder das mãos das elites e sua entrega ao legítimo dono da cidade, o povo.

Sua frustração era grandiosa e a vontade de ser levado a sério parecia vislumbrar mais uma oportunidade. A insatisfação da população de Natal com a prefeita Micarla de Sousa gerou mais um movimento de protesto: o #ForaMicarla! Mano Celo, desta vez, não esperou ser convidado. Procurou os organizadores disposto a contribuir com os trabalhos organizados pelos líderes. Sabedores que eles eram da trajetória recente do rapaz, fizeram uma exigência. Ele poderia participar, mas estava proibido de rimar qualquer palavra que fosse ou mesmo de se aproximar de um microfone. Injuriado, puto da vida, extremamente contrariado, o Mano topou colaborar mesmo assim. Tudo em nome de uma boa causa.

Nosso herói participou da grande movimentação no cruzamento da Bernardo Vieira com a Salgado Filho. Agiu discretamente. Ficou quietinho o tempo todo, no máximo engrossando o coro e entoando palavras de ordem puxadas por outros manifestantes e que, para o bem geral dos presentes, não eram de sua autoria. Na passeata organizada na semana seguinte para a Avenida Roberto Freire, foi ainda mais radical, entrando mudo e saindo calado. Resistiu bravamente. Aí veio a ocupação da Câmara dos Vereadores. Era preciso arregimentar voluntários que aceitassem acampar no pátio. Como o Mano Celo é um rapaz bravo e destemido, entrou de cabeça no movimento. Comprou uma barraca toda invocada na Centauro. A barraca tinha ar-condicionado, sala, dois quartos, varanda ampla e um pequeno gerador de energia.

Logo, as assembleias do movimento passaram a ser realizadas dentro da barraca do Mano. Até vereadores simpatizantes da causa dos jovens foram conferir a suntuosa estrutura da barraca. Os jornais, os blogues, as redes sociais só falavam da mansão armada no pátio da câmara dos vereadores. Não demorou para começarem as especulações a respeito da origem do dinheiro que financiou aquela estrutura. Uns disseram que se tratava de financiamento de políticos oposicionistas e o movimento passou a ser seriamente questionado, especialmente por uma conhecida blogueira tuiteira picareta cujo blogue contava com patrocínio da Prefeitura e um certo jornalista decano das colunas impressas e porta-voz dos reaças de província. A descoberta da origem abastada e tradicional do Mano também forneceu toda a munição necessária para que a “imprensa oficial” chafurdasse na lama das falsas acusações.

Com a repercussão negativa, a agressividade com que o #ForaMicarla vinha sendo tratado pelos meios de comunicação, fazia-se necessário que a barraca do Mano fosse retirada do local. Os organizadores marcaram então uma entrevista coletiva para anunciar a retirada da barraca da discórdia e explicar que ela havia sido comprada com a mesada do Marcelo Dutton. Na coletiva, o Mano tomou a palavra e começou:

Eu sou Mano Celo,

o dono da barraca.

Um jovem muito sério,

sempre do lado da massa.

 

Comprei esse acessório

Com a grana do meu pai

Por um preço muito jóia

É mole ou quer mais?

 

Não sejamos caretas

De crer nessas mentiras

De blogueiras picaretas

Que adoram intrigas.

As centenas de pessoas presentes no pátio da Câmara explodiram em vibração incontida. As rimas, ainda que péssimas, do Mano Celo tiveram seu momento de redenção, havendo se revelado muitíssimo importantes para que o movimento #ForaMicarla ganhasse força e importância até que a prefeita, pobrezinha, fosse defenestrada do cargo. Muitos atribuem sua queda às declamações públicas do Mano Celo que começaram naquele episódio da barraca e se seguiram semanalmente pelos meses seguintes.

Alguns especularam que o Mano seria candidato a vereador no atual pleito. Propostas não faltaram, mas ele negou. Disse para quem quisesse ouvir que sua missão já fora cumprida.

Mano Celo, ele protesta.

Coluna do Novo Jornal – 103– 25.08.2012 – Como destruímos Ponta Negra

fevereiro 28, 2014

Seguindo a sequência da coluna anterior, percorro a Via Costeira, indo da Ribeira a Ponta Negra. Em pauta, a mesma velha mania de destruir a própria casa que nós, debaixo de nossa absoluta falta de civilidade, teimamos em fazer. Para ilustrar o texto, porém, escolhi uma imagem de beleza para simbolizar tudo o que ela representa para nós (e para mim que escolhi a praia para morar com minha família).

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Como destruímos Ponta Negra

PN

Semana passada, escrevi sobre o abandono do bairro da Ribeira e a iniciativa destinada ao sucesso do Circuito Ribeira. Hoje, resolvi pegar a Via Costeira e passear pelo bairro onde moro e do qual, teimosamente, não pretendo sair.

A história recente de Ponta Negra quase não tem mocinhos. E nem mocinhas, é bom que se diga. Somos todos meio cúmplices dos tortuosos caminhos que a praia percorreu nos últimos anos. O jogo de empurra, a atitude de “João-sem-braço” e nossa habilidade em botar a culpa nos outros atua serelepe neste caso.

A deterioração veio disfarçada de prosperidade, como sói ocorrer. Tudo começou com o boom turístico e investimentos estrangeiros do final dos anos 1990 e início dos 00, a especulação imobiliária alimentada pela sanha inconsequente dos empresários do setor produziu uma cidade inflacionada, na qual os próprios nativos se viam privados de adquirir imóveis, sentindo-se muitas vezes estrangeiros em sua própria terra. Os vendedores de apartamentos não se importavam com os resultados de suas ações. Desde que o dinheiro seguisse entrando em seus bolsos, não havia porque pensar na comunidade que os rodeava, evidenciando uma sincera indiferença com a cidade e a mais completa falta de civilidade.

Foram vendidos imóveis para estrangeiros sem qualquer preocupação a respeito dos desvios de conduta dos compradores. Não houve sequer aquela natural preocupação parental de indagar aos desconhecidos: “quais as suas intenções com a nossa cidade?” Desta forma, chegaram toda a sorte de pervertidos e golpistas, como se já não os tivéssemos em bom número. Logo, Natal passou a ser a capital brasileira do Turismo Sexual e o bairro de Ponta Negra o principal ponto de encontro dessa turma vidrada no velho e bom sexo pecuniário. Nada contra a prostituição e seus adeptos, tenho até amigos que são, mas me causa extrema repulsa a prática da pedofilia. O que dizer então dos repetidos casos, ocorridos bem debaixo dos nossos narizes, de marmanjos vindos do outro lado do Atlântico para se espojarem em libidinosas férias com nossas meninas de 12 anos em situação de vulnerabilidade social. Em bom português: o que teve de gringo se jogando na safadeza com menores pobres de Natal não está no gibi!

Os empresários do setor podem tentar argumentar que não é bem assim, que este não é o papel deles, que são as autoridades que deveriam tomar providências para coibir tais práticas e mimimi ad infinitum. Pois bem, se a arte de tirar o corpo fora fosse elevada ao patamar de esporte olímpico, levaríamos o ouro em qualquer competição. A verdade é que estão todos pouco se importando para qualquer aspecto de seus negócios que não sejam os números acompanhados de uma boa quantia de zeros à direita, não havendo limites morais para atingir suas metas. O caso da Operação Impacto não poderia ser mais ilustrativo.

É claro que houve reação por parte da “sociedade civil organizada” ou algo que o valha. Os natalenses não curtiram ver seu principal cartão postal convertido em zona de prostituição franca. Fizeram o que lhes inspirava a índole dócil e acovardada. Fugiram para bem longe. Espalharam-se rumo a recantos cada vez mais afastados ao sul e ao norte da pornografia tropical e feliz da praia urbana. A Natal de “pernas abertas para receber bem”, repleta de meninas morenas e pobres acompanhadas de branquelos europeus de baixa classe não agradava os locais. Formou-se uma diminuta ilha de “civilidade” na frente do Hotel Manary, onde alguns conterrâneos VIPs se refugiaram e só. Tirando os natalenses residentes no bairro, os demais viraram as costas.

Um belo dia um dono de restaurante da outrora valorizada beira-mar resolveu levantar a voz ante a ausência do poder público em combater o turismo sexual. Foi aos jornais e denunciou com alarde e legítima indignação: “Há turismo sexual em Ponta Negra e as autoridades fingem que não ocorre nada!” O então prefeito ouviu o chamado e tomou uma providência: mandou toda a sorte de fiscais com o intuito de fechar o estabelecimento do sujeito que se atreveu a dizer a verdade. Ninguém ousou falar depois dele, pois o alcaide mostrou como se faz. Punição exemplar.

Tudo corria bem para alguns, até que, um belo dia, aconteceu o que muitos temiam. Acabou o dinheiro no além-mar. O estrago já estava feito, deixando-nos um belíssimo cenário pós-apocalíptico de terra arrasada como legado. Dessa vez, sem o velho argumento da entrada de divisas que o justificasse. A praia da zona sul, do morro bonitão e da faixa de areia mais barulhenta do Brasil ainda não voltou a ser procurada pelos antigos amantes e frequentadores. Os empresários também não querem mais saber dela porque sugaram tudo o que podiam do idílico lugar. Já as autoridades competentes (SIC), pelo que consta a situação do calçadão, decidiu que o melhor seria fazer o mesmo que aconteceu com o Machadão. “Derruba a praia. Depois a gente constrói outra com muito mais vaga de estacionamento.” Acho que deve ser essa a lógica. Aliás, olhando ao redor, deve ser esse o plano para toda a cidade.