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Coluna do Novo Jornal – 114 – 10.11.2012 – Foca, Ana e o Festival Dosol

julho 23, 2014

Esta é uma “crônica exaltação”, uma espécie de elogio em forma de texto que sempre faço a pessoas que realizam trabalhos edificantes e valiosos, ilhas de empreendedorismo cultural e humano em meio a todo um oceano de mediocridade que insiste em nos rodear e pilhar quaisquer indícios civilizatórios com um tsunami de chorume e burrice endêmica.

Ana e Foca não são assim.

ainda bem.

***

Foca, Ana e o Festival Dosol

Ana e Foca

Foca e Ana na frente do Centro Cultural Dosol – foto Tribuna do Norte.

Hoje é um dia muito importante no meu calendário pessoal, cultural e de lazer. Terá início em Natal mais uma edição do Festival Dosol, celebração musical que vai além do mero entretenimento vazio de outros eventos anuais que recebem vultosos investimentos públicos sem oferecer à cidade seque ruma mísera fração do que o Dosol nos devolve em contrapartida a sua realização. Em dois dias de apresentações, dezenas de bandas, muitas delas locais, passarão pelos 2 palcos da Rua Chile.

Vários dos rapazes e moças munidos de guitarras, baquetas ou simplesmente de suas vozes foram doutrinados e tiveram suas bandas “incubadas” a partir da estrutura e estratégia montada pelo casal à frente do Dosol, Ana Morena Tavares e Ânderson Foca. A combinação selo musical, estúdio para ensaio e gravação, Centro Cultural para apresentações e um longevo e respeitado festival anual, promovendo intercâmbio com bandas de outros lugares, além da oportunidade de tocarem para uma plateia ampla, faz com que surjam novos grupos, gente tocando e compondo música autoral, dando vazão a todo um potencial criativo represado e que encontra no Dosol uma maneira de extravasar seus dotes artísticos de uma forma mais construtiva do que simplesmente pegando uma latinha e batendo uma na outra: tchá, tchá!

 

ATENÇÃO: INTERROMPEMOS ESTA COLUNA PARA UMA BREVE REFLEXÃO!

Aqui cabe uma reflexão que não me canso de propor. O trabalho colaborativo do Dosol tem beneficiado a cultura local ao promover a formação de público para a música autoral, dar a oportunidade de artistas amadurecerem e desenvolverem suas habilidades. Tudo isso numa região da cidade que permite não infernizar a vida de nenhum dos seus habitantes. Em resumo: os benefícios gerados são divididos entre muitos. Em contraponto, o que foi que o Carnatal gerou além do enriquecimento de alguns empresários como Paulinho Freire e os donos da Destaque? Alguém conhece uma banda local surgida a partir do evento festivo puxado por trios elétricos? E nem me venham com a história de que ele gera trabalho e renda, pois as migalhas que acabam caindo nas mãos do povo são pouco menos que uma mísera esmola diante dos milhões em dinheiro público embolsados pelas empresas promotoras. Isso num evento que cobra centenas de reais por cada dia de folia, altamente rentável e, certamente, autossustentável. Na boa, o maior legado dos 4 dias de folia é o cheiro de mijo que impregna nossos narizes na segunda pós-evento.

AGORA VOLTAMOS A NOSSA COLUNA NORMAL.

 

O grande mérito do festival ribeirinho é não sucumbir à armadilha fácil que captura 9 entre 10 natalenses, o lugar-comum do “se dar bem sozinho”, do “farinha pouca meu pirão primeiro” e do egoísmo de ocasião (qualquer ocasião) que impera na cidade. O voluntarismo da trupe roqueira não é exclusiva deles. Podemos perceber também em iniciativas admiráveis como a Casa da Ribeira, o Clowns de Shakespeare e diversas outras. É esse perfil generoso e colaborativo que está por trás do crescimento do evento e da expansão para Mossoró, Caicó e São Paulo de Piratininga. Obviamente, tudo é fruto de muito trabalho e de uma persistência quase obsessiva que percorreu os anos. Posso afirmar com conhecimento de causa, uma vez que fui testemunha ocular da história de Foca desde que ele era apenas um esforçado pegador de ondas vindo do Pará.

Conheci Ânderson através de dois amigos em comum, Caio Vitoriano e Leonardo Medeiros, em um dezembro qualquer dos anos 1990. Naquela estranha e derradeira década do milênio passado, ele era um dos caras que proporcionaram com que se pudesse sair por aí para ouvir algo além do ritmo preferido dos natalenses, o forró-pagode-axé. Eram anos estranhos e algumas válvulas de escape pop respondiam por “Banda Officina” e “Inácio Toca Trumpete” (de Karol Polsadski), além dos ótimos “Mad Dogs” dos ídolos supremos de várias gerações: Paulo Sarkis e Fernando Suassuna.

Quem também fazia parte da “Officina” era Ana Morena. Em meio a uma cidade monocultora por convicção, o casal e seus colegas de banda conseguiam viver de Pop-Rock com bons vencimentos a cada mês. Isso mostrava um lado empreendedor bastante apurado e uma firmeza de propósitos de quem realmente queria atingir seus objetivos. Em que pese eu acompanhar os shows como amigo dos vocalistas, o que me converteu em fã de ambos foi o trabalho árduo à frente do Dosol, iniciado anos depois. Foi ali que eles me convenceram da importância do que faziam, ganhando pontos e estrelas no boletim hipotético no qual emitimos notas mentais e julgamos todas as pessoas que conhecemos em nosso inconsciente.

Com a abnegação, sacrifícios e conquistas obtidas, Ana e Foca evoluíram na classificação de amigos para essas pessoas que a gente tem orgulho em conhecer. Subiram o elevador no meu conceito em virtude de um trabalho notável, colocando Natal entre as cidades onde acontecem coisas boas, que recebem bons concertos de cultura alternativa, por onde passam bandas legais que gostaríamos de ver ao vivo.

Todo mundo deve ter alguém com história semelhante. Um cara que se conhece há tempos e que prospera, vence, se destaca, faz e acontece, nos deixando felizes, como se também fizéssemos parte, de alguma forma, das façanhas empreendidas. Em mim, gera uma sensação boa, pois gosto de verdade de acompanhar o êxito dos amigos. Como fiquei em 2007, quando o festival perdeu o patrocínio devido às jogadas do Governo do Estado e da Fundação José Augusto e mesmo assim ele realizou o festival com mais de 50 bandas, muitas tocando de graça, na brodagem, pra ajudar diante da situação difícil. Vários grupos hospedados em casas de amigos.

E agora chegamos a 2012. Mais uma edição do Festival Dosol tem início. É hora de celebrar o fato de um trabalho persistente, bem feito, prospere e faça tão bem à cidade e sua cena cultural. Todas as iniciativas do Dosol representam uma vitória contra o marasmo, a mesmice, a mediocridade e a estagnação. O sucesso da dupla organizadora e de suas invenções é também uma prova que boas coisas nascem, crescem e prosperam nesta acéfala e ensolarada capital potiguar.

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Lançamento da JOVENS ESCRIBAS no Rio de Janeiro – 25.03.2014

março 24, 2014

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Amanhã (terça – 25 de março de 2014), a Editora Jovens Escribas vai lançar os livros de 3 autores no Rio de Janeiro. São Eles, Leonardo Panço, Nei Leandro de Castro e Carlos Fialho. O evento faz parte da nossa turnê pelo sudeste em comemoração aos 10 anos de atividades empreendidas por nossa editora e pelo coletivo de autores que arregimentamos em torno dela.

Após um bem sucedido evento em BH no sábado, agora é a vez dos leitores cariocas receberem nossa visita.

Serão levados ao Rio, os livros “Esporro” e “Caras dessa idade já não leem manuais” de Leonardo Panço; “As Dunas Vermelhas”, “Pássaro sem sono”, “O Dia das Moscas” e “50 anos de poesia” de Nei Leandro de Castro; “As maiores mentiras do verão” e “Não basta ser Playboy. Tem que ser DJ!” de Carlos Fialho.

Quem estiver no Rio nesta terça, dá uma passada lá no bar e restaurante DESACATO, no Leblon. Vários escritores e amigos da editora residentes na cidade estarão lá pra prestigiar.

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E quem quiser aproveitar, poderá adquirir os vários livros lançados e vendidos na noite por preços promocionais.

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Coluna do Novo Jornal – 108– 29.09.2012 – Jonas Camarão

março 20, 2014

Em 2012, li um romance muito legal: “Cidade dos Reis” (FJA-2012) de Carlão de Souza. Gostei tanto que escrevi a respeito e publiquei em minha coluna no Novo Jornal.

Boa leitura! E, se puderem, leiam também o livro que é bom à beça.

***

Jonas Camarão

Carlão de Souza. Foto: Elisa Elsie

Carlão de Souza. Foto: Elisa Elsie

Por que somos do jeito que somos? Qual a razão de nos comportarmos desta ou daquela forma? Qual a explicação para reagirmos assim ou assado diante das mais variadas situações cotidianas que a vida nos prepara? Quando um de nós vai a um psicólogo em busca de respostas, as perguntas sobre nosso passado são pequenas pistas que o analista dispõe sobre a mesa do inconsciente para desvendar o grande mistério que vem a ser a nossa vida. O que ocorreu conosco durante o nosso crescimento, e mesmo em tempos recentes, pode explicar muito sobre nós. Os traumas, as escolhas, as experiências, influências mil que compõem a complexa personagem de cada um, protagonistas que somos de nossas infinitas narrativas em primeira pessoa.

Lendo o mais recente romance de Carlos de Souza, “Cidade dos Reis” (FJA-2012), concluí que este raciocínio poder ser aplicado também a uma cidade. Tudo porque Carlão resolveu nos contar a sua versão da história de Natal nos últimos 100 anos. Começando pelo 1º dia do século passado e concluindo a história na derradeira folha do calendário de 2000, a vida de Natal e mesmo do RN é revelada aos felizes leitores desta obra altamente recomendável a todos que tenham o mínimo de curiosidade a respeito do que aconteceu nesta metrópole com alma de província ou quer encontrar respostas de como viemos a ser como somos.

Jonas Camarão nasceu em 1º de janeiro de 1901. Era descendente direto do herói duvidoso Felipe Camarão, homem de caráter questionável a ilustrar os livros de história do nosso Estado. Jonas viveu exatamente um século e, como nunca saiu do RN, a não ser para umas tantas e rápidas idas a Recife a fim de fechar negócios, acompanhou de perto todos os acontecimentos políticos, sociais, econômicos e as transformações ocorridas em Natal e arredores. Viu as mudanças de governos, a evolução nos hábitos e costumes, a chegada do automóvel, as alterações urbanas da cidade (incluindo o plano Palumbo), a vinda (e depois partida) dos americanos entre tantos outros acontecimentos relevantes.

O protagonista, em que pese a origem humilde, devido ao grande esforço dos pais, estudou no Atheneu, acabando por se tornar um comerciante de sucesso. Ou, como ele próprio dizia: “Comerciante não. Negociante!” Tornou-se um típico cidadão da capital potiguar. Pacato, de índole dócil e conservador. Tanto que lhe causava profunda contrariedade a maneira como os empresários locais faziam questão de derrubar edificações clássicas para construir caixas horrendas em seus lugares, não importando a relevância do que se destruía. Sobre isso, o narrador declara: “Uma cidade se diminui quando elimina seu passado. Natal está sempre sujeita a sucumbir a qualquer ilusão de modernidade. Os poderosos, verdadeiros donos desta cidade, estão sempre dispostos a destruir qualquer bela construção para erguer algo novo no lugar. É uma cidade sem memória.”

Jonas também nunca se conformou com determinados traços flagrantes de miudeza da alma que faziam o povo potiguar se comportar de forma a voltar-se uns contra os outros. Indignava-se sobretudo com a maledicência do povo e a mania de maltratar os conterrâneos, principalmente os que ganham algum destaque, diminuindo seus méritos e desvalorizando seu trabalho, comportamento típico de gente invejosa, cujas janelas permanecem sempre abertas para a vida alheia. Em dado trecho, referindo-se a grandes artistas que não obtiveram o reconhecimento devido por essas plagas, o texto diz: “Aqui ninguém suporta o sucesso alheio. Esta é a cidade da inveja e do olho gordo. Se o vizinho comprar algum objeto de desejo, se alguém adquirir algo grandioso, se alguém se destacar, passa a ser motivo de ódio dos demais. O ditado diz que ninguém é profeta em sua terra. Isto, em Natal, ganha proporções desérticas… É uma cidade amordaçada. Seus filhos mais ilustres são como profetas que pregam no deserto para gafanhotos indiferentes.”

O próprio personagem principal se viu como vítima de fofocas: “Jonas percebia o olhar jocoso por trás das palavras falsamente respeitosas que lhe dirigiam. Fingia não dar atenção, mas por dentro estava nascendo um rancor tão refinado que poucos iriam perceber o quanto iria odiar as pessoas da sua cidade nos anos vindouros.”

Apesar de ter vividos os dissabores e decepções comuns à grande maioria de nós, Jonas prosperou como comerciante, desfrutando de uma vida plena e confortável. Tinha a sorte dos predestinados. Tudo lhe favorecia nos momentos em que mais precisava. Mesmo quando sofria um forte revés, logo o destino lhe presenteava com um golpe de sorte. Graças a isso, não passou grandes apertos com dinheiro. Os maiores sobressaltos vividos por ele se relacionavam ao contexto histórico vivido, fosse a 2ª Guerra Mundial ou a estúpida Ditadura Militar. Tanto que o narrador opta por eliminar a figura de um vilão central, antagonista do “herói”. Um dos personagens que apresentou potencial para ser esta encarnação do mal, que temperaria a trama e criaria conflito suficiente para dar uma maior complexidade à ficção, não se desenvolve para se converter neste malfeitor clássico. Esse expediente (de condicionar as ações do personagem a fatores externos) permitiu ao narrador dar maior enfoque à história de Natal sem maiores distrações.

Mesmo sendo um homem à moda antiga, como a grande maioria da população de Natal, o negociante, diferentemente de nossa elite empresarial e política, formada basicamente por ignorantes endinheirados, amava a literatura e devotava enorme admiração por Câmara Cascudo. Esta é outra tacada certeira do autor. Por meio dessa preferência do protagonista, o autor nos conduz pelas vidas e obras de Auta de Souza, Henrique Castriciano, Zila Mamede e Cascudo, entre outros, citando os livros lançados com o passar dos anos. Os lançamentos de Cascudo, por exemplo, são introduzidos na história com muita naturalidade, entremeando a narrativa marcada por sucessões de governos e a passagem do tempo para Jonas. Com isso, os leitores têm a oportunidade de compartilhar do conhecimento de Carlão acerca de nossos grandes autores.

Tal apreço de Jonas Camarão pela vida intelectual contrasta com muitos dos seus colegas empresários locais, tão indiferentes a todos os assuntos que não se relacionem a dinheiro. Sobre isso, o narrador se questiona: “Como seria a vida de alguém assim, cuja única diversão é ganhar dinheiro? Que tipo de vazio poderia ser preenchido apenas com o ato mecânico de faturar mais? Que almas abrigam espíritos tão embrutecidos?” Em certo momento, também relata um comportamento frequente entre a elite natalense: “Enquanto se é rico, todas as atenções lhe são prestadas. Quando se é pobre, todos viram as costas. Você vale o que possui.” A conclusão a que chega é que, em face à forma desumana com que os empregadores tratam seus funcionários, “Aqui, a revolução industrial chegou com atraso”.

O livro de Carlos de Souza é indispensável a todos aqueles que pretendem aprender sobre Natal, o Rio Grande do Norte e, por extensão, sobre si próprios. Recomendo. 

Marvel Comics: a história de quem fez história contando histórias

março 19, 2014

Marvel

Adquira já o seu nas melhores casas do ramo.

Li mês passado o livro “Marvel Comics – A História Secreta” do jornalista americano Sean Howe. Um livraço que conta em detalhes toda a trajetória da editora de quadrinhos mais popular do mundo desde a sua fundação até o estrondoso sucesso do Marvel Studios. Em muitos momentos, fã devoto que sou, senti-me como um religioso ao descobrir as (muitas) faltas daqueles que comandam os destinos de sua fé.

A Marvel foi desde sempre o lar de algumas das mentes mais brilhantes e produtivas de suas gerações, porém também viveu muitas controvérsias, foi palco de disputas agressivas e deu lugar a atitudes bastante questionáveis (para dizer o mínimo). Tantos foram os problemas enfrentados que é supreendente que tenha chegado tão longe e transformado suas histórias complexas e entrelaçadas (o chamado “Universo Marvel”) em um fenômeno de popularidade de escala mundial. Por outro lado, tantas (e acreditem: foram muitas) trapalhadas explicam o porquê de a empresa ter chegado tão tardiamente aos cinemas de maneira satisfatória.

O livro conta como empresários inescrupulosos que não davam a mínima para  quadrinhos, os personagens, a coerência criativa das histórias e, sobretudo, para os seus criadores contratados, comandaram a empresa durante décadas sucessivas, quase arruinando para sempre esta indústria cultural que ganhou dos fãs a carinhosa alcunha de “Casa das Ideias”. Também houve inúmeros editores egocêntricos, diretores arrogantes, artistas instáveis e brigas, muitas brigas. Nem o cânone Stan Lee escapa de graves acusações feitas por alguns dos seus principais parceiros (Jack Kirby e Steve Ditko), que criaram junto com ele heróis icônicos do imaginário pop atual.

Em meio a todos esses conflitos, nomes que fizeram (e fazem) a história das HQs pipocam na narrativa, contribuindo com toda a riqueza que fez da Marvel o que ela é hoje no inconsciente coletivo do mundo do entretenimento: John Byrne, Frank Miller, Chris Claremond, Jack (King) Kirby, Steve Ditko e, claro, Stan Lee.

Recomendo fortemente a leitura. Vale cada página, cada nota de rodapé. Destaque ainda para a tradução impecável do jornalista Érico Assis.

O Robocop de José Padilha

março 12, 2014

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Quando fui convidado para a coletânea “Como se não houvesse amanhã: 20 contos baseados na obra da Legião Urbana”, escolhi transformar em ficção, a música “Faroeste Caboclo”, canção que já trazia em si uma narrativa pronta, uma história contada por Renato Russo (e cantada incessantemente por uma geração saudosa), dando ao cantor ares de grande trovador. A surpresa de Henrique Rodrigues, organizador da antologia para a editora Record foi flagrante. Afirmou-me com admiração que eu era um autor corajoso, por mexer num “cânone estabelecido”, que seria mais fácil optar por alguma canção mais enigmática, com margem para interpretações diversas ou mais poética, repleta de figuras de linguagem e significantes que poderiam sugerir vários significados diferentes. O também autor presente na coletânea, Marcelo Moutinho foi da mesma opinião, afirmando que, de todos os convidados, eu estava assumindo os maiores riscos.

É verdade, mas como diria um outro ícone dos anos 80: “todos os meus movimentos foram friamente calculados”.

Escolhi correr os perigos de me expor em demasia aos fãs da banda porque, como toda aposta de alto risco, se desse certo, os ganhos seriam proporcionais ao desafio. E como eu tinha muito pouco a perder (eu era um dos autores menos conhecidos do livro), acredito que a estratégia tenha sido bem traçada. Até porque, semanas depois de lançado, quando a Época fez uma vasta reportagem com o nosso livro e outro semelhante, mas com textos baseados em canções do Chico Buarque, a reportagem escolheu destacar o meu conto. E isso foi bem bacana.

Fiz este preâmbulo imenso (desculpem por isso. Deve ser a abstinência de escrever) para poder embasar alguns comentários a respeito do novo Robocop, dirigido pelo brasileiro José Padilha. Ao diretor, foi dada a oportunidade de realizar um filme de grandes proporções, feito por um estúdio gigante norte-americano, e chances assim não devem ser recusadas. É o tipo da oferta à qual, primeiro dizemos “sim” e só depois pensamos nas implicações que a aceitação possa gerar. O fato de José Padilha ter tido a coragem de recriar um personagem tão icônico do cinema de ficção científica, com lugar cativo na memória afetiva de uma grande parte do público, ganha algum paralelo ao que disse logo acima sobre “correr riscos”, mexer em “cânones estabelecidos” e tal e coisa.

A primeira decisão que ele parece ter tomado, após dar início ao projeto foi a de fazer um filme novo, diferente do original, voltado para problemas distintos do que era mostrado na produção de 1987. A premissa de um policial estropiado que é colocado dentro de uma estrutura robótica para combater o crime se mantém, mas tirando isso, pouco se mantém se comparado com o filme de Paul Verhoeven.

Se os fãs compreenderem isso, poderão curtir um bom filme de ação, correto, acrescido de sub-tramas a respeito de corrupção policial, mercantilismo exacerbado e manipulação da informação pela mídia. A forma como os fatos são distorcidos pelo apresentador vivido por Samuel L. Jackson remetem muito fortemente aos recentes anos W. Bush e sua obsessiva “Guerra contra o Terror”. O Robocop de Padilha é um bom filme, o melhor possível dentro das premissas que tinha que seguir e das inúmeras regras impostas por um “filme de produtor”. De certa forma, foi como se ele tivesse feito o seu “Tropa de Elite”, mas com o Capitão Nascimento vestido de Power Ranger preto. Que venham mais filmes dele, tanto lá como cá. 

10 anos de JOVENS ESCRIBAS – Parte 00 – Não existem escritores jovens!

fevereiro 20, 2014

10 anos

Parece que foi semana passada. E, na verdade, foi. Semana passada, a Editora Jovens Escribas completou 10 anos de atuação. Hoje, são mais de 50 títulos lançados, muitas amizades adquiridas e algumas boas histórias pra contar. Pra começar, iniciemos do princípio.

Em fins dos anos 90, eu fazia duas faculdades de Comunicação Social. Pela manhã, fazia Jornalismo na UFRN e, à noite, Publicidade na UnP. Ainda encontrava tempo para estagiar à tarde e, nas horas vagas, para ver filmes, jogos e ler alguns livros legais. Naquele tempo, incentivado pela leitura de crônicas de Luís Fernando Veríssimo, decidi tentar escrever textos curtos e criativos, leves e bem humorados, sobre qualquer assunto, o mundo em geral e o cotidiano em particular. Passei a colaborar com o zine, AZ Revista que revelou grandes nomes da comunicação como Caio Vitoriano, George Rodrigo, Paulo Celestino e Cristiano Medeiros.

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Já na década seguinte, em 2001, fui passar uma temporada no Rio de Janeiro, para fazer um curso de especialização em redação publicitária. Nos primeiros tempos de Rio, eu frequentava a ESPM à noite e tinha o dia inteiro livre, pois só vim estagiar seriamente quando faltavam uns 4 meses para voltar a Natal. Dediquei-me então à leitura e à escrita de crônicas como exercício criativo.

Neste contexto, escrevi uma crônica chamada “Galado” que versava sobre este tão pitoresco termo do coloquialismo natalense. Envie o texto por e-mail para alguns amigos e, para minha surpresa, fez um estrondoso sucesso. Logo, o e-mail foi reenviado incontáveis vezes e minha autoria se perdeu pelo caminho. Senti, então, a necessidade de “registrar” meus escritos de alguma maneira. A princípio, procurei os jornais locais, mas ninguém queria publicar os textos de um estudante. Ainda mais um que tinha um palavrão por título. Tomei então uma decisão importante, que mudaria minha vida anos mais tarde: publicaria um livro com minhas crônicas.

Entre 2001 e 2003, reuni e selecionei cerca de 50 textos. Submeti-lhes à leitura sempre cuidadosa e sincera de Nei Leandro de Castro, que pediu para ler antes de aceitar (ou não) escrever a orelha. No fim do ano, o arquivo com o livro já estava sendo trabalhado pelo diretor de arte Modrack Freire. Neste meio tempo, porém, uma questão me veio à mente. Quando, em conversas informais, as pessoas sabiam que eu estava preparando um livro de minha autoria, costumavam dizer: “Que legal! Não existem escritores jovens, né?”

Os 4 SP

Comecei a pesquisar e percebi que as pessoas tinham razão. Os jovens estavam publicando em blogs, sites, fanzines e outras mídias populares na época, mas não livros. Procurei outros caras da minha idade (tinha uns 23 anos) que tivessem escritos em volume suficiente para se tornarem também livros. Dessa forma, com a ajuda da lei municipal de incentivo à cultura e de alguma empresa que pagasse bom volume de ISS, lançaríamos uma série de livros sob a égide de uma mesma marca, um selo editorial que legitimasse nossa coleção de publicações. 

O nome criado, JOVENS ESCRIBAS, remetia à junção do novo ao antigo, remetendo à infante energia cheia de vida e disposição dos jovens empreendedores da jornada e também à verve tradicionalista que não se satisfazia com as novas mídias, com os canais proporcionados pelo advento da Internet, mas que queriam sim ver suas criações impressas em papel, num formato padrão encapado, colado e costurado. O logotipo elaborado por Modrack Freire alude ao nascimento de novos escritos, pois traz um pingo de tinta como uma gota de esperma com o nome do selo editorial em seu interior.

O recrutamento dos companheiros de jornada não seria fácil. Era importante que nossa coleção de 4 livros tivesse gêneros distintos. Eu escrevia crônicas, então precisávamos de um contista, um poeta e, se possível, um romancista. O contista foi mais fácil, pois eu conhecia Thiago de Góes desde o colegial e sabia que ele andava escrevendo contos populares, influenciado pela leitura de autores brasileiros como Rubem Fonseca. Quando entrei em contato, ele me falou sobre um projeto que estava trabalhando que era a confecção de contos baseados em canções bregas. Gostei da ideia.

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O poeta e o romancista surgiram por indicação. Um amigo publicitário, Renato Quaresma me disse certa vez que um colega chamado Daniel Minchoni andava declamando poesias de sua autoria pelos calçadões de Ponta Negra. Procurei Mincha para falar do selo e perguntar se ele tinha interesse em publicar.

Por fim, Modrack me apresentou a Patrício Jr., um grande amigo seu que tinha acabado de escrever um romance que se chamaria “Lítio”.

Nos encontramos Daniel, Patrício e eu (Thiago mora em Fortaleza e quase nunca estava em nossas reuniões) e topamos construir o projeto juntos. No início, achávamos que publicaríamos aqueles livros de estreia e pararíamos por aí. Ou que até continuaríamos, mas com os livros seguintes lançados por outras editoras, grandes, do sudeste. Não tínhamos ideia de como este universo editorial do eixo Rio-SãoPaulo era fechado a poucos. Nem percebíamos que tínhamos acabado de conceber uma ideia muito mais forte e duradoura do que um simples e passageiro selo editorial. O simples fato de termos decidido fazer algo coletivo, juntando vários autores em torno de um objetivo em comum daria à Jovens Escribas uma força extra que se tornou o segredo de boa parte do nosso sucesso.

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Por essas falhas de avaliação iniciais, pode-se perceber o quanto éramos, de fato, jovens e ingênuos. Com isso, é possível compreender inclusive o nome de batismo do então selo editorial, que não levava em consideração que envelheceríamos rápido, que um dia publicaríamos autores já bem entrados nos enta e que nossa marca duraria bem mais do que uma embrionária coleção de 4 livros.

NO PRÓXIMO TEXTO: VERÃO VERANEIO  

Ação Leitura 2013 – Abertura e Comerciais

maio 13, 2013

Começa hoje mais uma edição da AÇÃO LEITURA. Esta noite, teremos Clotilde Tavares e Pablo Capistrano em um bate-papo bem legal na abertura que ocorre na UnP da Floriano Peixoto.

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Para quem ainda não viu na TV, aproveito para dividir com vocês os 3 comerciais de divulgação do evento criados pelo Comitê Criativo r produzidos pela ZAM House e Janilson Lima.

 

 

AÇÃO LEITURA 2013 – Mais que aprender, leitura é lazer!

maio 10, 2013

AÇÃO LEITURA 2013: SESC e Jovens Escribas realizam terceira edição do evento.

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Em outubro de 2011, foi realizada a primeira edição da AÇÃO LEITURA por iniciativa da editora Jovens Escribas. A ideia era promover um evento destinado ao incentivo à leitura, tendo como público preferencial os estudantes (mas aberto ao público em geral). O evento trazia uma mensagem simples: “Ler pode ser muito divertido.” No primeiro ano, foram contempladas diversas escolas públicas e particulares, além de algumas instituições de ensino superior, que receberam autores contemporâneos para transmitir aos alunos o prazer na leitura.

Em maio de 2012, desta vez com realização do SESC, ocorreu a segunda edição. O número de escolas foi ampliado, bem como o de parceiros que proporcionaram um maior número de atividades. Além dos bate-papos com os autores, foram realizadas duas oficinas literárias gratuitas e bastante disputadas com os autores mineiros Sérgio Fantini e Ana Elisa Ribeiro. Estiveram presentes durante os 5 dias de evento mais de 2.000 pessoas.

Em 2013, o evento vem ainda melhor. Ocorrerá no período 13 a 17 de maio e teve o número de instituições atendidas ampliado em relação a 2012. Autores como Clotilde Tavares, Pablo Capistrano e Daniel Galera irão a escolas e universidades para conversar com estudantes sobre suas trajetórias como leitores e, consequentemente, escritores. Todos levarão consigo a mensagem do evento deste ano, trabalhada nas peças de divulgação: “Mais que aprender, leitura é lazer.”

Método de trabalho

A AÇÃO LEITURA traz consigo um método utilizado em outros eventos literários Brasil afora que se mostraram bastante exitosos em longo prazo, como a Jornada Literária de Passo Fundo (RS). As ações promovidas seguem a seguinte sequência: primeiro, são enviados textos dos autores que visitarão cada escola para serem trabalhados em sala de aula pelos professores; segundo, os autores visitam as escolas e conversam com os estudantes; terceiro, livros dos autores são deixados nas bibliotecas das escolas para serem lidos pelos alunos. Esta metodologia foi responsável por fazer da cidade de Passo Fundo a primeira colocada nos índices de leitura do Brasil, elevando consideravelmente o nível educacional do município.

Autores

Este ano, a AÇÃO LEITURA terá os seguintes convidados: Clotilde Tavares, Pablo Capistrano, Patrício Jr., Daniel Minchoni, Carlos Fialho, Sinhá, Ruy Rocha, Márcio Benjamin, Carito, Thiago de Góes, Milena Azevedo, Daniel Galera (RS), Ana Elisa Ribeiro (MG), Sérgio Fantini (MG) e Carlos Henrique Schroeder (SC).

Programação

De segunda (13/05) a sexta (17/05) os autores vão falar para estudantes de ensino fundamental, médio e superior. Haverá diversos eventos noturnos e abertos ao público, dando oportunidade para que leitores possam ter um contato mais próximo com os convidados. Parcerias com grupos e produtores culturais da cidade, como Clowns de Shakespeare, o Dosol e a Casa da Ribeira permitem oferecer uma maior variedade de atrações, associando a leitura a atividades lúdicas e divertidas.

Os eventos dentro da AÇÃO LEITURA:

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Abertura oficial – segunda-feira – 13/05 – 19h

Bate-papo com Clotilde Tavares e Pablo Capistrano

UnP – Floriano Peixoto – Auditório grande

 

Menor Slam do Mundo – O maior menor torneio de poetas do mundo, agora em Natal.

Casa da Ribeira – 14/05 – 19h – Acesso gratuito

 

Clowns Escribas – Leituras dramáticas

Autores e escritores (quase) em cena.

Barracão do Clowns – 15/05 – 19h – Acesso gratuito

 

Poesia Esporte Clube – A volta, a revolta, a reviravolta.

Casa da Ribeira – 16/05 – 19h – Acesso gratuito

 

IapoisPoesia Especial.

Parque das Dunas – Bosque dos Namorados – 17/05 – 14h – Acesso gratuito

 

Lançamento do livro “Barba Ensopada de Sangue” de Daniel Galera.

Livraria Nobel da Salgado Filho – 17/05 – 19h – Acesso gratuito

 

A programação completa está no site: (www.jovensescribas.com.br/acaoleitura).

 

Oficinas

Este ano, as oficinas já realizadas pelos autores Sérgio Fantini e Ana Elisa Ribeiro serão reeditadas, mas também estão sendo oferecidas outras 3 alternativas para os interessados.

Oficina de produção de cordel com Clotilde Tavares – 25 vagas – Inscrições gratuitas

Dias 15 e 16 de maio – das 14h às 17h.

Oficina de produção de contos com Daniel Galera – 15 vagas – Inscrições gratuitas

Dias 15 e 16 de maio – das 19h às 21h.

Oficina de criação para quadrinhos com Carlos Henrique Schroeder – 15 vagas – Inscrições gratuitas

Dia 16 de maio – das 14h30 às 17h30 e das 19h às 21h.

Oficina de produção de crônicas com Ana Elisa Ribeiro – 25 vagas – Inscrições gratuitas

Dias 15 e 16 de maio – das 19h às 21h.

Oficina de leitura de contos com Sérgio Fantini – 25 vagas – Inscrições gratuitas

Dias 15 e 16 de maio – das 19h às 21h.

Todas as inscrições deverão ser feitas pelos formulários contidos no site:

www.jovensescribas.com.br/acaoleitura

Escolas

Serão contempladas nesta edição: Escola SESC, Escola Estadual Castro Alves, Escola Municipal 4º Centenário, Escola Municipal Celestino Pimentel, Escola Municipal Francisco Varela, Escola Municipal Ulisses de Góis, Colégio das Neves, CEI Romualdo Galvão, Contemporâneo, Marista, Escola Doméstica, Henrique Castriciano, IFRN Zona Norte e instituições superiores como UnP e UNI-RN.

Abertura Oficial – Autor homenageado

Na abertura oficial do evento, que ocorrerá na UnP da Floriano Peixoto, às 19h da segunda-feira (13/05), haverá um bate-papo com os autores Clotilde Tavares e Pablo Capistrano. Na ocasião, será entregue um prêmio em homenagem ao escritor Nei Leandro de Castro, grande homenageado do evento deste ano. Nei, que estará em Natal devido ao lançamento do seu novo livro, receberá a primeira edição do PRÊMIO PARÁGRAFO, oferecido pelo SESC e pelos Jovens Escribas.

Encerramento Festivo  – Lançamento de Daniel Galera – Show com Simona Talma

Na sexta-feira (17/05) haverá o encerramento festivo. Todos os autores do evento se reunirão para confraternizar na livraria Nobel da Salgado Filho a partir das 19h. Será lançado o livro “Barba ensopada de sangue de Daniel Galera” ao som da cantora Simona Talma.

AÇÃO POTIGUAR DE INCENTIVO À LEITURA:

Realização: SESC e Jovens Escribas.

Patrocínio: Assembleia Legislativa, Cabo Telecom e Comitê Criativo.

Apoios e parceiros: InterTV Cabugi, Restaurantes Camarões, Dosol, Clowns de Shakespeare, Casa da Ribeira, IDE, Garagem Hermética, Ribeira Território Criativo.

 

Porta-voz do evento:

Patrício Jr.

e-mail:

pittjr7@gmail.com

 

É HOJE! Lançamento de “Pássaro sem sono”.

maio 9, 2013

Vamos todos? Quem é lindo vai!

Internet 820x820

Lançamento de Pássaro sem sono – Nei Leandro de Castro – Orelha

maio 7, 2013

Sobre “Pássaro sem sono” – Nei Leandro de Castro

Conforme já anunciei ontem, teremos o lançamento do novo livro de Nei Leandro de Castro nesta quinta-feira. Para aquecer um pouco e despertar a curiosidade de alguns, publico a orelha do livro e um breve perfil do autor com sua bibliografia de ficção.

Cartaz

 

Orelha de Pássaro sem sono:

O conto é um dos mais fascinantes estilos literários. Segundo Julio Cotazar, o que difere um romance de um conto é que no primeiro se vence por pontos, enquanto num conto, a vitória é por nocaute. Inapelável. Talvez tenha sido a sede de tornar-se vitorioso em outra seara que incentivou Nei Leandro de Castro, autor de tantos e memoráveis romances, a arriscar-se no terreno das narrativas breves e nos brindar com os contos deste “Pássaro sem sono”.

Nas histórias aqui reunidas, um ponto em comum: o erotismo. É a sensualidade utilizada como importante recurso a estabelecer tensão entre os personagens. O termo “erótico” vem do grego (Erotikós) e significa “relativo ao amor ou inspirado por ele”. O erotismo expressa, portanto, a naturalidade do desejo sexual, conforme pode-se notar nas histórias aqui reunidas. Nelas, o desejo, a vontade, os impulsos incontidos de cada um não são gratuitos, mas partes de um enredo que transmite valor literário às histórias magistralmente contadas pelo autor.

A publicação de “Pássaro sem sono”, aliás, vem em muito boa hora. Num momento em que a literatura comercial explora o erotismo de forma tão penosa e vulgar, este livro vem cumprir a nobre missão de redimir um estilo tão desvalorizado e vítima dos mais vis preconceitos. Os contos deste livro se diferem de algumas publicações recentes por não sofrerem de uma nefasta fixação pelo secundário. Pelo contrário, eles se valem primeiramente de histórias bem contadas, narrativas bem escritas, personagens interessantes.

Cabe agora a você, amigo leitor, apreciar a leitura dos contos a seguir e testemunhar de perto a vitória por nocaute de Nei Leandro de Castro.

***

Nei Leandro de Castro

20.10.2011 - Mais Siciliano Midway (13)

Nei Leandro ao centro, entre Pablo Capistrano e eu.

Nei Leandro de Castro nasceu em Caicó (RN), em 1940. Viveu em Natal e no Rio de Janeiro, onde reside atualmente. Trabalhou como redator e diretor de criação em algumas das principais agências de propaganda do país. Foi colaborador do semanário “O Pasquim” e escreveu resenhas literárias para “O Globo” e “Jornal do Brasil”.

Publicou os romances “O dia das moscas” (1983, com reedição em 2008), “As pelejas de Ojuara” (1986, com reedições em 1991, 2002 e 2006, adaptado para o cinema no filme “O home que desafiou o diabo”), “As dunas vermelhas” (2003, com reedição em 2013) e “A fortaleza dos vencidos” (2009).

Na poesia, lançou os livros “O pastor e a flauta” (1961), “Voz Geral” (1964), “Romance da cidade de Natal” (1975, com reedição em 2004), “Feira livre” (1975), “Canto contra canto” (1981), “Zona erógena” (1981), “50 sonetos de forno e fogão” (1982, em parceria com Celso Japiassu), “Musa de verão” (1984), “Era uma vez Eros” (1993), “Diário íntimo da palavra” (2000) e “Autobiografia” (2008).

Também publicou o livro de ensaio “João Guimarães Rosa – Universo e vocabulário do Grande Sertão” (1970, com reedição em 1982, vencedor do prêmio de melhor ensaio concedido pelo Instituto Nacional do Livro) e a coletânea de crônicas “Rua da estrela” (2010).

Coluna do Novo Jornal – 086 – Algumas verdades sobre Alex Nascimento – 21.04.2012

maio 5, 2013

Algumas verdades sobre Alex Nascimento

2012_05_22 Jovens Escribas Sinhá Casa da Ribeira Noite-162

Alex é o do centro ou, para facilitar a identificação, o mais bonito dos 3.

Em 2005, o fotógrafo Giovanni Sérgio, um dos homens mais cultos de sua geração, perguntou-me de chofre: “Você já leu Alex Nascimento?” Diante de minha negativa, arrebatou rápido e preciso, como se empunhasse uma objetiva e a apontasse para mim: “Ali sim é um escritor.” Jovem e petulante que era, ainda acometido da arrogância natural dos que pouco conhecem, interpretei a preciosa dica literária de Giovanni como mais uma de suas mordazes pilhérias, tão comuns a este pícaro e pictórico profissional das lentes, mago das imagens estáticas, príncipe da Rua Chile. Entretanto, anos mais tarde, tive a oportunidade de conhecer o texto de Alex Nascimento. Depois, assisti à peça do coletivo “Atores à deriva” baseada no livro “Recomendações a todos”. Por fim, li a lendária obra que originou a peça em que Alex discorre com especial sarcasmo e a dose certa de ironia a Natal de 1982, sua sociedade, seus hábitos, costumes e peculiaridades. Obviamente, encantei-me pelo texto e a sagacidade do autor.

Desde que me deparei com tal obra, com tamanha qualidade e estilo inigualável, decidi que quero escrever o mais parecido possível com o meu novo ídolo das letras. Sei que é impossível, mas, diante das circunstâncias, contento-me em ser uma imitação barata e oportunista. A partir desta formidável descoberta compreendi que o bom Giovanni Sérgio nunca quis desmerecer por oposição minhas surradas frases. Na verdade, sua intenção, como a de um tutor, era me orientar no sentido de uma das melhores leituras que a cena contemporânea de autores natalenses viu surgir.

Passado mais algum tempo, conheci também o autor. Gente finíssima, que carrega consigo um permanente e contagiante bom humor cultivado por seu inabalável espírito jovial. Do pouco que convivi com ele até agora (para minha sorte, segundo me confidenciaram alguns dos amigos da mais íntima seara), pude reunir alguns episódios da mais autêntica veracidade que tenho a honra de compartilhar com vocês:

– Existem dois grupos de mulheres em Natal: as apaixonadas por Alex Nascimento e as que não o conhecem.

– Um dia Alex Nascimento foi convidado a ser padrinho de casamento de um amigo. Pediu para fazer um discurso saudando os noivos e declarou: “Todo mundo tem direito a ser feliz. Casa porque quer.”

–  Costuma pegar no pau dos amigos, mas sem viadagem. Trata-se apenas de uma inspeção rotineira, pura conferência preventiva, para averiguar se o seu continua sendo o maior membro da cidade. Após a constatação de que continua tudo como antes e a bandeira do seu mastro segue tremulando mais alto que as outras, respira aliviado e sorri satisfeito.

– Ele esteve internado na enfermaria de um manicômio e lembra de tudo com a nitidez de um Cartier-Bresson.

– Se Alex Nascimento pudesse encontrar-se frente a frente com Freud dizer-lhe-ia umas verdades, pois o ‘pai da psicanálise’ deu ao mundo “muito cabimento e poucas condições”.

– É um homem acima da média e, como tal, incapaz de fazer média com ninguém, pois média, até mesmo em matemática, sempre lhe cheirou a “acordo de partes”.

– Trata-se de um iconoclasta atrevido, um quebrador de paradigmas incorrigível. Para ele, é uma idiotice aquela história de que um homem tem que plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho.

– Aliás, Alex sempre considerou que a melhor parte da fabricação de um filho é o contato do operário com a fábrica.

– Na enfermaria do manicômio onde esteve internado, Alex conheceu um homem que se imaginava presidente da república. Seu maior medo era ser derrubado do cargo enquanto fosse ao banheiro. Por isso, costumava se cagar e mijar todo. Conclusão do autor: “O medo de perder o poder leva o poder leva o homem às mais descabidas sujeiras”.

– As pretensões acadêmicas do genial escritor residem em entrar lentamente para a Academia de Letras para que de lá seja expulso rapidamente.

– Alex Nascimento, ainda bebê, quis saber dos filmes de Visconti, das obras de Michelângelo, do disco novo de Oscar Peterson, dos rumos políticos de sua terra, dos pensamentos de Millôr e de outras coisas que as boutiques não vendiam. Obviamente, não obteve êxito. Nasceu em Natal o pobrezinho.

– Uma madame olhou para o bebê Alex e, com afetação de analista formada na escola mundana de maledicência diagnosticou: “o menino tinha cara de chato, pretensioso, arrogante e intelectual”. O infante autor respondeu de bate e pronto: “Chato é camelo de deserto pubiano, pretensioso é economista que trabalha pro governo, arrogante é irmão de gente famosa, e intelectual é a puta que a pariu!”

– Alex Nascimento acha que Natal está cheia de ricos se fazendo de bestas e bestas se fazendo de ricos.

– É possível, e até provável, que o escritor esteja fungando no seu cangote neste exato momento em que você lê este texto.

– Se você olhar pra trás, ele vai perguntar: “Foi bom pra você, querido?”

Essa, e apenas essa, é A VERDADE SOBRE ALEX NASCIMENTO! Quem quiser que invente outra. Seguirei buscando me aprofundar (com o devido respeito) mais na obra do autor. Certamente, depois do sucesso da nova edição de “Recomendação…” haverá outros lançamentos. E o que não sair de novo, buscarei nos sebos. Recomendo que façam o mesmo. Recomendo a todos.

 

Coluna do Novo Jornal – 084 – Esporro – A cultura do underground – 31.03.2012

abril 26, 2013

Esporro – A cultura do underground

18 Capa Esporro FECHADA

Em 1998, num show de rock na Ribeira, conheci uma banda carioca de hardcore chamada Jason. Seus integrantes, Flávio Flock, Vital e Leonardo Panço viajavam pelo Brasil em longas turnês e o nordeste era uma das regiões mais frequentadas pelos músicos. As músicas do grupo, que misturavam bom humor e ferinas críticas sociais logo conquistaram a mim e um grupo de amigos próximos, convertendo-nos em fãs e levando-nos a voltar à Ribeira sempre que a banda vinha dar com os costados em Natal.

Anos depois, em 2004, por citar a banda em meu primeiro livro, “Verão Veraneio”, o guitarrista Leonardo Panço, que também é jornalista e escritor, quis me conhecer pessoalmente no recém-inaugurado Centro Cultural Dosol, na Rua Chile. Trocamos livros. Dei-lhe um exemplar do “Verão” e ele me deu o “2001: uma odisseia na Europa” com os relatos de uma turnê de 60 shows que o Jason fizera pelo velho continente. Papo vai, papo vem, a confluência de trabalhos e as correspondências trocadas nos anos seguintes nos levaram a cogitar que seu próximo livro fosse lançado pela Jovens Escribas, editora que mantenho desde 2004 com outros autores amigos.

Em 2008, Panço publicou o livro de crônicas “Caras dessa idade já não leem manuais.” Infelizmente, sem a participação da nossa editora, pois passávamos por um ano de poucos lançamentos e não tivemos capital para bancar a publicação, ainda que em parte. Quando li o livro depois de pronto, o arrependimento bateu forte. “Caras dessa idade…” é um excelente livro de crônicas, escrito por um autor fora do esquema de grandes editoras, dono de um pensamento claro e articulado, propondo reflexões e ideias sobre a vida, o cotidiano e as escolhas que fazemos. Ainda tive a oportunidade de escrever a orelha do livro e assumi o compromisso com o Panço de ajudá-lo no seu próximo livro, o “Esporro”, um relato sobre o underground carioca do início dos anos 90.

O livro saiu há alguns meses, no final de 2011, e a Jovens Escribas ajudou a pagar a edição, além de contribuir com alguns trechos da turnê de lançamentos do livro, ocorridos em 26 cidades de todo o Brasil. Afirmo com segurança que esta foi uma das publicações mais importantes dos 7 anos da nossa editora. A obra promove um registro histórico de uma época em que a cultura alternativa fervia no Rio de Janeiro, mas longe dos holofotes, criando as condições ideais para o surgimento de uma nova cena roqueira brasileira, cujos maiores expoentes, “O Rappa” e “Planet Hemp”, ganharam fama e fortuna.

“Esporro” conta a histórias de bandas como o “Gangrena Gasosa”, “Poindexter”, “Soutien Xiita”, “Piu piu e sua banda”, “Funk Fuckers”, “Zumbi do mato” e várias outras que viveram intensamente aquela primeira metade de década, lutando com todas as armas contra as intempéries da vida de artista no Brasil, ainda mais para músicos underground, deixando um enorme rosário de histórias não contadas e que precisavam de um narrador à altura que as reunisse e trouxesse ao conhecimento público.

Graças ao livro, todos podem agora conhecer a trajetória da banda “Gangrena Gasosa” formada por metaleiros que concluíram que muito melhor do que falar do Diabo em suas letras, poderiam citar nomes da cultura afro-brasileira como exu-caveira, pomba gira e diversos elementos do Candoblé, Umbanda e outras crenças. A banda tinha o hábito de roubar despachos de macumba e jogar no público durante os shows. Algumas de suas canções como “Saravá Metal”, “Welcome to terreiro” e “Se Deus é 10, Satanás é 666” já chamam a atenção a partir do título. Sátiras a fortes referências roqueiras como “Toops of Olodum” (o “Sepultura” tem a música “Troops of doom”), “Benzer até morrer” (“Beber até morrer” do “Ratos de porão”) e “Smells like a tenda espírita” (nome de um CD que fazia alusão à canção “Smells like teen spirit” do Nirvana).

A banda não obteve a projeção que muitos esperavam. B Negão e Marcelo D2 afirmam no livro que a ficha caiu de que eles estavam ficando famosos num dia em que foram citados pelo vocalista do Gangrena, Ronaldo Chorão, num show no Circo Voador. Porém, a carreira de músicos bem sucedidos não se tornou uma realidade para aquele grupo. Como se sabe, além de competência e talento, para alcançar a fama é preciso uma boa dose de sorte. E sorte é tudo o que não se deve esperar quando se rouba despachos de macumba para jogar nas pessoas.

Outro intrépido conjunto que aprontou muito naqueles primórdios de década foi “Piu Piu e sua banda” que, além de tocar um rock doidão que explorava os limites da irreverência, aliava o som a performances memoráveis em que nada era excessivo e tudo, absolutamente tudo era permitido. Os integrantes sempre se fantasiavam de forma esdrúxula. Certa vez, Piu Piu se vestiu de baiana e distribuiu “docinhos” envolvidos em papel laminado para o público. Ao abrirem o mimo, os enojados fãs perceberam que os quitutes eram, na verdade, cocô de cachorro.

Em outra oportunidade, o grupo levou um bode e um ganso para o palco. O bode fez xixi e o ganso saiu atacando as pessoas. Aliás, por falar em xixi, havia uma música em que o vocalista mijava num copo e bebia o produto de tal ação ali mesmo, na frente de todos. Também era normal que ele tirasse toda a roupa e promovesse espetáculos pirotécnicos nos quais ateava fogo numa guitarra e até no próprio corpo. Piu Piu nunca alcançou qualquer projeção que fosse muito além da zona sul do Rio, mas suas peripécias inacreditáveis estão agora registradas pelo contemporâneo de palcos, Leonardo Panço.

As muitas viagens de bandas como o “Beach Lizards” e o advento da “Família Hemp”, espécie de irmandade que abrangia “Funk Fuckers”, “O Rappa”, “Planet Hemp”, entre outras, além do início da carreira artística de Marcelo D2 em tempos de vacas muito magras também constam no livro. Entre os palcos nos quais os jovens se apresentavam, o “Canecão” e o “Circo Voador” figuram em alguns trechos, mas o grande cenário que serviu de incubadora para as bandas foi o lendário “Garage”, citado em boa parte do livro como o grande trampolim de toda aquela turma para as suas pequenas (ou grandes) conquistas. Para se ter uma ideia, D2 chegou mesmo a morar no lugar, dormindo no palco e trabalhando como vendedor de camisetas.

A publicação de “Esporro” pela editora inaugurou um ciclo feliz de publicações roqueiras. Em 2012, deveremos publicar a história do coletivo “Dosol” contada pelo produtor Ânderson Foca. As histórias contadas por Leonardo Panço mostraram o quão é importante para a memória cultural do país que tais episódios sejam escritos. Fico muito feliz em ter ajudado a tornar este livro uma realidade e espero que muitos outros tão divertidos quanto ele possam surgir. É o velho e bom Rock and Roll nos brindando com os melhores causos do show business, mesmo que nem sempre role tanto business assim.

Lançamento: Escribas em Cena – Nesta quinta-feira – 04.04.2013

abril 2, 2013

Será nesta quinta, pessoal. No Solar Bela Vista a partir das 19h.

Livros a R$ 10.

Clowns de Shakespeare +  Clotilde Tavres + Cláudia Magalhães.

Só alegria!

Cliquem na imagem abaixo para verem em tamanho decente:

Cartaz-A3

Coluna do Novo Jornal – 076 – O leitor da P&C – 04.02.2012

março 1, 2012

Gostei dessa. Espero que vocês também gostem.

***

O leitor da P&C

Todos nós somos peças de uma enorme engrenagem. A nossa função é comparecer a locais públicos, clareiras existenciais, enormes espaços abertos de consciência coletiva onde nos exibimos para sermos cuidadosamente observados pelos instrumentos de opressão e controle social. Para não ficarmos parados numa sufocante vigília do nada que poderia afastar os espíritos mais inquietos, somos orientados a nos movermos constantemente, em filas indianas, conduzindo numeroso contingente humano num fluxo e refluxo de pessoas, seguindo verdadeiras correntes marítimas de atitudes e pensamentos aprovados pelos que nos observam do alto. Dessa forma organizada a sociedade nos transforma em indivíduos úteis aos seus propósitos. A essa eterna peregrinação cíclica e vigiada de perto pelas autoridades damos o nome de rotina.

Vez por outra, nos sentimos desnoretados pela incessante repetição e buscamos fugas eventuais que se equipara à atitude sub-reptícia dos mamíferos marinhos de vir à tona para respirar. Há ainda a possibilidade de agregarmos ao dia-a-dia, refúgios particulares que servem para nos fornecer o fôlego necessário para a árdua tarefa de todo dia fazer tudo sempre igual. Tais refúgios são como recantos secretos onde reabastecemos e passamos óleo nas articulações a fim de aguentarmos o tranco da rotina, dos espaços abertos, das correntes circulares, da memetização da vida.

Para mim, um desses refúgios é a padaria perto de casa, aonde passo todos os dias para tomar um espresso capaz de conectar os circuitos de energia e, a partir de descargas elétricas nas sinapses neuronais, canalizar toda a minha força de trabalho em direção às mais diversas realizações. A ida à padaria é uma artimanha, uma pequena fuga, trapaça inofensiva, mas providencial, no percurso diário do cumprimento dos meus deveres sociais. Aproveito para anotar na agenda os compromissos do dia e, quando o tempo permite, leio algumas páginas de algum livro, mais uma concessão que me protege do rotineiro relento.

Um dia, quando eu estava percorrendo alguns parágrafos com o olhar, o homem que servia meu café perguntou: “Você gosta de ler? Eu também. Estou sempre lendo algum livro.” Curioso e intrigado com o fato de um hábito tão enobrecedor fazer parte da rotina daquele homem simples, perguntei o que ele mais gostava de ler: “Gosto de contos e crônicas. Acho massa.” Fiquei animado com a descoberta de um inesperado cúmplice,autor confesso de crime de lesa-ignorância, um transgressor que, oculto entre pães, lanches requintados e xícaras fumegantes, após suas jornadas diárias de atender e servir toda uma infinidade de clientes que acorrem à padaria, recolhe-se a seu próprio refúgio particular, encontrando nas páginas dos livros de contos ou crônicas que lê, o esconderijo perfeito, distante dos olhos curiosos do mundo que o veem com suas retinas de um grande irmão lobotomizado.

O leitor da P&C proporcionou à leitura que aderisse ao seu cotidiano, trazendo livros pra dentro de sua vida, compondo a grande miscelânea de objetos comuns presentes em nosso dia-a-dia, porque os compreendeu como um insubstituível e inestimável fonte de lazer. Ao fazê-lo, seu fascínio foi tamanho que resolveu abrir um sebo no bairro de Mãe Luíza, onde reside, na tentativa de disseminar aos demais todo um mundo que aquelas páginas têm para revelar. Apesar da sua persistência e dedicação, frutos de abnegado entusiasmo, a empreitada mostrou-se pouco promissora e o sebo precisou fechar as portas. Não dava para cultivar orquídeas em terreno desértico. No entanto, sua desistência não é definitiva. Trata-se apenas de um passo atrás estratégico, uma pausa para descanso e, no futuro, com as baterias restabelecidas, seguir em frente com seu projeto de difundir o gosto pela leitura, o prazer de apreender palavras dispostas uma após a outra com coerência e criatividade, à comunidade de Mãe Luíza.

O leitor da P&C, que se chama Jorge, é um símbolo de que podemos sonhar com uma sociedade melhor, mais culta e bem educada. Se um homem adulto de origem humilde, vida simples busca voluntariamente a virtude contida na literatura, o que dizer daqueles que forem estimulados?

Por hora, segue lendo, sempre que o papel de trabalhador dedicado permite, ele se refugia na leitura. Basta a sociedade e os instrumentos de controle e opressão baixarem a guarda, para que ele pratique o hábito que o torna tão distinto da maioria. A leitura nos concede um pouco mais de dignidade nessa existência, por vezes turva, insípida e sem graça. Fujamos, pois. Enquanto houver leitores, haverá esperança.

Coluna do Novo Jornal – 073 – Top 5 Cinema 2011 – 14.01.2012

fevereiro 27, 2012

Passei uns dias sem atualizar o blogue, pois estava viajando. Um mini-recesso aproveitando o carnaval. Porém, hoje na retomada, um dia após o Oscar, por coincidência, a postagem se refere aos 5 melhores filmes que vi em 2011 (não necessariamente produzidos em 2011, mas vistos por mim durante o ano).

Espero que gostem das dicas.

Abralhos.

***

Top 5 Cinema 2011

Em 2011, algumas gratas surpresas saltaram aos olhos deste espectador distraído e cinéfilo amador. Graças a isto, a lista de 5 melhores filmes do ano, que elaboro a cada troca de calendário, me deixou muito satisfeito, como há muito não ficava. Vamos à relação.

 

Meia noite em Paris

Woody Allen na sua melhor forma, divertindo, encantando e surpreendendo em igual medida. Vejo cada filme do cineasta nova-iorquino com grande interesse e entusiasmo renovado, mesmo porque, de “Match Point” (2005) em diante, tenho percebido um sopro de inspiração em suas histórias, como se ele estivesse sempre se atualizando, aplicando roupagens mais atuais a sua conhecida genialidade criativa. “Meia noite em Paris”, porém, superou ainda mais as sempre positivas expectativas em torno do judeu nervosinho. Ao transformar personagens icônicos da cultura mundial em interlocutores do protagonista interpretado por Owen Wilson, numa Paris boêmia e romântica dos anos 1920, o diretor joga o anzol da criatividade contida numa ótima história, fisgando direitinho o público e convertendo este nos seu filme mais bem sucedido desde dos últimos 40 anos. De quebra, o elenco está repleto de coadjuvantes de luxo, muitos ganhadores do Oscar, como Cristopher Waltz, Adrien Brodie, Marion Cotillard e Kathy Bates.

 

Senna

Uma equipe de produção inglesa resolveu fazer este documentário, contando a vida de um dos maiores ídolos do esporte mundial. O Ayrton que se revela na tela é um verdadeiro herói, não por causa das incríveis habilidades na pista, mas por suas características mais humanas. A obstinação, o carisma, personalidade forte e a simpatia, incomum ao frio e arrogante ambiente da Fórmula 1. Tudo isso mostrado sem a pieguice e patriotada que certamente marcaria uma produção nacional. O fato de a história ser contada a partir de um olhar europeu também permite a utilização de reportagens veiculadas em outros países, saindo um pouco do eixo GalvãoBueno-ReginaldoLeme, além de serem exibidas também imagens de bastidores inéditas, conferindo um tempero extra à história.

Outro ponto alto do filme é a contextualização do papel de um cidadão como Ayrton Senna no Brasil da virada dos anos 1980 para os 1990 (eras Sarney e Collor), amplificando mais ainda a idolatria de um povo em torno do homem que se fez mito, do rico que tinha todos os motivos para se envergonhar do seu país, mas preferiu trilhar o caminho mais difícil: o de não apenas de sentir orgulho, mas de irradiá-lo a todo um povo pobre e sofrido, provocando também a admiração por parte do mundo numa época muito anterior aos promissores tempos atuais.

 

X-Men – Primeira Classe

Vivemos um período de transição no mercado cinematográfico. A crise desencadeada pela democratização ao acesso de filmes ou mesmo pela pirataria, situação idêntica à que ocorreu com a falida indústria fonográfica, assola os estúdios, vitimando primeiro a capacidade inventiva dos filmes e, por consequência, a qualidade do que é levado às salas de projeção. A insegurança dos executivos e investidores tiraram o a ousadia da ordem do dia hollywodiano, levando os produtores a jogarem escancaradamente na retranca. Daí a tendência irrefreável às adaptações e refilmagens. Tudo o que fez sucesso em outra mídia (livros, quadrinhos, TV, videogames) pode virar filme, assim como todos os filmes que obtiveram êxito em tempos remotos (ou nem tanto) têm chance de serem refeitos em meio à seca imaginativa que assola os grandes estúdios.

Um dos expedientes mais utilizados é o das continuações ou filmes de origem, como o “X-men: Primeira Classe” que conta o início de uma das franquias de heróis mais bem sucedidas do cinema. Um grande acerto da produção é o respeito ao legado do que já havia sido realizado até então na grande tela para estes personagens. Ao manter a coerência com tudo o que foi contado no cinema até agora sobre os mutantes o filme ganhou pontos com os fãs e, por seguir uma tendência dos estúdios Marvel de priorizar os bons roteiros, alcançou um enorme êxito de bilheteria. O início dos X-Men, a antiguidade da amizade entre Charles Xavier e Magneto, a descoberta dos primeiros mutantes e uma trama cuidadosamente amarrada com a época em que se passa: o auge da Guerra Fria. “X-Men: Primeira Classe” foi uma das grandes surpresas do ano, lançado com desconfiança após os dois filmes anteriores na franquia ( “X-Men 3” e “X-Men Origens: Wolverine”) apenas bonzinhos. Como o filme se mostrou muito bom, o bom e velho boca-a-boca, que tem seu poder amplificado pelas redes sociais, fez o resto. O resultado foi sucesso de público e crítica e a consagração do intérprete do jovem Magneto: Michael Fassbender.

 

Capitalismo, uma história de amor

Como funciona o mercado financeiro? O que aconteceu, realmente, na crise de 2007/2008? Como agem as grandes empresas na condução dos seus negócios e, por consequência, das vidas de milhões de pessoas? Até que ponto uma grande corporação é capaz de ir para obter lucro? Todas essas perguntas serviram de ponto de partida para o norte-americano Michael Moore mostrar o lado mais insaciável do sistema capitalista.

A despeito da ironia do título, o que se vê nos relatos obtidos pelo documentarista, bem como nas histórias de vida mostradas na tela, são retratos desoladores da sociedade de consumo que construímos de forma, aparentemente, irreversível, na qual não se pensa duas vezes em destruir as vidas de pessoas, desde que se assegurem alguns décimos a mais no balanço do mês. Também está permitido lucrar com a morte de pais de família por meio de um curioso sistema de seguros de vida, ou mesmo destruir o patrimônio de milhares de cidadãos ao incentivá-los a pegar empréstimos que não vão poder pagar, com a conivência, incentivo e respaldo do Governo.

“Capitalismo, uma história de amor” promove uma reflexão acerca de um sistema predatório que pode (e deve) ser ajustado para promover o bem de um número muito maior de indivíduos, revelando ainda o tipo de atitude gananciosa, egoísta e sem escrúpulos com que o topo da pirâmide oprime sua base. Um belo filme: elucidativo e divertido ao melhor estilo Michael Moore.

 

Planeta dos macacos – A origem

Numa quarta-feira à tarde da minha infância, liguei a TV para ver o filme da sessão da tarde global. Quando os créditos iniciais anunciaram “O Planeta dos Macacos”, meus sentidos vibraram num misto de curiosidade e excitação para, em seguida,  todo um novo mundo se revelar diante de mim. A história de um grupo de astronautas que viaja para o futuro e se depara com um planeta em que os macacos dominam e os homens são seus inferiores na cadeia evolutiva encantou aquele garoto viciado em desenhos, quadrinhos e filmes legais. Depois disso, revi o filme muitas vezes ao longo dos anos, li a respeito e compreendi sua real dimensão e valor como clássico da sétima arte.

Detestei a refilmagem de Tim Burton de 2001. Por isso, e também em nome da prudência, desconfiei deste filme de origem símio. Minha resistência começou a fraquejar quando saiu o trailer. Logo, percebi que algo muito bom se anunciava. Quando conferi o filme, fiquei muito feliz com a produção, que faz justiça à original da década de 1960. A história de César e sua trajetória até se tornar líder são contadas de forma magistral.

 

5 filmes que valeram a pena ver em 2011.

5 dicas pra você.