Coluna do Novo Jornal – 042 – Dúvidas de infância /// Datas – 11.06.2011

No dia 11 de junho de 2011, escolhi temas amenos para uma coluna leve e divertida. Dois textos curtos compuseram a publicação desta data. Divirtam-se!

***

Dúvidas de infância

 

Afinal, a luz da geladeira realmente se apagava quando a gente fechava a porta? Eu desconfiava que não. Pois se toda vez que eu via o interior da geladeira, e isso só ocorria quando a porta estava aberta, a lâmpada já se encontrava acesa, como eu poderia acreditar que sempre que ela se fechava, um dispositivo automático e infalível cumpria com seu papel de interromper o fornecimento de luz para o espaço interno do refrigerador sem maiores sobressaltos ou eventuais esquecimentos? Era algo tido como verdade, mas que eu na minha desconfiança de menino, lá no bairro do Alecrim, tinha enorme resistência em aceitar.

 

Eram outros tempos, sabe? O Brasil era diferente de hoje. Naquela época tinha corrupção, inflação, más administrações, os serviços públicos essenciais não funcionavam direito. Enfim, sofríamos uma crise de credibilidade, um baixo astral moral que em nada se parece com esse país lindo de Deus que vai sediar Copa, Olimpíadas, em que tudo funciona às mil maravilhas e os problemas sumiram. Num ambiente assim, tão hostil, tão desfavorável ao que se entende por correto, como é que eu poderia crer sem questionar na lâmpada que sempre iluminava os perecíveis alimentos ali armazenados apenas quando se fazia necessário? Eu sei, eu sei. Estou sendo duro demais com a pobre e, pelo que sei hoje, eficiente lampadinha. Mas o problema era o contexto em que ela estava inserida, entendem? Eu ficava na dúvida.

 

Outra coisa que eu achava e isso deve ser debitado na conta dos devaneios infantis de garoto com imaginação um pouquinho fértil além da conta era que o arroz que eu comia nos almoços era basicamente macarrão cortado em pequenos pedaços para facilitar minha mastigação. Pensava também que o fato de os adultos também comerem arroz, apesar de não precisarem com seus dentes fortes e sistemas digestivos formados, era pura solidariedade a mim. Uma maneira de eu não me sentir deslocado ou demasiadamente frágil por experimentar sozinho aquele macarrãozinho fatiado. Algum tempo depois, me contaram que uma coisa era uma coisa e outra coisa era outra coisa e tudo mais ruiu. Foi meio que um baque, pois junto com essa notícia, veio a ideia de que eu não era o centro do universo, que as pessoas não dedicavam horas e horas cortando o macarrão em pedaços pequenos apenas para que eu pudesse ter minha tarefa de almoçar facilitada, que os adultos não comiam arroz junto comigo apenas para me agradar. Enfim, foi naquele preciso momento em que me inteirei de tudo isso que perdi a inocência de menino. Daí pra começar a frequentar o camelódromo da Coronel Estevam em busca de revistas de mulher pelada, corrompendo o caráter de aluno de escola católica e passar a escrever essas colunas subversivas neste periódico foi um pulo.

 

Agora, tem outra crença antiga que sustento até hoje. Quando eu ia ao centro da cidade, pequenininho e via a catedral, me punha a pensar maravilhado: “Que tobogã grande da piula!” Depois me contaram que ali, na verdade, era como uma igreja, só que maior. Considerei a ideia de uma igreja com tobogã no telhado um tanto arrojada demais, mas achei legal a iniciativa de uma arquitetura funcional que pudesse agradar pais religiosos e crianças brincalhonas. Nunca vi ninguém descer no tobogã da catedral, mas tenho certeza que isso ocorre, talvez à noite quando ninguém esteja olhando. Algo assim meio como a luz da geladeira, sabe? A gente não vê, mas acontece.

 

Datas

 

–  Você já escolheu meu presente?

–  Já.

–  Os dois?

–  Por que dois?

–  Meu aniversário é dia 12. Dois presentes.

–  Eu pensei em ser mais prático e dar um presente que valha por 2.

–  Nem vem que não tem. Essa conversinha de presente especial pra não cumprir com seu dever não cola comigo, meu bem. Dia dos namorados é uma coisa, aniversário é outra. Quero 2 regalos, entendeu? Porque no seu aniversário, bonitinho, eu dou um presente e no Dia dos Namorados, dou outro. É ou não é?

–  Ah, mas é diferente, gatinha. Meu aniversário é em setembro. É longe do dia 12 de junho. Se caísse perto do Natal, por exemplo, você poderia muito bem me dar só um presente. Pois existe um limite que determina se você tem direito a uma ou duas prendas, coração.

–  Mas você é mesmo um ragazzo surpreendente, viu? Nunca ouvi falar desse código de conduta para se presentear as pessoas. Pode ir cortando essa conversinha. Dois presentes e pronto. Aliás, três. Pois a gente também comemora data de namoro, né?

–  Mas como? A gente começou a namorar em fevereiro do ano passado. Eu já lhe dei o presente de aniversário. Aliás, dei sozinho, pois você nem retribuiu.

–  Ah, quer dizer que agora vai ficar me cobrando, esfregando na minha cara que não te dei isso ou aquilo? Era só o que faltava mesmo, Flávio Augusto! Você é que tem que lembrar essas coisas. Eu sou sua namorada, docinho. E por isso, trate de me agradar! A gente começou a namorar no dia 12 de fevereiro do ano passado e acho que já está na hora de comemorarmos essa data todos os meses. Então pronto: todo dia 12 de cada mês, vamos trocar presentes. Isso dá três presentes. Vá anotando.

­–  Vôtes! Três presentes? Sem problema. Flores, chocolate e uma roupa.

–  Ai, como você é engraçadinho, Flávio Augusto!

–  O que foi?

–  Desde quando flores e doces são presentes? É como um menino receber um “Resta um” de Dia das Crianças. Pode me dar coisas que valham à pena. Ouviu bem, meu bem?

–  Você não acha que está exagerando? Primeiro que o Dia dos Namorados é uma data comercial que nada tem a ver com o afeto, o amor e o carinho que sinto por você…

–  Nem continue o papinho de setor 2, viu seu socialista de internet!

–  Daqui a pouco você vai querer ganhar presente de primeiro beijo. Não acha que essa história está indo longe demais?

–  Eu quero 3 presentes e pronto! Sem enrolação. Amanhã na minha mão.

–  Eu acho que a gente deveria abrir mão dessas convenções mercantilistas e mercadológicas e ditadas pela sociedade de consumo e nos presentear com o que realmente importa: uma declaração de amor bem apaixonada, o bom, velho e infalível “eu te amo”.

–  Faz o seguinte. Pega o seu “eu te amo”, escreve num cartão e prega no presente mais caro que você me der amanhã. Com certeza, eu vou adorar.

–  Que bom, meu amor. Fico feliz em saber que você é romântica assim.

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