Coluna do Novo Jornal – 063 – A queda do gigante – 05.11.2011

O Machadão caiu. Mas quando esta crônica saiu, ele ainda estava de pé (pelo menos em parte).

***

A queda do gigante.

Todos os dias, ao subir de carro o viaduto do 4º centenário, vejo um filme, produzido em quadro a quadro, que mostra a queda de um gigante. Tal qual o personagem “Funes, o memorioso” de Jorge Luís Borges, as imagens que vislumbro a cada nova manhã de dia útil se eternizam desde a retina até o setor de arquivos imagéticos do cérebro. O “poema de concreto armado”, como eu costumava ouvir de Hélio Câmara, míngua como a lua e teima em desaparecer de nossa visão, prometendo dar lugar a uma estrutura muito maior, mais moderna e preparada para nos oferecer os espetáculos de qualidade que esta nascente metrópole com alma de província merece em sua trajetória de nova rica deslumbrada. Além, claro, de sub-sediar uma Copa do Mundo.

Não sou um saudosista inveterado, em que pese seja canceriano. No entanto, guardo com muito carinho os bons momentos vividos. E é em nome desses bons momentos que sinto uma estranha e indefinível sensação a cada pedaço que vejo faltar em minhas passagens diárias pelo Machadão. Trata-se de uma espécie de saudades do que não vou mais viver.

Minha primeira vez no estádio foi quando criança. Meu pai e irmão tentavam me converter para um dos grandes times de Natal. Eu não gostava de ir ali. Era meio rebelde e nada social. Queria ficar em casa com minhas revistas em quadrinhos e brincadeiras ensimesmadas e solitárias (Comandos em Ação, carrinhos de ferro, Playmobis, soldadinhos coloridos de plástico). Achava aquela história toda de sair de nossa casa no Alecrim para ir a um lugar distante (sim, jovens. Creiam-me: Lagoa Nova era distante.), cheio de adultos chatos e que ainda me pegavam de repente e me erguiam contra a minha vontade na hora dos gols. Era uma urgência, uma histeria, uma alegria inconsciente que eu não compreendia em absoluto. “Meu Deus, me tirem daqui! Levem-me de volta aos meus brinquedos!”, pensava comigo. Enfim, eu não estava preparado para me apaixonar pelo futebol, assim como os adolescentes não estão preparados para ler Machado de Assis aos 15. Tudo a seu tempo.

Os anos passaram e descobri-me rubro-negro. Meu padrinho, Zé Augusto, e meu irmão, Marcos Fialho, foram mais eficazes que meu pai, Zé Arruda, vascaíno. Sorte minha. Aí, um dia, voltei ao Machadão. Dessa vez, por vontade própria. Em 1993, o Flamengo Pentacampeão brasileiro vinha a Natal, jogar contra o América campeão estadual. 42 mil pessoas lotaram o estádio e viram um jogão. Um 2×2 lá e cá, com o Flamengo empatando apenas no fim. Eu tinha então, 13 anos de idade e, em vez de ficar chateado com a água que o time potiguar havia despejado no chope do Mengão, resolvi torcer por ele em âmbito local, tornando-me o que os fanáticos das torcidas organizadas locais que se agridem e matam mutuamente mais odeiam: um “misto”.

Em 1996, ano histórico, dois momentos importantes. Um título potiguar que embalou o time rumo ao vice-campeonato da série B. Eu, que estudava para o vestibular, faltei todos os aulões possíveis para acompanhar a campanha do América. O time que tinha Gito na zaga, Carioca, Moura e Biro-Biro no meio campo, contava ainda com uma trinca de centroavantes estrelados. Wanderley, “o artilheiro dos descontos”, sempre salvava no fim; Zé Ivaldo era o rei dos gols impossíveis; e o mossoroense Cícero Ramalho, quando entrava, decidia. Um gol que Zé Ivaldo fez contra o Náutico estará para sempre tatuado em nossas consciências rubras. Foi aos 36 do segundo e o goleiro pernambucano não defenderia aquela nem se pulasse dois dias antes com um cabo de vassoura na mão.

No ano seguinte, a permanência na primeira divisão também teve peso de título. Time redondinho armado por Júlio César Leal fez bonito e, contra tudo e todos, não caiu. Lembro dos gols de Gito, do jogo com o Cruzeiro em que a vitória veio de virada e com toda a torcida sacudindo suas latas de cerveja, provocando uma chuva digna de uma “São Saruê” etílica. O empate em 3×3 com o Grêmio também teve contornos épicos.

Aí veio 1998. A mesma base que jogava junta havia 2 anos, recebeu reforços como Paulinho Kobayashi e o centroavante Leonardo. O resultado foi o título do Nordeste com direito a vitórias sobre Ceará, Santa Cruz, Náutico, Vitória e um inesquecível 4×0 sobre o ABC. Lembro bem da manchete do Diário de Natal no dia seguinte: “Kobayashow!” Na mesma semana, num jogo pelo estadual que não valia nada, mais uma vitória em clássico, com direito a gol do meio de campo do camisa 10 nipônico e pé-quente.

Nos anos 2000, vieram tempos de altos (subidas da C pra B e depois pra A) e baixos (quedas da A pra B e depois pra C). Mas se o time não era sólido ou confiável, as idas ao Machadão se mantinham firmes e fortes. Programa de domingo (ou sábado à noite) junto a alguns bons amigos, como os irmãos Guanabara, Rodrigo Santos (o menino de Racine) e o Dr. Joélio de Oliveira.

Espero que esses momentos passados, importantes para minha formação como torcedor, inspirem muitos outros que virão na anunciada Arena das Dunas. Nesta segunda subirei o viaduto de novo e mais um pedaço do estádio haverá ruído, revelando um campo cheio de destroços de guerras ancestrais, desfraldando o espaço que dará lugar a um novo palco de batalhas esportivas, nesta esplêndida representação da ludopédica vida que é o bom e velho esporte bretão.

Porque se o Machadão some pouco a pouco, suas lembranças permanecerão conosco para sempre.

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