Coluna do Novo Jornal – 102– 18.08.2012 – Cansada de guerra

Em 18 de agosto de 2012, resolvi escrever e publicar no Novo Jornal uma nano-série de apenas duas colunas sobre os maus tratos sofridos por dois dos meus bairros preferidos. Eram breves retratos localizados de como nossa cidade andava pessimamente administrada por nossa então  gestora e seus incompetentes aspones. Comecei pela Ribeira, pois nesta mesma data ocorreria o evento Circuito Ribeira. Enfim, o texto tem mais de um ano, mas ainda vale a reflexão, uma vez que, mesmo a sombria era verde tendo passado, recuperar o bairro nunca foi prioridade também do atual gestor que já esteve no poder por 6 anos anteriormente. O texto ainda trata um tanto da moral baixa dos natalenses naqueles tempos, sem perspectiva, esperança nenhuma e pura resignação, sentimentos que explorei na ficção no ainda inédito conto que fechará a trilogia dos zumbis do livro “Uns Contos de Natal”.

Boa leitura!

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Cansada de guerra

circuito

É triste ver o ânimo dos meus conterrâneos nestes dias sombrios que vivemos. A autoestima natalense anda submersa na lama da desesperança, soterrada pelo lixo da incompetência, aprisionada no mais profundo buraco de desfaçatez e loucura. Nunca se viu nossa gente tão prostrada diante daqueles que, de tanto tentarem, conseguiram nos humilhar plenamente, reduzindo-nos a uma massa disforme, não-reativa, que aceita passivamente tudo o que nos impõem. Somos um agrupamento heterogêneo e inerte que, ao ser exposto às mais dolorosas e inclementes situações de submissão, decide resignar-se ante a completa falta de perspectiva. Fomos amordaçados e sofremos a extrema violência da incessante privação. Inferiorizados, abandonados, esquecidos, derrotados.

Mas sabem qual o mais incrível? Nossos algozes, sedutores e astutos que foram, nos venceram pelo charme, pelo carisma, prometendo um futuro de realizações nunca antes almejadas. Teríamos oportunidades, acesso aos maiores sonhos pueris, que fariam de nós seres humanos mais completos, numa espécie de compensação divina antecipada, após uma trajetória de terríveis agruras. Seria nossa época de bonança que, passada a tempestade, anunciaria a chegada de novos tempos, repletos de irrefreável alegria e satisfação. Eles nos venderam o sonho, mas nos entregaram uma tenebrosa realidade em seu lugar, e ainda cobram com juros, previstos nas letrinhas miúdas do contrato, pagos com a alma, os bens e, acima de tudo, a cidade. Aquela que um dia foi nossa e prometeram que seria “da gente”, agora é de usufruto exclusivo deles. O jeito foi baixar a cabeça, reconhecer a derrota e deixar que chafurdem no brejo onde jaz a capital que costumávamos chamar de nossa.

Analisando o comportamento da população, pode-se perceber a reação típica de quem foi vítima de uma ardilosa traição. Foram pegos de surpresa por alguém em quem depositavam confiança e suas últimas esperanças. Covardia sem tamanho, humanidade zero. O semblante sério, a expressão sofrida e o olhar perdido denunciam o fim da linha para essa gente. E não é difícil de entender o porquê. Basta olhar o cenário em que estão inseridos. Dois de nossos mais aprazíveis bairros se metamorfosearam em locações pós-apocalípticas de filme americano: Ribeira e Ponta Negra. Deixemos nosso cartão postal prioritário para a próxima semana. Hoje, falaremos do bairro histórico e boêmio às margens do Potengi.

A Ribeira roqueira de minha adolescência, da alternativa digna à monocultura reinante, das baladas no Bimbos, Casarão, Blackout e diversos outros, deu lugar a um depósito de entulhos abandonado pelo poder público, uma zona proibida aonde as autoridades não chegam, a lei não alcança. Já faz muito tempo que isso ocorre, é bom que se diga. Nas duas gestões municipais que antecederam a atual, o abandono já existia. O bairro nunca foi dotado de infraestrutura básica para se tornar um polo de atração de público. Os poucos empresários que insistiram na ideia, como Paulo Ubarana e companhia, sempre tiveram que lidar com falta d’água, quedas de energia e ausência de policiamento, só pra citar alguns dos problemas cotidianos encarados com determinação por eles. Os prefeitos, dos anos 1990 pra cá, não perceberam o potencial do bairro em se tornar um local valorizado e atraente, desprezando (e até sufocando) as diversas iniciativas, nunca havendo proposto nenhum projeto de incentivo ou revitalização.

Porém, o contínuo descaso agravou-se com a implacável ação do tempo. O bairro atingiu o mais baixo nível na escala de degradação. O lugar que resistia graças à atuação de poucos abnegados dá mostras de estar prestes a entregar os pontos. No último dia 28 de julho, quando da realização do show da banda carioca Jason no Centro Cultural Dosol, a escuridão, sujeira e fedentina davam bem a dimensão da realidade atual. A situação chegou a tal ponto que, até mesmo os flanelinhas habituais foram afugentados de lá, dando vez a outros mais agressivos e, digamos assim, convincentes.

Semana passada, um alento. O Circuito Ribeira voltou a ocorrer, graças à luta de pessoas como Ânderson Foca, Henrique Fontes e de uma numerosa trupe de amigos e parceiros, encadeando uma corrente de colaborações para não deixar que a área sucumba à ruína imposta pelo poder público.

O Circuito Ribeira é uma celebração feita por quem mantém de pé as esperanças de que um dia o local terá seu valor, por fim, reconhecido. É um movimento articulado pelos que trabalham o ano inteiro contra a destruição completa de um dos mais importantes bairros de nossa cidade. O evento, iniciado em 2011, havia deixado de acontecer por falta de apoio. Retornou em grande estilo. Milhares de pessoas desceram a ladeira de Marpas para confraternizar, ouvir música, encontrar-se, curtir a festa e apoiar a iniciativa dos jovens empreendedores.

Espero que o Circuito Ribeira represente um foco crescente de resistência, marco inicial de uma reação que tomará Natal de assalto, transformando o bairro ribeirinho numa poderosa trincheira, símbolo dos que teimam em não se submeter aos desígnios e caprichos dos indiferentes e cruéis comandantes executivos. Será um movimento político (não partidário) que cobrará ação e retificação dos que têm instrumentos para tal. Os de minha geração, que cresceram ouvindo rock nas ruas do bairro, não se entregarão sem luta. Não deixaremos que sapateiem serelepes nos destroços do local que um dia foi refúgio, válvula de escape de uma cidade que se fez província e da província que se fez metrópole. Estamos prontos para comprar a briga e adianto: sairemos vencedores dessa disputa. Chega de desânimo e de baixar a cabeça pra vocês. Até porque o bairro não suporta mais. A velha Ribeira anda cansada de guerra. 

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