Coluna do Novo Jornal – 103– 25.08.2012 – Como destruímos Ponta Negra

Seguindo a sequência da coluna anterior, percorro a Via Costeira, indo da Ribeira a Ponta Negra. Em pauta, a mesma velha mania de destruir a própria casa que nós, debaixo de nossa absoluta falta de civilidade, teimamos em fazer. Para ilustrar o texto, porém, escolhi uma imagem de beleza para simbolizar tudo o que ela representa para nós (e para mim que escolhi a praia para morar com minha família).

***

Como destruímos Ponta Negra

PN

Semana passada, escrevi sobre o abandono do bairro da Ribeira e a iniciativa destinada ao sucesso do Circuito Ribeira. Hoje, resolvi pegar a Via Costeira e passear pelo bairro onde moro e do qual, teimosamente, não pretendo sair.

A história recente de Ponta Negra quase não tem mocinhos. E nem mocinhas, é bom que se diga. Somos todos meio cúmplices dos tortuosos caminhos que a praia percorreu nos últimos anos. O jogo de empurra, a atitude de “João-sem-braço” e nossa habilidade em botar a culpa nos outros atua serelepe neste caso.

A deterioração veio disfarçada de prosperidade, como sói ocorrer. Tudo começou com o boom turístico e investimentos estrangeiros do final dos anos 1990 e início dos 00, a especulação imobiliária alimentada pela sanha inconsequente dos empresários do setor produziu uma cidade inflacionada, na qual os próprios nativos se viam privados de adquirir imóveis, sentindo-se muitas vezes estrangeiros em sua própria terra. Os vendedores de apartamentos não se importavam com os resultados de suas ações. Desde que o dinheiro seguisse entrando em seus bolsos, não havia porque pensar na comunidade que os rodeava, evidenciando uma sincera indiferença com a cidade e a mais completa falta de civilidade.

Foram vendidos imóveis para estrangeiros sem qualquer preocupação a respeito dos desvios de conduta dos compradores. Não houve sequer aquela natural preocupação parental de indagar aos desconhecidos: “quais as suas intenções com a nossa cidade?” Desta forma, chegaram toda a sorte de pervertidos e golpistas, como se já não os tivéssemos em bom número. Logo, Natal passou a ser a capital brasileira do Turismo Sexual e o bairro de Ponta Negra o principal ponto de encontro dessa turma vidrada no velho e bom sexo pecuniário. Nada contra a prostituição e seus adeptos, tenho até amigos que são, mas me causa extrema repulsa a prática da pedofilia. O que dizer então dos repetidos casos, ocorridos bem debaixo dos nossos narizes, de marmanjos vindos do outro lado do Atlântico para se espojarem em libidinosas férias com nossas meninas de 12 anos em situação de vulnerabilidade social. Em bom português: o que teve de gringo se jogando na safadeza com menores pobres de Natal não está no gibi!

Os empresários do setor podem tentar argumentar que não é bem assim, que este não é o papel deles, que são as autoridades que deveriam tomar providências para coibir tais práticas e mimimi ad infinitum. Pois bem, se a arte de tirar o corpo fora fosse elevada ao patamar de esporte olímpico, levaríamos o ouro em qualquer competição. A verdade é que estão todos pouco se importando para qualquer aspecto de seus negócios que não sejam os números acompanhados de uma boa quantia de zeros à direita, não havendo limites morais para atingir suas metas. O caso da Operação Impacto não poderia ser mais ilustrativo.

É claro que houve reação por parte da “sociedade civil organizada” ou algo que o valha. Os natalenses não curtiram ver seu principal cartão postal convertido em zona de prostituição franca. Fizeram o que lhes inspirava a índole dócil e acovardada. Fugiram para bem longe. Espalharam-se rumo a recantos cada vez mais afastados ao sul e ao norte da pornografia tropical e feliz da praia urbana. A Natal de “pernas abertas para receber bem”, repleta de meninas morenas e pobres acompanhadas de branquelos europeus de baixa classe não agradava os locais. Formou-se uma diminuta ilha de “civilidade” na frente do Hotel Manary, onde alguns conterrâneos VIPs se refugiaram e só. Tirando os natalenses residentes no bairro, os demais viraram as costas.

Um belo dia um dono de restaurante da outrora valorizada beira-mar resolveu levantar a voz ante a ausência do poder público em combater o turismo sexual. Foi aos jornais e denunciou com alarde e legítima indignação: “Há turismo sexual em Ponta Negra e as autoridades fingem que não ocorre nada!” O então prefeito ouviu o chamado e tomou uma providência: mandou toda a sorte de fiscais com o intuito de fechar o estabelecimento do sujeito que se atreveu a dizer a verdade. Ninguém ousou falar depois dele, pois o alcaide mostrou como se faz. Punição exemplar.

Tudo corria bem para alguns, até que, um belo dia, aconteceu o que muitos temiam. Acabou o dinheiro no além-mar. O estrago já estava feito, deixando-nos um belíssimo cenário pós-apocalíptico de terra arrasada como legado. Dessa vez, sem o velho argumento da entrada de divisas que o justificasse. A praia da zona sul, do morro bonitão e da faixa de areia mais barulhenta do Brasil ainda não voltou a ser procurada pelos antigos amantes e frequentadores. Os empresários também não querem mais saber dela porque sugaram tudo o que podiam do idílico lugar. Já as autoridades competentes (SIC), pelo que consta a situação do calçadão, decidiu que o melhor seria fazer o mesmo que aconteceu com o Machadão. “Derruba a praia. Depois a gente constrói outra com muito mais vaga de estacionamento.” Acho que deve ser essa a lógica. Aliás, olhando ao redor, deve ser esse o plano para toda a cidade. 

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