Coluna do Novo Jornal – 106– 15.09.2012 – Nostalgia, aqui me tens em protesto

Nostalgia, aqui me tens em protesto.

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Muito antes da atual geração de jovens engajados pegar em cartolinas e sair bradando pelas ruas em prol da coletividade usuária de coletivos, houve grandes ícones da contracultura natalense abraçando causas tão justas quanto as atuais, verdadeiros heróis da contestação local que protagonizaram ótimas histórias de coragem e destemor ao impor-se diante do sistema, de poderosas corporações e dos mais escusos interesses. Homens e mulheres que tinham muito pouco além de um ideal, perfis libertários e disposição para ir à luta. Naquele tempo, não havia tantos moços e moças dispostos a desfraldarem uma bandeira pelas ruas. Os que se arriscavam precisavam conviver com a sempre implacável solidão, esta cruel inibidora de revoluções.

Contarei aqui três breves episódios verídicos de uma época em que os protestos estavam restritos aos mais românticos e incorrigíveis agentes sociais. Poucos e bons que ousavam transmitir ao mundo suas mensagens de amor, compaixão, generosidade e seu clamor por liberdade. Gente desprendida e abnegada que nadava contra a inclemente correnteza de frieza e impiedosa falta de compreensão a que chamamos cotidianamente de civilização.

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O primeiro deles ocorreu em um circo que se instalara em Natal, na área onde outrora havia o Machadão e hoje é o canteiro de obras da Arena das Dunas. Aquela região da cidade, no lado exterior do estádio, sempre serviu de picadeiro para diversas modalidades do entretenimento como parques, rodeios e até mesmo um carnaval fora de época que ocorria na cidade.

O circo, além dos tradicionais números que encantam o respeitável público, como as estripulias dos palhaços, os trapezistas, malabaristas e outras atrações, também oferecia números com animais treinados. Um belo dia, alguns garotos, militantes dos direitos dos animais, foram ao local para manifestar insatisfação contra a presença dos bichos e a forma como eram mantidos em cativeiro e levados pelo país em condições tão diferentes de seus locais de origem. Os meninos estavam lá, expondo suas razões para que não houvesse mais animais selvagens sendo explorados daquela maneira, ante o visível incômodo dos funcionários da companhia que tentavam enxotá-los de lá. Chamaram, inclusive, a polícia para retirar na marra os rapazes.

Quando o policial chegou, passava por acaso pelo local, um legítimo defensor das liberdades civis, um lendário militante de notável conhecimento político que chamaremos simplesmente de “José”. Por ser mais experiente e bem articulado que a molecada, mesmo sem ter nada a ver com a organização daquele tímido movimento, tomou a frente das negociações com o PM e chamou para si o papel de porta voz dos garotos. Discursou que aquela manifestação não era contrária aos empregos de ninguém e, mesmo que fosse, nada poderia ser feito contra uma ação pacífica como aquela, uma vez que o próprio circo estava instalado em local público. O Zé foi tão eloquente em sua retórica que o policial não podia fazer outra coisa que não acolher seus argumentos. Comunicou aos empregados circenses que não poderia prender o grupo ou sequer mandá-los embora, a não ser que eles agredissem alguém ou atentassem contra a propriedade alheia.

Inconformado com a situação, um tratador de elefantes mais exaltado apontou o dedo para os que protestavam e acusou: “Seus maconheiros vagabundos!”, ao que o agora líder, José, respondeu na lata: “Ei! Vagabundo não!”

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Outro importante guerreiro pouco reconhecido em nossa cidade é um pequeno grande homem de nome Daniel. Este indivíduo multitalentoso sustenta uma firmeza de caráter que só encontra paralelo na clareza de raciocínio exibida por ele. Hoje, profissional bem sucedido na capital, em seu tempo de garotão participou de muitas articulações contrárias ao status quo reinante que massacra os mais humildes em favor de uns poucos privilegiados. Tocava em concertos de rock na defesa de causas que lhes parecessem justas. Fazia parte de uma banda chamada “Doutor Fossa” que tinha entre suas músicas o hit “Luiz Almir”. Lembro que o refrão dizia algo como “Pegue essa ambulância e soque no…” Esqueci como continuava, mas sei que era uma bela canção, verdadeira, advinda do fundo daquele coração inconformado.

Certa vez, Daniel protestava em frente ao McDonalds contra o Capitalismo, seus excessos e todas as injustiças cometidas em nome da mais valia. Esteve lá, acompanhado de alguns companheiros de luta, entre eles o bravo, já citado anteriormente, José. Após algumas horas de manifestação, palavras de ordem entoadas em coro, flagrantes demonstrações de repúdio às desigualdades oriundas do mais desumano dos sistemas econômicos, os dois amigos foram tomados por uma natural e inevitável sensação: a boa e velha fome. Por uma questão prática, resolveram não ir longe para não se afastarem por muito tempo do movimento. Preferiram entrar na lanchonete dos arcos amarelos, pedir duas promoções grandes, matar quem estava lhes matando e voltar para o protesto com ânimo renovado a base das mais saborosas iguarias do império. Depois disso, arrotar “abaixo o capitalismo” ficou bem mais fácil, até porque as duas Cocas que eles tomaram foram de 500 ml.

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Por fim, uma história de duas décadas atrás da qual participaram o combativo escritor Pablo Capistrano, recentemente uma pedra no sapato da Presidenta Dilma na questão das greves das Instituições Federais, e o filho de um brilhante jornalista, que também é repórter e que vou chamar, hipoteticamente, de Alex. Na ocasião, provavelmente 1995, eles não estavam participando exatamente de um protesto, mas de certa forma, de um movimento de resistência, pois decidiram pegar um trem até Ceará-Mirim para assistir uma das primeiras edições do, hoje clássico, Tributo a Raul. Isso, numa cidade-estado completamente dominada pela monocultura opressiva do forró-pagode-axé.

Ao desembarcarem no aprazível município do evento, vestidos de pouco usuais camisas de flanela xadrezes (eram os tempos áureos do Movimento Grunge), foram interpelados por um dos organizadores do evento: “Vocês são de Vanguarda?”. Ao que o lépido Alex respondeu de chofre: “Não, não. A gente é de Natal mesmo.”

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E assim estes 3 revolucionários, contemporâneos meus, entraram para a história de Natal. Podem perguntar por aí. É tudo a mais absoluta verdade.

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