Coluna da Digi # 65 – Pelo amor dos meus filhinhos!

Essa crônica foi publicada no dia 21 de junho de 2010. É toda baseada em um relato verdadeiro que ocorreu com um amigo meu que pediu para não ter o seu nome divulgado. Por isso, vou guardar segredo e não direi a vocês que se trata do Thiago Lajus.

Boas risadas!

***

Pelo amor dos meus filhinhos!

Será que existe um método científico para medir a virilidade? Algum procedimento feito em laboratório que indique se um cara é mais macho que outro. Ou se é macho o suficiente para os níveis de macheza exigidos pela sociedade contemporânea. A resposta é não, pois a ciência não avança na mesma velocidade que o metrossexualismo. Em todo caso e na falta de algo melhor, existe um exame que mede a fertilidade masculina. É o espermograma. E, como estou chegando aos 30 no próximo mês, resolvi me submeter para saber se meus meninos corredores estão em forma.

Procurei um laboratório bem recomendado, próximo à Afonso Pena, a nossa Oscar Freire. Liguei, marquei com antecedência e estava lá na hora marcada. Fazer o primeiro espermograma me lembrou bastante da vez em que comprei minha primeira Playboy. Aliás, não por acaso, pois o produto das duas experiências foi o mesmo. Na época, o carinha da banca perguntou: “Seu pai deixa você comprar essa revista?” Eu respondi que sim, né? E nem foi exatamente uma mentira. Eu sabia que meu pai aprovaria se soubesse que eu queria ver mulher nua. Ficaria bravo se eu quisesse comprar uma Capricho, isso sim.

Mas vamos nos concentrar no assunto da crônica: o exame. Cheguei meio acanhado no laboratório como um adolescente comprando camisinhas na farmácia. O lugar estava lotado de clientes, esperando para fazer testes com seus mais diversos fluidos e excreções corporais. Isso me deixou mais tranquilo, pois as pessoas não saberiam o que eu fora fazer lá. Eu poderia pregar um esparadrapo no braço para me passar por um destemido paciente de exame de sangue. Fezes não ia colar, não estava tão arrumado. E urina… francamente, coisa mais sem graça. Dirigi-me tão discreto quanto pude à recepção, identifiquei-me e a recepcionista gritou: “Doutor! O paciente do espermograma chegou!” Desmascarado na frente de toda aquela gente da sala de espera, rezei para me encaminharem logo pra um quartinho, quando a moça pediu: “Espera um pouco até o doutor lhe chamar, por favor”.

Depois de intermináveis 5 minutos, o médico me convocou para estar diante dele. O doutor era um senhor de uns 80 anos bem vividos, mas parecia estar mais sem graça que eu. “Você sabe o que fazer, né, meu filho?” “Er, acho que sim.” “Você vai ter que se masturbar e colocar nesse potinho aqui.” “Tudo bem. Parece ser algo que sou capaz de fazer.” Tive vontade de dizer inclusive que tenho bastante prática, que sou muito bom nisso e que já me pus a fazê-lo até debaixo d’água, tentando balancear o ph de nosso mar, mas julguei dispensável. Outra coisa que eu poderia ter mencionado era a medida do “potinho”. Era mais ou menos do tamanho de uma lata de Leite Ninho. Quando eu o segurei, pensei de imediato: “Putz! Será que eu tenho que encher todo?” Porém, tudo o que eu perguntei foi: “Pra onde devo ir, doutor?” “Vá no banheiro à direita no corredor. Quando sair, deixe o pote com a enfermeira.” E lá fui eu, como um bom técnico, botar os meninos pra correr direto pro pote.

Sabe aquelas histórias que os caras das clínicas dão umas revistas de mulher pelada ou deixam você ver uns filmes de sacanagem pra criar um clima? É mentira, gente! O banheiro é tão impessoal quanto se pode ser impessoal e a coisa mais próxima de excitante que tem lá dentro é o sabonete. Então, bota a cabeça pra funcionar, apele pras suas musas e empreenda com força na libidinagem imaginativa pra o seu negócio crescer. Era justamente o que eu estava fazendo quando ouvi uma cantoria “Seguuuuura na mão de Deeeeus! Seguuuuura na mão de Deeeeus!”. As paredes do banheiro eram finas demais e dava pra ouvir a tiaziinha da limpeza do lado de fora mandando ver na música gospel. Além de a voz dela ser bem ruinzinha, algo como uma Heloísa Helena protestando contra o Mensalão, a cantoria só me fazia lembrar das freiras do Colégio das Neves e do ambiente ascético e nada excitante da capelinha que tinha lá. Broxei.

Para encurtar um pouco a história, consegui. Depois de muito estímulo e concentração, os meninos correram e saltaram bonito dentro do potinho. Deixei o vidrinho com a enfermeira. Aliás, as enfermeiras também não tem nada a ver com tudo o que carinhosamente idealizamos delas no nosso incosciente distorcido de maníacos sexuais amadores que somos. Quando eu já saía da clínica, sereno e introspectivo, com uma sensação gostosa de missão cumprida mesmo após mais de meia hora de tentativas, a recepcionista me chamou. “Foi tudo bem lá dentro?” Fiquei pensando no que responder pra ela. Eu poderia partir pra linha mais empolgada: “MARAVILHOSO! SENSACIONAL! ESPLÊNDIDO! Foi uma explosão de emoção e de muita excitação que culminou no inigualável conteúdo do potinho de vidro!” Eu também poderia adotar uma linha alarmista: “Minha senhora! Me ajude! Foi tudo tão horrível e demorado! Deve haver algo errado comigo! FAÇA ALGUMA COISA POR MIM!” Decidi simplificar as coisas: “Foi sim. Tudo bem.” “Muito obrigado, senhor. Entraremos em contato para o senhor vir pegar o resultado.”

O resultado! É muito difícil para mim falar sobre ele assim, na lata. Chegou semana passada e, segundo me explicou o doutor, está “dentro da normalidade”. Meu esperma é homogêneo, de cor branco acinzentado e demora 20 minutos para se liquefazer. O tolerável é até 30 minutos. Meu PH é máximo. Num nível que vai de 7 a 8, meus meninos obtiveram média 8. O volume também  me deixou feliz: 4,5 numa escala aceitável que vai de 2,0 até 5,0. A viscosidade é normal e o odor é “próprio”. Esse último quesito me pôs a pensar. Existe uma profissão de cheiradores de esperma? E você aí reclamando do seu emprego! Tsc, tsc, tsc. O número de hemácias e leucócitos também está bom e a população (confesso que me emocionei um pouco quando li) é de 52 milhões de espermatozóides por milímetro cúbico. Densidade demográfica invejável. Tive ganas de dar nomes a todos eles, meus filhinhos. Mas estou sem tempo hoje e vou deixar pra depois. A contagem diferencial morfológica, que chamo carinhosamente de “que-porra-é-isso?”, também teve porcentagens seguindo os padrões exigidos pelo Inmetro ou pela OMS ou seja lá por que órgão regule os espermas em nosso país. Por fim, os dados sobre motilidade. Após uma hora, 70% dos espermatozóides que saem de casa apresentam “motilidade progressiva rápida”, 5% demonstram uma “motilidade progressiva lenta”, 5% uma “motilidade não progressiva” e 20 % ficam imóveis. Esses 20%, eu deduzo que tenham parado pra fumar um cigarrinho ou algo que os espermatozóides fazem nas horas vagas, quando não estão correndo feito uns malucos.

O fato é que a leitura deste exame não me fez nada bem. Fiquei um pouco desapontado. Sabe aquele romantismo que a gente tem pelos nossos incipientes filhotinhos? Todo aquele papo de sermos os guardiões do néctar da vida? Pois é. Nada como a frieza da linguagem médica para acabar com tudo isso. Para mim, que comecei nas crônicas escrevendo um texto chamado “galado” (e galado vem de gala, todos devem saber disso.) o resultado desse exame foi especialmente impactante.  E isso não é nem um pouco gozado. Com trocadilho, faz favor.

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3 Respostas to “Coluna da Digi # 65 – Pelo amor dos meus filhinhos!”

  1. Cris Says:

    Fialho, meu comentário nem tem nada a ver com essa crônica, mas como semana passada me vi em frente a Santa Teresinha, não pude deixar de lembrar dos zumbis. Mais especificamente, de Monsenhor Lucas zumbi, e segui passando pela Athlética e tudo mais, dando muita risada!! Sério, seus zumbis grudaram mais que merda em tamanco na minha memória,e me pego rindo só, imaginando as cenas. Queria uma continuação!! Tem tanta gente ainda pra se comer!! kkkkkkkkkkkk!!! Bjs.

  2. Gabriel Medeiros Says:

    Ótimo! Divertidíssimo.

  3. Patricia Mesquita Says:

    haha ótimo!

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