Coluna da Digi # 109 – À mesa com Marçal

Os leitores mais atentos já devem ter percebido que, nesta republicação cronológica das colunas da Diginet, tenho alternado algumas, pulado outras, enfim, bagunçando um pouco o coreto ao meu bel prazer. Por exemplo, a última que publiquei foi “O Roteirista de Stallone Cobra ( a número 106)” e agora já passo para a número 109 (“À mesa com Marçal”). Bem, o que ocorreru foi que a de número 107 foi a minha coluna de despedida, que publiquei em 05 de setembro de 2010, mas depois acabei escrevendo mais algumas até o final do ano passado. Por isso, só republicarei a coluna 107 por último, para ficar mais adequado. Já a de número 108, “Zumbis 6 – Bem-vindos a Zumbilândia”, eu já postei aqui junto das outras crônicas sobre o tema. Basta clicar aqui para ler (https://blogdofialho.wordpress.com/2011/01/24/coluna-da-digi-108-zumbis-6-%e2%80%93-bem-vindos-a-zumbilandia/). Por essas razões, republico hoje a coluna de número 109, “À mesa com Marçal”.

Boa leitura!

***

À mesa com Marçal

Marçal Aquino, Antonio Prata, Carlos Fialho e Daniel Galera.

 

Você percebe que alguém é acima da média quando percebe que ele é o ídolo dos seus próprios ídolos. Foi dessa forma que conheci a obra de Jorge Luís Borges. Sou fã dos textos do gaúcho Luís Fernando Veríssimo, do carioca Arthur Dapieve e do paulista Antonio Prata. Prata faz diversas referências a Borges em seus divertidíssimos contos; Dapieve considera o autor como o melhor escritor do Século XX; Veríssimo vai além e define Borges como o melhor escritor da história. E olhe que falamos de três autores brasileiros apaixonados por futebol, o que deve pesar um pouco em se tratando de um autor argentino elogiado tão efusivamente por eles. De tanto ler seus elogios, resolvi àquela época, conferir a obra do hermano e descobrir que ele tem todos os méritos em ser ídolo dos ídolos. Tanta imaginação a serviço da literatura fez de Borges um escritor universal, estudado, cultuado, admirado e, claro, lido no mundo inteiro. E foi justamente graças a esse movimento típico e “uma coisa puxa a outra” que me inscrevi orgulhoso no fã-clube do Borges. Mas isso já faz mais de 10 anos. Naquele tempo eu era jovem e nem pensava ainda seriamente em ser escriba.

Em tempos mais recentes, mais precisamente no mês de outubro de 2006, estive em São Paulo, junto com outros 3 colegas escritores potiguares para lançarmos nossos livros e o selo Jovens Escribas. Naquela noite fria na capital paulista, percebi que Marçal Aquino é o cara. Nossos convidados começavam a chegar ao local do lançamento, a Mercearia São Pedro.  Vários deles, escritores residentes em Sampa, lidos e admirados por alguns de nós. O primeiro foi André Laurentino, autor de “A Paixão de Amâncio Amaro”, um romance considerado como um dos melhores publicados no Brasil em 2005. Autor revelação da Festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro. Entre os presentes também estavam Daniel Galera e o já citado Antonio Prata. Mas foi Laurentino que apontou com indisfarçável admiração: “O Marçal chegou.” Eu, sem ligar o nome ao escriba, perguntei: “Quem?” “Marçal Aquino. Você não conhece? Olha ele ali. Você precisa conhecer!”

Daniel Galera, autor bem-sucedido da geração 00, adaptado para o cinema, teatro e o escambau, o homem por trás da histórica editora Livros do Mal, passou boa parte da noite conversando e absorvendo o que o grande Marçal tinha a dizer. Antonio Prata também fez o mesmo.

A noite foi passando e, em dado momento, tive eu também o privilégio de sentar à mesa com o Marçal. Numa roda de bate-papo bem aquilatada, todos só tinham olhos e ouvidos para ele e suas histórias. Eu aproveitei o momento o quanto pude. Deliciei-me com alguns ótimos “causos” da vida real vividos por ele.

“Um amigo meu transou com uma hermafrodita!”, declarou. “Tava lá, metendo nela, nele, sei lá, quando a hermafrodita começou a ter uma ereção. Não riam ainda que a história não acabou. Não é que a hermafrodita ficou excitada e gozou no meu amigo?! Olha, eu não sei vocês, mas eu não gosto de ter algo entre mim e a parceira não. Prefiro o tradicional mesmo.”, decretou.

“Um dia eu cheguei pra um amigo e disse: pô, tô a fim de dar umas porradas. Aí ele disse que tinha um clube sadomasoquista que ele freqüentava em que várias mulheres iam lá pra apanhar voluntariamente. Eu fui. Cheguei lá, peguei um chicotinho e comecei a espancar uma mulher que gemia a cada porrada. Lá pras tantas, ela disse: ‘Isso é o melhor que você consegue fazer? Pode bater com força, meu!’ Aí, eu desci a porrada e ela gozou de tanto apanhar. É estranha a sensação. Nunca mais quis bater em ninguém depois disso.”

Lá pras tantas, uma mulher muito bêbada, estilo mala-sem-alça, sentou à mesa conosco e anunciou dramática: “Uma cartomante disse que eu vou morrer.” O sábio Marçal de bate e pronto: “Eu digo a mesma coisa. Essa é a única certeza, minha filha. Não precisa ser cartomante pra saber disso.” “Mas você não está entendendo. Ela disse que eu só tenho 15 anos de vida.” “Ela disse isso? Imagina! Você não chega a isso tudo não!” A mulher saiu horrorizada da mesa. Antes de ir embora perguntou como era o nome daquele homem de afirmações tão terríveis: “Marcelino. Meu nome é Marcelino Freire.”

Marçal tem muitas outras histórias pra contar. E as melhores a gente não acha em mesas de bar, mas em DVDs ou livros. Leia o romance “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” e garanto que você vai ter que ir atrás de todo o restante. Agora, uma coisa é certa: tomar uma cerveja com ele, mesmo que por um breve (apesar de memorável) tempo, ajuda a entender de onde tira personagens tão elaborados. Em muitos casos, são os personagens que buscam o escritor.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 109 – À mesa com Marçal”

  1. Alexandre Says:

    Muito bom. Também adoro as histórias do Marçal. Grande escritor.

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